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Mensagens

O meu mundo visto por mim próprio.

  Sento-me todos os dias em horas em que o sol ainda não decidiu se vai brilhar ou deixar-se obnubilar por névoas, com a decisão emocional de escrever a frase mais conseguida, bela e perfeita, que jamais escrevi. Todos os dias esta intenção, mas nem a última, a de ontem, que chegou perto de ter sido magnífica, acabou por perder-se ingloriamente, vida perdida, na espuma da praia, como aquele menino. Nos momentos que se seguem a essa consideração de valor íntimo qualificativo, desiludo-me. Não escrevo mais, sem muita convicção. O Darwin sai à rua para me passear, vou para a casa do Hobbit, olhar para o manjericão que ando vai para duas temporadas a tentar que medre e me faça tão feliz como escrever frases belas, balanceio-me que nem um louco numa cama da rede que tenho, e devaneio. No dia seguinte volto a acreditar firmemente que escreverei a mais bela e conseguida frase de todas as épocas  e estilos. Todos os dias tento escrever essa frase, e acabo invariavelmente a bal...
Mensagens recentes

O SOFÁ E EU

  Sofá (árabe suffa) No Oriente, estrado alto e coberto com um tapete.  Assento para duas ou mais pessoas com costas e assento estofados, e geralmente com apoio de braços.   Divagações sobre um sofá Nos cenários do impossível, tudo é possível. Existe, não existe. Foca, desfoca. Inventa-se. Cria-se. Estou sentado no velho sofá companheiro de inúmeras aventuras e descobrimentos. Juntos participamos felicidades e tristezas. Meu confidente, onde sonhei futuros, tricotei ilusões, ancorei catadupas de pensamentos, uns estéreis, outros não, tomei decisões, umas boas, outras poderiam ser melhores, foram as melhores que tomei. Estou envolto nele a deambular nestas coisas e dá-me vontade de atravessar o estreito de Magalhães. Cá vamos nós, o sofá nunca se recusa! Saio do meu conforto sem sair, vou eu e ele directamente para tempestades que metem medo, vendavais de levantar as fundações das casas e dos seres, e outras intempéries, imerso na leitura de um livro de um chilen...

Está uma árvore plantada no meu bairro.

   Quando era miúdo – de corpo fui sempre -, ganhávamos tempos incontáveis em jogos de apanhada, corríamos ao seu redor dando voltas e voltas à volta dela. Então, não nos dávamos conta dos outros residentes dessa árvore que bem podia ser, que o é, uma oliveira. Os passarinhos que nela pousavam para descansos do seu bater de asas, ou que fizeram dela a sua residência permanente, com os seus chilreios de muitas melodias simples, não conseguiam gritar mais do que nós, em interjeições, em risadas, em impropérios infantis e inconsequentes.  Quando cresci um pouco mais da minha miudeza, mas continuando ainda assim esguio, fiz juras de amor caladas e outras ditas, a troco de um beijo que me explodisse em emoções ainda não sentidas e sulquei no seu tronco robusto e enrugado, com um canivete que o meu avô me ofereceu, corações com duas iniciais. Não sei quantos, mas foram alguns. Jamais revelarei esses nomes, são o que resta de uma intimidade que aconteceu um dia.  ...

Crónica provável.A tertúlia das letras

    Quando se vai para velho, dorme-se menos. Mais tarde ou mais cedo vai ser uma eternidade e seria sensato aproveitar a vigília, mas isso é um contrassenso já que quando se vai para velho, a densidade do tempo, custa uma eternidade a rarefazer-se. É o tempo de já não haver tempo para nada, e do tempo que parece estar parado. Uma contradição. Não é.    Na companhia da solidão – o único parceiro disponível- cada um arregimenta-se como pode e inventa, junto dessa companheira que não fenece antes de nós. Acompanha-nos de braço dado até à última porta, compenetrada e presumida do seu papel de meretriz barata. Maria da Dores acordou em grande excitação. Tem 73 anos, pelo que a excitação advém de uma ânsia especial por algo que está por acontecer e ela sabe-o, presumindo, com essa idade, não ser desarranjo hormonal seu; esses órgãos também já se reformaram há muito.   Todas as primeiras quintas-feiras do mês, em fins de tarde, tem encontro agendado na ...

O menino que vivia no seu mundo

Desarmava as pessoas porque não sabiam como reagir. Aproximava-se demasiado deles, dos limites de conforto, em que cada um se protege das intempéries dos outros. Era esta sua atitude curiosa, por princípio distraída, mas provocadora, que ponha os escolhidos em desconforto numa atitude defensiva. Mas ele não era, não podia ser, de outra forma. Era a sua forma bizarra de ser. Furtivamente e sem que houvesse tempo de reação, passava os limites estabelecidos do manual da educação instituída, o que se tornava desagradável e por isso inconveniente, causando reações bruscas de afastamento e repulsa. Só apanhava os incautos ou os muito distraídos, quem o conhecia melhor – que melhor ninguém o conhecia – não lhe permitia essas aproximações, ou sim, e sabendo que era assim a sua encenação de intimidade com o mundo, aceitava o seu olhar persistente e de espanto. Vivia num mundo só seu por isso mesmo, por ser um ingénuo intrometido. A sua táctica, se se pode chamar a um princípio espontâ...

O QUE É UM HERÓI?

Há dois tipos de heróis: os de banda desenhada e os verdadeiros. Dos últimos, podemos dizer que há poucos: são muitos os inventados pelas pessoas que não conseguem viver sem um guia ou um deus que os encaminhe nos rebanhos; e os que são discretos, cumprem o papel que a existência lhes deu, e assim ser realizam e fazem-nos, ainda crer na humanidade. Somos um país pequeno e por consequência desse facto, temos muito poucos heróis que encaixem nesta última categoria. Mas temos, e a quantidade não é critério. Um dos maiores heróis que temos é Gustavo Carona Seriam poucos os adjectivos elogiosos para descrever a profundidade e complexidade deste homem simples. E o Gustavo não gostaria de ser “engraxado” publicamente por um anónimo que habita uma minúscula povoação interior no centro do país. Pelo que vamos dizer somente que Gustavo Carona devia (é) o exemplo de um herói genuíno. Pelo seu carácter, pelo seu objectivo existencial, pelo imenso Bem que faz, pelo seu humanismo, pela superação da ...

O Darwin não gosta de sair à noite

  Há dois epifenômenos diários que o Senhor Darwin odeia: sair à noite (nisso sou como ele – depois até gosto) e chuva. Ele tem hábitos regrados e é apreciador de uma rotina previsível e com horas certas. Não sei se estarei totalmente de acordo com ele, mas compreendo-o e admiro o seu estoicismo. Deita-se bastante cedo, por volta das 8 da noite e quando vê que já está na cama há muito tempo sem a minha companhia, vem à sala, planta-se à minha frente, esfíngico como uma estátua de mármore, deposita um olhar sem piscares persistente na atenção do meu olhar, e não arreda disto, até que eu, vencido pelo seu carácter obstinado, me levante, desligue as luzes da sala e o acompanhe para a cama. É tão insistente que acabo por fazer-lhe a vontade, ou então, ainda termos de ir à rua, já que nunca o ensinei a usar a sanita, que compreendo ser um objecto ergonómico não pensado para os cães, pelo que temos mesmo de ir à rua. Lá vai, a custo, focinho baixo, até era capaz de assegurar que vai ...