terça-feira, 16 de maio de 2017

ANJO







Barricado na minha janela, fechada, observo o mundo. O mundo é a rua que se apresenta diante mim, que a consigo ver desde o seu início, à esquerda, até o seu fim, à direita, porque é nesse sentido - vá-se a saber - que fluem as pessoas e os carros que passam na rua que me consome o tempo dos dias.

A minha rua é o mundo, é pequeno e previsível o meu mundo.

Nela não acontece nada de especial, sempre as mesmas caras, praticamente; os carros identifico os que estacionam e não me interessam particularmente. Há crianças na minha rua que jogam futebol, são irritantemente barulhentas, porque estou para velho e tudo me irrita. Corro com elas quando posso e depois fico com remorsos porque já fui criança e gostava de jogar futebol na rua.

Em frente da minha janela, mesmo do outro lado, há uma paragem de autocarro suburbano, que por ser suburbano passa muito espaçadamente, sem hora marcada, vazio de poucas pessoas, geralmente de cor, sentadas e inermes. Desistidas.

Estas imagens, que tiro desde a minha janela para a seguir não guardar nenhuma, desfazem-se  mal acabo de as ver. As vezes penso que vivo num mundo irreal, inexistente, impalpável, um sonho ininterrupto da minha cabeça. Aquela janela não existe, naquele sítio feio, que não imaginei ser o brilho , neste caso opaco, do meu futuro presente.

Mas hoje foi um dia diferente, e como não estava preparado , habituado e cómodo com a rotina, fragilizei-me e acreditei na possibilidade de fenómenos sem explicação fácil, coisas de mundos paranormais.

Neste olhar monótono diário, cruzei-me com um anjo, que esperava transporte na paragem de autocarro. Sempre acreditei na sua existência mas nunca tinha visto nenhum, sabendo que andam  por todo o lado, principalmente nos locais em que menos se espera.

 As pessoas dizem que não os veem, não os encontram, porque estão tão refolhadas nos seus aturdimentos da vida, que  olham e não veem, nem o óbvio, como estar um anjo à sua frente num balcão de supermercado.

Este anjo que eu vi e era verdadeiro, apresentava-se trivial –  fogem da fama e dos ajuntamentos. Não irradiava luminescências, nem outros fogachos artificiais. Era um ser simples, completamente banal – enfatiza-se - e estava disfarçado em cão.

A sua dona, um ser igualmente lindíssimo, afagava-o na paragem do autocarro. Afagava mas não o via, não podia. Mas esse afago dizia tudo da relação única daqueles dois seres: a mulher lindíssima e o cão que é anjo.

O cão-anjo, cumprindo a rigor os preceitos das entidades angelicais, estava simplesmente presente, cumprindo uma missão, derretendo-se com as carícias da dona. E olhava-a dizendo precisamente isso:

Amor.

Se o animal - ainda por cima querubim - falasse, diria:

-Aqui estou para te guiar e tu também aqui, comigo, para me fazeres festas, a dádiva que eu mais aprecio.

Na verdade, quando baixei a persiana e voltei à minha vida humildosa beliscando-me, é que realizei que vi hoje um anjo a sério, e fiquei especado e parvo a vê-los os dois amando-se perdidamente em plena via pública, sem que ninguém a não ser eu tivesse dado conta desse fenómeno raro, quase milagroso.

Esta imagem vou guardar. Não se pode esfumar um anjo quando ele se apresenta diante de nós, muito menos quando vestia a pele de um cão guiador dos passos de uma pessoa, neste caso um familiar, que aqueles dois seres um da ordem dos humanos, o outro da família dos deuses, pode-se e deve-se dizer que eram os dois uma família.


Ganhei este fim de dia de ensolarado. Se me aventurar mais na rua em vez de ficar à janela, é possível que venha a trocar impressões com desconhecidos e esse cão não me sai da cabeça: tinha um olhar que não é deste mundo!


Este texto ilustra a pintura realizada por Paulo Robalo durante a sua residência "Gabinete das Curiosidades", que inaugura no próximo dia 19 de Maio, na R.da Atalaia nº 31, no sítio do Bairro Alto.

Esta pintura, "o Anjo", será exibida em Portugal  pela primeira vez, nesta exposição.

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