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A AVÓ ANALFABETA COMPROU UMA BIBLIOTECA E ESCOLHEU BEM

  Ela não sabia escrever, não quis aprender e mais tarde já não achou necessário. No entanto reconhecia a importância de saber ler e de escrever, mas não era para ela, e ria-se. Bastavam-lhe as palavras que vadeavam na sua cabeça e as que se escapavam para o espaço público nas conversas ou nos monólogos que fazia com os botões. Nunca folheou um livro, mas não tinha nada contra o objecto em si, que achava interessante. Revistas sim, via, porque têm fotografias e vendo-as podem-se imaginar histórias. Reconhecia o poder que se tem em saber ler um livro, ganha-se conhecimento das coisas. As coisas que ela conhecia chegavam-lhe para ser feliz. Sabia que para ele os livros eram muito importantes. E como ele era a substituição do filho morto prematuramente num país que só conhecia o nome , seu mais que tudo, investia as pequenas poupanças da gestão familiar apertada - apesar de analfabeta os números e as contas não a levavam por ingénua -, em livros, que ele escolhia na livraria do bairro e
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O MEU TIO QUE ERA ANJO

  A ideia mais nítida que tenho dos anjos é uma fotografia de época: os meus avós, a minha mãe com uns lacinhos a rematarem os totós perfeitamente simétricos, e o meu tio, uns treze anos. O seu rosto irradiava uma luz que eu só posso qualificar de luz pura de um anjo. Depois dessa fotografia, nunca mais vi nenhum. Este meu tio, só estivemos juntos em carne e osso uma vez - apesar de ter sido o meu padrinho espiritual -, quando veio gozar férias da guerra colonial, à metrópole. Eu teria uns quatro anos. O seu rosto não aparece na memória desse episódio, só um passeio de carro eléctrico, um revisor com uma farda interessantíssima, o alicate pica-bilhetes, mais interessante ainda, e o bivaque militar do meu tio, fonte de toda a minha restante atenção. Se soubesse teria olhado para ele com detalhe, para o captar para mim, meu anjo: um bivaque e um alicate não mereciam essa transferência de interesse, mas uma criança tem os seus pontos fracos e eu claudiquei. Quando cumpriu a sua obrigaçã

O TIO NADADOR

  O meu tio, sempre que se aproximava de uma extensão de água maior do que uma poça, atirava-se a nadar. Aprendeu sozinho. No cais onde amaravam os hidroaviões da PAN AM, nos idos anos quarenta do século passado, mar da palha, que tem esse nome dizem os antigos por ser um mar raso e nos dias de sol intenso reflectir os seus raios dando a sensação de ser um mar da cor da palha. O tio aprendeu a nadar por erro e tentativa, no Beato. Teve sorte, a água que engoliu em vez do ar, não o asfixiou e ele, que era esperto e pensava bem, analisou racionalmente os erros, emendou os movimentos, a ponderação sem pânicos da respiração adequada, a flutuabilidade do corpo, que só se consegue com desprendimento, e, sem desistir, um dia deu-se conta que estava a nadar perfeitamente como se fosse um peixe sem barbatanas. Sem equívocos nem enganos. Como nunca fumou, nadava muito e tinha folego, tanto que se não fosse interrompido, nadava sem parar. Atravessou várias vezes esse rio, ou mar interior, até Alc

OS ALMEIDA MARQUES DA PARTE DA MÃE

  A sala de jantar, contígua à de estar e separada por um corredor da cozinha, tinha como mobiliário uma mesa e seis cadeiras de um estilo - se tinha estilo -, que não consigo identificar e mesmo nesse tempo de criança não posso dizer se eram bonitas ou feitas, o meu gosto não estava ainda feito para apreciar esse tipo de objectos. Havia também na sala um radio, objecto grande, em cima de uma mesa de apoio de pés altos, com o inevitável naperon . Para além destes objectos, havia uma moldura com uma fotografia a preto e branco, perdida na imensidão da parede branca e vazia, sem mais nada. Fotografia que marcava o centro geodésico do nosso universo familiar. A fotografia apresentava os meus avós maternos, o meu tio e a minha mãe, todos sorridentes e arranjados para a ocasião. Os sorrisos não são forçados, nem exagerados, pelo que deviam estar naturalmente bem-dispostos. Eram as pessoas mais importantes da família, assim como eu e o meu irmão, que não aparecíamos na fotografia porque quan

O MEU AVÔ ERA SENHOR DE UMA SELVA EM ALGÉS

  O meu avô prendia com corrente, por decisão sua e consciente, o nosso cão caçador Tôtu, farrusco que nem que disfarçasse muito poderia passar por cão aristocrata, na marquise fechada que dava para a sala de estar e de jantar. Era o seu shangri-la, a sua biosfera. Para além do Tôtu, residiam na marquise um periquito muito canoro, que esqueci o nome, e os vasos de plantas. Algumas floriam no seu tempo. Havia-as estéreis, mas o meu avô gostava delas. Não me lembro de ele plantar plantas aromáticas - talvez porque os nossos temperos se limitavam ao sal, à pimenta, ao colorau e ao louro, ingredientes que não se plantam sem mais nem menos, numa marquise em Algés – ou porque quis que o seu jardim fosse mais rebelde. O que não entendo é porque é que ele que tinha tantos livros das Seleções e outros, a ocuparem o lugar dos copos na cristaleira, sobre a natureza e os animais selvagens, e folheava-os, nunca teve a ideia de soltar o Tôtu e o periquito na marquise. Era pouca, mas era alguma liber

O SIMCA DO MEU AVÔ E MEU

  Não havia serviço de lavagem de carros. Quem tinha motorista era ele que os lavava e limpava, quem não tinha, arranjava-se, uns com mais outros com menos aprumo. Havia quem nunca lavasse os carros. Sempre houve e sempre haverá negacionistas. O meu avô que subiu à custa dos seus sapatos mas cansou-se no primeiro andar, teve o seu primeiro carro depois da reforma das ambulâncias postais. Não era bombeiro, era funcionário dos correios, e as ambulâncias postais eram vagões, geralmente na cauda dos comboios que descarregava e carregava o correio e as encomendas nas paragens e apeadeiros onde os comboios paravam. Reformou-se aos quarenta e sete anos e como arranjou logo um novo emprego de amanuense num escritório de despachantes de alfândega, comprou um carro. Antes teve de tirar a carta. Não praticou muito. Um Simca, um carro franco-italiano. Parecia um carro de estadista, era o único que tínhamos. O meu avô praticamente só andava de carro, no seu, aos domingos. Ou para irmos todos os da

OS MIRADOUROS ONDE ATRACAM BARCOS

  Antes da subida das águas que submergiram a cidade deixando somente os cumes suaves das colinas a descoberto, transformando-as em ilhotas flutuantes, casais de enamorados e mãos cheias de vontade de se darem, hipnotizados pelas ondas energéticas do amor que tudo pode, faziam juramentos de eternidade e companhia, encostados nos parapeitos dos muros dos miradouros enquanto debruçavam os seus olhos sonhando, nas panorâmicas da cidade. Olhavam para os telhados ocres, os zimbórios, as torres e a geometria das ruas e das praças. O mar deu-lhes um manto de água, afugou as cores. Onde foram jardins de belas vistas e tanto segredo segredado a acompanhar em sintonia o cicio do restolhar das folhas nas árvores em momentos de brisas suaves, são agora cais de amaragem, ancoradouros de pequenas barcaças de velas latinas e muita força de braços nos remos. Barcos que ligam as colinas-ilhotas. Sobrou desse fim do mundo, um punhado de gente, sem intenções de futuro. Sem nada mais para fazer senão