sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O HOMEM QUE VIVEU O MAR - MAIS FAMÍLIA







Para se perceber melhor

Florinda casou com Jacques e a dois, a vida foi-lhes um pouco melhor. Ela amansou dos nervos, os comprimidos a partir de uma certa idade ajudam, deixou o trabalho do armazém, tornou-se doméstica a tempo completo.

A polícia de Estado acabou por se desinteressar do seu caso. Não detectaram mais ligações subversivas do que as ligações de afecto com a sua família, mãe e irmãs, e as relações de circunstância com os personagens mínimos exigidos no quotidiano de qualquer um: vizinhos, o senhor da mercearia, o homem do talho, a peixeira, o taberneiro, o do carvão, e pouco mais. E se as relações de família também podem ser subversivas, são de uma outra ordem, não interessam ao Estado. Havendo tantos e tantos para espiar, desistiram da Florinda.

O Jacques que tinha muita conversa, apesar não falar francês, saiu da distribuição das botijas de gás, deixou a sua moradia “senhorial”, no bairro do chinês, alugou uma casinha humilde, mas de alvenaria e telhas verdadeiras, e fez-se vendedor de produtos de higiene e perfumaria. Produtos Ach Brito. Também tentava vender perfumes à família, sem grande sucesso. Tinha que os oferecer no aniversário de algum parente.

Tirou a carta de condução, comprou um carocha em segunda mão e nos três ou quatro anos em que foi o seu proprietário, a única condução que praticou, foi avançar ou recuar o posicionamento da viatura estacionada., todos os dias, um ou dois metros, para a frente, para trás. Para dar uso ao motor e às rodas. Acabou por o vender e continuou, como sempre fez, a utilizar o eléctrico e o autocarro. Muito melhor, tinha motorista privado, ao número de passageiros que cabia no meio de transporte em causa, e ainda podia ver as vistas e pensar nas coisas da vida. Contas e esse tipo de tralha que faz parte da obrigação dos adultos  responsáveis.

Foram os dois – ele e a sua metade - meia dúzia de vezes à praia, ele molhou os pés, não mais, tinha medo da água (diz-se que até da água do banho tinha medo). Florinda nunca saiu debaixo do toldo de sol. Era uma mulher afogueada com problemas causados por uma válvula das do coração.

Com o calor e a proximidade da água salgada e a sua evaporação, o olho de vidro embaciava-se constantemente e ela via ainda pior, quase nada, e preocupava-se cada rara vez que o marido ia a banhos, de pés. Podia-lhe acontecer algum percalço, e ela não o vendo, não o podia ajudar, como se pudesse. Dito isto, não gostava da praia.

Nos domingos de verão, faziam grandes piqueniques familiares na mata dos Montes Claros. Sempre no mesmo sítio. Em frente ao poste da paragem de autocarro.

Passavam os natais em família, três dias, mais de vinte pessoas, os homens dormiam num quarto, as mulheres noutro. Cada um levava o que podia, eles, licoroso e broas de mel. Distribuíam pequenas lembranças, nos sapatinhos, colocados na chaminé da cozinha por ordem de idades: os mais velhos à frente, as crianças atrás. Era mais pelas crianças, a excitação das crianças, o natal é uma efeméride linda.

Depois disso tudo morreram, como todos os que foram antes e os que vão a seguir, resumindo-se a sua história a esses episódios e a umas quantas discussões pelo meio.



O Arménio (é cada nome que lhes punham)

 era o cunhado da parte da Maria, uma das irmãs da Cústodia e da Florinda.  Foi um miúdo revoltado.

O Arménio é filho de António, encarregado na fábrica de massas, quase ao lado do armazém dos vinhos. Joga futebol e gosta da farra: patuscadas com amigos, idas aos toiros, feiras, passeios em excursão.

É um mulherengo, não usa a cabeça fisiologicamente mais adaptada ao acto de pensar. Sorte a sua não existirem por esses sítios transvestidos – só nas grandes festas das vivendas da Linha, onde meninos bem se suicidam em orgias de álcool e droga e sexos misturados. Acontecimentos abafados.

Saiu de casa para ir à taberna encher uma garrafa de vinho, e voltou cinco anos de depois. E foi preciso que o filho mais velho o fosse buscar. Regressou como se estivesse a regressar da taberna onde foi há cinco anos buscar vinho, pendurou o casaco no cabide, sentou-se na mesa da cozinha e perguntou à mulher o que era o almoço.

Ela para não o perder de novo, serviu o prato, serviu-o ainda de mais subserviências, sentou-se calada e assim ficou nos quarenta anos seguintes, até que ele, vindo a falecer vítima de uma paragem digestiva após uma patuscada com os amigos, a libertou do silêncio.

A partir daí foi uma carga de trabalhos, o raio da mulher pondo as contas em dia com o tempo perdido, com tanta palavra acumulada no palato e nas cavidades orais, e tudo quanto era sítio nas entranhas, desatou a falar que nunca mais se calou, até as deitar todas cá para fora quando exalou o seu suspiro final.

Morreu, igualmente como a Florinda e o Jacques e os outros nomes todos.

Voltando atrás
Arménio tem um irmão mais novo, um ano de diferença, andam na escola primária para os filhos dos funcionários da fábrica onde o pai finge que trabalha. Brincam os dois no pátio da escola.  Arménio descalço, o irmão calçado. O mais velho ficou com a mãe o outro com o pai. A diferença, de um pé nu a um pé calçado fez do Arménio um revoltado. O irmão que vivia com o pai tinha tudo, até brinquedos. Arménio que ficou com a mãe por ser um rapaz de princípios, ficou no lado da fome.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O HOMEM QUE VIVEU O MAR - RELAÇÕES DE FAMÍLIA




A herança familiar

O que importa trazer para aqui os instantâneos de outras vidas, para fazerem mais cristalino o vislumbre da vida de Tertuliano, o homem que viveu o mar?
Valem muito. Todas as biografias são enriquecidas pelas marcas dos outros. Uma vida conta-se pelo seu álbum de fotografias e neste não só se colam os auto-retratos, como também fotografias com mais rostos, Ora sorrindo, ora sérios, em pose ou descontraídos, paisagens também, e casas mais ou menos significantes e grandiosas. Uma vida também se conta por um ou outro acontecimento passado para a memória dos que ficam a aguardar a sua ordem de viagem.

Mas o que foi o íntimo de cada um, a essência individual, nunca se conhece verdadeiramente. São os monólogos interiores, à porta fechada.; as perguntas e respostas feitas e dadas pelo próprio; os pensamentos fundamentais ou irrisórios. Isso não se vem a saber. Isso é o que é a pessoa. O que sobra são rotinas, encenações e conveniências.

Como afinal os outros contam, conta apresentar Florinda que faz parte da história de Tertuliano e é irmã de Custódia. Ela tinha um olho de vidro mas nem por isso deixa, com o outro, de ver pelos dois.

Uma revolucionária. sem saber da existência desse conceito. O perfil completo de uma revolucionária:  lutadora voluntária, não remunerada, de causas justas sem solução. Ao sentir o mínimo alerta no seu código pessoal de justiça, não deixa por dizer, com ou sem conveniência, no sítio certo ou errado. Para ela não existem essas dicotomias. Injustiça é injustiça, e custe como custar é para ser denunciada. E, se necessário for, pega-se no que vem à mão e é arma de arremesso. Vá-se a saber porquê, Florinda tem bastante jeito para acertar nos alvos dos seus arremessos.

A raiva da feiura que medra nos jardins das injustiças da vida, por vezes agiganta as pessoas, noutras amesquinha. Não foi o caso dela, que tendo um coração mole - o melhor para si é o melhor dos outros, e mesmo rezingona deixou saudade. Nalgum livro de memórias, uma analfabeta, escreveu um capítulo cheio de poesia bem rimada nas métricas certas.

Florinda é aprendiza nos armazéns do vinho, secção de rolharia e sorte teve em arranjar emprego. Há geografias no mundo, onde os tempos são sempre maus. Quase tudo para um punhado, quase nada para os que sobram, quase todos. Esta geografia padece cronicamente desta doença, a doença do egoísmo dos homens.

 Na monótona cadência dos movimentos repetidos, ela e as companheiras, finalizam e calibram rolhas de cortiça.

Muito se deve à rolha e tão pouco se liga. Deveria ser um dos símbolos nacionais, porque a árvore que a produz, vive com pouco alimento e não se queixa, tal e qual o povo que busca a sua sombra nos dias de calor.

A mulher que faz rolhas ganha mal e tem um trabalho monótono, arrasta-se a nunca mais chegar ao fim, para levar tostões para casa.

No seu local de trabalho, as mulheres (é quase tudo mulheres) para irem à casa banho, têm de pedir autorização e o tempo da sua necessidade, é controlado e descontado na paga da jorna. Vá-se lá saber quanto tempo leva a necessidade a ser feita.

Esta estatística só será apurada para efeitos de lucros empresariais quarenta anos depois, com as máquinas de código binário: zero-um, um-zero, que entre outras coisas de utilidade, vieram ajudar os gestores a medir os compassos inúteis de cagar, na produtividade final das empresas.

Ao meio dia as operárias fazem um pequeno intervalo de meia hora, o tempo é escasso e o almoço toma-se sem que saiam do seu posto. Pousam as ferramentas, desligam as máquinas, desfazem os nós do pano que embrulha o farnel, com a marmita ainda quente, improvisando mesa posta na bancada de trabalho. Pão e restos de qualquer coisa, enganos dos sabores. As mais afortunadas, comem uma malga de sopa, ou sobras do dia de ontem. O que não falta é vinho, oferta da casa, cumprindo a máxima de que não faltando este e mais o pão, o povo não passa fome e não fica sem razão.

Antes de pegar ao serviço, as mulheres descontraem falando sobre os seus assuntos e sobre os homens; os homens falam das mulheres, estas continuam a falar dos homens; eles aborrecem-se – seres saltitantes - mudam para o futebol e vão invariavelmente acabar em porcarias.

As operárias mais velhas, judiciosas, vividas, muitas com sofrimentos, aconselham e ensinam as mais jovens. Relembram falando em voz alta e quem sabe falando só para si mesmas, velhas amalucadas, prejuízos da idade, relembram aventuras suas, já tão distantes, quase apagadas.

As mais miúdas trocam com pudores confidências, muitas sonham acordadas, muitos desses sonhos são utopias do amor, irrealizáveis, mas de um grande romantismo. Porque é assim, as mulheres têm essa capacidade única, invejável, de mesmo tendo os pés fincados no chão, sonharem romantismos exaltantes, coisa que não é dos homens.

O que é para ambos é a juventude, o melhor fogacho efémero da vida.
Os machos, de patilha farta, bigodaça farfalhuda gabam-se entre si. De tudo se gabam, é da sua natureza, e das hormonas.

Os capatazes, tão analfabetos como os aprendizes, controlam ou deviam, o ritmo do trabalho, acabando com as conversas, as distrações, impedindo as idas frequentes à casa de banho.

O espaço do armazém organiza-se em corredores com as trabalhadoras sentadas de um lado e de outro das bancadas que correm a todo o comprimento da nave. Nos caminhos do para trás e para a frente, os capatazes-controladores , o que mais gostam mesmo de fazer, uns a fingirem equívoco temporário, outros mais assertivos, é de se encostar (certas partes, que já se entendeu) nas costas das trabalhadoras. Chegam a meter as manápulas onde não são chamadas. São os pequenos poderes, abusos, assédio que tem de ser consentido. São as regras e as leis dos tempos.: o homem faz e dita, a mulher submete-se.

Mas umas deixam, e as que se deixam ir mais longe, julgam que vão ter compensações no trabalho. Enganam-se, assinam sem saberem assinar, a liberdade pouca que já tinham de pelo menos dizerem convencidamente não. Algumas pagam o dízimo numa esquina ou num vão de escada escuro, sujo, à saída da fábrica. Sexo apressado, sem jeito, sem prazer. Sexo animal, besta.

 Quem não deixa a mão arreganhar por aí acima (ou abaixo), por ser feia ou arisca ou por não haver mão que a queira ou porque se reserve o direito de escolher quem a arreganhe, trabalha mais horas, sem receber mais. Se protesta, mais tarde ou mais cedo o capataz acaba por convencer a gerência a correr com ela, que não se querem revolucionários para contaminar a harmonia do sistema fabril

A Florinda, antiga zarolha,
Não se pode dizer que seja feia. É desinteressada no arranjo da cara e pingona no vestir, o que não ajuda a que se olhe para ela., mas como todas as irmãs e já se viu isso na Custódia, quando sorri,  pacifica  o desenho menos nobre do seu rosto, cativa quem recebe o seu sorriso. Antes de ter o olho de vidro não levantava a cabeça da calçada portuguesa. Com o novo morador, devidamente encaixado, começou a arregalá-los para tudo o que mexe, atrasada de recuperar visões perdidas. Nos primeiros dias, quem a conhecia, chegou a comentar que a rapariga devia andar possuída, um olhar arregalado, muito aberto, vítreo, mas era do olho novo e elas habituaram-se.

Esse facto, essa novidade, foi o mote. Olhando-os a eles, também eles, no armazém deram conta da sua existência e dai até ser assediada, foi um fósforo.
No dia em apreço uma mão peluda e fedendo experimentou, mas não chegou ao destino final.

A meio caminho, o usufrutuário da mesma, já se assoa sangues, o que pode ser de alguma maleita pulmonar, mas o mais correcto é afirmar ser o efeito de uma valente morraça, com estilo, potência e encaixe, certeiramente dirigida em tempo útil ao mandante da excrescência com dedos.

O homem ficou momentaneamente sem saber como se chamava e por muito que se tente, não há melhor imagem que a dos passarinhos a piarem à volta da cabeça, para ilustrar o seu estado transitório de consciência alterada.
 As colegas que presenciaram a ocorrência riam descontroladas, animando a Florinda e troçando do imbecil E foi nesse momento que se deu o fenómeno da propagação em cadeia: cochichando umas com as outras, as que tinham assistido a contar como foi, o riso a espalhar-se,  ecoar no armazém, a ser captado pelas que estavam mais longe, percebendo que alguma coisa de importante estava a acontecer, a porem-se de pé, a ver se viam.
Um grande gozo tomou conta da fábrica.

Os machos por solidariedade atávica, desataram a distribuir estaladas a torto e a direito, ofendidos com a ofensa ao companheiro, feridos de honra.

Começa o filme.

O protesto foi colectivo. Novas, um bocadinho menos, feias, boas, magras e gordas, todas se revoltaram em crescendo, respondendo às chapadas com o que tinham à mão.

Esgotadas de repressão que não dá folgas. Saltou a tampa da hipotética panela. E os ogres seja onde for, não têm a clarividência do entendimento das coisas.

Na grande nave dá-se início a uma batalha campal: mulheres contra homens, batalha de sexos. E a festa não está com aspecto que esteja para terminar, muito pelo contrário, neste momento o conflito generaliza-se. Dançam objectos pelos ares. Um tonel atingido por um míssil metálico, verte o precioso líquido num fio a imitir uma catarata, neste caso de cor vermelho escuro. Há quem se ponha de joelhos, cabeça para trás e boca bem aberta para recolher o néctar, outros, como se fosse água, põem a cabeça por baixo, para refrescar ideias e tranquilizar os neurónios depois de uma marretada bem assente. Escorrega-se. Cai-se, executam-se gestos de estilos de natação, numa piscina a fingir. E luta-se, muito e bem, ganham as mulheres. Os homens já não têm os bigodes revirados. Descaíram.

A situação está fora de controlo. Alguém se dirige à gerência, noutro edifício. Ouvida a parte ofegante, a gerência atónita, mas sem desarmar perante a ralé que implora ajuda, dá ordens à menina do PBX , esperando que não se engane (não é de fiar) a colocar o pino na entrada certa. Uma chamada urgente para os senhores da segurança do Estado.

 Pede-se apoio rápido para debelar a rebelião. A menina do PBX dos senhores da segurança do Estado, funcionário público com trinta anos de carreira, conecta o gabinete certo. Reúne-se o piquete de emergência da segurança nacional. O Inspector de serviço ( pode ser Joaquim) dá ordem à Guarda para actuar utilizando os meios necessários e adequados à proporcionalidade do conflito. A cavalaria que se ponha a caminho, que está mais perto do local. Os inspectores ainda têm que ajeitar as gravatas negras e dar um toque no cabelo, vão com o seu vagar, os inssurrectos, talvez comunistas, não hão de fugir.

Novamente a partir do PBX (esta funcionária é mesmo lesta de mãos e sabe de cor os orifícios todos da central da Direcção Geral de Segurança) põe o oficial de dia no quartel de Braço de Prata ao corrente da situação. O Corneteiro de serviço – não sem antes ajeitar a gravata e ver se as botas têm lustro - dá ordem de toque a reunir na parada, e como tem a mania que é artista floreia os sons do toque. Até entenderem que era o toque a reunir, ainda levaram uns bons dez minutos. Os soldados que já tinha almoçado e que destilam nas camaratas, aparelham os cavalos e perfilam, meio trôpegos.

Comandados pelo tenente José da Silva, sai um pelotão, a galope, dada a urgência em apagar o fogacho de uma rebelião eminente.

 Desembestados que vão mal conseguem travar a tempo e nem se dão ao trabalho de estacionarem primeiro à porta e mandarem o cabo Malaquias ver se a rebelião já tinha acabado ou se era assunto para durar. Não senhor, aproveitando o balanço do galope, que do quartel ao armazém é sempre a descer, uma carga montada da GNR, em estilo triunfante – não é todos os dias que se faz uma carga, aproveita-se a oportunidade - desemboca, qual investida aos castelhanos, de cacetes em punho e levando tudo o que apanha pela frente. Garbos cavaleiros anafados, de capacete reluzente com uma ponteira de unicórnio nos cocurutos; homens com penicos enfiados na cabeça; figuras da autoridade do regime.

O cenário descreve-se assim: rolhas espalhadas pelo chão, garrafas partidas, mulheres de pernas para o ar a verem-se partes a descoberto, outras agarradas às cabeças tingidas não se sabe se da fuga do tonel se de uma contusão, algumas escondidas ,de baixo das mesas, e uma, a Joana D’Arc de Xabregas, de pé, serena e gigante na sua pequenez, a distribuir murros aos cavalos e a puxar pelos fundilhos dos calções dos agentes balofos, mais incomodados pela interrupção do descanso, a ver se eles caiem. Derrubou contados três, e pôs o nariz a pingar, de constipado, a outros tantos.

A rebelião não foi fácil de conter, vieram reforços. Por fim a razão da força vence a força da razão, dito comum, mas que não há outro para arrematar a história.

Resumo da ocorrência após os acontecimentos, ainda a quente, feita pelo tenente, aos senhores de fato preto, na via pública, enquanto os cavalos cagavam e os Guardas limpavam as nódoas de vinho, misturadas com o sangue das quedas das bestas. Algumas, já se disse, causadas pelos derrubes furiosos da zarolha e seus sacrifúculos – todas mulheres -, devido ao estado escorregadio do terreno, pela ruptura involuntária de uma pipa de grande calibre:

 “Queiram Vossas Excelências saber, que dominamos a situação das grevistas sem baixas a reportar da nossa parte. Temos a certeza que estão arrependidas e vão voltar ao trabalho com mais vontade do que antes. Prendemos uma que está mais nervosa, talvez por estar sempre a respirar estes vapores, que não faram nada bem à saúde. Devo reportar que alguns cavalos também estavam com um andar esquisito, viu-se-lhes olhares meio revirados”.

“A cidadã em causa segue para interrogatório mais apurado, a menos que Vossas Excelências pretendam tomar o caso em mãos.”

Relatório da autoridade para o gabinete do ministro, que foi informado nesse mesmo dia, telefonicamente, uma vez pela eficiente funcionária do PBX, que leu o seguinte comunicado oficial:


“Uma cidadã revolucionária foi detida para interrogatório. Desconfia-se do seu envolvimento em rede criminosa organizada com intenção de abalar o Estado de Direito e a Graça de Deus. A cidadã em causa veio há pouco tempo de uma aldeia obscura e miserável, o que indicia que se dirigiu para a capital com o intuito deliberado de exercer actividades subversivas. Os nossos serviços detiveram-na e após rigoroso e detalhado interrogatório em que foi necessário o uso de instrumentos de persuasão - como ensinam as práticas de uma polícia moderna - deu-se por verdadeira a veracidade dos factos indiciados. A cidadã será submetida a vigilância apertada no sentido de nos levar à captura de outros membros desta rede comunista criminosa, pelo que este corpo de segurança, aconselha a que para já não se detenha a insurrecta, com a intenção de ser utilizada como isco”.


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O HOMEM QUE QUERIA VER O MAR - QUANTO TEMPO É O TEMPO DE UMA VIDA A DOIS?





No intervalo   entre a guerra que viria a seguir, que os protagonistas, estes, não sabiam que viria – assim pula a fazer futuro a história dos homens:  guerra sobre guerra, com intervalo entre duas para fumar um cigarro, ou simplesmente respirar esperança – a Cústodia e o Tertuliano amigaram-se. 

É correctamente assim, e é muito mais bonito do que dizer “juntaram-se”, ou mesmo “encostaram-se”, termo este que pode desencaminhar para outras interpretações, e é rude.

“Amigado” conceito interessantíssimo, é uma não figura do Direito civil, vista como pecado aos olhos castos dos vizinhos, todos tão crentes, tempos de muita e boa fé, apesar de cada um à sua conta e número, transpirar pelos porozinhos da pele, o seu viciozinho privado.

Levam a missa inteira de trás para a frente e no sentido contrário, só porque a decoraram de tanto a dizer. A seguir a preceito o que ela diz, é uma outra história. Um corropío constante, a toda a hora do dia, de benzas a Deus, aos santos e às santinhas, arrenegando demónios, excomungando tentações, exorcizando fraquezas. Gente temente e muito apreciada de santos no feminino: a figura da mãezinha, exemplo maior da vida e do amor.

Casamento, é de igreja, com padre paramentado, desfile simbólico, o ritual da entrega da virgem, pelo pai, ou o que estiver mais à mão nessa responsabilidade, de braço dado, ao som da música adequada e quase sempre a mesma, ainda assim emociona. E vestido branco, esse não pode faltar, nem olhar a despesa.

Casar pelo civil, é um acto anedóctico, desrespeito aos bons costumes., uma formalidade burocrática.  Dito tudo isto e assim, que margem de aceitação, compreensão, tolerância, sobra para os que optam pelo amigamento?  Para não dizer que os que se amigam já vão de barriga cheia de prazeres do corpo, conhecem de olhos fechados todos os caminhos que vão dar à fonte.

Coisa de gente sem princípios, educação. Os outros, os dos princípios e da educação, casam abençoados pelos homens e por Deus, mesmo grávidos de oito meses, e vão para o altar virgens, como acabadinhos de vir ao mundo. É um fenómeno, mas é assim. Nem tudo se explica.

Eles sabiam mas não quiseram saber, seguir com a vida para a frente é que interessa. E levá-la bem, amando-se. Se há na história das pessoas que vieram ao mundo, uma história de amor tão forte, tão intensa, não é necessário rebuscar Pedro, nem Inês, deixá-los estar de mãos pétreas dadas;  nem  viajar para as Itálias, atrás da Julieta e do Romeu: temos a Custódia e o Tertuliano a vivê-la, os dois, numa casa de duas assoalhadas, num bairro remediado na parte oriental da cidade.

Um amor sem filtros, amor em estado puro, fortíssimo por isso. O amor, nenhum, pode ser consumido em doses homeopáticas. Tem de ser consumido todas as horas, todos os momentos.

As condições não são muitas, no entanto Tertuliano oficial piloto – agora nos barcos que fazem a carreira das Áfricas , o Pátria, misto carga passageiros, alugou uma casa remediada com dois quartos (para o que der e o que tiver que vir, nunca se sabe o que se espera: um rebento, ou uma sogra para sempre) uma sala, uma cozinha pequenita, e um quarto de banho, com sanita e bidé e até uma banheira. Foi como se diz usando um anglicismo, um “improvement”, ou seja, a vida começa a sorrir para os dois. Merecem-no.

Custódia para além de ser o veículo transmissor de uma bela límpida voz pungente, a mando de alguma potência evanescente desconhecida, , e ter o perfil ideal de fadista, por ser precisamente límpida e pungente, e a postura corporal que já se descreveu - que já não o teria se fosse canção de revista, ou mesmo variedades - onde ganha a vida é a fazer roupinha para bebés. O fado é onde espana os pós da alma, e como todas as limpezas, basta uma vez por semana, no dia de descanso dos outros quotidianos da vida.

As roupinhas, em malha. Um mimo. Branco, cor das rosas e azuis clarinhos. A mesa da costura e dos acessórios está encostada à janela da sala. Aí passa os dias, cosendo, cantando, olhando em distração fantasiosa para os horizontes, os que são possíveis olhar, enquadrado o espaço por uma janela, ver uma faixa de céu no recorte dos telhados dos prédios em frente a si. Sabe que por detrás dos prédios está o mar dourado, onde o seu marinheiro aprendeu a ser marinheiro, onde num dia quente em que passeavam os dois, de mão dada, jurando juras de eternidade, ela compreendeu, e aceitou, que o seu homem teria que o dividir por duas amantes: ela e o mar, nome masculino por engano.

Fazendo os seus trabalhos de malha e intervalando com esses olhares de devaneio, também conversa com algum vizinho que passa, cumprimenta-os, alinhava frases de circunstância, repeniques das mesmas. Coisas simples, nada de metafísico. Ela não precisa, está feliz com o seu amigamento, é metafísica suficiente.

Durante o dia vive ela assim enquanto o seu homem anda de porto em porto. Veem-se cada quinze dias, se não houver contratempos nas máquinas do navio, que os obrigue a parar, ou algum acontecimento meteorológico que os atrase. E quando ele chega, deixa-se ficar, não faz mais nada senão olhar amantemente para ela, abraça-la a qualquer pretexto,  beijá-la muito porque apetece muito, como se recuperasse os abraços e os beijos não dados pela ausência, como se acumulasse uma reserva deles, e frescos, e bons, para a próxima viagem.

Viva-se o presente, que não se sabe do amanhã, sempre a fugir das mãos e de tudo o que o queira agarrar. Por isso Cústodia e Tertuliano não o perdem, o tempo, consomem-no incivilizadamente, abraçando-se, beijando-se, fisicamente amando-se unindo os corpos, esgotando todas as possibilidades ao dispor e à mão, de conversarem, construindo o seu muro intransponível de intimidades. A sua protecção ao exterior, que é seja onde for e quanto, um local perigoso e cheio de armadilhas inesperadas.

E espante-se, não há mais arranjada maneira, do que dizer em poética sensação dos sentidos - dizer o amor - cantado um fado.

Afinal já se sabe o que é o fado.



segunda-feira, 8 de outubro de 2018

O HOMEM QUE QUERIA VER O MAR - FADO






III

Custódia cantava fado,

Eram todas, à sua maneira, a maneira dos olhos que as viam, bonitas. Mesmo a que tinha um olho de vidro no lugar de um olho que viu regaladamente o mundo até ser vazado por um gato, sem culpa deste. Lindas, nas perspectivas e ângulos em que foram vistas e algumas vezes admiradas, nos seus anos de glória e infinito, que todos têm, até que se esgotam. Elas, os olhos que as olham, e o tempo sempre a passar. Era a Maria, a Florinda, a Silvina e a Custódia, a fadista desta história.

O que é o fado?

A ópera das pessoas anónimas, a que ninguém assiste formalmente sentado nos camarotes confortáveis dos teatros. Os que assistem não o fazem nessa condição, são eles também participantes, actores da vida real, encostados num balcão sujo de um tasco obscuro, com as paredes degradadas e escorrerem melancolia, num pingar constante, um jorro que nunca estanca. Humidades que adoecem os ossos e as almas que os habitam.

Tristeza-prazer, lágrima-sorriso. E está explicada, concisamente, a vida, pelo fado. E se ficarem dúvidas na explicação, o som da guitarra que geme, dá o mote final a todas as respostas que se colocam.

Cústodia ,azeviche – o cabelo – e morena – uma pele curtida pelo sol – trabalho -, mas aveludada, disse-o quem a acariciou. Tem  porte de fadista. O que é isso? A postura irredutível do corpo em tensão teatral, a fazer-se toureiro, à intempérie dos sentimentos. Corpo jovem, enfaixado em negro, quase um manto, uma religiosidade pagã, que ora a Deus, pedindo os impossíveis para amaciar a vida dos que na terra sofrem as maldades do inatingível. Impossíveis esses que são obras de si mesmas, as gentes, as pessoas. Querem a perfeição, mas isso é ser deus. Corpos e cabeças imperfeitos, tão perto e tão longe de o serem.
Uma cara séria que olha sem medo, para as amarguras da vida, porque as canta e as espanta. Chorando mais, que menos, é isso o fado.

Tertuliano apaixonou-se perdidamente pela Custódia num domingo, parece que é o seu dia, o dos acontecimentos únicos. Apaixonou-se perdidamente é uma repetição escusada: quando se diz uma, diz-se a outra, andam juntas. Não vale anunciar as duas palavras, uma só são ambas.

Tertuliano apaixonou-se com os cotovelos derramados sobre um desses balcões, algures num sítio qualquer, tendo como testemunha um copo de vinho escuro e espesso e fumando um cigarro oblíquo, o fumo, que dá essa sensação ao desprender-se do cigarro, para o alto. Não é homem de grandes bebidas, não é homem de se afogar. Assegura-se que foi genuína a paixão, desde o primeiríssimo momento que se instalou em si.

As paixões actuam como os vírus, têm um período desenfreado em que tomam conta dos corpos, depois vão esmorecendo, decaindo, os anticorpos naturais, começam a ganhar a batalha da sua erradicação, e acabam por os expulsar, dando de novo a possibilidade aos corpos de atingirem à harmonia natural, o estado certo e monótono das coisas no quotidiano obrigatório.

Cústodia cantava um fado de arrepiar e reparou totalmente nele, tomou conta que os olhos de Tertuliano entendiam o sentido das suas palavras, fenómeno que escassamente acontece nas vezes, inúmeras, que os desconhecidos se cruzam.  Quando pescam essa atenção a essência dos outros, sequestram e fazem muito bem, as pessoas que se cruzam.

A escória essa, só reclama e queixa, bebe para se apagar, acrescenta  misérias sobre misérias, é a vida dos descuidados de deus, que cantam preces e baboseiras vernáculas a esgotarem-lhe o nome, culpam-no de tudo e querem milagres.

E ainda, não respeitam quem canta o fado, porque não silenciam os remordimentos que trazem consigo, que murmuram ruminando uma ladainha, pegajosos nesses balcões execráveis das tabernas.

Custódia que na descrição aparenta uma dureza empedernida, não é nada isso. É pessoa de uma doçura imperceptível, e doce. Quando sorri desarma-se, e quem é atingido por esse manancial de luz pura, desarmado fica.
São todas, à sua maneira, a maneira dos olhos que as veem, bonitas.

Maria, formiguinha, na figura, e como podem ser belas as formiguinhas, todas as criaturas; Florinda que tem um olho de vidro emprestado definitivamente a ocupar o espaço onde residia um que via. Vê o vizinho a dobrar, tomou a tarefa de ver tudo para si; a Silvina, quase a não se dar por ela, a mais velha, tomou para si os pecados do mundo, anulou-se, soprou ânimo nas irmãs; e a Custódia, a fadista da história.

Na verdade, nunca cantou um fado, porque parecendo curioso, o facto é que não se cantam fados: a voz e a guitarra são veículos involuntários e transmissores, somente, de uma certa - desconfiando-se que existe - língua da alma. Nestas transmissões tipo radiofónicas, enviam-se mensagens, que são em verso, e no falar da alma, são  o que pode ser dito.
O que fica de mistério, por dizer ou compreender, secretíssimo, vai ser utilizado como um  fertilizante  do sonho. Estrume uma bonita palavra feia.

Custódia e Tertuliano, arranjaram-se para se amarem um ao outro para sempre, que será o limite do tempo permitido para o amor dos dois. Antes, agora, treinam uma paixão desenfreada, o prazer inigualável da aceitação sem filtros nem reclamações. O momento mais glorioso e irrepetível da existência humana, libertina-se na paixão. Depois, começa a eternidade a prazo do dia comum.



quinta-feira, 4 de outubro de 2018

O HOMEM QUE QUERIA VER O MAR - TEMPOS DE GUERRA






III


Um paquete de luxo, orgulho da nação de marinheiros e empregados dos serviços terciários.

No dia 26 de Maio de 1944, arredondando por volta da meia-noite,  Tertuliano está na ponte, a cumprir o primeiro quarto. É praticante de piloto, tem um chapéu de pala, e um galão dourado no punho do casaco muito azul escuro e grosso. Fuma reflexivamente um cachimbo, o seu companheiro intimo. Deixou de ser crédulo e uma “amélia”, é um jovem homem respeitável, em início de carreira.

Parece-lhe já distante, a profissão de  pastor e de marinheiro de águas doces que foi ontem, mas não, é um intricado contínuo,  tudo embrulhado na mesma, em camadas, a vida é um mil-folhas.

Naquele momento à beira do meio da noite, Tertuliano não pensa nessas coisas, observa a escuridão e as estrelas, está concentrado por inteiro na condução segura do navio.

O céu despejado de nuvens e o mar meio adormecido prenunciam uma noite calma. Tremeluzem milhões de estelas e o piloto identifica algumas, uma paixão nova a astronomia. O paquete flui despreocupadamente no mar Atlântico, destino a Filadélfia.

São anos difíceis, o mundo virou-se do avesso, todos os locais são perigosos, mesmo o mar.

Está o oficial piloto a olhar para o céu quando a pouco mais de uma milha da proa do barco, consubstanciada do nada, ou neste caso deglutida pelas águas, uma luz pisca sinais morse. O técnico de comunicações avisa Tertuliano tratar-se de um submergível alemão. Ordena que se parem as máquinas, vão fazer uma inspeção.

Tertuliano manda acordar o comandante, este manda acordar toda a tripulação. Os passageiros dormem, ou dormem e sonham, ou nenhuma das duas, ocupam-se noutras coisas. O que é relevante é que não dão por nada.
Aborda o paquete uma lancha com uma mão cheia de supostos arianos camuflados para se dissimularem melhor.  As mãos que seguram as armas estão tensas.

Nem deram tempo ao comandante, para vestir as calças por cima das ceroulas e arrumar melhor o cabelo, tem de os receber descomposto, está desprevenido. O Imediato e Tertuliano, são levados para o submarino conjuntamente com os documentos de identificação do navio.

 Os submarinos têm aquela forma de salsicha que só de se imaginar o que será viver dentro de uma salsicha, soterrado ainda por cima debaixo de água, dá uma claustrofobia mesmo pensando no assunto em céu aberto. Andam na água, dentro dela, mas não são considerados barcos, são andróginos.

O piloto nunca tinha entrado em nenhum. Já os tinha visto ao “Espadarte”, ao “Golfinho” e ao “Delfim”, não os peixes, estacionados na base, movem-se pouco. Gostar de barcos é uma coisa bela e poética, agora achar graça a caixões submergíveis está para além da sua imaginação.

Ao entrar sentiu de uma forma densa, quase material, o ar estagnado - um fedor - contraste enorme com a brisa vivificante, livre, que corre fora. O ambiente é soturno, cinzento, obscuro, em trevas. Os marinheiros todos supostamente arianos, sem nenhum que se reconheça estar somente disfarçado de ariano, estão tensos e suam, também porque está muito calor. Cheiram mal.

Os alemães retêm o Imediato e a documentação do paquete e reenviam Tertuliano, sem explicações, para o destino de origem, acompanhado desta vez de duas doses de germânicos mais fortemente armados do que os anteriores, o que deixa perceber na fronte do Tertuliano, estivesse agora alguém com atenção a isso, um franzir muito mais carregado, de preocupação, talvez medo.

Fazem uma busca ruidosa ao navio. O comandante na ponte, compondo-se ainda (a ponta branca das ceroulas desponta da bainha das calças, para que conste e por ser verdade) dá ordem à tripulação para não informar os passageiros de nada, o que não faz sentido nenhum - disse-o por dizer - naquele momento ele já não é o comandante no comando, e uma busca, para ser bem feita tem que buscar todos os pormenores, ou seja uma revista minuciosa de todos os recantos do que se está a buscar.

Procura-se um cidadão britânico natural do Canadá. Depois de esmiuçada a lista de passageiros, o Sr. William Blackhill, passageiro de 2ª classe, camarote 35, estremunhado e em trajes impróprios para quem vai sair, é algemado e levado sob ordem de prisão. Fica na memória dos vivos, o olhar deste homem, para o alto, para o infinito, talvez para ele rever, depois de morto, a beleza única, mesmo que apagada aquela hora, do céu que rodeia a terra. Terá tempo de sobra para todas as revisões.

O Imediato é devolvido à procedência, com a notícia que o paquete vai ser bombardeado e afundado. Em jeito de uma grande perversidade e gozo, os arianos dão vinte minutos para a tripulação fazer o transbordo dos passageiros para as barcaças salva-vidas.

Porquê? Não vale a pena a pergunta. Quando o mundo fica assim, doença recorrente, não há palavras sensatas. Na falta delas, o mal entranha todos os espaços livres, toma conta, destrói o potencial da vida. Faz isto por libidinagem sádica.
A tripulação desperta os passageiros. Vive-se momentos de pânico. Choros, gritos, rezas, todas manifestações de insegurança e impotência,.

Os botes salva-vidas afastam-se o mais longe que podem e esperam.

Cai sobre o cenário uma ausência absoluta de som. Nada acontece num espaço do tempo que não se sabe se foi muito ou pouco. Pode ser um ápice, ou horas. A cabeça das pessoas perde a noção, e como o tempo está na sua cabeça, são elas, não se dando conta, que  param o seu correr.

Nada.

Neste caso foi melhor uma omissão do que um acontecimento. Os alemães desinteressam-se. Omitem as sombras que balançam em cascas de nós no meio do oceano. São nada, existências que não existem.

Não fosse um sofrimento psicológico de grandeza, e pareceria uma cena de drive in americana : os espectadores boquiabertos, agarrados à cena, presos a ela, em carros que neste caso são barcos, estacionados no alto mar. Faltam as pipocas para ser uma cena de diversão, que não é.

O paquete, inúmeros pontos de luz que piscam das suas escotilhas, é esse o filme que nesta noite está a ser projectado.  É intenso, um drama, uma tragédia, em aberto para o desfecho final.

Com a aurora, o comandante é “convidado” a dirigir-se ao submarino onde o informam oficialmente que se aguarda de Berlim a ordem de abate. Não se apoquente que está para acontecer (vai-se um homem apoquentar por uma minudência destas!).

O capitão diz que não senhora, que não está preocupado, são os nervos. No entanto e aproveitando a oportunidade, tenta utilizar alguns argumentos, que devem ser tomados em conta. Um barco civil não se afunda (com este nem ele próprio ficou convencido). Somos povos irmãos, ficamos com o ouro dos dentes dos judeus, vendemos volfrâmio a bom preço, não se despeitam dessa forma os amigos (sobre os dentes ninguém da parte dos arianos comentou. Sobre o volfrâmio, um ou dois,  já ouviram falar nisso).

Não sabemos se o comandante do III Reich percebeu a retórica do capitão português, já que nenhum falava uma língua que fosse de entendimento comum, era por sinalética, gestos e um que outro vocábulo inglês. O português este disfarçava controlo mas estava  bastante nervoso. Pirolitou abundantemente quando apresentou os seus argumentos.

Como dita o código de honra e glória dos marinheiros, o comandante regressa à ponte do barco, e sozinho e pensativo, espera pelo momento em que os dois irão conviver com os peixes e as outras espécies aquáticas.

Espera interminável. Nada  acontece.

No final de uma noite em branco, no dealbar de um novo dia, depois de uma vigília sem velas acesas na mão, a torre do submarino submerge, traçando um rasto de espuma no sentido contrário ao da sua vinda. Os alemães foram à vida e não os torpedearam.

Insones e ressacados pela noite em branco regressam ao navio. Oferece-se um pequeno almoço reforçado e festeja-se. Sorrisos e abraços e beijos. A vida de cada um descongela, o tempo volta a ser tempo e a desfiar-se. Os destinos voltam ao trabalho para levarem ao até fim do que está marcado, o porvir de cada um dos actores deste episódio quase anónimo.

Essa noite não foi totalmente inócua, deixou danos, uma mácula: o médico de bordo, um cozinheiro e uma criança de 16 meses, no caos, no medo e na desorientação, caíram ao mar e desapareceram para sempre. Foram esses os nossos mortos.

Porque Deus, por vezes, nos deixa de sonhar?