Há dois epifenômenos diários que o Senhor Darwin odeia: sair à noite (nisso sou como ele – depois até gosto) e chuva. Ele tem hábitos regrados e é apreciador de uma rotina previsível e com horas certas. Não sei se estarei totalmente de acordo com ele, mas compreendo-o e admiro o seu estoicismo. Deita-se bastante cedo, por volta das 8 da noite e quando vê que já está na cama há muito tempo sem a minha companhia, vem à sala, planta-se à minha frente, esfíngico como uma estátua de mármore, deposita um olhar sem piscares persistente na atenção do meu olhar, e não arreda disto, até que eu, vencido pelo seu carácter obstinado, me levante, desligue as luzes da sala e o acompanhe para a cama. É tão insistente que acabo por fazer-lhe a vontade, ou então, ainda termos de ir à rua, já que nunca o ensinei a usar a sanita, que compreendo ser um objecto ergonómico não pensado para os cães, pelo que temos mesmo de ir à rua. Lá vai, a custo, focinho baixo, até era capaz de assegurar que vai ...
Quando fui miúdo, fui violentado pelo Óleo de Fígado de Bacalhau. O meu Pai, que se lhe punha convencimentos transitórios na cabeça, e com uma grande rotatividade (chegava a mudar de ideia para o seu oposto no espaço das 24 horas de um dia), considerou um dia, que estavam nessas colheradas generosas em quantidade e intragáveis, a grande fórmula para o crescimento apolíneo das crianças, o que estava no seu convencimento inabalável, de que, com uma colher todos os dias íamos pelo menos crescer mais 10 cm do que ele, e mais, a produção da elaboração das nossas cabeças (minhas e do meu irmão) produziria em quantidade e qualidade, ideias fundamentais para o mundo (mesmo quando agora sabemos, que milhões de crianças que tomavam a diário esse óleo, se era verdade que o tomavam e não mentiam aos pais, regurgitando-o quando eles não estivessem a ver, essas ou pelo menos algumas muitas, produziriam com toda a certeza tantas ideias tão boas e fundamentais quanto as nossas. Um tor...