Quando se vai para velho, dorme-se menos. Mais tarde ou mais cedo vai ser uma eternidade e seria sensato aproveitar a vigília, mas isso é um contrassenso já que quando se vai para velho, a densidade do tempo, custa uma eternidade a rarefazer-se. É o tempo de já não haver tempo para nada, e do tempo que parece estar parado. Uma contradição. Não é. Na companhia da solidão – o único parceiro disponível- cada um arregimenta-se como pode e inventa, junto dessa companheira que não fenece antes de nós. Acompanha-nos de braço dado até à última porta, compenetrada e presumida do seu papel de meretriz barata. Maria da Dores acordou em grande excitação. Tem 73 anos, pelo que a excitação advém de uma ânsia especial por algo que está por acontecer e ela sabe-o, presumindo, com essa idade, não ser desarranjo hormonal seu; esses órgãos também já se reformaram há muito. Todas as primeiras quintas-feiras do mês, em fins de tarde, tem encontro agendado na ...
Desarmava as pessoas porque não sabiam como reagir. Aproximava-se demasiado deles, dos limites de conforto, em que cada um se protege das intempéries dos outros. Era esta sua atitude curiosa, por princípio distraída, mas provocadora, que ponha os escolhidos em desconforto numa atitude defensiva. Mas ele não era, não podia ser, de outra forma. Era a sua forma bizarra de ser. Furtivamente e sem que houvesse tempo de reação, passava os limites estabelecidos do manual da educação instituída, o que se tornava desagradável e por isso inconveniente, causando reações bruscas de afastamento e repulsa. Só apanhava os incautos ou os muito distraídos, quem o conhecia melhor – que melhor ninguém o conhecia – não lhe permitia essas aproximações, ou sim, e sabendo que era assim a sua encenação de intimidade com o mundo, aceitava o seu olhar persistente e de espanto. Vivia num mundo só seu por isso mesmo, por ser um ingénuo intrometido. A sua táctica, se se pode chamar a um princípio espontâ...