sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

MENSAGENS DE CONCILIAÇÃO






O exemplo das diplomacias. Dir-se-ia mesmo, um documento nuclear, não por ser bombástico, pelo contrário, mas por ser a essência, a origem, o ponto de partida, do labor diplomático: o entendimento dos homens.

É um caso que pede cuidados extremos, é coisa de gente madura: avançar na escrita concentradamente, em bicos dos pés, com mãozinhas de veludo, com pinças.

O uso e escolha das palavras deve ser peneirado vezes sem conta, até que tenham desaparecido todos os resíduos.

Não pode haver a mais pequena possibilidade de um mal-entendido.

Uma frase diz o que diz e nada mais. Não é um mil-folhas em camadas.

Não há segundas intenções. Leituras subliminares, que ficam na manga e que possam vir a inquinar o objectivo pretendido com esta carta - o da aproximação - são um perigo que pode deitar tudo a perder.

Uma palavra deslocada, uma vírgula mal apensa, reticências nunca, nem pontos de exclamação, tudo isto por junto ou separado pode causar um grande transtorno, descentrar o objectivo, transformar uma tentativa honesta de conciliação, numa guerra aberta sem tréguas nem fim à vista.

As nossas cartas de conciliação são validadas por expertos com larga experiência na carreira diplomática.

Jubilados, que têm tempo e o prazer de nos seus escritórios privados, na redoma de uma paz de espírito finalmente conseguida – fez-se o que se pode pelo mundo, agora que venham outros – dedicarem-se a este passatempo tão importante.

Escreva uma carta de conciliação, do que for. Verá que se sentirá mais desanuviado.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

MENSAGENS DE ÓDIO






Uma mensagem de ódio, para ser de qualidade, exige um destilar de palavras fermentadas num alambique específico, gota a gota, que a seguir são refinadas para repousarem com tempo em barricas de rancor, para adquirirem a acidez apropriada ao fim a que se destinam. Há mesmo um medidor de acidez de palavras, instrumento científico.
A excelência de frases de ódio encontra-se no equilíbrio da maceração das palavras, no processo de fermentação e posterior assentamento no receptor rancoroso, a barrica.
Escrever uma boa carta de ódio é um trabalho de alquimista.
Sendo fácil cair na ofensa brejeira, o escrevente deve munir-se de uma grande concentração, ser um praticante avançado do bom gosto a dirigir uma ofensa conscisa, para não se vir a perder no impropério boçal, na asneirola, no bota-abaixo, afinal o caminho mais fácil do ódio.
Para ser boçal, a pancadaria, que é mais eficaz do que a palavra, mas muito menos poética.
Uma boa carta de ódio é uma obra de filigrana, difícil de executar, mas em calhando bem, transporta o remetente para um nível superior, arrasando completamente o destinatário, a sua vida pessoal, a dos que o rodeiam, e fica como nódoa que nunca mais sai.
Dado o carácter volúvel e o ambiente extremamente venenoso em que se trabalha este tipo de mensagem, o preço da execução de uma obra destas é ligeiramente superior ao das mensagens melosas.
É um trabalho de risco, exige muita competência e experiência, mas o efeito final pode ser sublime.
Já não se enviam mensagens de ódio como antigamente. Nós enviamos, mas não somos baratos.

domingo, 13 de janeiro de 2019

MENSAGENS DE AMOR





Uma carta de amor é um assunto muito sério, é mesmo das coisas mais sérias que existe na face, visível ou oculta,  da Terra.
É por isso que se deve ser rigoroso na escolha das palavras.
Apesar de dispormos na nossa base de milhares de palavras, possíveis candidatas a fazerem parte de uma carta de amor, fazemos previamente uma entrevista cuidada com cada uma, para saber do seu valor, da sua compatibilidade, da grandeza da sua alma.
A honestidade de sentimentos de uma palavra é bastante apreciada, demonstra a nobreza do seu carácter.
Queremos ter a certeza que todas as cartas de amor são únicas,  e não podiam ser melhor escritas.
Por essa razão trabalham connosco os mais entendidos em cartas de amor - psicólogos também, e conselheiros sentimentais - para se garantir elevada qualidade e sanidade mental das palavras escolhidas para fazerem brilhar uma carta de amor.
Consulte-nos e comprove a qualidade do produto.
Devolvemos o dinheiro se não ficar satisfeito, mas vai ser impossível devolvê-lo, porque a verdade é que vai ficar superlativamente satisfeito, e no final, vai com certeza recomendar-nos aos seus amigos.
Contacte, somos sigilosos, não revelamos, nem que nos paguem - as revistas cor de rosa e os programas da manhã -, o nome dos nosso clientes.


domingo, 6 de janeiro de 2019

O DIZ QUE DISSE

(*)



Deixou de ter ideias, fosse do que fosse.

Faltando essa companhia, emudeceu, depois de ter ponderado.

Passou a ouvir com atenção os pássaros, ouviu-os tão profundamente, que os entendeu.

Não seria por isso que iria revelar aos outros homens o que dizem os pássaros. Manteve-se silencioso.

Virou-se para o miar dos gatos. Acontece que estes seres subtis falam muito pouco e são por natureza misteriosos, inexpugnáveis. Não disse nada a ninguém sobre esse tema delicado.

Olhou para os cães com olhos de os querer ouvir.

Quando ganhou o conhecimento do que diziam, não o espantou que o dissessem, mas também não o iria revelar. Eram cães, os homens que os entendessem.

Neste estudo dos idiomas e das línguas, distraiu-se com o tempo.

Esqueceu-se, o próprio um poliglota, de falar.


Resolveu, a sua última resolução, que já eram resoluções suficientes para uma existência: iria escutar o que diziam os homens.

Curioso, a tempo de os vir a entender.

Não se sabe o que aconteceu. Chegados a este ponto é impossível rematar um desfecho.

As pessoas que o veem regularmente, nos pequenos comércios do bairro,quando lhe dão os bons dias, asseguram que ele abre luminosamente os olhos cinzentos que lhe coube na sorte da vida, 

Mas não se sabe o que dizem os seus olhos, continua sem falar. Será daquela doença das ideias que ele teve? Será que já não foi a tempo de reaprender a falar? Ou é um sábio?

Esta é a opinião partilhada por alguns vizinhos que quando se cruzam com ele, acham que emana uma energia. 

Um homem habitualmente banal, ganhou uma aura mística porque deixou de ter ideias. 




(*) Credits Janet Widel

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

O PASSADO FINOU-SE


(*)


 ... agora mesmo.

- Boa noite Senhor Doutor, com a sua licença que não quero incomodar: a sua sopa, a preferida. Acabadinha de fazer, a escaldar como gosta, com os produtos da nossa horta. Coma-a ainda quentinha Senhor Doutor, os aconchegos do estômago repousam a alma.

- Obrigado dona Jesus. Disse o Senhor Doutor sem tirar os ajudantes dos olhos (uma armação barata em massa preta com lentes espessas) dos papéis que esmiuçava meticulosamente à luz de um candeeiro que iluminava, pouco, uma mesa de camilha em renda, feita e oferecida pelas afilhadas no seu aniversário passado.

Lá fora fazia noite. As árvores e os grossos muros do palácio, absorviam os sons do exterior, criando um perímetro protegido dos sons da cidade que mesmo à noite, não deixa de produzir os seus ruídos próprios. Com toda a alimária recolhida, o espaço estava em recolhimento.

- Com a sopa e a mantinha nas pernas, é remédio santo, aquece num instante.

- O problema senhor Doutor desta casa ser tão grande, com tantos quartos e vazios, e os corredores a perder de vista, é ser difícil aquecer.

- Pudéssemos nós mudar dona Jesus! Mas temos que fazer o sacrifício de viver neste palácio. Servimos o Estado e este serve o Povo, não podemos ter queixas nas nossas palavras. Nós somos os verdadeiros escravos do povo. E como damos o exemplo, aquecimentos aqui não entram. Se as meninas tiverem o cuidado de fecharem bem as janelas, as mantas nas pernas são suficientes em noites mais frias.

-Senhor Doutor, a Maria do Carmo foi hoje à “Brazileira do Chiado” - como lhe pediu - para dar conta dos ambientes, aproveitou e fez também a ronda completa pelos cafés da Baixa.

-E então? O que é que ela viu e ouviu?

-O Senhor Doutor bem sabe que os homens tapam o mais que podem a cara com as abas dos chapéus e cochicham para não serem ouvidos nas mesas do lado, mas sempre se apanha uma coisa ou outra.

-Sabemos o nome deles todos, dona Jesus. Não se preocupe, são os do costume.

- Sim são sempre os mesmos: um bando de artistas e agitadores que nunca trabalharam na vida e que se dedicam à política de café.

-Deixá-los estar. Não são esses que me preocupam. Eles que se afoguem no palavreado e na maledicência. Quando saem ao fim do dia vão direitos para casa com o rabo dormente de tanto tempo sentados, e a língua gasta das asneiras que dizem entre copos de aguardentes de qualidade duvidosa. Antes assim, eles que se cansem nas pastelarias, e que não andem espalhados nas ruas e nas repartições a confundir a cabeça das pessoas. Ali estão sob olho, até sabemos quantas vezes vão ao urinol.

-Está bem Senhor Doutor, mas só dizem mal, por tudo e por nada? Nem uma palavra de apreço por si, de compreensão pelas amarguras que tem passado? Tudo pelo bem dos outros? Não fosse eu, até se esquecia de comer, constantemente preocupado em resolver as dificuldades do País. São uns ingratos e adoradores do demónio, é o que são!
- Não se apoquente dona Jesus. Um dia no futuro ainda hão-de chorar por mim, ansiar que volte da tumba, como o outro, que se evaporou no deserto. Todos queriam que ele voltasse para salvar o reino, mas deixou-os a falar sozinhos, que era o que a mim me apetecia fazer, não soubesse eu que sem mim este povo seria órfão.

-Mas conte, diga, o que foi que a Maria do Carmo apanhou no ar?

-Dizem que o país vai gastar o dinheiro que não tem para enganar o povo com histórias de grandes impérios e coisas dessas, só para os entreter. Que o Senhor Doutor quer mostrar ao mundo que somos um país importante, mas o mundo anda ocupado na guerra, e ninguém vai fazer um intervalo para nos visitar. Ainda por cima, um ano não é suficiente para pôr de pé uma obra dessas. Vai ser só fachada.

-Dizem também que os milhares de desgraçados que todos os dias chegam a Lisboa para trabalhar nas fábricas para fugirem da miséria dos campos, nem têm condições de vida decente. Os patrões alojam-nos como animais e nós, o Governo, nem nos preocupamos com esses assuntos, que só dizem respeito aos patrões.

-Dizem ainda que o dinheiro da exposição devia ser gasto em escolas e hospitais e construir mais casas, para se alugarem aos funcionários do Estado a outros fiéis servidores, com rendas em conta.

-Calúnias dona Jesus, o que lhe digo é que essa gentalha só se preocupa com coisas de nada. Não tem onde ocupar o pensamento, e dá-lhes para dizerem mal dos outros, é só o que sabem fazer.

-O dinheiro foram eles que o plantaram e o pouparam? Quando peguei neste país andavam todos com os bolsos das calças rotos e eu cosi-os um a um.

-Não fosse o alento que o Senhor me dá, e uns poucos – muito poucos – amigos verdadeiros; não fosse a motivação das suas palavras dona Jesus, não fossem as minhas afilhadas, que me mimam e cuidam, já há muito teria batido com a porta deste palácio cheio de humidades.

-O que não daria para voltar a tranquilidade da minha casa na Beira, e acompanhar a minha pobre Mãe, que tanto precisa do meu carinho no outono da sua vida.

- A política dona Jesus, é a profissão mais ingrata do mundo.

-É verdade Senhor Doutor, mas não dê ouvidos ao que dizem, não fosse o Senhor Doutor a tomar conta de nós, e esta gente, já se tinha atirado toda ao mar.

- Não fique até muito tarde, descanse para amanhã voltar a acordar cheio de energias para combater estas forças do mal que andam por aí à solta a envenenar o mundo.

-Vou mandar pôr a botija de água na sua cama, Senhor Doutor. Uma boa e santa noite e que Deus Nosso Senhor e todos os anjinhos do céu o acompanhem.

-Obrigado dona Jesus, anjo é a senhora. Eu governo este País, mas a senhora é o meu governo. Sem os seus cuidados, andaria eu desgovernado!

A dona jesus, retirou-se e a pouca claridade ambiente não deu para perceber se algum rubor se instalou nas faces da senhora, com as últimas palavras do Senhor Doutor.

Antes de se deitar o Senhor Doutor ainda passou os olhos pelo relatório diário de actividades da polícia política e estudou com pormenor, o plano ideológico traçado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, para a grande exposição do Mundo Português. Aquele Secretário era homem de muita competência, mas tinha de estar de olho nele.

Despertou repentinamente, sentou-se na cama a tentar perceber onde estava. Levou algum tempo a perceber que tinha acordado. Foi um sonho. Tão real que parecia estar a acontecer neste preciso momento. Mas não, era impossível. O tempo não viaja no tempo, na direcção contrária ao seu impulso de seguir em frente. Não se repete. Ou será que ele estava enganado e afinal ainda não acordou e continua a sonhar. Ligou a televisão, pôs os óculos, encostou-se e ajeitou a cabeça na almofada.

No noticiário o mais alto representante do regime democrático, cumprimentava efusivamente o ditador eleito. Trocavam impressões que pareciam, pelos seus semblantes, amistosas e cordiais. Povos irmãos.

Voltou a adormecer.

(*) Foto: Correio da Manhã

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

VERSÃO LIBERAL DE HAIKU - 1







Ambiciono continuar a ter a luz habitual do outono e repudio a impudicícia de uma luz a imitar a luz do verão  imiscuindo-se no meu quotidiano de dezembro.

É a última vez que lhe faço este aviso.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A PATANISCA



Foi um olhar de desinteresse, talvez com uma ponta de soberba, senti dessa forma, estaria equivocado.

Eu, que já vinha com receio, dei-me por vencido sem contestação. Não era para mim. Ela não podia estar a olhar para mim. Desconhecíamo-nos e eu não tinha nenhuma motivação em a saudar sequer.

Iniciar uma relação, alimentar uma comunicação continuada, inventar um código de entendimento para essa comunicação, coisas do âmbito relacional. 

Não, eu não queria isso. Dela eu não queria nada, a não ser distância.

Incomodava-me a sua presença, ela deve tê-lo percebido. Deu-me espaço, mas cada vez menos espaço. Inteligente, felina, caçadora paciente.Foi estreitando a distância muito a pouco e pouco, num propósito de passar desapercebida, até eu vir a dar por mim sem pontos de fuga.

No momento em que me sequestrou definitivamente, é que dei conta de que afinal somos  indissociáveis. tinha sido irremediavelmente seduzido.

Nesse ponto da relação já tínhamos estabelecido o nosso dicionário privado. Eu entendia os seus olhares, os directos e os mais estranhos, enigmáticos mesmo; ela pressentia ou intuía, ou fruto de um qualquer mecanismo meu desconhecido, mas fazendo parte do seu arsenal intrínseco à sua natureza, os meus estados de ânimo. E desenvolvia os seus comportamentos em conformidade com o meu estado emocional.

Basicamente, deitava-se sobre mim, capturando  a possibilidade de vir nos minutos mais próximos - senão horas - eu vir a executar livremente algum tipo de movimento corporal.  Ía muito lentamente ajeitando o seu corpo de uma forma subtil, sem peso, encontrando a posição mais confortável.

Estando ela nestes preparos, não me restam dúvidas que o que dizem deles é a mais pura das verdades: sinto os seus efeitos terapêuticos, tranquilizadores, transmissora de paz. Um aspirador de energias turvas.

Neste momento da minha vida poderei viver sem ela, mas não quero, porque nos integrámos os dois nos dois, e sendo assim um, não é mais possível a separação.

Falo de uma gata nada arisca,  que se chama Patanisca, que é e espero não se abespinhe por o dizer publicamente, um dos meus improváveis amores.

Nos olhos de um gato lêem-se todos os mistérios, mesmo os não decifráveis. Nela leio realização total e absolutamente harmoniosa da sua natureza de gata.