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Mensagens

Os Instantes de Borges à luz dos meus olhos

  Se eu pudesse viver outra vez, não sei se queria viver outra vez. Antes, veria com agrado a substância que o meu corpo e a minha consciência dispuseram nesta vida, integrar a atmosfera ou a superfície de Ceres ou de Tritão. Sempre tive uma simpatia especial pela matéria rude, primitiva e, fascina-me a imensidão dos universos. Repetiria quase tudo, ou talvez nada. Não sei, logo se veria. Mas, se vivesse uma outra vez, repetiria com ligeiras alterações de pormenor, a vida que continuo entretido em viver. Com mais seriedade nalguns detalhes que descurei, com muito mais loucura na generalidade dos dias, porque vejo, convencido na experiência anterior, que só assim se deve viver a vida, dando-lhe muito pouca importância. O Amor. Ter-lhe-ia dado mais atenção precocemente. E seria melhor aluno. Chegados a esta fase, devemos estar bem, tenhamos ou não sabido alimentar o amor. Do ódio, teria aprendido, pacientemente, a criar uma barreira que me envolvesse. Protegendo os outros de mim, . ...
Mensagens recentes

Porque o meu cão é Darwin e não Ronaldo

  O meu cão chama-se Darwin. Se nos nossos passeios o reconhecem pelo nome de um jogador de futebol, ele amua, vira-lhes o rabo, e nunca mais, por muito que reveja essa pessoa, voltará a abanar a cauda para ele. Se o tratam com respeito pelo exemplo de ter o nome de um grande cientista, desalma-se em saltos e pinotes, lambe o mais que o deixarem e ganha um amigo para a vida. Não o vai esquecer mais. Com isto pode-se pensar que o meu cão é um elitista, um snob. Um nome como por exemplo Ronaldo, vale tanto como um José Maria. São gostos, e estes, como sabemos são da intimidade de cada um. Não. O meu cão não faz distinção de classes, tanto alça a perna ao pneu de um Fiat Uno, como ao pneu de um Mercedes último modelo. Estou mesmo a crer que tanto um como outro lhe dão alívio e prazer. Essa sua distinção de comportamentos deve ter a ver com o convívio. Explico: ou vem das conversas com outros cães, ou, o mais previsível, vem de casa. Da nossa. Confesso que em dias azarados em q...

DA NOSSA INTIMIDADE

  O Senhor Darwin, sendo ele um canídeo, e eu, Luis, um humano (às vezes, incontáveis, que já me perguntei o que é ser humano!), acordámos num tracto formal quando estamos fora de portas. Ele, Darwin, eu, Luis Guilherme. Gostamos de nos dar ao respeito. Na nossa vida quotidiana doméstica, eu mimo-o com “meu menino, nino”, ele, com o olhar que só os dois sabemos que ele se está a dirigir a mim. Uma coisa magnética, digamos, quando faltam palavras para o dizer. E neste chamar de um ao outro, quase que vai metade da conversa, de entendimento, digo. Mal saímos à rua e um vesgo, ou um possuído pelos demónios do álcool, “embica” para o senhor Darwin, na necessidade etílica de estabelecer uma comunicação algaraviada com ele, olho-o e ele olha-me e digo “Darwin”, ele percebe imediatamente que deve omitir a sua necessidade constante de festas humanas. Posiciona-se nas minhas costas e espera que eu resolva a situação. Quando vê uma criança, perco toda a capacidade de argumentação e controlo...

O Jardim do Éden*

  Não se adivinha, em nenhuma geografia, a localização exacta do Jardim. Pode ser nesta terra, pode ser noutra. Pode ser ao estender o braço, pode ser numa galáxia longínqua, até mesmo um buraco negro. Pode ser da ordem do real, pode ser da ordem do imaginário simbólico. Pode-se procurar mapas do paraíso em todas as cartografias conhecidas, medievais e anteriores; pode-se procurar nas máquinas que substituíram o pensamento dos homens; pode-se analisar no que se chama espírito, alma, vestígios da existência desses mapas, e nada, não há sinais convincentes da existência do Paraíso. E, no entanto, ele existe, nem que em delírios. A ideia oficial e comumente aceite é de que é um lugar aprazível, onde tudo é puro e ingénuo. O mundo das Ideias originais. As cores são o original de todas as cores; o Jardim, a perder de vista, e todas as árvores, arbustos, plantas e insectos que o compõem são primordiais, o conceito primeiro e completo desses seres todos. Não há estações do ano, porque não...

SOBRE A IMPORTÂNCIA DO TEMPO

Deixaram de contar,o tempo parou. Há dez anos. Pode ser que o tempo continue a correr dentro das condições suas e externas ao entendimento dos homens, pode mesmo ser que o tempo não exista para ser contado, pode ser que o tempo seja o senhor  de todas as coisas. Pode-se dizer tudo sobre ele, nada se sabe ao certo dele. Os homens desinteressaram-se do tempo e se ele existe, foi uma grande desfeita que os homens lhe fizeram. Foi a primeira vez que o menorizaram e quase ninguém gosta de ser anão. O tempo parou no dia do medo,  um medo diferente, novo, que se estendeu a tudo, tomou conta da terra e paralisou os homens. Infectou-os, uns resistiram e foram vencidos, outros ignoraram e foram igualmente derrubados. Sem contemplações, no dia do grande mal, os relógios pararam. Congelaram as contagens. Clepsidras, relógios de água, relógios mecânicos, relógios atómicos, até quânticos, interromperam todo o seu movimento de pêndulo no presente, e deixou de haver passado (que já não havia ...

Para a História do Tempo I

  Cansava-o o tempo e, ofegante, encostava-se aos muros, aguardando que eu avançasse, mas, como nunca lhe consenti intimidades, ignorava-o e passeava o olhar de miúdo deslumbrado pelos pequenos jardins das casas brancas do Restelo. Deliciava-me com as flores, os seus perfumes, e uma que outra peça de fruta, figos e nêsperas, que apanhava clandestinamente nesses jardins quando o tempo estava em suspenso, desanimado por não me prever futuros risonhos, ele que tinha de me acompanhar. Sobre as minhas incursões aos frutos proibidos, nas bem-sucedidas, não tinha de fugir para não ser apanhado em propriedade alheia. Nas que corriam mal, o prazer desse figo, dessa nêspera, doía-me nas orelhas. Era o meu bairro, era um miúdo, e as ruas familiares do Restelo, das casas brancas, eram o meu universo sem tempo, no tempo em que o tempo não contava. Dei conta dele pela primeira vez, quando o meu pai me ofereceu um relógio Cauny, prenda do bem sucedido exame da quarta-classe e entrada oficial no m...

DO VAGAR

  O vagar é um ritmo. Uma pulsão interior, um movimento ínfimo, quase imperceptível, um estado de alma resguardado, não incomoda ninguém, um viver de mansinho. Sendo uma percussão interna, nasce-se assim, vivendo-o desde o primeiro sopro, o vagar. Sendo a saudade por apropriação própria exclusiva dos portugueses, fingindo-nos e enganando-nos que só tem um significado a que mais ninguém chega se não nós, o vagar é alentejano e só seu. E de qualquer parte deste pequeno país que é enorme na diversidade da cultura, a sua riqueza, ninguém a não ser um alentejano, sabe falar com propriedade sobre o vagar. Muitos dão palpites, mas ele no seu vagar sábio, deixa-se ficar quedo e mudo, gozando os perdigotos de quem não consegue ficar calado. E, nem lhes responde, deixa-se estar no seu remanso, que se está bem. Dizem os dicionários muita coisa. Que é lentidão, morosidade, demora, lerdeza, vagareza, desaceleração, delonga, lenteza, calma, calmaria, indolência, brandura, pachorra, ronceiric...