Desarmava as pessoas porque não sabiam como reagir. Aproximava-se demasiado deles, dos limites de conforto, em que cada um se protege das intempéries dos outros. Era esta sua atitude curiosa, por princípio distraída, mas provocadora, que ponha os escolhidos em desconforto numa atitude defensiva. Mas ele não era, não podia ser, de outra forma. Era a sua forma bizarra de ser. Furtivamente e sem que houvesse tempo de reação, passava os limites estabelecidos do manual da educação instituída, o que se tornava desagradável e por isso inconveniente, causando reações bruscas de afastamento e repulsa. Só apanhava os incautos ou os muito distraídos, quem o conhecia melhor – que melhor ninguém o conhecia – não lhe permitia essas aproximações, ou sim, e sabendo que era assim a sua encenação de intimidade com o mundo, aceitava o seu olhar persistente e de espanto. Vivia num mundo só seu por isso mesmo, por ser um ingénuo intrometido. A sua táctica, se se pode chamar a um princípio espontâ...
Há dois tipos de heróis: os de banda desenhada e os verdadeiros. Dos últimos, podemos dizer que há poucos: são muitos os inventados pelas pessoas que não conseguem viver sem um guia ou um deus que os encaminhe nos rebanhos; e os que são discretos, cumprem o papel que a existência lhes deu, e assim ser realizam e fazem-nos, ainda crer na humanidade. Somos um país pequeno e por consequência desse facto, temos muito poucos heróis que encaixem nesta última categoria. Mas temos, e a quantidade não é critério. Um dos maiores heróis que temos é Gustavo Carona Seriam poucos os adjectivos elogiosos para descrever a profundidade e complexidade deste homem simples. E o Gustavo não gostaria de ser “engraxado” publicamente por um anónimo que habita uma minúscula povoação interior no centro do país. Pelo que vamos dizer somente que Gustavo Carona devia (é) o exemplo de um herói genuíno. Pelo seu carácter, pelo seu objectivo existencial, pelo imenso Bem que faz, pelo seu humanismo, pela superação da ...