Não se adivinha, em nenhuma geografia, a localização exacta do Jardim. Pode ser nesta terra, pode ser noutra. Pode ser ao estender o braço, pode ser numa galáxia longínqua, até mesmo um buraco negro. Pode ser da ordem do real, pode ser da ordem do imaginário simbólico. Pode-se procurar mapas do paraíso em todas as cartografias conhecidas, medievais e anteriores; pode-se procurar nas máquinas que substituíram o pensamento dos homens; pode-se analisar no que se chama espírito, alma, vestígios da existência desses mapas, e nada, não há sinais convincentes da existência do Paraíso. E, no entanto, ele existe, nem que em delírios. A ideia oficial e comumente aceite é de que é um lugar aprazível, onde tudo é puro e ingénuo. O mundo das Ideias originais. As cores são o original de todas as cores; o Jardim, a perder de vista, e todas as árvores, arbustos, plantas e insectos que o compõem são primordiais, o conceito primeiro e completo desses seres todos. Não há estações do ano, porque não...
Deixaram de contar,o tempo parou. Há dez anos. Pode ser que o tempo continue a correr dentro das condições suas e externas ao entendimento dos homens, pode mesmo ser que o tempo não exista para ser contado, pode ser que o tempo seja o senhor de todas as coisas. Pode-se dizer tudo sobre ele, nada se sabe ao certo dele. Os homens desinteressaram-se do tempo e se ele existe, foi uma grande desfeita que os homens lhe fizeram. Foi a primeira vez que o menorizaram e quase ninguém gosta de ser anão. O tempo parou no dia do medo, um medo diferente, novo, que se estendeu a tudo, tomou conta da terra e paralisou os homens. Infectou-os, uns resistiram e foram vencidos, outros ignoraram e foram igualmente derrubados. Sem contemplações, no dia do grande mal, os relógios pararam. Congelaram as contagens. Clepsidras, relógios de água, relógios mecânicos, relógios atómicos, até quânticos, interromperam todo o seu movimento de pêndulo no presente, e deixou de haver passado (que já não havia ...