quinta-feira, 21 de março de 2019

A PRIMAVERA A DAR NOTÍCIAS




*

E então, fez-se um dia, do nada, aparecido assim sem  estar à espera, arrasadoramente completo de todas as coisas necessárias a um dia bonito: luminoso, caloroso, deixando ouvir as melodias das esferas. Tudo de fundamental está presente neste dia.


As pedras que se pensam sempre duras, amolecem pelo calor que emana do dia; as flores, as plantas, seres solícitos e disponíveis para tudo, a simpatia, abrem-se lascivamente de pétalas e folhas, absorvem o ambiente criado; os animais selvagens e domesticados, fizeram uma pausa no seu quotidiano de sobrevivência e perigos.; os homens, tiveram e não seria de esperar outra coisa, atitudes dúbias: uns a apanhar sol tendo tomado a deliberada intenção de serem felizes; outros, indiferentes, ou desconfiados, cometeram as maldades habituais em si. Os deuses piquenicaram, tendo convidado os parentes, os anjos, os arcanjos, e fizeram muito barulho, arrotaram bastante e acabaram por poluir as nuvens, porque são seres superiores desligados desses assuntos.
Houve atentados, terrorismos, violações, perfídias, e enquanto tudo isto estava a acontecer, as abelhas polinizaram as flores, e casais irremediavelmente apaixonados consideraram na sua visão irrealista e utópica própria de quem está apaixonado, que o futuro era a felicidade.

Uns fizeram, mesmo ali, filhos, outros poemas, que filhos são, alguns também, amizades, o que dá mais trabalhos e pede resiliência.

E assim passou esse dia, tão único e diferente, como o que se lhe seguiu, tendo-o também sido o anterior.


* Pinturas de William Turner


terça-feira, 19 de março de 2019

COISAS DO AMOR






Vá, avança, vamos, esboça para mim esse quase indetectável movimento de aproximação, o sinal de que é também a minha vez de avançar, desempenhar a parte no papel que cabe de te amar, e que o saibas tu, sem equívocos, o amor que me obriga-prazer, magnetiza colando-me, dois, um, a ti.

Quando tomares a decisão de sinalizares a tua dica para a minha dica de entrada na cena nossa, abrindo a possibilidade de realização do movimento de amor estratosférico que esperas de mim, fá-lo sem peso de nada obrigatório, um impulso sem razão, mas acontecido unicamente para nos celebrarmos os dois, na invenção do amor.

 Eu, nervoso e momentaneamente desentendido do controlo de mim, darei a novidade ao mundo, para que se saiba sem fronteiras, e porque sou de anunciar a qualquer pretexto, na maior das exuberâncias de excêntrico que sou.

Direi que me amas e eu a ti, e pela simplicidade, parecendo repetitivo o anúncio desta cumplicidade única a dois, desde sempre dos homens existirem,  digo na mesma, porque é a mim que me cabe dizê-lo imponentemente, com a extensão e efeito de dizer que se ama alguém, mesmo que sejam todos, e é tão difícil dizê-lo e que o acreditem.

E como me coube, levo as missões que são a essência da vida, a sério:

Amo-te-vos.



sábado, 16 de março de 2019

A MULHER, O JARDIM, UM LIVRO






Regresso ao local que é um jardim público, onde uma mulher lia livros no meio dia dos dias.

Digo lia porque não a vejo a ler sentada no beiral que delimita o ponto norte do jardim. Esse facto desequilibrou a minha tranquilidade  e o prazer que tenho em frequentar o jardim.

Nesta ausência, supõe-se tudo: desistiu de ler; cansou-se do beiral e de se sentar nele; foi despedida e está no fundo do desemprego; está de baixa por depressão provocada pela desmotivação de ser funcionária pública; entregou a alma ao criador apesar de não ser idosa, mas a morte não se anuncia.

A imaginação de uma pessoa normalmente imaginativa, consome mais tempo do que o total do tempo consumido nas tarefas do real na duração de um dia. É um encadeamento de pensamentos fantasiosos a seguir a pensamentos fantasiosos. 

Pessoas como eu vivem no sonho e não se dão conta.
A mulher que lia livros, conferia a identidade a este jardim. Era a sua assinatura, mesmo para a maioria dos utilizadores e passantes que não sabiam da sua existência, porque não olham para nada.

O restolhar das folhas das árvores, os trinados da passarada, ler palavras de um livro – melhor ainda poesias – fazem a conjugação perfeita e harmoniosa deste local, no meio da cidade agressiva.

Talvez lhe tenha acontecido algum dos contratempos anteriormente descritos, ou talvez tenha simplesmente decidido mergulhar em grande estilo no livro que anda a ler, sendo absorvida para um mundo novo e paralelo, o derradeiro sonho de um leitor.

Especula-se que alguns leitores, os mais persistentes, atingiram essa experiência transcendental. Mas como na morte, - tema muito mais documentado – ninguém voltou para relatar a veracidade e pormenor, do que seja  uma imersão total num livro.

O que no meio disto tudo me faz mesmo falta, para compor a harmonia, é da mulher que lia livros no jardim onde recupero do meio do dia para o meio do dia que me falta passar. Fico órfão para a tarde que está a vir.

Tirando esse facto ao qual não posso fugir, vem-me à ideia que já tentei inúmeras vezes mergulhar num livro, absorvendo-me nele. Venho sempre à superfície, e olho para o céu, invariavelmente azul ou cinzento ou misto, e como sou de uma teimosia que até a mim me admira, volto a tentar a ginástica do mergulho. Por uma ou outra razão que desconheço ainda não consegui o mergulho perfeito, mas não faltam bons livros para exercitar essa acrobacia.

Se a leitora não voltar à superfície deste jardim, no dia em que eu conseguir o mergulho, levo comigo o chilreio dos pássaros e os odores das flores e das plantas e vamos juntos visitá-la, algures, onde estiver ela, a viver uma aventura totalmente inverosímil como se fosse a coisa mais verdadeira do mundo.




sexta-feira, 8 de março de 2019

OPERÁRIO DE FRASES VÃS





Tenho a desgastante tarefa de escrever frases inúteis. Serão lidas, com sorte, uma única vez. Depois lixo.
Escrevo as frases mais efémeras que existem.

O propósito é esse, o de escrever frases pálidas para serem lidas uma só vez. No princípio pensei que não, mas desenganei-me cedo. Neste trabalho escusado, não sobra tempo, amanhã pedem-se outras frases feitas, e é sempre assim, até secar a fonte, ou vir a enlouquecer, uma forma de bater a porta com estrondo.

Alguém tem que fazer este trabalho, há muitos que se puderem arrastam a minha honradez para a sarjeta para ocuparem esta cadeira, ainda por cima desconfortável. Basta um pequeno descuido, um titubeio, para alimentar o rastilho dos equívocos. Logo se inventam enredos, com personagens falsos e boas mentiras, e correm connosco, desta profissão única dos fazedores de frases inúteis. Depois, não se arranja emprego em lado nenhum. É voltar para casa dos pais se ainda existirem ambos: os pais e a casa.
Os tempos não estão para facilidades, agarra-se o que aparece. Já vi passarem por este local muitos rostos inexpressivos, quem sabe cheios de sonhos na cabeça. Esqueci-lhes nomes, e eles o meu.

Temos que ganhar sustento, este é um trabalho como outro qualquer. Nem melhor, nem pior. Um pingar da vida a conta-gotas e algum dinheiro para comprar cenouras. Escrever frases vazias não é das coisas piores. É inútil mas não é de todo mau. Só incómodo.

Não há horas de saída, sempre novos assuntos banais a pedirem novas frases. É um processo infindo, sem fim à vista.

Não tenho vida própria, mas do que vou ouvindo por aí, há muitos nestas condições, desconfio até, que serão todos. No princípio por ser estagiário, queria demonstrar trabalho, motivação (os patrões valorizam muito a motivação). Escrevia redondas notícias sobre tudo o que me mandavam. Era solícito. O tempo entretanto passou, fui ficando, e dei por mim que escrever tornou-se uma banalidade, é como beber um copo de água.
Agora já não sei fazer mais nada, sou organicamente inútil no que faço e no que não sei fazer, que são todas as restantes possibilidades que o mundo oferece e que desperdicei.
Nem para escritor dou. É uma elaboração que exige frases inúteis criativas, um esforço suplementar que não atinjo.

Habitualmente, começo a jornada vai ainda madrugando e saio quando tiver que sair, pouco antes do dia clarear. Pego a entrada com a saída, o que me dá aproximadamente tempo para um banho, trocar de roupa e olhar com algum desalento para a cama do meu quarto que tem um colchão de molas com quinze anos praticamente novo. Já não me lembro bem da minha casa, mas sei que tenho livros, do tempo em que pensava que para escrever boas frases, tinha de as ler primeiro.

Nunca fui bom com números. Não sei, mas alguém me disse que os números constroem umas frases boas. Devo ter escrito uns milhões de frases vulgares. Não me lembro de nenhuma que possa usar nos raros encontros sociais que assisto, para lustrar-me como pessoa à frente dos convivas. Geralmente entro e saio calado.
O meu trabalho não tem verdade nem mentira. É um correr ininterrupto de frases frívolas. Muitas falam de coisas inexistentes, mas ao fim de tanto tempo a escrevê-las, eu o leitor – se ainda existem – a lê-las, acreditamos em tudo.

Falei em leitores anónimos e nem sei se os tenho. Não escrevo para eles. Escrevo para comprar cenouras. E porque me mandam.

Antes esta profissão tinha nobreza (com carteira profissional e tudo), hoje dizer-se isto é considerado insultuoso e retrógrado. Só me apercebi da minha inutilidade vinte anos depois de juntar mecanicamente palavras. Levei todo esse tempo para o concluir, agora é tarde, não sei fazer mais nada. Devo ter-me tornado inútil como as frases que escrevo.

É bem possível que venha a morrer antes de chegar à reforma, o que me vai facilitar o futuro, que não saberia como ocupar, e reler os livros que tenho está fora de questão. A cama, alguém ficará com ela já que está praticamente nova, como disse.

Devo ser dos últimos, este trabalho deixou de fazer sentido. As pessoas distraem-se mais a ver as imagens do que a ler.
O jornal vai deixar de fazer edição em papel, agora é quê as frases se vão esfumar num pestanejar. Antes eram cunhadas nas folhas e ficavam impressas, não podiam fugir para lado nenhum. Agora com os computadores, ora estão aqui ora ali, a mudarem constantemente de sítio e até mesmo, lê-se uma coisa de manhã e uma hora depois já foi alterada: sofreu uma actualização. Que interesse é que isso tem? Nenhum.
Uma notícia para ser tida em consideração precisa de pelo menos vinte e quatro horas, para se deixar respirar, ganhar consistência. São demasiadas horas, ninguém tem tempo.
O sonho que sonhei de ter uma profissão e uma “causa” numa só, e deu nisto: fabricante de balões cheios de ar.

segunda-feira, 4 de março de 2019

NOTA DE ENXOVALHO


 **




Uma falta de asseio, um conspurco, um achincalho.
Dito, é um chorrilho de impropérios que salpicam como perdigotos a quem se chega à frente.
Escrito, é um palavreado duro cunhado a frio numa folha de papel. Talvez faça mais estrago porque ganha um prazo de validade maior.
Se se pretende um enxovalho em privado – na intimidade dos dois – aconselhamos o envio de uma nota, pode ser de papel amarrotado, com uma frase sintética mas levada da breca, inteligentemente costurada, arrematada com as palavras certas, que podem ser uma arma de destruição maciça.
Pode passar a nota pelo interstício da porta de casa de banho enquanto o outro se chuveira, sob a almofada da cama, dentro da tigela dos cereais, vazia, do pequeno almoço do dia seguinte.
Atenção, esta prática deve ser sempre feita sem a necessidade de cair na deselegância.
Pode-se enxovalhar com luvas de pelica e o ódio dá-se muito bem com frases curtas.
Há quem em desespero, se socorra da técnica das agulhas espetadas num boneco nas partes que se pretende venham a causar dano. É uma prática perigosa que mete bons conhecimentos dos meridianos da dor. É para profissionais do Voudu.
Pessoalmente não recorremos a esses subterfúgios externos, já que estamos confiantes no valor, qualidade e impacto das missivas que escrevemos para bem servir os nossos clientes.
As palavras que usamos são como punhais.
Um enxovalho já se vê que pode ser letal. Em segurança, deixe-o em mãos de especialistas, que saberão usar as doses certas para o efeito final pretendido.
Enxovalhe bem. Mas sem puder, e em vez dessa vergonha, ame.


** Salvatore Fullam, b. 1994 in Dublin, Ireland. 
Bangladeshi / Irish.
Currently based in Dublin, working from Steambox Studios.




sexta-feira, 1 de março de 2019

PERDEU TODAS AS IDEIAS




Foi num dia que podia ser como qualquer outro, não fosse acontecer que há dias que pregam partidas. 
Despertou, tinha que se levantar para ir trabalhar. Já há bastante tempo que era obrigação o “ir trabalhar”, mas como as coisas estavam, poucas dúvidas havia, se bem sonhasse como todos por um paraíso na terra, o descanso do guerreiro, a reforma. Não, trabalhar era o que faria até ao último dia.

As simulações da pensão de reforma, cada vez que as ensaiava  no eficiente portal da entidade reguladora do trabalho, em vez de aumentar, reduzia. Parecia uma coisa com uma ligação directa, uma coisa de casualidades com metafísicas misteriosas, ou seja, “quando mais vezes me perguntas, mais te castigo”, “baixo-te o valor da pensão, para não seres ganancioso”.

A gozar um shangri-la, não seria na terra. Como não acreditava que existisse outro lugar para existir o shangri-la, já se tinha convencido que não iria ter um paraíso. Trabalhar uma vida inteira, para ficar, desvalido, nas mãos da providência, entidade em que não acreditava, nem como emanação do poder divino, nem do poder dos homens.

Não acreditando na existência de Deus, daí não viria a providência; sendo cada vez era mais descrente na humanidade dos homens, seria difícil que alguém –  alguém de um organismo público – se viesse a lembrar dele, especificamente dele, uma pessoa com um nome e invólucro físico, não um número, no entanto um anónimo absoluto para um funcionário do Estado. Daí providência não haveria.

 Os próprios dos funcionários públicos , quando chega a vez deles, são escorraçados como anónimos com um número sem identidade.  Estando eles no activo não  sabem, que terão essa desconsideração do sistema, senão desertavam todos, só ficavam os assessores em inicio de carreira a tratar das papeladas, para a sua reforma, por invalidez intelectual, ao fim de três anos e vinte e quatro dias de contribuições, incluídas as baixas.

Joaquim levantou-se e sentiu-se estranho. Era uma estranheza que vinha de dentro, na cabeça. Não eram tonturas (já lhe tinha acontecido) por se ter levantado demasiado rápido da cama. Fica-se a andar à roda (é a sensação que dá), não se  encontra o caminho certo do pé nu para o chinelo , aconchego fundamental para  nos guiar ao banheiro. Não era uma pressão de um cansaço mental, por ter dormido pouco ( os comprimidos são de uma marca nova, promissora, e ainda estão na fase de fazerem efeito). Não era uma enxaqueca causada por problemas posturais, das hérnias e esse tipo de problemas mecânicos de um corpo que começa a escassear desculpas por já não ser tão fresco.

A sua sensação de estanho, não a sabia explicar, mas estava ligada ao facto de parecer que o encadeamento coerente dos pensamentos, não estava a ser bem processado. Ele pensava, as ideias é que parece estarem a sair pêrras. Nem saem ideias, essa é a verdade.

Pode-se pensar sem ter ideias, e viver assim até mesmo para além da morte, se bem  (não se venha com falácias), depois da morte deixa-se de ter ideias, portanto fica fácil viver sem elas.

 Pensar sem ideias, é o que a maioria das pessoas ajuizadas fazem, embeleza o dia. Quando lhes cai um azar (que funciona precisamente como cair uma sorte), confortam-se na providência divina e seguem terapeuticamente curados, na sua vida sem ideias.
Acontece - como aconteceu este dia ser diferente - que há um grupo difícil de classificar de indivíduos azarados que pensam com ideias, e não abrem mão delas: ajuda-as a representarem o mundo e as relações que têm com ele. Estas pessoas ainda para mais pensam sobre o que pensam.

Muitos, habituam-se e vão conseguindo levar a vida para a frente, apesar das recaídas. Outros, tornam-se anarquistas, apesar de não se dar por isso exteriormente,fingem-se alinhados e participam a contragosto nos cocktails sociais, brindam e acabam por se embriagar.

O facto de ter ou não ter ideias tão pouco influencia a opinião que os outros têm de quem as tem. Os que não as têm, nem sabem apreciar os que as têm. Os que têm, por defesa própria, precavendo-se do ridículo, serem acusados socialmente e em público por as terem, fingem que são destituídos delas, não dão braços  a torcer porque dói.

Ele levantou-se nesse dia e afinal a estranheza do que sentia e que na realidade lhe estava a acontecer, é que tinha deixado de ter ideias. Podia ser uma doença, temporária, um equívoco do funcionamento da sua cabeça, coisas que podem muito bem acontecer.

Como faria agora para continuar a enganar-se a si próprio de que pelo menos, já que tinha vindo aqui, podia, porque pensava com ideias, ter uma saída airosa, para as suas dúvidas?

Nesse dia voltou para a cama, tomou uma aspirina e enviou por sms uma mensagem ao chefe de secção, dizendo que não ia trabalhar por um problema doméstico inesperado. Efectivamente era isso, uma questão doméstica, e essas coisas, resolvem-se no sítio certo: em casa.


Deitou-se e estava vazio. Preocupou-se.



domingo, 24 de fevereiro de 2019

PORQUE NÃO SOU ADVOGADO





Os meus pais sonharam tanto com um filho jurisconsulto, para eles advogado, mas escapei-me e desiludi-os num dos seus sonhos de pais: a profissão dos filhos.  Que nem sempre acerta, depois, nos sonhos que os filhos escolhem. Fugi para casa de uns primos afastados, gente honesta, se tivesse sido advogado também, que tinha um negócio de venda de bifanas, actividade itinerante, numa rulote, na Alsácia. Tornei-me vendedor ambulante, sem nunca ter imaginado que na Alsácia as pessoas gostavam de bifanas no pão.

Encontrei o meu caminho e sou feliz desde aí, mesmo pagando impostos.

Sempre que o meu negócio permite, recebem-me, os meus pais, quando venho no verão matar saudades (já me custa entender o significado de algumas expressões. Eu não venho matar nada: venho viver).

Venho então recuperar momentos da minha ausência,  da terra. Eles não são espontâneos, os meus pais,  no fundo nunca me perdoaram ter-lhes falhado no sonho, deles.. Não foi por não ter sido doutor, mas por não ter sido jurisconsulto, a carreira mais habilitada ao sucesso de todas as que existem, segundo a sua opinião e dos seus conhecidos quase todos frequentadores da pastelaria “Boca Doce”, da venda de fruta da Dona Joaquina e da farmácia “Central” , que corresponde praticamente  ao universo de gente que constitui o seu mundo e no qual eles bebem as opiniões antropo-sociológicas que desenham os contornos do seu entendimento das coisas do mundo.

Eles e os seus conhecidos, são capazes de ter razão, sobre a excelência da profissão que abjurei: há por aí  jurisperitos , opinativos e bem sucedidos, com queda natural e grande sucesso em todas as actividades nobres: ministros – saem dos curso e parece que saem logo com jeito para ministros - políticos e deputados, também com um jeito enorme; banqueiros, ou seus conselheiros, inteligentíssimos; presidentes de câmara -menos -  é uma profissão mais popular, ainda assim também os há, realizam trabalhos; complexos; e  Provedores de misericórdias, ainda mais se forem católicos, garantido, uma misericórdia gere-se bem, tem poucos entraves nos fluxos financeiros; espiões, serviços de informação, estão talhados para isso. Não há ninguém que guarde melhor um segredo e empalme um bom segredo ao inimigo como eles, até devem ter uma cadeira disso na faculdade; presidentes dos serviços municipalizados de água, luz e gás, é um enxame, têm sempre trabalho; chefes de bombeiros, sócios de estilistas de sucesso, donos de restaurantes da moda, cantores, presos, e tantas outras que ficávamos aqui o dia todo a gastar palavras e papel.

Não conheço nenhum que venda bifanas, serão profissões incompatíveis.

Direito é um curso muito completo, ser legisperito, dá para praticamente tudo, mas eu gosto mais de vender bifanas e inventei um molho único e bastante saboroso que me diferenciou da concorrência neste negócio igualmente competitivo das bifanas no pão. Já fui uma vez abordado por um advogado que me aconselhou a registar a marca e patentear a receita. Foi tão amável que para facilitar as burocracias, até se prestou a ser meu sócio. Não aceitei, e ele pediu-me honorários pela ideia. Paguei e não foi pouco, não insistiu mais. Muito prestável.

Tenho um amargo na alma que os meus pais não compreendam a minha profissão, talvez um dia. Eu nunca duvidei que ser legista fosse bom, mas também há outras vocações com a sua nobreza. Para mim são as bifanas,  com o meu molho, especial.

Na região onde vivo há trinta anos, sou reconhecido e nunca vi ninguém a ter preconceitos com as bifanas. Pelo contrário, muitas vezes repetem, chegam a comer duas. Até poderia ser o rei das bifanas, não fossem eles calvinistas, muito pouco ligados a casas reais.

Aqui os advogados também são muito respeitados, mas é uma profissão como qualquer outra, têm menos saída. Quase todas as pessoas conseguem resolver os seus litígios e na política não são muito apreciados, são pouco pragmáticos. Engonham bem é certo, mas os calvinistas são do diabo: interpretam uma frase formal ( mais ainda se forem código) sempre da mesma maneira, não têm absolutamente nenhuma paciência para floreados gongóricos.

Tenho muita pena que os meus pais não apreciem o meu mester.

Eu sonho que o meu filho seja engenheiro. Desenrascam-se em quase tudo e se for preciso ainda são bons contabilistas. Oxalá tenha sorte com o meu miúdo.