terça-feira, 17 de julho de 2018

PIANISTA









Um piano tem 88 teclas, brancas e pretas, de madeira. As brancas são revestidas de marfim (já não), ou um compósito de plástico, nome técnico; as pretas, de ébano. No tempo em que viveu Mozart era ao contrário: as brancas eram pretas e estas brancas. Há pianos de cauda e verticais, estes mais bonitos, mas pouco práticos de arrumar. São instrumentos caros. Há quem diga que são o instrumento musical mais completo, aparte a voz humana, claro, que não é um instrumento, ou então é, mas biológico.

O senhor A.B. gosta de tocar piano, de ouvido, e na realidade gosta bastante, mas não tem um piano e nunca tocou a sério em nenhum. No entanto, tem dois, virtuais: um no armazém da ourivesaria onde trabalha e o outro em sua casa, mais propriamente na casa da madrinha, onde vive. Diz-se que são virtuais porque na realidade não são pianos verdadeiros, são dois teclados de 88 teclas que ele desenhou e pintou numa cartolina. Fê-lo com rigor: desenhou-as e pintou as teclas com as medidas e a ordem certa. E é assim, de uma forma acessória, que aprende a tocar piano, todos os dias afincadamente, em todos os momentos livres, porque tocar piano, bem, exige treino, prática e abnegação.

Como se pode aprender música tocando não tocando pelo menos a produzir sons, num teclado virtual, é um pouco bizarro. Ele diz que sabe de cor dentro da sua cabeça todos os sons das teclas, e quando ouve uma música, consegue identificar e reproduzir o que corresponde a cada uma. Assim pode praticar, tocando com os dedos a cartolina e ouvindo para dentro o som respectivo. Vamos acreditar que é verdade o que ele diz e que a coisa funciona assim, até porque na natureza se encontra de tudo, e é melhor ter sempre uma mente aberta e aceitar a possibilidade de existência do fenómeno mais excêntrico.

Tem jeito, dizem os amigos, não porque alguma vez o tenham ouvido tocar, mas pelas dissertações constantes sobre a matéria pianos e música para pianos, que A.B. faz. De resto todos eles estão muito longe de chegarem  tenuemente a entender o que é a linguagem da música. Mal chegam à da palavra dita e escrita. A.B. comparando-se a eles é um erudito.

Eles e é para isso também que servem os amigos, acreditam que é um virtuoso, só de o ouvir falar. O mundo não o conhece artisticamente, só e uma pequeníssima parte do mundo o conhece como balconista de ourivesaria, mas é uma questão de tempo e de ele ir praticando, até ao dia em que ficar tudo pasmado pelo seu virtuosismo que emana dos seus cuidados esguios dedos de pianista.

Para já da cartolina não se extrai nenhum som, ele só pratica, preparando-se para o dia em que sentado em frente a um teclado verdadeiro, se confirme a sua glória e tenha valido o esforço de anos e anos a treinar. Neste momento só ele e os amigos sabem desse segredo, preservando a sua intimidade e bom nome.

A.B. é ajudante de balcão numa ourivesaria, na Rua dos Fanqueiros na Baixa. Foi para lá como aprendiz – que é como se começa -, aos doze anos e meio, rapaz quase a ser homem e ficou para toda a vida, num tempo em que quase tudo o que se fazia era para toda a vida. O patrão não tem descendência e gosta dele, é possível que um dia a loja venha a ser sua.

Tudo no mundo funciona com uma ordem e um plano, mesmo que dê ideia do contrário. O negócio do ouro que é complexo e admite muitas ramificações e algumas menos conhecidas, tem as suas hierarquias e muitos segredos. Nesta cidade que ainda não é de turistas distraídos, os nativos revestem camadas de muitas classes e preconceitos. Tudo se arruma no sítio certo. As grandes casas deste ramo, frequentadas pelos grandes burgueses e aristocratas ficam na zona do Rossio e na Rua do Ouro. Aos Fanqueiros e em muitos vãos de escada dos prédios das ruas, vão os outros clientes, o da meia-libra para os anos do afilhado, dos anéis de noivado em conta, alianças de casamento, das salvas de prata, mais no tamanho a tenderem para pratinhos de alianças.

A rua dos Fanqueiros é uma espécie de terra de ninguém, a fronteira do bairro da mourama que se chama Alfama - os que lá vivem ainda são meio arraçados de qualquer coisa - e o resto do cosmos, Lisboa.

Vive-se na época dos bons costumes, do medianamente, do portuguesmente suave. As pessoas, quase todas estão atrasadas em relação ao outro mundo, mas não o sabem, porque não viajam nem sabem línguas, mal a sua.

O Grandela e o Chiado são os maiores e mais famosos centros comerciais do país. As ruas da Baixa e do Chiado, enchem-se de gente nos fins de semana, vêm ver as montras e as modas, apreciarem-se mutuamente, os passeantes, que flaneiam, cuscam, incendiam olhares de apetites, ou simplesmente nada de especial digno de ser dito porque não vai ter nenhuma continuação. Esfuma-se à nascença. As mesmas pessoas não se cruzam duas vezes no mesmo lugar em momentos diferentes, é um acontecimento que não se repete.

A.B. está habituado nos seus contactos profissionais a lidar com gente educada – não são doutores mas são amanuenses dos doutores e por imitação, imitam-se de doutores - é um balconista de trato fino. Para os amigos do bairro é um bacharel. É um homem de formalismos, um ritualista. A roupa irrepreensível (só tem dois fatos completos, mas a madrinha oferece-lhe nos anos e no natal camisas brancas e um lencinho na lapela faz toda a diferença), a brilhantina a domar um cabelo rebelde penteado com uma risca ao lado, perfeitamente traçada, as unhas limadas e envernizadas, mãos de dedos esguios, a prenderem o cigarro em pose de actor romântico de Hollywood, que o podia muito bem ser, se estivesse lá. Tem estilo para isso.

Não há lembrança de o A.B. se ter alguma vez apresentado em público, sem gravata, o tal lenço, o sapato a espelhar de brilho. Pelos sapatos se vê um homem, tem essa ideia na cabeça mas não sabe como foi lá parar.

Este estilo, distinto e seguro de si, dá-lhe ascendente e posição no grupo e como é o mais velho, é uma espécie de tutor, protector, líder do grupo. chama a si a resolução dos pequenos assuntos do quotidiano, como comprar os bilhetes para a sessão de cinema e dar a cara e o peito ao porteiro, entretendo-os, conhece-os todos, enquanto eles fecham os olhos aos mais novos que o acompanham, os deixam entrar, ainda não têm a idade legal, para ver aquele filme, numa época em que os filmes não mostravam nada que pedisse uma idade legal.

Quando esporadicamente, porque o dinheiro é escasso, frequentam um local de diversão nocturna, vulgo cabaré, ele vai sempre à frente, pede as bebidas para todos, negoceia as propinas com as meninas, que todas na cidade o conhecem e gostam muito dele. Bom rapaz o A.B. , puro.

O ponto de encontro diário, quando termina o trabalho é na leitaria do Alves, ao Alto de São João. É um bairro particular, tem habitantes vivos e habitantes mortos: o maior condomínio privado (tem muros) para os fenecidos da cidade, dentro da cidade, com ruas, avenidas, praças, largos, edifícios de porte e grandes descampados cheios de etiquetas metálicas com códigos alfanuméricos. É a toponímia deste local. A vantagem para os moradores vivos é que a vizinhança é boa, pacífica, e não faz barulho.

Todos trabalham desde miúdos, os amigos do A.B.

Nas traseiras da pastelaria há um armazém das bebidas e outros produtos e o Alves colocou uma mesa de matraquilhos e uma mesa de bilhar. Entre estes dois jogos, talvez o mais popular seja o dos matrecos. Estes rapazes gozam ali os últimos momentos de liberdade antes de serem convidados a conhecer África, não por opção pessoal, mas porque há uma guerra para alimentar.

O Verão está ainda no início e promete ser eterno. Não se explicam aqueles dias abafados, quentes, sem sussurros de ventos, que espairam o calor noites adentro, em que as pessoas e os seres, distendidos, lentos, languidescem num prazer doce, quase misterioso, e que se espera que nunca acabe. Todos os verões acontece essa expectativa, e eles acabm por ter um final, o que é muito aborrecido para as pessoas em geral.

Num desses epílogos do dia, depois de umas cervejas bem bebidas e de ter ganho umas partidas nessas duas modadlidades desportivas, A.B. convenceu os amigos a carregarem um piano em segunda mão que tinha acabado de comprar numa loja de objectos usados, na Praça do Chile.

Realizava um dos sonhos da sua vida, com a ajuda da Madrinha, queridíssima quase mãe com quem vive, e das poupanças guardadas numa caixa de sapatos debaixo da cama, depósito seguro que não rende juros, mas tem a vantagem de estar sempre à mão.

Marcou-se um domingo, o melhor dia da semana. Toda a gente acha isso e também Deus, foi Ele que fez o domingo, grande invenção a sua, uma das melhores.

Aí vão eles: uma mão cheia de animação e vida, rua abaixo, aproveitando a brisa fresca da manhã, o muro da cidade dos mortos à sua direita, as janelas da cidade dos vivos, à esquerda.

Salpicam-se ao despique com uma desgarrada de piadas, piscam piropos às raparigas nas janelas, a verem a vida cá fora passar-lhes. Ou às poucas, que a esta hora se passeiam, agarradas por algemas invisíveis a mães carrancudas, pitbulls, a protegerem as suas virginais flores, de desabrocharem, se não foram também elas, um dia como as filhas!?

O passeio foi num ápice até la abaixo. Na rua Morais Soares as lojas estavam fechadas, mas as montras exibiam os produtos, apesar de semi-ofuscados pelo papel celofane amarelado que fazia uma espécie de cortina protectora do sol, deixando os produtors com um tom adoentado, meio- enjoado, se assim se pode dizer de uma camisa, ou um par de calças, que não são seres para se enjoarem.

O vendedor do piano, gasto como os objectos usados que vende, espera-os encostado à porta da loja, cansado de não fazer nada. Talvez esteja fastiado com a vida, problemas seus, todos têm. O piano já está estacionado na rua pronto para o transporte. A.B. faz uma inspeção circunspecta, acaricia-o sem que se perceba e paga com dinheiro vivo. O vendedor reconta meticulosamente com cuspo suficiente nos dedos para uma boa aderência, os notas uma por uma, até se dar por satisfeito.

Agora é a subir.

Os pianos são máquinas de fazer música de muita sensibilidade. Os seus mecanismos internos são complicados e pedem atenção constante, afinações, manutenção. Trasladar um piano à mão – ao ombro - pode não ser uma boa ideia, mas A.B. gastou o dinheiro todo que tinha e ficou sem disponibilidade financeira para pagar um transporte conveniente, nem ao afinador, e prevendo que isso não iria acontecer, andou também a treinar afinação de pianos pelo método virtual, matéria essa tão esotérica, que nem vale mesmo a pena tentar descrever.

O ânimo é grande, a moral está no máximo da capacidade, eles são jovens e estão cheios de força. Tudo indica que o transporte se resolverá com rapidez e eficácia. Todos os cuidados são poucos e A.B.  avisa os companheiros. Com voz de comando e alguma organização, vai encaminhando o seu rebanho, mas isto é uma maralha de ovelhas rebeldes, não é fácil encarreirá-los.

A harmonia e o equilíbrio são fenómenos de curta duração, a lei da entropia puxa o universo para o caos. O problema do transporte, visto sob a perspectiva dos transportadores está no peso do instrumento, no calor que começa a apertar e na inclinação pronunciada da rua, factores estes que conjugados neste dia, aumentam em muito a probabilidade de acontecer um fenómeno extremo. 

Começam por fazer pausas breves, saciando os cansaços nas torneiras públicas espalhadas pelo caminho. Á água é um bem universal e ainda se pode matar a sede gratuitamente nas fontes e fontanários deste belo país, não seja por aí que isto não avança mais e melhor.

Com o andar do tempo e o aperto das temperaturas, o clima hoje não está para brincadeiras, a reposição de líquidos obriga a paragens cada vez mais prementes.  Mas a água já não sacia, falta algo, mais encorpado, para repor os níveis de alento.

Entre fontanários – há quatro no trajecto da Praça do Chile ao Largo do Alto de São João, o piano é agora estacionado entremeadamente, à porta de estabelecimentos de restauração popular. Nessas tabernas, de galegos, cheira a vinho ácido à distância da esquina anterior. Lá dentro emborcam-se copos de três, encostados nos balcões sujos, ou joga-se à bisca, ao dominó, a encaralharem-se asneiras umas atrás das outras.

Os carregadores para compensarem de tanta água, optam por outros líquidos hidratantes mais estimulantes, animam-se.
Quando chegam ao destino, o número 36, primeiro direito, a bater a hora do meiodia, contam testemunhas oculares, que não foi fácil fazer penetrar o instrumento pela porta do edifício. O grupo teve dificuldade apesar de cálculos matemáticos feitos de cabeça, para definir a rota ideal.  As tentativas foram várias, e por voltas da décima – quase a desitirem não fosse o A.B. ter entrado na fase do vernábulo, a pontos de perder a compostura habitual - a missão teve sucesso e o piano sem mossas assinaláveis tomou posse por muitos e longos anos da sala de estar da estimada – uma santa – madrinha do A.B., que padecia de surdez congénita, com a graça de Nosso Senhor, que sabe e bem gerir as boas conjugações e fazer a previdência no mundo dos homens.

Foi a alegria do prédio e não só. O silêncio do descanso dos mortos, encheu-se de uma nova cor, a música dos vivos. Os traseuntes ficam mais felizes por passarem por ali e deliciarem-se com o som da música celestial que escapa pelas janelas do primeiro direito do número 36 do Alto de São João. Música que fluí pela praça ajardinada. A passarada, primeiro aturdida, desconfiada com a concorrência inesperada, amigou-se de seguida dos músicos e fazem agora o coro, empoleirados nas árvores, enquanto cagam e quando podem, em cima de algum desgraçado, parece que é de propósito. O São Carlos mudou-se para o Alto de São João.

Sopeiras derretidas e senhoras enviuvadas, todas cheias de repentinos calores, não param de suspirar. Arfam de lhes querer saltar os peitos dos decotes mais ou menos púdicos. Faltam-lhes os ares a algumas, outras deixam-se ir.

O Carlinhos, louro, belo, franzino, que se escapa quando pode para as emissões ao vivo da Emissora Nacional, e o pai a pensar que ele está de massagista na equipa de futebol do bairro, encostado ao aparador da sala, pratica nostalgias na voz. Olhos azuis colados ao tecto lavrado como que a louvar a Deus. A.B. curvado sobre o piano, martela carinhosamente as teclas brancas e pretas, afinal sabe tocar, e bem.

Todos enfeitiçados: a assistência feminina e os amigos do A.B. que se juntam nesses saraus de romantismo que se prolongam até ao lusco-fusco dos domingos. Vivem-se extases pessoais, iniciam-se namoros, tecem-se ilusões de futuro. E em calhando oportuno, que não se pode perder a oportunidade, um ou outro roçagar de chitas e fazendas, apertos ocasionais, todos a quererem, tudo pureza e sentimento.

As teclas de madeira de qualquer piano que seja, soam muito melhor que as teclas de cartão prensado.


















segunda-feira, 16 de julho de 2018

NÃO SE AMPARA QUEM NÃO NOS DEIXA CAMINHAR






Não se ampara Juncker. Deixa-se Juncker e a sua tibiez seguir o curso natural do acontecimento: estatelar-se, ou não, do pedestal onde se deixa fotografar com os “amigos”, todos eles tíbios, cambaleantes, sem saberem onde cair, apesar de estarem insuflados.
Uns de poder, outros de protagonismo efémero, tiraram uma fotografia ao lado dos que realmente têm poder e os omitem como baratas, e acham por isso que também são importantes..
Não se fotografa dando a mão a Juncker, porque não é uma companhia recomendável, precisamente o seu contrário.
É o símbolo de uma Europa desgovernada por tipos brejeiros, de fato preto, bem-falantes, que o que querem mesmo, é beber champanhes caros e vinhos muito bons e igualmente caros, e não ter de os pagar, pagamos nós e não os provamos sequer.
Depois vão para casa fazer pela vida, a sua e a dos seus queridos. É isso que eles querem, nada mais do que isso.
Amparar um indivíduo destes, é identificar-se com este tipo de amparo, ou pedir um amparo para si. E é isso que nós não queríamos: essa fraqueza que eles mostram ao julgarem que estão a demonstrar exercícios de governabilidades democráticas sufragadas pelo voto esclarecido.
Não queremos beijos nem abraços, nem amparos. Queremos políticos.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

METÁFORAS DE AMOR






Deixa-se um grande amor, numa curva apertada da topografia da vida,

Um grande amor ou a sua possibilidade. À porta de um bar, numa paragem de carro eléctrico, num esconso da cabeça, num equívoco pessoal, num desencontro de minutos, numa ilusão que se desilude.
Ancorado num cais imaginário.
Encontramos, perdemos, voltamos a encontrar, a perder. O mundo, impassivo, continua a rodar sem misericórdia, indiferente ao amor.
Nunca encontramos quem queremos, perdemos quem não sabemos que queremos, nada sabemos.
Tertuliano emigrou para um barco, fez-se marinheiro, para viver o amor do mar, e o seu outro amor ficou amarrado a um cais, uma estátua, é essa a verdade factual desta história.
Duas mulheres, uma de carne e osso e sentimento, e outra só de abstração, competindo ambas para serem as escolhidas. Uma chama-se Maria, a outra chama-se Mar.
Antes de se transformar em mulher estátua, no momento imediatamente a seguir a este relato, Maria a Varina, vestida de preto num luto sem mortes a anunciar essa morte: a do amor que parte. Posou a canastra no chão, usou-se de poucas palavras, as suficientes, e de um tímido acenar de adeus no dia da partida. Não exteriorizou o choro, as lágrimas pingaram para dentro, humedeceram-lhe as emoções naquele momento triste.
Despediram-se no cais.
Diz Maria:
- Não olhámos para as estrelas juntos, quando te pedi que me mostrasses metáforas de amor.
- Agora partes, e faltou-nos isso, tão importante.
- Não podia.
- E porquê?
- Só te as posso mostrar quando as souber reconhecer, a todas, dominar os seus sentidos, os seus dizeres.
- Bastava-me um céu estrelado.
- Nunca basta isso, devemos querer mais.
- Talvez.
- E para as conhecer, e as cartografar na memória para depois as contar, tenho primeiro de correr os mares do mundo.
- Seria suficiente uma metáfora bela.
- Pode-se levar uma vida para conseguir isso. Só vendo o céu estrelado em todas as suas latitudes poderei captar para ti esse presente único.
- Não vais só por isso.
- Então?
- Vais porque tens uma escolha de amor para fazer.
- Encantaste-te por essa imensidão voluptuosa e traiçoeira e instalou-se em ti a dúvida.
- Não. O meu amor és tu, mas só percorrendo a vastidão dos oceanos, solitário, encostado à amurada do navio, absorvendo o silêncio desse infinito líquido posso capturar as metáforas.
- Serão os mil tesouros que te trarei de presente.
- E nessas metáforas estarão contidos todos os significados do amor.
- Se é assim, esse chamamento tem de se cumprir.
- Vai, embriaga-te de todos os mares, e depois dos deslumbramentos, dos perigos e da ressaca, volta para mim, meu Amor.

Despediram-se assim. Maria a varina, fez-se mulher estátua, na ponta do cais que penetra o mar, olhos pedra, ali, na companhia ruidosa das gaivotas e dos albatrozes, pousadas nela, petrificada.
Mas nesta história, o poder transformador de uma metáfora, pode ser o milagre da criação, pelo que não se sabe das surpresas que o futuro reserva a cada um.

Tudo é possível acontecer, regresse um dia Tertuliano.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

A RIA DA TERRA ESTREITA






A certas horas do dia, de alguns dias, quando o sol ainda mal desperta e não cobre toda a criação de um calor abafado e algarvio; quando passam lentamente pedalando bicicletas ferrugentas, velhos com camisolas de cores garridas e gastas, alguns de cigarro pingando no canto da boca; os pássaros treinam os primeiros voos com bateres de asa preguiçosos; a ria, na doce quietação de estar a terminar o seu sono reparador apresenta-se em momentos destes, particulares, como um espelho de água.

O único movimento digno de nota que anuncia a vida, quase imperceptível, é um ondular mínimo, um pequeno fluxo das águas superficiais, como um mexer de lençóis que faz imaginar a existência de um corpo escondido neles, debatendo-se com a decisão de despertar ou continuar a dormir.

Tudo tão purificado, parece um sonho, uma esperança renovada: a ria assim, a terra estreita à espera de visitantes, a aldeia com nome de santa, de janelas humildes e algumas presumidas, com os olhos ainda fechados, nem sussurrando sequer, para não acordar as sereias – porque são sereias os seres que afinal dormem debaixo do lençol de água.

As mulheres dos homens do cigarro desanimado, preparam em casa o café da manhã, aguardando pela sua chegada, curiosas de saberem se neste princípio de um maravilhoso dia, eles conseguiram do mar o ganha-pão da vida.

As outras mulheres e os outros homens e as suas crianças e animais de estimação, despreocupados destas coisas fundamentais, põem igualmente uma grande expectativa de que seja um bom dia de verão. Alguns mesmo, pensam nestas poesias enquanto tomam um café numa esplanada acidental, onde os empregados não olham sequer para a beleza da ria, porque a têm embebida neles, gente da terra.

É nesse instante fugaz, antes das fadas-sereias abrirem os olhos, que os homens melhor sentem esses mistérios e essas forças espirituais, os homens que olham para o roçagar desses finos lençóis. Os outros, já se disse: estão de pequenos, tatuados deles.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

TRADIÇÃO E CULTURA - FESTAS DE VERÃO




Nas ruas, grossas traves de madeira fazendo de muros, protegem as bestas das pessoas. Separam mirones dos “artistas”. Dá-se início à representação de um espectáculo antigo, um rito, uma tradição de cultura.
Largam-se as bestas para gáudio do povo. São touros bravos. Esperam-se cornadas boas, piruetas e volteios, e sangue, o suficiente, o indispensável para colorir, e justificar, a tragicomédia que se representa todos anos. Festas religiosas estas, com procissão e velas e muita fé.
As pessoas gostam de serem cilindradas! São às centenas os homens a correr à frente dos touros, uns a tentar escapar, outros a afrontar, a maioria só a ver. De ver se enche o olho e leva-se experiência para contar entre os amigos, inventando-se talvez alguma coragem, que não existiu, a não ser que seja coragem ter uma garrafa de cerveja na mão e estar encostado ao tal do muro, a ver quiçá já com os olhos enublados, a passagem dos cortejos.
A largada vai terá o seu auge na praça de touros, de portas abertas com a arena livre por onde vão entrar os animais e os homens, a cumprirem remates de faenas finais, com saídas em ombros ou nas mãos dos que transportam os feridos e os ébrios para a enfermaria.  Com todos os casos, será nesse espaço a apoteose, o grande final.
Animado pelo palheto a que se juntou um medronho que o Albano ofereceu, o Mário abre o cortejo, fanfarrão, com as mãos à ilharga, logo abaixo da linha da jaqueta. Pé ante pé, avança em treinos de aquecimento para a incitação do touro. Ensaios de virilidade, antigos rituais de acasalamento, onde o homem enfrentando o dragão que expele fogo e tem mau carácter, vencendo a batalha do fraco contra o forte, conquista os redutos finais,  está ali pela sua dama, que agastada pela batalha sangrenta do seu amado, repousa agora a cabeça no ombro do herói, o futuro pai dos seus futuros filhos e de uma vida sonhada cor-de-rosa.
Uma amálgama de ruídos adensa as ruas. O som desconexo das bandas filarmónicas, já na fase em que os maestros atiram as batutas ao ar e os músicos apagam as sedes nos cones das suas cornetas a fazerem a vez de copos, mistura-se com a vozaria, em incentivos à coragem, e as exclamações, com o som suspenso, de quem antevê tragédias.
Embriagados de álcool e adrenalinas das hormonas, os participantes incentivam-se entre si, correndo desalmados na frente dos animais que assustados com a multidão investem de cabeça perdida.
O Mário começou a tarde com ares de gingão.
Situou-se junto aos curros, afrontou os bois ainda ofuscados pela luz, e correu bastante, aguentando alguns aconchegos nas nádegas até chegar à praça. Muitos companheiros ficaram pelo caminho, uns só com um sapato, as calças rotas a verem-se as bragas, as camisas vomitadas de medos e excitações, a coragem de rastos no chão.
 Felizmente os animais não causaram grandes estragos. Na contabilidade somaram-se pouco mais de meia dúzia de braços e mãos partidos, escoriações, algumas mais profundas, muita nódoa negra e alguns maxilares desprovidos de moradores.
A largada correu tão bem que ainda deu tempo para uma ginja pelo caminho, incentivos calorosos, alguns piropos e como troféu, um xaile arrebatado apaixonadamente a uma admiradora ocasional, cujo rosto bonito ou feio, só ficou na memória visual. Na praça se verá como as coisas vão correr.
Era zurdo,
um dos touros da tarde, deixado momentaneamente em paz e cansado daquela palhaçada, olhou para o idiota que se aproximava com os pés em pontas, armado em maricas galifão, como se fosse uma bailarina de can-can com pila, a ensaiar movimentos patéticos com um pano às cores.
Talvez não fosse para ele, pensou o animal.
Era zurdo, nascido e até morrer com um corno maior que o outro. Em pequeno os parceiros de pasto diminuíram-no.
O desprezo demonstrado pelas vacas – fez-se adulto sem um amor feminino – deu-lhe um carácter violento e imprevisível.
Em criança, teve os sonhos e as ilusões de todos os touros: morrer em glória numa praça conceituada. Num Campo Pequeno, quem sabe até Las Ventas. Mas a fama estava-lhe vedada pela deformidade córnea. Não passaria de um actor secundário, de um espectáculo ambulante, numa terreola sem nome. A sua existência resurmir-se-ía à inglória de uma derradeira corrida ao longo de um caminho com um chão esquisito, sempre a escorregar, rodeado por uma multidão de imbecis a porem-se a jeito.
Explicadas as razões da fragilidade psicológica que ditaram o seu temperamento instável, percebe-se e aceita-se que quando devia cornear não o fazia, e quando era para estar sossegado, arremetia o corno bom em riste, com uma violência extrema, dando ares de um rinoceronte africano em vez de um touro criado nas planícies ribatejanas.
O Mário entendido nas lides,
de muito trabalho empírico e conversas sobre o tema nas tertúlias de aficionados, compreendeu o animal e começou bem.
Iniciou o primeiro e único tércio, com uma verónica, um lance básico de capote. 
A imagem de Verónica segurando em suas mãos o pano em que ficou impresso o rosto de Jesus Cristo, deu o nome a este lance, fundamental no toureio de capote. É o passe mais frequente na recepção do toiro. O toureiro, com o capote seguro com as duas mãos cita o animal adiantando o capote e a perna correspondente ao lado da viagem. Quando o animal investe, o capote acompanha a sua saída sem lhe tocar, fazendo o artista uma rotação da cintura e do tronco.
Seguiram-se um par de chiquelinas, que encaixaram bem, e o nosso homem ganhou-se de confianças.
A chicuelina foi uma invenção do toureiro Chicuelo, de frente ao touro e pela frente, rematando o passe como uma navarra. Na chicuelina original os braços estão à altura do peito, mas alguns toureiros executam a sorte baixando-os. A chicuelina é tanto mais emocionante quanto mais cingida; o toiro quase que roça a cintura do toureiro, levando o público ao apogeu da excitação.
Com o excesso de confiança perde-se o tino. Totalmente eufórico, Mário inicia a segunda parte da actuação. O tudo e o nada. O tudo a glória, o nada a humilhação.
Ensaiou um ki-ki-ri-ki em honra a Gallito, e sendo esta uma sorte pouco comum, a sair bem, punha a praça a seus pés. Confiante ensaia o remate final.
 “El Ki-ki-ri-ki es como un ayudado, pero el torero debe llevar los codos a la altura de la cintura. Cogiendo la muleta con la mano izquierda y la espada en la derecha, retira la muleta tan pronto como el toro intenta cogerla, para colocársela delante del otro ojo.
El nombre se le atribuye a Alejandro Pérez Lugín, Don Pío, que, al vérsele hacer una tarde a “Gallito, no dudó en llamarle así, bien por venir de quien venía, “Gallito”, bien por la postura del torero, con su lento giro de brazos, que asemejaba al de un gallo”. Explicação graciosamente dada por um entendido, que já não se sabe quem foi, mas era espanhol e estava presente nas festas.
No ponto em que está a narração histórica deste dia, não resta a mais pequena dúvida que foram os gnomos, os duendes e o universo de criaturas que passam a vida a fazer diabruras, infernizando a vidas dos mortais, os responsáveis pela maldade do seu desfecho. Não podia ser de outra forma
Inchado de si mesmo, envaidecido com os aplausos do público, com a peitaça a dar cabo dos botões da camisa, Mário decide armar-se em toureiro anão, e ajoelhado cita o animal.
-Eh  touro lindo! – cita.
Este finge que não ouve.
-Ah touro! Ah touro!- insiste, aproximando-se de terrenos perigosos, na linha do não retorno, onde inevitavelmente alguma coisa definitiva e cómica ou trágica tinha que acontecer.
 O zordo está mais que farto. Cansado de correr e ser incomodado; cansado de distribuir mimos; cansado porque tinha saudade do pasto e da vida simples no campo, sem outras emoções, que os sabores da erva fresca; nostálgico de uma cobrição de vez em quando, um prazer diferente do comer mas quase tão bom.
Ele não queria estar ali.
Mesmo assim, aguentou o que pode as provocações do anão, mas este insistia em acenar com o tal pano às cores e florzinhas amaricadas.
Continuou a fingir que não era nada com ele, não encontrava razões para o cornear. Mas o sacana do baixote era mesmo parvo e ele teve de fazer o favor de lhe direcionar o seu quase unicórnio.
Atingiu em pleno a nádega esquerda do aprendiz de toureiro  penetrando vários centímetros carne adentro. Naquele momento dramático duas minúsculas ervilhas, tomaram refúgio no canto mais recôndito das trusses de alguém que conhecemos.
O Mário saiu inconsciente e ferido, no cu e no orgulho másculo, a sua virilidade posta em ridículo em frente da multidão.
A glória efémera transformada em vexame. Tudo é transitório.
Acordou na enfermaria, com um copo de bagaço pelas goelas abaixo. Desnorteado e ofegante, por alguma gota ter seguido o canal errado, começou por distinguir sombras, que a pouco se tornaram nítidas. Os amigos rodeavam a marquesa, onde jazia, dorido por dentro e por fora, e levaram-no abatido e de ombros descaídos para o barco.
 Acabou-se a festa, para o ano há mais, ou talvez não.
O regresso foi sorumbático. O cansaço das emoções e do corpo unem-se para se trazerem um ao outro para casa. O regresso é a antecipação da ressaca do próximo dia.
De volta a Lisboa, reina a calma: uns fumam olhando distraidamente para lado nenhum enquanto o arrais, mantem a embarcação no rumo. Para ele não há distrações. O Mário geme para dentro, pela dor e pela derrota. Aquela posição de rabo para o ar, fere-lhe mais o orgulho do que a ferida profunda.

domingo, 24 de junho de 2018

HISTÓRIA DE AMOR EM EL ROCIO





Podia ser agora, neste instante em que o digo.
A definição cristalina da imagem, irrepreensível, focada, captação de todos os detalhes constituintes, pixels.
O mais perfeitamente alguma vez feito e acabado rosto, jamais visto, uma só vez,
visto.
Paixão fulminante e efémera, tudo é.
Cinco, dez minutos. Importa a intenção e qualidade.
Tão bela, que a considerei a imagem canónica da beleza, sem recensão posterior.

Passaram anos, esqueceu-se o rosto, depois de muitos.

Veio à tona, borras do momento. À tona do magma amniótico onde borbulham restos dos pensamentos, fotogramas de vida, ideias preconcebidas, ideias concebidas em continuação.

Essa mulher, que nunca me disse o nome próprio, porque nunca olhou para mim,
Eu para ela intensamente.

A saudade que me deu a revisitação,
será do tempo - uma eternidade – que nos amamos,
só a amando eu a ela,
ou o sabor amargo que nessa altura,
na Romaria de El Rocio,

erámos imortais.

Agora faz-nos falta, talvez Maria.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

DIA FELIZ






A manhã fresca,

aquecerá.

O rio-mar.

Salgado, mar bom.

Quase silêncio.

Gaivota,

agudo som de uma gaivota,

é silêncio,

a voar.

Uma mulher, um homem,

um.

Dançam imóveis, movendo-se.

Encenação das mãos

Mimam o ar.

Dia feliz.