O Senhor Darwin, sendo ele um canídeo, e eu, Luis, um humano (às vezes, incontáveis, que já me perguntei o que é ser humano!), acordámos num tracto formal quando estamos fora de portas. Ele, Darwin, eu, Luis Guilherme. Gostamos de nos dar ao respeito. Na nossa vida quotidiana doméstica, eu mimo-o com “meu menino, nino”, ele, com o olhar que só os dois sabemos que ele se está a dirigir a mim. Uma coisa magnética, digamos, quando faltam palavras para o dizer. E neste chamar de um ao outro, quase que vai metade da conversa, de entendimento, digo. Mal saímos à rua e um vesgo, ou um possuído pelos demónios do álcool, “embica” para o senhor Darwin, na necessidade etílica de estabelecer uma comunicação algaraviada com ele, olho-o e ele olha-me e digo “Darwin”, ele percebe imediatamente que deve omitir a sua necessidade constante de festas humanas. Posiciona-se nas minhas costas e espera que eu resolva a situação. Quando vê uma criança, perco toda a capacidade de argumentação e controlo...
Não se adivinha, em nenhuma geografia, a localização exacta do Jardim. Pode ser nesta terra, pode ser noutra. Pode ser ao estender o braço, pode ser numa galáxia longínqua, até mesmo um buraco negro. Pode ser da ordem do real, pode ser da ordem do imaginário simbólico. Pode-se procurar mapas do paraíso em todas as cartografias conhecidas, medievais e anteriores; pode-se procurar nas máquinas que substituíram o pensamento dos homens; pode-se analisar no que se chama espírito, alma, vestígios da existência desses mapas, e nada, não há sinais convincentes da existência do Paraíso. E, no entanto, ele existe, nem que em delírios. A ideia oficial e comumente aceite é de que é um lugar aprazível, onde tudo é puro e ingénuo. O mundo das Ideias originais. As cores são o original de todas as cores; o Jardim, a perder de vista, e todas as árvores, arbustos, plantas e insectos que o compõem são primordiais, o conceito primeiro e completo desses seres todos. Não há estações do ano, porque não...