Deixaram de contar,o tempo parou. Há dez anos. Pode ser que o tempo continue a correr dentro das condições suas e externas ao entendimento dos homens, pode mesmo ser que o tempo não exista para ser contado, pode ser que o tempo seja o senhor de todas as coisas. Pode-se dizer tudo sobre ele, nada se sabe ao certo dele. Os homens desinteressaram-se do tempo e se ele existe, foi uma grande desfeita que os homens lhe fizeram. Foi a primeira vez que o menorizaram e quase ninguém gosta de ser anão. O tempo parou no dia do medo, um medo diferente, novo, que se estendeu a tudo, tomou conta da terra e paralisou os homens. Infectou-os, uns resistiram e foram vencidos, outros ignoraram e foram igualmente derrubados. Sem contemplações, no dia do grande mal, os relógios pararam. Congelaram as contagens. Clepsidras, relógios de água, relógios mecânicos, relógios atómicos, até quânticos, interromperam todo o seu movimento de pêndulo no presente, e deixou de haver passado (que já não havia ...
Cansava-o o tempo e, ofegante, encostava-se aos muros, aguardando que eu avançasse, mas, como nunca lhe consenti intimidades, ignorava-o e passeava o olhar de miúdo deslumbrado pelos pequenos jardins das casas brancas do Restelo. Deliciava-me com as flores, os seus perfumes, e uma que outra peça de fruta, figos e nêsperas, que apanhava clandestinamente nesses jardins quando o tempo estava em suspenso, desanimado por não me prever futuros risonhos, ele que tinha de me acompanhar. Sobre as minhas incursões aos frutos proibidos, nas bem-sucedidas, não tinha de fugir para não ser apanhado em propriedade alheia. Nas que corriam mal, o prazer desse figo, dessa nêspera, doía-me nas orelhas. Era o meu bairro, era um miúdo, e as ruas familiares do Restelo, das casas brancas, eram o meu universo sem tempo, no tempo em que o tempo não contava. Dei conta dele pela primeira vez, quando o meu pai me ofereceu um relógio Cauny, prenda do bem sucedido exame da quarta-classe e entrada oficial no m...