O vagar é um ritmo. Uma pulsão interior, um movimento ínfimo, quase imperceptível, um estado de alma resguardado, não incomoda ninguém, um viver de mansinho. Sendo uma percussão interna, nasce-se assim, vivendo-o desde o primeiro sopro, o vagar. Sendo a saudade por apropriação própria exclusiva dos portugueses, fingindo-nos e enganando-nos que só tem um significado a que mais ninguém chega se não nós, o vagar é alentejano e só seu. E de qualquer parte deste pequeno país que é enorme na diversidade da cultura, a sua riqueza, ninguém a não ser um alentejano, sabe falar com propriedade sobre o vagar. Muitos dão palpites, mas ele no seu vagar sábio, deixa-se ficar quedo e mudo, gozando os perdigotos de quem não consegue ficar calado. E, nem lhes responde, deixa-se estar no seu remanso, que se está bem. Dizem os dicionários muita coisa. Que é lentidão, morosidade, demora, lerdeza, vagareza, desaceleração, delonga, lenteza, calma, calmaria, indolência, brandura, pachorra, ronceiric...
Horas perturbadoras, dias inquietantes, lapsos temporais, estonteantes vazios de frustração e pena. Terra de ninguém, travessia infértil de ideias. Fraqueza redundante. No esgotamento e desistência brota uma palavra do nada, outra que vinda se junta ao festim. No fogacho, fogo fátuo, irrompe uma ideia, depois a frase que a exprime. Apareceram quando se ansiava tanto,bem-vindas sejam! Na abstração do pensamento gera-se um novo ser, abrindo caminho numa folha de papel. Orgia de arromba! Irrompem sem tocar a campainha, trazem as figuras de estilo e mais amigos, enchem de iguarias o salão Vai ser até as tantas, grande e magnífica ressaca esta! Das palavras que se desembrulham em papelotes coloridos.