O meu cão chama-se Darwin. Se nos nossos passeios o reconhecem pelo nome de um jogador de futebol, ele amua, vira-lhes o rabo, e nunca mais, por muito que reveja essa pessoa, voltará a abanar a cauda para ele. Se o tratam com respeito pelo exemplo de ter o nome de um grande cientista, desalma-se em saltos e pinotes, lambe o mais que o deixarem e ganha um amigo para a vida. Não o vai esquecer mais. Com isto pode-se pensar que o meu cão é um elitista, um snob. Um nome como por exemplo Ronaldo, vale tanto como um José Maria. São gostos, e estes, como sabemos são da intimidade de cada um. Não. O meu cão não faz distinção de classes, tanto alça a perna ao pneu de um Fiat Uno, como ao pneu de um Mercedes último modelo. Estou mesmo a crer que tanto um como outro lhe dão alívio e prazer. Essa sua distinção de comportamentos deve ter a ver com o convívio. Explico: ou vem das conversas com outros cães, ou, o mais previsível, vem de casa. Da nossa. Confesso que em dias azarados em q...
O Senhor Darwin, sendo ele um canídeo, e eu, Luis, um humano (às vezes, incontáveis, que já me perguntei o que é ser humano!), acordámos num tracto formal quando estamos fora de portas. Ele, Darwin, eu, Luis Guilherme. Gostamos de nos dar ao respeito. Na nossa vida quotidiana doméstica, eu mimo-o com “meu menino, nino”, ele, com o olhar que só os dois sabemos que ele se está a dirigir a mim. Uma coisa magnética, digamos, quando faltam palavras para o dizer. E neste chamar de um ao outro, quase que vai metade da conversa, de entendimento, digo. Mal saímos à rua e um vesgo, ou um possuído pelos demónios do álcool, “embica” para o senhor Darwin, na necessidade etílica de estabelecer uma comunicação algaraviada com ele, olho-o e ele olha-me e digo “Darwin”, ele percebe imediatamente que deve omitir a sua necessidade constante de festas humanas. Posiciona-se nas minhas costas e espera que eu resolva a situação. Quando vê uma criança, perco toda a capacidade de argumentação e controlo...