Há dois tipos de heróis: os de banda desenhada e os verdadeiros. Dos últimos, podemos dizer que há poucos: são muitos os inventados pelas pessoas que não conseguem viver sem um guia ou um deus que os encaminhe nos rebanhos; e os que são discretos, cumprem o papel que a existência lhes deu, e assim ser realizam e fazem-nos, ainda crer na humanidade. Somos um país pequeno e por consequência desse facto, temos muito poucos heróis que encaixem nesta última categoria. Mas temos, e a quantidade não é critério. Um dos maiores heróis que temos é Gustavo Carona Seriam poucos os adjectivos elogiosos para descrever a profundidade e complexidade deste homem simples. E o Gustavo não gostaria de ser “engraxado” publicamente por um anónimo que habita uma minúscula povoação interior no centro do país. Pelo que vamos dizer somente que Gustavo Carona devia (é) o exemplo de um herói genuíno. Pelo seu carácter, pelo seu objectivo existencial, pelo imenso Bem que faz, pelo seu humanismo, pela superação da ...
Há dois epifenômenos diários que o Senhor Darwin odeia: sair à noite (nisso sou como ele – depois até gosto) e chuva. Ele tem hábitos regrados e é apreciador de uma rotina previsível e com horas certas. Não sei se estarei totalmente de acordo com ele, mas compreendo-o e admiro o seu estoicismo. Deita-se bastante cedo, por volta das 8 da noite e quando vê que já está na cama há muito tempo sem a minha companhia, vem à sala, planta-se à minha frente, esfíngico como uma estátua de mármore, deposita um olhar sem piscares persistente na atenção do meu olhar, e não arreda disto, até que eu, vencido pelo seu carácter obstinado, me levante, desligue as luzes da sala e o acompanhe para a cama. É tão insistente que acabo por fazer-lhe a vontade, ou então, ainda termos de ir à rua, já que nunca o ensinei a usar a sanita, que compreendo ser um objecto ergonómico não pensado para os cães, pelo que temos mesmo de ir à rua. Lá vai, a custo, focinho baixo, até era capaz de assegurar que vai ...