As palavras estão vivas ou ressequidas pelo sol, como bacalhau. Não é bem assim, é um exagero, um reparo de gosto talvez duvidoso, mas se concedermos autorização a essa imagem, pode ser. As palavras vivas são as que são ditas, as que saem dos lábios, as que têm volume, um som, fazem conversa, vão e vêm, de boca em boca, atiradas para o ar, para multidões, em discursos, cantadas, de embalar. Selam juras, de sangue, de lágrimas, ficam marcadas como tatuagens eternas e não se conseguem apagar. As secas são as palavras escritas nas paredes e nos muros; dos jornais que se leem e ganham a sua inutilidade, mal lidas e não servem para mais nada; dos anúncios nas ruas, sempre a serem substituídos por novos, com outras frases; dos cartazes dos comícios e da intervenção, assinatura verbal, de comando, de submissão, são rótulos de garrafas e de lojas. As que estão encerradas nos livros, arrumadas nas prateleiras das bibliotecas e das casas das pessoa...
Se eu pudesse viver outra vez, não sei se queria viver outra vez. Antes, veria com agrado a substância que o meu corpo e a minha consciência dispuseram nesta vida, integrar a atmosfera ou a superfície de Ceres ou de Tritão. Sempre tive uma simpatia especial pela matéria rude, primitiva e, fascina-me a imensidão dos universos. Repetiria quase tudo, ou talvez nada. Não sei, logo se veria. Mas, se vivesse uma outra vez, repetiria com ligeiras alterações de pormenor, a vida que continuo entretido em viver. Com mais seriedade nalguns detalhes que descurei, com muito mais loucura na generalidade dos dias, porque vejo, convencido na experiência anterior, que só assim se deve viver a vida, dando-lhe muito pouca importância. O Amor. Ter-lhe-ia dado mais atenção precocemente. E seria melhor aluno. Chegados a esta fase, devemos estar bem, tenhamos ou não sabido alimentar o amor. Do ódio, teria aprendido, pacientemente, a criar uma barreira que me envolvesse. Protegendo os outros de mim, . ...