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SOBRE A IMPORTÂNCIA DO TEMPO

Deixaram de contar,o tempo parou. Há dez anos. Pode ser que o tempo continue a correr dentro das condições suas e externas ao entendimento dos homens, pode mesmo ser que o tempo não exista para ser contado, pode ser que o tempo seja o senhor  de todas as coisas. Pode-se dizer tudo sobre ele, nada se sabe ao certo dele. Os homens desinteressaram-se do tempo e se ele existe, foi uma grande desfeita que os homens lhe fizeram. Foi a primeira vez que o menorizaram e quase ninguém gosta de ser anão. O tempo parou no dia do medo,  um medo diferente, novo, que se estendeu a tudo, tomou conta da terra e paralisou os homens. Infectou-os, uns resistiram e foram vencidos, outros ignoraram e foram igualmente derrubados. Sem contemplações, no dia do grande mal, os relógios pararam. Congelaram as contagens. Clepsidras, relógios de água, relógios mecânicos, relógios atómicos, até quânticos, interromperam todo o seu movimento de pêndulo no presente, e deixou de haver passado (que já não havia ...
Mensagens recentes

Para a História do Tempo I

  Cansava-o o tempo e, ofegante, encostava-se aos muros, aguardando que eu avançasse, mas, como nunca lhe consenti intimidades, ignorava-o e passeava o olhar de miúdo deslumbrado pelos pequenos jardins das casas brancas do Restelo. Deliciava-me com as flores, os seus perfumes, e uma que outra peça de fruta, figos e nêsperas, que apanhava clandestinamente nesses jardins quando o tempo estava em suspenso, desanimado por não me prever futuros risonhos, ele que tinha de me acompanhar. Sobre as minhas incursões aos frutos proibidos, nas bem-sucedidas, não tinha de fugir para não ser apanhado em propriedade alheia. Nas que corriam mal, o prazer desse figo, dessa nêspera, doía-me nas orelhas. Era o meu bairro, era um miúdo, e as ruas familiares do Restelo, das casas brancas, eram o meu universo sem tempo, no tempo em que o tempo não contava. Dei conta dele pela primeira vez, quando o meu pai me ofereceu um relógio Cauny, prenda do bem sucedido exame da quarta-classe e entrada oficial no m...

DO VAGAR

  O vagar é um ritmo. Uma pulsão interior, um movimento ínfimo, quase imperceptível, um estado de alma resguardado, não incomoda ninguém, um viver de mansinho. Sendo uma percussão interna, nasce-se assim, vivendo-o desde o primeiro sopro, o vagar. Sendo a saudade por apropriação própria exclusiva dos portugueses, fingindo-nos e enganando-nos que só tem um significado a que mais ninguém chega se não nós, o vagar é alentejano e só seu. E de qualquer parte deste pequeno país que é enorme na diversidade da cultura, a sua riqueza, ninguém a não ser um alentejano, sabe falar com propriedade sobre o vagar. Muitos dão palpites, mas ele no seu vagar sábio, deixa-se ficar quedo e mudo, gozando os perdigotos de quem não consegue ficar calado. E, nem lhes responde, deixa-se estar no seu remanso, que se está bem. Dizem os dicionários muita coisa. Que é lentidão, morosidade, demora, lerdeza, vagareza, desaceleração, delonga, lenteza, calma, calmaria, indolência, brandura, pachorra, ronceiric...

chuva das palavras

  Horas perturbadoras, dias inquietantes, lapsos temporais, estonteantes vazios de frustração e pena. Terra de ninguém, travessia infértil de ideias. Fraqueza redundante. No esgotamento e desistência brota uma palavra do nada,  outra que vinda se junta ao festim. No fogacho, fogo fátuo, irrompe uma ideia, depois a frase que a exprime. Apareceram quando se ansiava tanto,bem-vindas sejam! Na abstração do pensamento gera-se um novo ser, abrindo caminho numa folha de papel. Orgia de arromba!  Irrompem sem tocar a campainha, trazem as figuras de estilo e mais amigos, enchem de iguarias o salão Vai ser até as tantas, grande e magnífica ressaca esta! Das palavras que se desembrulham em papelotes coloridos.

O meu mundo visto por mim próprio.

  Sento-me todos os dias em horas em que o sol ainda não decidiu se vai brilhar ou deixar-se obnubilar por névoas, com a decisão emocional de escrever a frase mais conseguida, bela e perfeita, que jamais escrevi. Todos os dias esta intenção, mas nem a última, a de ontem, que chegou perto de ter sido magnífica, acabou por perder-se ingloriamente, vida perdida, na espuma da praia, como aquele menino. Nos momentos que se seguem a essa consideração de valor íntimo qualificativo, desiludo-me. Não escrevo mais, sem muita convicção. O Darwin sai à rua para me passear, vou para a casa do Hobbit, olhar para o manjericão que ando vai para duas temporadas a tentar que medre e me faça tão feliz como escrever frases belas, balanceio-me que nem um louco numa cama da rede que tenho, e devaneio. No dia seguinte volto a acreditar firmemente que escreverei a mais bela e conseguida frase de todas as épocas  e estilos. Todos os dias tento escrever essa frase, e acabo invariavelmente a bal...

O SOFÁ E EU

  Sofá (árabe suffa) No Oriente, estrado alto e coberto com um tapete.  Assento para duas ou mais pessoas com costas e assento estofados, e geralmente com apoio de braços.   Divagações sobre um sofá Nos cenários do impossível, tudo é possível. Existe, não existe. Foca, desfoca. Inventa-se. Cria-se. Estou sentado no velho sofá companheiro de inúmeras aventuras e descobrimentos. Juntos participamos felicidades e tristezas. Meu confidente, onde sonhei futuros, tricotei ilusões, ancorei catadupas de pensamentos, uns estéreis, outros não, tomei decisões, umas boas, outras poderiam ser melhores, foram as melhores que tomei. Estou envolto nele a deambular nestas coisas e dá-me vontade de atravessar o estreito de Magalhães. Cá vamos nós, o sofá nunca se recusa! Saio do meu conforto sem sair, vou eu e ele directamente para tempestades que metem medo, vendavais de levantar as fundações das casas e dos seres, e outras intempéries, imerso na leitura de um livro de um chilen...

Está uma árvore plantada no meu bairro.

   Quando era miúdo – de corpo fui sempre -, ganhávamos tempos incontáveis em jogos de apanhada, corríamos ao seu redor dando voltas e voltas à volta dela. Então, não nos dávamos conta dos outros residentes dessa árvore que bem podia ser, que o é, uma oliveira. Os passarinhos que nela pousavam para descansos do seu bater de asas, ou que fizeram dela a sua residência permanente, com os seus chilreios de muitas melodias simples, não conseguiam gritar mais do que nós, em interjeições, em risadas, em impropérios infantis e inconsequentes.  Quando cresci um pouco mais da minha miudeza, mas continuando ainda assim esguio, fiz juras de amor caladas e outras ditas, a troco de um beijo que me explodisse em emoções ainda não sentidas e sulquei no seu tronco robusto e enrugado, com um canivete que o meu avô me ofereceu, corações com duas iniciais. Não sei quantos, mas foram alguns. Jamais revelarei esses nomes, são o que resta de uma intimidade que aconteceu um dia.  ...