segunda-feira, 22 de junho de 2020

PARAÍSO? SEMPRE EM FRENTE, ALENTEJO.




«C`um caneco», diz a rã a coaxar, saltando em esforço sobre o alcatrão escaldante da estradeca. Até que chegue ao outro lado, bem tem que vociferar.

Uma lontra, aos seus afazeres, caminhando nos vagares da região, investida de toda a calma do mundo – pressas para quê, se vamos todos morrer. A lontra passa diante de nós, quatro, cinco metros, omite-nos, a curiosidade dela não é mútua.

Uma águia-calçada, ou pequena, ainda assim águia, descreve círculos, planando. Espera pela sua oportunidade e não vai falhar.

Não é comum ver uma rã – na cidade –, águias só domesticadas, tristes figuras em estádios, lontras é mesmo impossível.

Quem diz rã, águia e lontra, diz coelhos, são muitos. Assustadiços, disfarçam-se com a nossa presença de coelhos-pedra, congelados, estátuas, e quando não aguentam mais, porque os coelhos são de natureza inquieta, dão grandes saltos disparando em velocidade furiosa a esconderem-se nos silvados.

Há também cobras, que não se desviam da rota, presumidas, seguem o seu destino sabendo que todos temos medos delas. A passarada é inúmera e interventiva: fartam-se de tagarelar, todo o dia nisto. No lago artificial criado pela barragem, saltitam peixes que se adivinham enormes.

É assim na barragem de Odivelas, no Concelho de Ferreira do Alentejo, um lugar de sossego. O Parque de Campismo Markádia, que também tem casas para alugar, é um segredo bem guardado, para os amantes de prazeres primordiais.

Quanto não vale um despertar a diluir a reminiscência dos sonhos da noite na água do lago, que reflecte referências de verdes e azuis, acompanhados pelos sons da passarada a ensaiar as suas óperas preferidas?

Fora do parque, interrompendo a paisagem alentejana, a beleza caiada, puríssima, das casas, juntinhas em pequenas aldeias ausentes de ruídos, absorvidos pela densidade dos calores do sol a pique, são na terra dos homens, a réplica das casas dos anjos. E as igrejas, simples, parecem catedrais, não pela imponência mas por serem simples e não terem outras ambições. 

Se nos apetecer sair do parque, logo ao perto, a aldeia de Odivelas, assente num pequeno morro e nos bicos dos seus pés a armar-se em serra com altura podem ver-se até ao longe da planície, terras de azeites e vinhos, e o lago que parece um pequeno mar.

Depois é ir na direcção que se queira, ou na que se vai ao acaso. Torrão, Alvito, Vila Nova da Baronia, Viana do Alentejo, Cuba…



Na ciência da toponímia há nomes que terão as suas razões, mas que soam estranhos. Albergaria dos Fusos é desse gabarito. No alinhamento Vila Alva e Vila Ruiva, nomes que se compreendem e vestem bem. Mas, Albergaria dos Fusos? Soou-nos aos ouvidos que em tempos romanos existiu uma Albergaria para acolher os viajantes da estrada que ligava Évora a Beja. Também terá existido uma pequena fiação, ou um tear, e vai daí, junta-se um nome a outro em casamento e vão de núpcias. 



Há muito que os donos da Albergaria desapareceram, mas existe o Café a Mó, que não oferecendo enxerga para descansos e sestas, providencia refrigério de boca, pois que percorrer as infindas estradas rectas desta parte do país, cansa a vista, a atenção, e aguça o apetite, o que não é uma verdade, não tem nenhuma relação lógica, mas há demagogias bem piores e aceitamos.

Andando mascarados - continuamos mascarados-, custa não ver caras, para adivinhar os corações. Dificulta o juízo. Nessas condições, não ideais, conhecemos a Dona Cidália e o Manuel António, grandes anfitriões que oferecem o melhor de si: aquela sedução hipnotizadora, alentejana, de receber as pessoas, oferecendo amizade nas primeiras impressões.

A encomenda foi feita na véspera, por telefone. Nas possibilidades de um cardápio gastronómico feito de poucos ingredientes, do pão, do azeite, do alho, das ervas de cheiro e paladar e do incontornável porco seja preto seja branco, faça-se a escolha: a Dona Cidália confecciona. Comemos e não temos mais a dizer, não há mais a dizer: não há palavras que se aproximem da sensação dos odores, dos paladares, do aspecto destes pratos descomprometidos e únicos. Só comendo, e foi o que se fez, pagando pouco e levando de volta ao acampamento, a certeza de que afinal, a felicidade existe e é quase gratuita.





 De volta ao Markádia a tempo de marcar lugar panorâmico para o momento solene do pôr-do-sol. Nos fogachos de tempo de um lusco-fusco, o céu cintilou de cores fortes: amarelos, laranja, vermelho-vivo, roxos, uma luminotecnia a fazer-nos pequenos, no espectáculo de uma natureza que maltratamos mas que ausente de noções do bem e do mal, oferece as suas obras-primas, esbofeteando-nos com luvas de pelica, esperançosa que despertemos de vez para a cuidar.



 


sexta-feira, 12 de junho de 2020

A REDUNDÂNCIA DO TEMPO




Passaram dez anos desde que se suspendeu a contagem do tempo. O tempo deixou de ter sentido. O futuro perdeu todo o interesse, previsível, aborrecido, para quê continuar a contar o tempo se ele não nos leva a lado nenhum. Fechámo-nos, todos os que podemos, em casa. Os que andam na rua, são os novos escravos. Os que têm que estar na rua para que isto continue. Muitos deles pagam com a vida, pagam com a subtracção dela, mas não têm escolha. Eles morrem para que nós, os que estamos em casa, continuemos a viver. Num tédio destes, para quê continuar a contar o tempo. Não vale a pena.

Este mês seria o mês dos santos que o povo gosta, mas com a peste, todos os santos fugiram. Foram para o paraíso, onde estão seguros, protegidos de nós. São momentos assim que nos dão a ver o que antes não víamos: a importância de algumas coisas, a redundância de outras.

Sem santos, a sardinha deixou de fazer sentido, é um peixe como qualquer outro. Os manjericos são inúteis. As noivas e os noivos passaram a casar-se pelo registo civil. As igrejas confinaram.

Os homens deixaram de contar com o seu ponto de fuga: o céu. Caíram em si, contam com eles próprios, nada mais. A vida simplificou-se a ponto de não haver expectativas sobre nada. Acontece o que acontece, e passa.

No início da peste as pessoas ficaram tristes, depois habituaram-se. As pessoas habituam-se a tudo e tudo acabam por esquecer, ou perdoar, ou fingir que o fazem para não serem incomodadas pelas suas consciências e pelas dos outros. Divergiram as suas atenções para coisas mais primordiais: a sobrevivência. Pouco mais do que isso, manter-se vivo fora do tempo, que se excluiu da nova equação.

Dentro de suas casas, os privilegiados, ocupam-se com coisas banais. Alguns mesmo passam todo o dia estendidos a olharem vagamente para o tecto, numa espécie de nova meditação, sem propósito. Ou então é mesmo isso, acabaram por descobrir o grande mistério dos estados meditativos: a ausência de propósito.

A banalização da notícia, sempre a mesma, repetida mil e uma vezes, levou ao seu abandono. Os homens já não vêem, nem ouvem, nem lêem as notícias. Fartaram-se delas. Somente os políticos e os jornalistas mantêm esse circuito fechado: continuam a alimentar-se mutuamente, mas estão e não o sabem, todos encerrados em redomas de vidro e não saem delas. É a sua realidade. Impõem coisas estapafúrdias às pessoas, porque continuam a deter o poder e são sádicos. Eles e investidores anónimos.

As redes sociais ocuparam o espaço deixado vazio e são agora o imenso miasma onde tudo flutua, o bom e o mau, avaliações estas que os homens deixaram igualmente de fazer, porque com a peste, perderam-se as esperanças na ética e na moral.

As crianças habituadas desde que nascem aos seus brinquedos electrónicos continuam a ser felizes. Tanto lhes dá estarem em casa ou na rua, desde que tenham os seus ecrãs disponíveis e com bateria. Em casa até estão melhor porque não se distraem com estímulos externos. Os velhos foram todos depositados em armazéns até que morram. Estamos todos proibidos de acariciarmos os velhos, de cuidarmos dos velhos, e os velhos não percebem porquê, porque lhes fizeram esta desfeita quando foi deles a oportunidade para estarmos aqui.

Na realidade, nem se sabe se ainda há peste ou não. Pouco importa. A vida antes dela também não levava a nada. Estávamos a destruir tudo onde tocávamos. Somos predadores implacáveis. Desconhecemos o significado do arrependimento e se há uma característica – duas vá – que nos distingue é o egoísmo, a avidez.

Em tudo o mundo ficou diferente e desleixado.


segunda-feira, 8 de junho de 2020

SEXAGENÁRIO




Era miúdo e o mundo era todo muito grande, enorme, de dimensões desproporcionadas à minha pequenez, e o meu avô - só para nomear esse exemplo - tinha sessenta anos e eu considerava-o terminado e velho. Dava-lhe a mão, íamos passear pelas ruas e eu dava-lhe a mão com toda a pouca força que tinha, para o proteger de uma queda ou um acidente, porque era velho e fraco e eu pensava nisso, enquanto passeávamos, e tinha pena. De mim e dele que o ía perder mais tarde ou mais cedo (quarenta anos depois…).

Frequentámos muitos jardins depois disso.

Hoje cumpro essa idade e não me sinto velho, nem estou nada pronto para encarar a oferta de uma morada eterna e definitiva, a menos que seja por obrigação. Tenho sonhos, muitos sonhos, planos, tantas utopias, continuo a ser um menino. Vejo-me dessa forma, e gosto.

O que pensará de mim o meu sobrinho Óscar, quando afaga a minha barba a caminho de ser branca, quando me dá a mão (as mãos não mentem), e eu reparo que ele repara com curiosidade que as minhas mãos são sulcadas, enrugadas, ásperas, mãos de quase velho?

Recordo com saudade o meu avô. Vivemos boas aventuras. Podou-me, regou-me, trouxe-me até agora e eu estou a gostar do passeio.


sábado, 6 de junho de 2020

SOFÁ





 

Nos cenários do impossível, tudo é possível. Existe, não existe. Foca, desfoca. Inventa-se. Cria-se. Estou sentado no velho sofá companheiro de inúmeras aventuras e descobrimentos. Juntos participamos felicidades e tristezas. Meu confidente, onde sonhei futuros, tricotei ilusões, ancorei catadupas de pensamentos uns estéreis outros não, tomei decisões, umas boas outras poderiam ser melhores, foram as melhores que tomei. Estou envolto nele a deambular nestas coisas e dá-me vontade de atravessar o estreito de Magalhães. Cá vamos nós, o sofá nunca se recusa! Saio do meu conforto sem sair, vou eu e ele directamente para tempestades que metem medo, vendavais de levantar as fundações das casas e dos seres,  e outras intempéries, imerso na leitura de um livro de um chileno que  escreveu sobre os mares do fim do mundo, terras setentrionais, de gentes poucas, duras, solitárias. Num piscar de segundo, sou marinheiro, faço parte do livro, mais, vivo dentro do livro, personagem novo. Estou no cesto da gávea, de olhos postos no horizonte, muito atento e apesar do nevoeiro sólido que tudo envolve, tento ver a ponta de um icebergue ou a presença de outro navio. Sou o guardião do meu barco, protejo-o de impactos fatais. Andamos à caça das baleias, elas andam à caça de nós. Agora estamos em terra, frias, ríspidas paisagens de pedra, arbustos baixos, poucas árvores, mal vingam açoitadas por ventos constantes e fortes. Sou um gaúcho na Terra do Fogo, acompanhado pela minha montada, minha fidelíssima montada tão selvagem como eu. Cavalgamos dias e noites, sem sinais de gentes, nem de nada, pastoreando gado, quase espectros nós e ele, sem norte nem beira, sempre em movimento. Volto a mim, à realidade que constitui o meu contorno e o do sofá, e descanso dessa viagem que acabo de fazer. Deixo boas recordações, armazeno-as com delicadeza nas memórias. Alimento um profundo amor por esses, todos, os territórios, patriótico de todos, é sempre assim, para onde vou, volto com saudades de expatriado. Agora durmo, descanso, intermitentemente, é assim que durmo. A vida é pouca para se dormir, aproveito tudo. Acordo com uma vontade inquestionável de ser pastor de ovelhas nos confins das ilhas Hébridas. Levanto-me, dirijo-me à estante e pego num livro, lido e relido, decorado. De novo em trânsito, de um lado para o outro, acabado de pousar os pés e o corpo e o meu pensamento de homem curioso, numa ilha isolada, uma míngua de gentes, abundante de ovelhas, levada a ventos e sibilos, sussurros de fantasmas, espíritos do lugar, que assustam quando à noite nos sentamos em frente a uma lareira alimentada a chamas de turfa, não há árvores. Traço em pensamento o panorama do dia que vivi e as perspectivas de amanhã andar ocupado e pastor, pastoreando as melhores lãs do mundo. Estas ilhas de pouca gente, quase vitoriana, não na simpatia intrínseca deste punhado de gente mas na forma rigorosa como vivem, contentam-se com pouco. Não sou um homem taciturno. Gosto de cenários frios e inóspitos, mas aprecio igualmente a bonomia de tempo caloroso, radiante, um céu limpo, ingenuamente azul. Flutuo o olhar nos intermináveis campos de alfazema, que formam ondas de uma sensualidade que se pode dizer assim, apimentada pelo sopro do siroco. Anestesia-nos, vicia, queremos continuar para sempre neste estado. Estamos nos doces campos da Provença, onde o silêncio é uma pastoral cantada por mil e um pássaros, efusivas criaturas belas, indispensáveis à vida, sem eles não seriamos homens assim, como não seriamos sem as flores onde estes bicam os doces néctares. E o zumbido das abelhas, o que dizer do zumbido das abelhas, elas e as formigas, as grandes obreiras, sem descanso, semeadoras de fauna em terras férteis e outras, transportam consigo as sementes da vida, depositam-nas para que vinguem e produzam assim de novo e de novo, o absolutamente deslumbrante espectáculo da natureza em renovação permanente. Sou provençal, tenho um chapéu de palha com aba larga e um certo estilo, e sentado no pátio da minha casa com portadas em ripas de madeira pintadas de cor turquesa, assisto a tudo isto, e emociono-me levemente. Tomo uma bebida anisada e fresca e debato filosoficamente sobre coisas simples e pouco elaboradas, num francês solto, o que me espanta mas ao mesmo tempo me agrada, não tenho por hábito falar num francês solto. O meu anfitrião, homem do lugar, gosta de debater coisas filosóficas e eu faço-lhe a vontade, numa conversa que se prolonga num tempo que se perde a conta, até esgotarmos o assunto e a garrafa. Deixamo-nos os dois ficar por ali, não temos para onde ir e nem merecia o esforço. Acabadas as palavras, pousamos a atenção na acalmia do cenário.Volto a casa, ao sofá. Mais um dia, cai agora a luz com suavidade e polidez. Vem o crepúsculo, o momento da melancolia. Imagino-me a fumar um cigarro sem querermos nem ele nem eu que as volutas sensuais de fumo que exalo e que ele consome, tenham fim. Termos a chave de parar o tempo e ficamos por ali, numa eternidade definida por nós, ao fim de um dia, meio obscuro, prestes a entrarmos nas sombras, no prazer indizível que dá fumar um cigarro imaginário. Esses momentos são os melhores para ficar ancorado ao sofá. Pôr de lado as grandes cavalgadas pelas estepes da Mongólia, prescindir do balancear trôpego do camelo num deserto das arábias, abdicar de uma escalada abrupta ao Anapurna. É o tempo não-tempo para uma visão de observador exterior a nós, a observar-nos na posição privilegiada que o distanciamento oferece. Se ainda me apetecer, no período do lusco-fusco, dou um salto a Veneza. Não às gôndolas a que não acho piada, mas a uma qualquer esplanada, afastada dos magotes, disposta na margem de um qualquer canal secundário, local livre dos sons histéricos dos turistas linha branca. Nessa esplanada tomo uma bebida da região, um Martini quer gosto, e deixo-me aquietado a admirar com reconhecimento a harmonia do local e penso, ainda que de relance, que gostaria de ser veneziano. Depois tudo o que temos vivido, eu e o meu sofá, estou disposto em mimar o acolhimento que me dá e continuarmos juntos até ao fim dos dois: o meu porque desapareço de cena, o dele, porque deixa de ser meu e passa a ser outro sofá. Cai agora a noite e não voltamos um para o outro, descansamos, dou-lhe tempo a que se recomponha, e eu, deitado noutro afago confortável do meu mobiliário pessoal, continuo a sonhar, a realizar invenções do mundo, só minhas e íntimas, pequenas histórias que ajudam o tempo a passar. Nas horas nocturnas, quando está escuro e tudo se torna muito sério, o tempo passa vagarosamente. Parece que ele próprio se dá a si tempo, para robustecer a vontade de irromper amanhã em todo o esplendor, quando em principio e nada indica o contrário, o sol de nasce de novo e cremos todos, que o novo dia é a mimetização conseguida do desejo de que seja pleno. Cada um tem os seus sonhos e viagens por realizar. Eu, viajo acompanhado pelo meu sofá, no entanto nunca saímos do perímetro da sala na companhia um do outro.


terça-feira, 26 de maio de 2020

O HOMEM QUE NÃO QUERIA NASCER




Em tudo era parecido com a vida. Na realidade, era a vida, também é assim. Não via senão o escuro, mas o escuro é o não ver. Faltava-lhe esse sentido para ser pleno de todos, e por isso dizia viver parecido com a vida. Mas não. Vivia. No conforto de um embalo, constante, quase ritmado e ouvia sons afastados, ainda não palavras mas eram palavras e ele não sabia. Não as tinha aprendido. Ouvia o que se dizia fora do escuro, e fora do escuro estava o mistério, para lá das paredes de matéria flexível e desconhecida que o envolvia, como um casulo. Uma gruta. Gostava dos sons assim como gostava dos sons que eram música, e mais uma vez, como não sabia, não os identificava com um nome, mas gostava. De todos, o som que mais ouvia, repetido inúmeras infinitas vezes era “filho”. Um chamamento longínquo, uma espécie de sussurro. Não o sabia, mas era de todos o que mais gostava de ouvir, e descansava, protegido, descansava profundamente e bem e feliz e satisfeito. As suas mãos, os seus dedos, numa escala tão pequena, por finalizar, tacteavam. Tacteavam na ausência de luz numa matéria líquida mas densa, envolvente,quente, promissora de vida. Era assim que ele ia descobrindo esse pequeno mundo, o seu, um ensaio de universo, ali, todo concentrado. Por ser tão bom, por se sentir tão bem, falhou propositadamente a chamada da porta que se abriu para ele passar, mais de uma vez falhou, um jorro concentrado e forte de uma luz que nunca tinha visto, muito clara, mal abria os olhos, a oposição ao escuro, que o assustou e ele não quis. Podia ser uma desconfiança. Mas não, não podia ser isso. Ele ainda não conhecia a confiança, para ter uma ideia firme do seu contrário. Negou e renegou. Não queria, mas era inevitável, teria de nascer. Esperava-o a contagem do tempo, uma ampulheta invisível que determina tudo: o antes, o durante, o depois. E que um dia deixará de contar, para si.

Ele não queria nascer, porque estava bem onde estava, ele não sabia que nascer era igualmente outra realidade de viver. Nem melhor, nem pior, inevitável, no seu caso pessoal. Tem-se sempre medo dos princípios.

À terceira foi de vez, obrigado pela natureza, expulso. Ultrapassou com todo o vagar a porta, deu de caras com o mundo. Na sua intensidade para quem acaba de sair das trevas. Depois do susto inicial e passadas todas as fases e experiências, fez-se um homem. Manteve sempre um carinho muito especial pelas palavras, memórias vagas dos sons que o adormeciam quando estava no útero de sua mãe.

Respeitou-as, deu-lhes novos usos e invenções. Chegou a escrever palavras com intenção de usufruto de terceiros. Foi feliz, porque esteve sempre atento e cristalino. Estabeleceu laços sociais, gerou filhos que se assombraram quando se assomaram à porta, tal qual ele, que o fez no dia zero mas já não se lembra. São memórias que logo se extinguem, cabeças de fósforo, não vá dar-se o caso de a primeira experiência dar a querer voltar para dentro. Uma impossibilidade técnica, mesmo que mãe e filho estivessem nisso de acordo.

Não se nasce em vão e ele, apesar de ter dias menos conseguidos, não quer senão continuar a viver. Não há melhor coisa que isso: uma luz que brilha intensamente e sempre.


quinta-feira, 21 de maio de 2020

MANUAL DOS SOLITÁRIOS




 

Anda Farrusco, vamos acordar as ovelhas.


O cão, enorme, abentesma naquela quase escuridão,  do tamanho de um homem bem medido, nem se mexeu. Ou antes, entreabriu o olho direito, o que estava mais próximo do dono e olhou-o desinteressadamente. Voltou à posição estática, de estátua marmórea.


A modorra das cinzas ainda quentes, espalhadas na lareira, a parecerem larvas incandescentes de um vulcão apagado – que faz as funções de fogão – meio mortiças, mal aqueciam o casebre de pedra granítica, tipologia daqueles lugares.

Ficar esquecido o mais que pudesse, era intenção do animal. Todos os dias pensava nisto, e nunca se realizava essa ambição. Um cão pastor não tem domingos nem folgas.


Uma enxerga, que com muito boa vontade poderá imaginar-se cama, uma mesa bamba, um par de cadeiras, um escano junto ao lugar do fogo e um pouco mais de nadas, são os adereços de cena. Não há candeeiros, só lâmpadas cheias, envoltas de pó, às camadas, tantas que fazem vezes de abajures.


No piso de baixo, a loja, os animais recolhem à noite e em dias de invernia rija quando o manto de neve cobre as ervas, os arvoredos, e quem por aí ande, seja animal,  de homem ou ruminante tresmalhado.  Em dias normais sirigaitam, comandados pelo pastor  e pelo Farrusco, por serras e vales, pelos caminhos e pelas veredas, eficientes cortadores-comedores das relvas, limpadores ecológicos das matas abandonadas.


Estas almas, habitantes quase espectrais numa aldeia sem outra gente ou bestas, perdida nas geografias, flanam sem novidade nem monotonia: caminham somente, e comem. Têm uma vida simples, sem rastos, sem sulcos no chão, somente passam, ao de leve pelos lugares e não-lugares, sendo difícil de destrinçar uns dos outros, porque são ambos espectrais.


Em entretantos do passeio, conversam entre si nos seus dizeres particulares. Há relatos de que se entendem, o homem, o canídeo, os componentes do rebanho. As ovelhas e as cabras não se queixam, o Farrusco é cão de poucas confianças e o pastor fala para dentro, com personagens suficientes para entreter uma mão cheia de palração constante, ele não consegue fechar a torneira dos pensamentos, sempre a pingarem. 

 

Cumprem os ciclos da natureza, não há maior paganismo, a primeira das fés. Eles são seres livres do tempo porque o cumprem.


Instalada a noite, os humanos e aparentados – o pastor e o farrusco-  aquietam os cansaços com o olhar suspenso no jogo de luzes do crepitar da lenha, o espectáculo privado a que assistem diariamente, sempre diferente. As bestas deixam-se quedas a ruminar na vacuidade: a sorte que lhes coube de não terem pensamentos, coisa por provar.


Por vezes, interrompendo o quase silêncio da ruminação, os animais bezoam, berregam, balem, tudo a dizer o mesmo: a forma do seu dizer, desvalorizada àquelas horas pelos habitantes do andar de cima, que o que querem é repousar das suas intermináveis caminhadas.


Espampara-se a porta do novo dia e o Ti Manel veste as calças por cima das ceroulas, que fazem a vez de pijama, camadas sobre camadas. Salpica os olhos na água gélida de uma bacia ao lado da cama, e  atiça o lume para aquecer a chicória, que ao café verdadeiro chega-se pouco, em dias festivos, quando vai à feira, na vila que dista para cima dos dedos juntos, todos contados de duas mãos de léguas, para negociar a produção de queijos amanteigados. Poucos, mas de   vénia, de pôr as papilas gustativas num frenesim de prazeres.


O Farrusco  toma o pequeno-almoço - se assim se quiser chamar - com o patrão, porque este animal, é como se fosse homem: falta-lhe falar e fumar, já que de beber ponham-lhe à frente umas sopas de vinho e pão, e é um consolo vê-lo  comer.  Sorve a chicória e partilha o pão besuntado com banha, para dar sabor e consistência ao conduto.


O Ti Manel atavia o alforge com um naco de pão barrado, uma bota de vinho tinto, um par de maçãs e, os dois – o cão ainda renitente - descem para soltar os animais, irrequietos também pelos apetites da fome e fartos de estarem juntos, naquele espaço bafiento e confinado.


 O dia mal esboça ténues luminosidades na linha do horizonte, que da aldeia fantasma não se alcança, porque está cercada pela serra, e porque à frente desta outra há, e a seguir outra se segue, e assim o que se vê à frente ou atrás, nada mais são do que serras, e o que é certo e para se dizer a verdade sem enganos para ninguém, é que a linha do horizonte é impossível de alcançar. Nunca ninguém o conseguiu.


Existe inclusivamente, numa grande biblioteca de livros raros, um cartapácio pesadíssimo, que regista  os homens que tentaram a proeza, heróis só por se terem lembrado disso. E esse registo existe, para lembrar aos outros – a maioria – que apesar de haver coisas impossíveis de atingir, vale a pena tentar, pelo simples facto de que é melhor do que ficar em casa a remoer arrependimentos.


Horizonte é o longe, muito longe e o Ti Manel a essa lonjura nem em imaginação. A essa linha imaginária, não se chega com as pernas, pelo que e apesar de andarilho, o pastor está impossibilitado por lei de chegar aos confins da linha do mundo. 


Outros melhor apetrechados de viaturas velozes, também não conseguem lá chegar. Quando se está quase, a linha escapa-se para mais longe, e assim sucessivamente, num jogo de apanhada em que nunca se apanha.


Relativamente ao Farrusco não se sabe se tem pensamentos filosóficos ou poéticos. Pensa-se que sim, porque a forma como por vezes olha para as ovelhas, dá a sensação de grande interioridade, e transparece melancolia, sinal óbvio de ser filosoficamente pensador.


Sendo um cão competente, e este é dos melhores, guiar ovelhas é tarefa fácil. Ele junta, conduz, reconduz alguma tresmalhada, e ao homem cabe apoiar-se no cajado e congeminar histórias e falatório interior, para tricotar o tempo. Assim que levam todos uma santa vida, comer, dormir, passear. Não há maior riqueza nos estados de alma de águas paradas.


Se alguém lhe perguntasse - se alguém de humano houvesse caído de trambolhões serra abaixo e aterrando nos pés do pastor- o que é que o Ti Manel tinha a dizer da beleza das folhas acobreadas que caiem das árvores ou das flores que renascem em mil cores, ou do verde  da erva dos campos que em viçosa, parece que entra pelos olhos adentro, ele simplesmente diria que não tinha nada a dizer sobre essas coisas. Porque isso não acrescenta nada à sua felicidade. Isso é a sua felicidade natural e simples, não a pensa, pelo que não poetisa.


A poesia é um fenómeno natural, como os nabos e as batatas doces, que cresce um pouco por todo o lado, dentro e fora dele, pelo que está bem.

 

E mais:  não conhecendo outros lugares – mais longínquos que essas léguas até à Vila - havendo a impossibilidade de uma comparação com o que nunca foi visto, nem se sabe existir, o lugar onde se vive , não é bom nem mau, nem bonito nem feio, é o único. É o nosso lugar.


A grandiosidade das serranias é suficiente para o Ti Manel, dormir sem insónias, porque de dia é para ter os olhos abertos e de noite tê-los fechados com as luzes da cabeça devidamente desligadas, para não incomodar o sono e poupar na energia dos pensamentos, que são bem-vindos, quando à luz do sol se apoia no cajado.


Aberta a porta do curral, as ovelhas saem aos atropelos por essa estreiteza, e espertas que são – apesar de andarem sempre encarreiradas - seguem o caminho da direita. Seguem sempre esse caminho, e voltam sempre a casa pelo da esquerda, dêem as voltas que derem ao dia. Convencimentos dos animais, que não se discutem.


Aquela hora o tráfego ovino entope a aldeia, o único momento estridente e desassossegado da jornada. Depois a tensão baixa, e suporta-se.

Nunca se altera a rotina nem há novos planos. Vai-se ao sabor do pé que puxa pelo outro pé, e do cheiro da erva fresca. Quando o estômago reclama, o Ti Manel encosta-se a uma árvore se as houver por perto, e come descansadamente, intercala o pão com golos de vinho, em todo o momento com o olhar no nada. 


Homens solitários alimentam-se de olhar para o nada. O cão, que na hora de trabalho não se distrai, aproveita o intervalo para espairecer, tem a mania que é um cão de caça, mais do que um sonho, é uma mania sua. Podia ser pior.


O pastor, por compaixão não lhe diz a verdade: com aquele peso e corpanzil, as lebres tomam-no por tonto, rabeiam-no, e à noite nos covis contam aos filhotes  deliciados com as histórias, como puseram o tonto do cão com a língua de fora, a esgotar-se que nem um louco atrás delas. Há dias em que ele quase consegue apanhar uma, e apesar de nunca a abocanhar, regressa feliz e inchado, para junto do dono. Deita-se a seus pés e olha-o num relance. Parece estar a dizer que poderia ter sido ser um excelente cão de caça.

 

Se o tempo está simpático – adjectivo que no campo não tem sentido - o pastor deita-se e olha para o céu. Olhos escancarados, absorvedouros de cor, cores com que depois forra as paredes da alma.


Não é inusual quando se deixa assim ficar de aspirador, que o farrusco cansado de ser parvo, armado em farejador, desperte o patrão com uma lambidela farta. 


Desperta-o e leva um pontapé, que umas vezes acerta e outras não, mas está-se em crer que o objectivo é mesmo não acertar. Está na natureza daquele homem ser impulsivo e bruto, mas isso é tudo uma representação, ele é boa pessoa.

Com isto e pouco mais se passa o dia, a trupe volta a casa noite posta, agora sem  conversas, silenciosa, com vontade de descanso.


 Estacionam o gado, atiça-se novamente o fogo,  Manel descalça as botas malcheirosas que não faz diferença, não há ninguém nas redondezas para se queixar, o farrusco não se descalça porque anda sempre de pé feito. Começa para eles a hora de fiar os linhos da memória, histórias reais e outras sonhadas inventadas que emergem à superfície, passadas, repassadas, no pente fino do silêncio. 


Recordações do passado, dos bailaricos na aldeia, das moças trigueiras e cheias, das festas e romarias, dos filhos, da sua ausência nas terras de um Norte muito ao Norte – doutores uns, que foram ao ganha-pão - da mulher que partiu quando estava a dormir (parece que já estava preparada de véspera: fenecer deitada, já esticada, para facilitar o trabalho às vizinhas, foi só enfiar o vestido pela cabeça e apertar os botões nas costas, rígidas, frias, mortas), lembrar com amargura a partida dos últimos habitantes.


Remói-se o álbum de fotogramas a sépia até que chega o sono. O farrusco leva vantagem, ressona desde que se instalou rente ao fogo, não tem que fazer contas com a vida, pode adormecer mais cedo.


“Mais um dia passou, e amanhã, se Deus Nosso Senhor quiser, continuo a olhar para o céu que ainda me falta azul para forrar uma das paredes.”

 

 

 

 

 

II

 

Indiferentes – passam a vida nisto: fingem que não se veem - o ti Manel e o farrusco ancorados no mesmo sítio, cada um no croché dos seus pensamentos íntimos, ao calor das brasas da lareira.


Terminaram o dia e as suas obrigações. Os acontecimentos, os actores e os espectadores deixaram vazias as cadeiras na plateia e saíram de palco. Apagaram-se os holofotes, os arrumadores limparam os sedimentos da poeira, recolheram-se.


O pano da noite cobre as pessoas e outros seres.


O ajeitar das madeiras e outros materiais, interrompem a espaços a escuridão do silêncio, começa o turno dos fantasmas reais, dos imaginários e dos mundos dos outros mundos. É o horário das almas penadas, das fadas, dos gnomos, da trupe dos elfos e as suas traquinices.


Fios de ideias esvoaçantes entram pelas janelas abertas, enfunam-se os cortinados, pisca a luz nos pavios das velas acesas, há correntes de ar que circulam nos interstícios das prateleiras dos arquivos pessoais.


“Onde andam os meus? O meu neto Manel, o meu nome, não lhe vi feições, saindo ao pai é parecido comigo. Pudesse eu mergulhar estes olhos, momentaneamente autorizados pelas cataras, a ver os seus contornos. Era uma felicidade”


“A esta hora já deve estar a dormir, amanhã tem escola. Lá é sempre mais tarde, e escuro, dias que não são dias, são noites constantemente.”


“Falta tanto para o próximo verão, falta tanto no que sobra de minutos. De nada me vale o tanto que não posso descontar em cruzes nos dias do calendário: este ano como nos passados não vêm para as festas da aldeia, aldeia manca de gente.”

“Não sou de meiguices, mas apetecia um bom abraço do meu Joaquim, com palmadas nas costas! Contentava-me vê-lo; e do Manelito estontear-me com as suas correrias inesgotáveis de criança.


“Estou a ficar velho, dá-me uma melancolia peganhenta.”


Era mais ou menos isto que o Manel pensava, com palavras mais suas, menos polidas.

 

O farrusco não tem descendentes emigrados, a sua família é o dono. Não rumina saudades – é um cão, não rumina - sem razão de as ter – o que é bom para a saúde – é um cão sem restrições na liberdade podendo roncar profundamente, que é o que faz.


Estas duas almas são a alegria deste cemitério de casas que não são mausoléus porque estão desabitadas de vivos ou mortos.


Só o vento trespassa os interstícios dos corpos e das pedras, nada mais que vento frio, reumático.


Depois destas evidências menos edificantes da velhice – a pieguice - o ti Manel, às portas do sono, deixa-se cair na enxerga, iniciando o despique sonoro com o fiel companheiro, que nenhum deles se ouve ao outro, pelo que todas as noites neste casebre perdido numa aldeia abandonada da serra, uma orquestra a duas vozes executa uma sinfonia privada para surdos.


Do outro lado das paredes, no exterior, os passaritos, muitos, estão entretidos no seu chilrear habitual, não ouvem nem querem saber da obra-prima que está a ser executada pelo pastor e o seu fidelíssimo cão, frustrado de caçador incompetente.

Nem o gado a descansar na loja os ouve, que seria a maior e a única audiência. Até hoje não se soube de um comentário de agrado ou desagrado sobre a qualidade das récitas, o que impossibilita uma crítica distanciada.


Essa ideia muito legítima de querer conhecer o neto, ficou a fazer pingue-pongue na sua cabeça, que nos dias seguintes, não fosse o cuidado e profissionalismo do cão, o gado ter-se-ia tresmalhado, inexistente o seu querer ao trabalho, pouco ou nenhum, revirando-se apenas nos pensamentos obsessivos da saudade.

Decidiu-se por uma atitude, para sair do impasse, que é sempre uma paragem forçada e esgotante.


Ganhou-se de coragem e começou por ensaiar mentalmente a escrita de uma carta, a construção das palavras para quem delas não é pedreiro, não faz paredes direitas. É necessário pensar muito seriamente antes de se arriscar a pegar na caneta. No entanto, arriscou, ele é um homem corajoso e não se lhe pegam os medos.

 

O texto simples dizia: “Meu querido filho, quando vens a ver-me? Quando te vejo eu a ti? Quero conhecer o meu neto tocando-o, que só assim se conhecem os seres. Dá-me notícias, e uma alegria. Teu pai”.


Ficou-se parco, por aí, foi mais do que suficiente. Dizia tudo, tudo o que há para dizer quando se choram saudades.


Numa ida à feira da vila, vender queijos dos bons e soltar a rédea às conversas engarrafadas e acumuladas de não ter ninguém com quem falar, pediu a um conhecido que pusesse a carta no correio.


Bebeu bagaço, a intercalar os convívios breves com conhecidos, cansou-se rapidamente do espalhafato da urbe. Muito barulho, muito movimento, é melhor o silêncio.


Voltou às rotinas da pastorícia e assim seguiram os fios dos dias nas conjugações de cores que escolhem, continuando o ti Manel nos seus afazeres profissionais, com o farrusco mergulhado em preocupações porque o dono não tirava os olhos turvos da ponta das botas. Estava a deixar de olhar para o horizonte. De noite pelo contrário, revirava-os para as telhas do tecto: parecia que rezava. Deve ser da velhice, recomeça-se a rezar quando se aproxima a prestação das contas.

A notícia que ele esperava, a razão dessa sua espécie de desvario contido na apatia, não se anunciava.


Sendo o lugar da aldeia póstumo de gentes, o carteiro aparecia pouco e mais por consideração ao Manel, que indo na direcção de outros ermos, em calhar, fazia uma paragem técnica para partilhar um copo de aguardente com figos secos, a fazer lastro para o destino seguinte e dar dois dedos de discurso, um ânimo para os dois que se gostavam genuinamente como amigos de toda a vida.


Nos dias que se seguiram ao envio da carta para o filho, o pastor perscrutava insidiosamente o carreiro que faz a bissetriz do casario bafiento, com os cotovelos repousados no beiral do casebre, esperançado pela vinda do amigo.


E ele que tardava!

 

..........

 

Os relógios deram as voltas que tinham que dar até o António dos CTT estacionar com estrondo a sua famel  (o melhor e único investimento da sua vida), em paralelo com a parede da casa do Manel, encostada portanto e a apontar para a saída, que há saída não lhe conviria grandes manobras. A direito, e mesmo assim quase de certeza ziguezagueando, para não haver incidentes.

Anunciou-se buzinando.


O cão ladrou competentemente – grande cão este - e o dono deu nota do acontecimento abrindo a porta com os nervos em rendilhado.


O António tira da ilharga da motorizada um pacote.


-Aqui tens Manel, uma encomenda da França.

-Achega-te homem deixa ver.


 Tremia-se todo, por dentro e por fora, tentando não mostrar fraquezas, inevitáveis fraquezas estas quando se ama tanto e não se pode abraçar logo ali.


Conteve-se em esforços de esperar que o companheiro se sentasse no escano ao lado do fogo, foi pela garrafa de aguardente, íntima dos dois, serviu, tomou pose do embrulho, levantaram os copos e emborcaram de uma vez. Serviu segundos, e abriu a encomenda.


Uma caixa negra, mais ou menos quadrada com um papel branco colado com fita-cola que dizia (depois de passar o escrito para as mãos do António):


 “Olá meu pai,

Estimo que te encontres bem, nós por cá, indo. Peça por favor ao António para ler esta carta, que tem prática de ler os endereços nos envelopes e é um entendido nas letras.

Ele explica-lhe tudo.”


O farrusco não deu opinião, caladíssimo.


Dizia a carta:


“ Meu pai, a vida nem cá nem em parte nenhuma é fácil, trabalhamos muito, mas é tão cara, que não se chega a juntar. E quando se arrecadam uns trocos, logo aparece uma nova despesa, que leva o tudo tão pouco que se tem.


 Ainda não é desta que o vamos visitar. As coisas estão a ficar difíceis. Os de cá nunca gostaram de nós, aceitaram-nos para fazer os trabalhos que eles não queriam e agora cospem-nos na cara e dizem coisas racistas. Deixam-nos ir ficando, sabe lá até quando e como.


Trespassam-nos (que quer dizer que nos cortam a alma como se nos espetassem uma faca) com olhares frios, virando a cara, como se fossemos seres desprezíveis, inconsistentes.


Agora que também lhes começa a faltar o emprego, eles descarregam os seus remordimentos em nós, nos emigrantes.


Não posso mesmo ir, se me ausento do trabalho um único dia, no seguinte já o perdi”.


Ti Manel ouvia a leitura feita pelo António, com os olhos num crucifixo pendurado, deslocado, numa parede imensa e vazia. (E o cão a pensar que o dono estava a ficar religioso por maluqueira).


“Senhor António, essa encomenda que envio ao meu pai, é um computador, já devem ter ouvido falar dessas máquinas, servem para tudo.

É fácil de ligar, mas se for necessário ajude-o”.


O Manel vai no terceiro, copo.


O carteiro, que se tem em conta de ser  um profissional das letras, pequena, grande, fina, grossa, rabiscada, formal - um decifrador de todas – rapidamente entendeu a maneira de dar vida à máquina.


-Vamos ligar, que isto é parecido com as televisões.


A caixa depois de aberta está cheia de botões, seguidos uns aos outros em filas, todos pretos. Sem desenhos, bonecos, letras ou números. Nada, só preto. A tampa é lisa e igualmente negra.


Um autocolante branco com uma seta a apontar para uma tecla. No autocolante está escrito: “AQUI”. António pressiona-o.


Dá-se uma estridência de piscares e sons. O farrusco ficou com os pelos desfrisados, ladra histericamente.


E depois, faz-se luz:


Aparece um miúdo de olhos profundos e fixos, com um cabelo em caracóis revoltosos e um sorriso imenso de vida que inunda a sua cara de ainda muito miúdo.


Ti Manel não o reconheceu à primeira mas encontrou parecença. Chorou, desarmou-se de homem em frente do amigo e chorou pela primeira vez em público.

 

A criança ou o boneco de criança projectado a cores no ecrã, respeitou a emoção e esperou que o avô acalmasse. Falou:


-Posso sair daqui e sentar-me no teu colo?


Entrou-se numa outra dimensão, sem nome, não conhecida. Um fantástico, uma irrealidade, um mundo paralelo, uma inverosimilhança. No entanto foi assim que aconteceu, nesta história verdadeira. E teve como testemunhas aquelas três almas que estavam presentes no momento da teletransportação  do neto para o colo do avô: uma das cenas mais emocionantes que estes três viveram nas suas vidas simples e sossegadas.


O velho, feito pasmo disse: “salta que eu agarro-te” e abriu os braços fortes enquanto o miúdo se lança no ares em voo picado de um universo a duas dimensões para este que tem pelo menos mais uma.


-Hoje não tenho escola, tenho o dia todo para estar contigo.

-Como se chama o teu cão?

-É o farrusco.

-É maior que eu.

-Pois é.

-Morde?

-Não sei, pergunta-lhe.


O miúdo estendeu-lhe a mão e o animal, ainda não refeito dessa experiência mística, procurou cheiros, e pôs o focinho ao jeito de uma festa, e mais, todas as que o miúdo quisesse.


-Vamos passear avô, leva-me a ver os teus lugares. Tens mais animais?

-Muitos.

-Vamos soltá-los para nos fazerem companhia.

-Vamos.


O Manel pôs a criança às costas, deixando o António atónito a olhar para os dois com o copo na mão, e desceram as escadas seguidos do familiar.


Hoje refresca porque são inícios de Outono e o avô assegurou-se que o catraio estava confortável. Ocorreu-lhe nesse gesto simples quase imerecido de referência, que há muito tempo não protegia ninguém. Sentiu-se bem.


No borbulhar incessável dos pensamentos, emergiu uma lembrança antiga, em que outra criança, num daguerreótipo a sépia, veste uma samarra e um homem jovem se curva para lhe ajeitar a gola de pele de raposa. Reconheceu-se a si como filho, reconheceu o seu pai, e nada disso existe agora, materialmente, a não ser nas  feições de uma fotografia antiga.


-Tens tantos animais aqui fechados. Como se chamam?

-Ovelhas.

-Todas?

-Só ovelhas. Não têm mais nomes.

-Para que servem?

-Para darem leite para os queijos, e lã para fazer camisolas quentes.

-Posso tocar?

-Podes


Abriram a cancela da loja e os bichos foram saindo, o miúdo com o braço a fazer de portagem foi-lhes tocando enquanto saiam na sua lentidão ovina habitual, enfadonhas que são as ovelhas.


O cão comanda a procissão, fecha-a o velho, com o neto às costas, cordeiro de deus.


Caminharam-se serra acima, e foram pondo a conversa em dia: os seus atrasos, as novidades e as curiosidades. Houve histórias contadas de avô para neto, e outras intimidades. Embrulharam-se, distraíram-se, gozaram-se, na troca das palavras.


Caminharam sem conta dos passos que deram, distraidíssimos do passar do tempo e regressaram naturalmente para casa quando teve que ser.


-Estou cansado avô. Apetece-me dormir.

-Queres ficar na minha cama? Ponho mais uma manta? Está fresco.

-Não posso avô, eu só estou na tua imaginação que ao veres-me na imagem do computador, reinventaste todo o dia que passou.

-Isso não é possível, acabo de te tirar das cavalitas, ajudaste-me a pôr o gado no curral! Dizes que não te toquei se eu te sinto?

-Não me tocaste avô, mas sim, é verdade que me sentiste.

-Não te preocupes, amanhã se quiseres voltamos a passear juntos, e se me deixares, desta vez, levo eu o cajado na mão.

 -Agora carrega nesse botão e vamos dormir”.

-Até amanhã avô”.

-Boa noite meu filho, dorme bem.

 

 

III

 

“Agosto é o melhor mês do ano.


Gosto de todos, mas este, para mim, é o mais bonito dos nomes com que baptizamos as fatias do tempo.


Agosto é o mês dos campos posto em sossego, da família que nos visita, das festas em honra da nossa padroeira.


O Farrusco e eu andamos desvairados nos preparativos das festas da aldeia. O Farrusco é cão, mas é o meu familiar mais próximo. Os outros estão lá fora (porque raio se diz lá fora?), e é por essa razão que a comissão organizadora das festas da minha aldeia só tem dois elementos.


Não há mais habitantes, e com os fantasmas não se conta, que eles para mexerem um dedo, está quieto! Só estorvam.


É uma trabalheira doida, só uma pessoa e outra que é metade de pessoa, mas a vontade é muita e somos profissionais nos festejos, sentimentais portanto.


Este casario é mais um lugarejo acanhado do que uma aldeia, mas tem igreja e escola, o que é fundamental para a sua dignidade de aldeia, apesar de não terem uso.


Como somos poucos, o farrusco e eu – mas precavidos - antes de pôr mão na obra, discutimos longamente em sede de assembleia, a estratégia do alindamento dos exteriores, o alinhamento das cerimónias religiosas e a contratação dos artistas, tudo com tempo, haja a necessidade de rectificativos de última hora, antes da chegada dos convidados.


Decidiu-se que no que respeita aos confeti para engalanar a rua principal, eu penduro-os e o farrusco lambe a cola (tem andando com um olhar vago nos últimos dias, mas não deve ser nada!)


Quanto às roupinhas da santa, está tudo controlado. Ela não é de grandes exigências, pelo que vai com o manto rosa pálido das últimas vinte e três procissões. Não estamos em tempos de esbanjamentos. Limpinha e honrada, o povo aceita.


Como estamos parcos no orçamento, as despesas sempre maiores que as receitas - soubesse eu escrever números num papel e dava a volta à coisa, mas assim de cabeça é natural que falhe - este ano não temos banda para o bailarico.

Não há problema: o António dos CTT ajeita-se na concertina e faz o concerto de graça (nunca é de graça porque ele tem muitas securas e desforra-se na aguardente).


Tenho por aí um bode velho, é um cabrão de um bode – Deus me perdoe – que está destinado às bifanas. Tivesse sido simpático que assistia aos festejos, assim vai fazer parte dos festejos fatiado no pão.


E acho que está tudo tratado. Estamos prontos para receber as nossas famílias.

Espero que venham a caminho.


O farrusco parece mais nervoso que eu (e ainda por cima com a língua colada no palato).


Tenho quatro foguetes guardados da última festa (vai para três anos), que estavam cheios de verdete, humidades acumuladas na loja de estarem ao lado das batatas. Pus ao sol ontem, pode ser que sequem.


Amanhã, quando os meus chegarem, vão ser recebidos a foguetório com o meu assistente a uivar, raio do cão, se fosse aos concursos podia ter sido cantor!


Será que eles vêm?


Puta de vida esta, que os obrigou a partir!”

 

 

IV

 

Estava todo farruscas. O cão assustou-se claro – os pelos ficaram híspidos – e ladroou sem pedir autorização aos pulmões.


- Sou eu farrusco – disse o ti Manel.


O bicho reconheceu a voz do dono e acalmou o pranto. Quanto aos preparos em que este se apresentava não chegaria lá sem explicações mais convincentes. E ele era um canídeo inteligente.


O estouvado do pastor – dera-lhe para ali – cobria-se com uma saca de serapilheira a fazer de casaca, cravejada a castanhas e nozes, com apontamentos de folhas vermelhas. Enfiada na cabeça, uma carapuça da mesma cor.


Cada vez que ele meneava a cabeça, com um guizo a fazer de berloque no carapuço - a dar e dar - a barba, já de si branca, soltava uma espécie de poeira nívea.


O sacana (cogitações do cão) tinha a cara e as mãos chamuscadas de preto. Preto?


- Farrusco, estou de Pai Natal.


O cão, que era o único indivíduo naquela casa que não se chegava ao bagaço, compreendeu o personagem que o dono estava a encarnar. Agora em preto, nunca tinha visto!


Como viviam num sítio ermo era possível que estivesse desactualizado, e guardou essa estranheza só para si.


- Hoje é a noite mais bonita do ano.


- E vamos comemorar como manda a tradição: em família.


O cão que apesar de ter nascido na condição de cão, tinha o seu tino próprio, ficou com dúvidas relativamente aquela afirmação.


A família eram os dois, não vislumbrava portanto motivos mais fortes para que a noite fosse diferente de todas as outras que o ano desfia, já que a companhia era sempre a mesma.


- É uma noite especial, em que a paz e a harmonia baixa ao mundo, a noite do verdadeiro amor - o velho parecia um filósofo.


A rotina desse dia foi a receita habitual: madrugar, pastar o rebanho e os sonhos, e voltar para casa para a companhia do braseiro.


Foi tudo igual mas era possível que o dono, para estar com esta conversa, tivesse abusado na dose do costume. Ou então, outros sentimentos que desconhecia por ser um animal quase irracional, causavam aquela atitude desconforme ao normal procedimento do correr dos dias numa aldeia do abandono.


- Convidei o Zé da mula, que também está casado com a solidão, para a janta.

-Este ano vai ser uma alegria nesta casa.


Agora que olhava melhor, o farrusco viu que a casa estava num preparo diferente. Na lareira - um de cada lado - pendurados dois peúgos velhos, com buracos. A mesa estava posta – com garfos e tudo - e um coto de vela enfiado no gargalo de uma garrafa bojuda e verde, a fazer de marco geodésico.


O Zé da mula vivia do outro lado da serra – mais de uma hora em bom andar – e era um homem - como todos os solitários - contido nos discursos: não lhes dá uso no dia a dia. Quanto ao resto o Zé era igual aos habitantes daqueles lugares: resistente e sorumbático.


Caído o pano da noite, veio acompanhado da dita. O farrusco foi fazendo as honras da casa, rodeando e cheirando insistentemente a híbrida, pondo-se a jeito aos humores instáveis da mula que era um ser de carácter retorcido. Teve sorte porque ela também estava imbuída no espirito da data, e não lhe passou “cartão”.


Ao Zé que via as coisas com uma espécie de nevoeiro permanente em frente dos olhos, pelo que não era esquisito nas apreciações, não lhe passou desapercebida a diferença e não deixou de comentar a indumentária excêntrica do amigo:


- Oh Manel pareces o Baltazar, o rei mago.

- O Baltazar? Porque dizes isso?

- Porque estás disfarçado de preto.

- Então não sou o Pai Natal?

- E porque é que havias de ser o Pai Natal se estás pintado de preto?

- Não era a cor dele?

- Não, essa era a cor do tal do Baltazar. E o Pai Natal não tem nada a ver com essa história, é um gajo do Norte, enquanto o menino Jesus e os personagens todos do presépio, viviam lá para baixo, no deserto.

- Estás a mofar comigo.

- Não estou nada. O pai Natal é um gajo gordo e tem um carro puxado por renas e faz a entrega das prendas. O Jesus, nasceu numa manjedoura- ou parecido – e recebeu a visita dos reis magos, o branco, o amarelo e o preto.

- Onde raio terei ido buscar essa ideia? Olha que se dane! O Natal é como um homem quiser e eu quero que seja assim.

- Até ficas bem.

- Vamos mas é limpar o canal, preparar o estômago para as rabas e o bacalhau.

- Boa ideia Manel, venha daí um brinde.


E começaram nisto, que não se sabe onde acaba, mas sendo dia de festa é de esperar prolongamento.


O farrusco já habituado a ver o dono assim vestido, deixou-se dormitar ao lado da lareira.

- Meu amigo, a comida está pronta, vamos jantar. Tu também farrusco, hoje comes connosco.

- Oh Manel, o que é aquela caixa preta pousada no canto da mesa?

- É o meu neto

-O teu neto? Não o vejo.

- Mas vais ver.


O ti Manel serviu o bacalhau com as couves e as rabas, numa pirâmide a extravasar dos pratos. Comeram calados como fazem as pessoas que estão compenetradas na comida e não têm assunto.

Terminado o repasto, disse o Manel:


- Agora vamos falar com o Manelinho que está na França.

- Como se não tens telefone?

- Ele está dentro da caixa preta. Foi o meu filho Joaquim, que me mandou pelo correio. Já experimentámos e funcionou. Levanta-se esta tampa, carregamos neste botão e o catraio começa a palrar.

- E podemos fazer perguntas e tudo?

- Não, diz sempre a mesma coisa. Mas não faz mal, é bom na mesma.

O Zé da mula desconfiou. Olhou para o cão deitado aos pés da mesa, e este confirmou.

- Estou vestido assim para lhe fazer a surpresa. Os miúdos acreditam nestas coisas.


Por magias que as há, ou outros mistérios por conhecer, apareceu-lhes em cima da mesa um miúdo pleno de vida, aos pinotes e tropelias num jardim enorme com uma estranha torre de ferro cheia de arrebites por cima da sua cabecita.


Fartou-se de falar, e o avô, nas patetices apimentadas de sentimento, que quase todos os avós fazem para os netos, abanou o guizo pendente do carapuço, soprou o pó branco das barbas, ensinou os enfeites na saca de serapilheira.

Estava feliz, era uma grande noite de Natal.


O Zé da mula, perdido de família de pequeno, entrou na brincadeira e divertiu-se à grande. Fartou-se de dizer adeus e desejar as Boas festas. 


O cão farrusco, não apanhou nada: estava estacionado nas traseiras da máquina e só via um quadrado preto pelo que desistiu de ser solidário.


Quando por artes a imagem desapareceu, os dois velhos sentaram-se de novo e encheram um último copo de aguardente.


Depois disso o Manel ficou melancólico e ressonou. O Zé ficou embriagado e ressonou.


No dia seguinte voltaram à sua vida. Tinha terminado o Natal numa aldeia remota e deserta de gentes.


Boas Festas vos festejem!

 

 

V

 

Passou mais um ano, o tempo não dá tréguas, casmurro e embestado, sempre em frente sem paragens para ganhar fôlego.


Enlameado até a décima quinta casa, se não for mais, o pastor e dono do cão farrusco, por lá continuam serrania acima, serrania abaixo, pastoreando o seu rebanho de cabras e ovelhas.


O farrusco, cada vez mais velho - a vida de cão-pastor obriga a exigências do corpo - no seu papel de cão,  segue fielmente o dono, apesar de guardar cada vez menos seja que propriedade móvel (o rebanho e o patrão), seja que imóvel (a casa na aldeia) forem. Deseja que o deixem em paz, um despegamento generalizado nos cães velhos. Ainda assim continua com aquela mania que não lhe sai da cabeça, sendo um mastim, que é um excelente cão de caça. Também já não vale a pena chamá-lo à razão.


António o carteiro, aquele que tem uma Famel quase tão velha quanto ele, continua a distribuir cartas, agora raríssimas, desconsiderando-se para a contagem, as dos bancos e as das contas para pagar. António continua a gostar bastante de aguardente, e como em cada paragem nas raras casas ainda habitadas por espectros-gente solitários, assume para si o ritual da aceitação do vinho como sangue de cristo, agora transformado em aguardente, não recusa  convite para molhar o bico, acabando o dia em percursos de gincana com a motorizada. Mas esta tem poderes, parece ser gente,  quase que se conduz a si própria, e leva em segurança o dono para casa.


Tudo neste pequeno mundo, se encontra num momento de normalidade, tudo menos as árvores que cada vez há menos. Este verão mais uma razia. Daria até pena ao pastor olhar para as serras e vê-las despidas, anémicas terras cinza-acastanhadas. Daria pena se ele a tivesse, mas não é homem para sentimentos nem emoções à flor da pele.


Pode dar-lhe uma volta ao estômago ao ver o estado das coisas, mas fica arrumada a revolta abafada até a próxima vez que olhar, muito provavelmente  amanhã, não tem outra paisagem para pousar a atenção, a não ser as interiores, que são monótonas e repetidas.


Aproxima-se o Natal. O tempo é um estonteado de sucedimentos: começa um ano e já se está no final desse com os pés virados para o seguinte,  para aqueles que não se ficam no que acaba e ganham direito de passagem a mais um ciclo a juntar às suas biografias.


Este Natal, como os anteriores, esperava-se  cenhudo, passado a custo, a olhar para o borralho, mudo, não fosse este ano a novidade de a aldeia ter novos habitantes.


Tantas e tantas vezes que o pastor já tinha pensado nisto, e não era demógrafo nem sociólogo. Se há tanta casa vazia não fazia sentido não serem ocupadas com sorrisos e choros e calores de gente viva. Pensava-o encostado de costados a um granito ou com os queixos suavemente pousados no cajado, perscrutando esses assuntos, a dactilografar para si um jornal imaginário da vida inexistente da sua aldeia e das cercanias que compõem toda a lonjura conhecida do seu mundo.


Foi desta. Uns senhores da capital, que ele nunca virá a conhecer a menos  que haja uma desgraça e eles venham lá de tantos quilómetros longe, dar-lhe um abraço e dizer-lhe coisas que não entende, e ele ao lado deles enquanto outras pessoas também estranhas seguram microfones nas mãos e filmam os senhores e o pastor crédulo e bovinamente pacífico, apesar de se lhe ter abatido uma desgraça, que não se espera aconteça.


Decidiram os senhores de Lisboa enviar com alarido e foguetório duas famílias de refugiados. Daí o circo de gente com fastio em bons carros novinhos em folha, e o regimento de captadores de notícia por medida. Um teatro que acontecerá muito em breve que ele nem sonha.


Quando o António carteiro lhe deu em primeira mão a notícia (sendo carteiro sabe tudo primeiro do que os outros), ele não sabia o que queria dizer a palavra “refugiados”, mas não o referiu para não dar parte de fraco.


Guardou a palavra na cabeça e quando o filho emigrado lhe telefonou, perguntou o seu significado. Ficou ao mesmo tempo contente e preocupado.


Contente porque ia passar a ter alguém a quem pelo dar os bons dias e as boas noites quando atravessasse a aldeia com o rebanho e o cão travesti (pastor-caçador, caçador-pastor); preocupado, porque o filho lhe disse que os refugiados não são gente de confiar. Vêm de cara baixa, olhos no chão, é tudo falinhas mansas e bons comportamentos, ensaiam as primeiras linguagens gestuais, e quando as pessoas descontraem a acharem que têm novos amigos, tomam conta de tudo e praticam o mal.


O velho pastor habituado à sua liberdade de caminhante em estado permanente, nunca teve a necessidade de ter posse de terra, considera-a toda sua, porque a pisa. E esta também é  dos outros que lhe dão outras utilizações, e desde que não haja muros e as possa atravessar usufruindo da liberdade dos passeios, está garantida a sua sensação de posse. É essa a aproximação mais fina do seu entendimento sobre  “ser senhor do mundo” sem ter nada à sua conta.


A pensar assim, acha ele, não havia motivos para desconfiança: havia muita terra e muita casa livre, dava à vontade para todos.


Quanto ao fazerem mal, era uma coisa estapafúrdia: gente que foge ao mal com falta de paz não vai fazer mal a quem disponibiliza um abraço caloroso. A menos que sejam malucos, mas os senhores de Lisboa que sabem tudo muito bem, com certeza que lhes farão todos os testes de maluqueira antes de os enviarem para qualquer lado.


Pelo sim, pelo não, o  Pastor convocou para uma assembleia municipal o António da Famel, a mão mal cheia dos espectros viventes nas redondezas, e incumbiu  o farrusco como olheiro, para discutirem e votarem um plano de acção para a vinda dos tais refugiados.


Na casa dele, amanhã na hora da janta. Vamos ver se o António ainda chega em condições de entender o teor da assembleia, vamos ver no que no que vai dar o decisivo camarário.


Entretanto o pastor desceu à loja da sua casa, para ver os níveis da pipa de aguardente e encher um par de garrafas. A noite de amanhã iria ser longa. O farrusco ficou esparramado em frente do fogo  quentinho da lareira, a sonhar com perdizes.


Vamos ver no que isto vai dar. Os da cidade têm cada ideia!  Para ele é uma coisa boa,  vai ter companhia para o Natal.


Será que eles gostam de bacalhau?

 

 

VI

 António compareceu, a gaguejar bastante e com ideias enevoadas, mas compareceu. O Zé da Mula também veio, mas esse é sempre do contra. A acta da assembleia foi registada na memória do farrusco, que todos os intervenientes tratam como se fosse gente com focinho, mas que sendo cão tem uma memória que não é das melhores. Quando saíram já ele se tinha esquecido, o que não importa, estavam todos de acordo.

Na aldeia não faltam casas devolutas, são praticamente todas. Decidiram dar a uma família a casa e a horta do João Abrenúncio, falecido sem descendência conhecida, há cinco anos. Para os outros ia a casa da Maria das Dores, a eterna pastorinha (como tinha sido trigueira e metediça aquela rapariga, lembrava-se bem o Manuel), que morreu farta de homens mas estéril.

Para além de todos terem o seu quinhão de terras para subsistirem, o Manel resolveu que dois dias na semana o seu rebanho seria pastoreado pelos sírios. Alguém lhe disse, ou ouviu, que nos desertos onde eles vivem a sua principal actividade é andar com gado de um lado para o outro, sem parança, nómadas a vida toda. Vamos ver no que dá. Se eles derem conta do recado o Manel vai aproveitar esses dois dias de descanso para não fazer nada. Pode ser que goste e se habitue.

 

 

VII

Chegam hoje.

O Farrusco, velhinho que anda, reumático, só abana a cabeça, da direita para a esquerda e depois o contrário, seguindo os murmúrios do dono, que também anda de um lado para o outro, no espaço reduzido da casa que partilham. Abana a cabeça o cão para ver uma sombra, um espectro, separado ele do dono pelas cataratas, um distanciamento dos olhos, dos olhos velhos, a que é alheio e não queria.

- Chegam hoje Farrusco, os da Síria. Ouvi dizer que obedecem a um deus diferente. Sempre quero ver se vão frequentar a missa do padre Jerónimo!

O cão, que do longo convívio de anos com o pastor já lhe aprendeu a língua e as suas semânticas, não valoriza. Ele é um bom homem. São incertezas e medos. Ele vai dar-se bem com os emigrantes. É um coração mole.

-E como os vamos entender? Eu não percebo a língua deles, eles não percebem a minha, e tu, surdo como as mulas, de pouco proveito como tradutor, como vai ser?

O cão, a ficar cansado da conversa, já nem a cabeça mexe. Deixa-se em posicionamento estático, frente ao fogo acolhedor da braseira, embalado pelo som do crepitar dos galhos de madeira perfumada que ardem no seu vagar. É o seu momento meditativo.

- ouvi dizer que são bons pastores. Menos mal. Mas as cabras e as ovelhas não são as mesmas. São de nacionalidades diferentes. Vamos ver. Tenho dúvidas.

- e se os animais não os entendem?

-tenho dúvidas e tu, meu malandro, não acrescentas opinião. Julgas que eles vão trazer um cão com eles? Os cães, na miséria que é aquela guerra, comeram-nos. Deixaram de ter cães, e gatos e galinhas. Só ficaram com os ratos, os cabrões mais espertos deste mundo. Resistem a tudo, não se deixam ensinar para lhes darmos uma utilidade que seja. Estão aqui para ocupar espeço. São como são: oportunistas.

O Farrusco ouviu falar de ratos e automaticamente pôs as orelhas em estado de alerta, ou seja: empinou-as, mais uma vez a fazer-se de cão caçador, a grande frustração da sua vida. Logo percebeu que era uma conversa, monólogos do dono, e regressou à sua atitude contemplativa.

O pastor enquanto presidente da junta de freguesia tinha a obrigação institucional de receber os refugiados, o que obedece a um regulamento próprio, com as suas regras e preceitos. Acontece que era a primeira vez que os recebia e ele não conhecia esses preceitos.

Sendo tecnicamente analfabeto e presidente de uma junta deserta de gente, não sabia dos procedimentos de acolhimento oficial. Nunca os leu, ou seja, nem podia, quem o devia fazer e com explicações, era o carteiro, o da famel, seu correligionário de partido e intérprete oficial do Manel em todos os assuntos que envolvessem as escritas e os escritos.

Acontece que o António carteiro foi acometido de um achaque inesperado e começou, de um dia para o outro, sem aviso o que é pior, a tremer das mãos. Ele há cada coisa! Um homem saudável, mexido, sempre de um lado para o outro, de motorizada, a apanhar bons ares, convenientemente hidratado, dar-lhe uma doença. Ainda por cima mecânica. Há injustiças que não têm explicação.

Nem de motorizada pode andar, com as tremuras estaria sempre a acelerar. Um perigo.

Essa sua recente incapacidade de estar sossegado com as mãos, dificulta a leitura de textos, sejam eles quais forem. Nem textos nem coisas comesinhas, como levar o copo à boca, gesto fundamental. O homem tem feito as suas tentativas em casa, mas a coisa não vai de feição. Ler nessas condições adversas, levam a que o homem salte as linhas. Não que queira mas os olhos também ficaram em pingue-pongue. Lê uns farrapos de frase numa linha e completa com outros da linha seguinte. Saltita. De uma linha para outra. E quanto mais nervoso fica com a inverosimilhança do que acaba de dizer lido em alternância de linhas do documento em que está concentrado, mais desinquietado fica, lendo por sua vez pior que a anterior. Chega a criar histórias estapafúrdias, coisas que acontecem aleatoriamente, ainda assim maldades que não se fazem a um homem que dedicou toda a sua vida ao transporte das palavras, de um lado para o outro. Este homem devia ser devidamente respeitado, mas não, transformou-se num transmissor de equívocos. E os equívocos por vezes, são pior que os boatos.

Certo é que já não está em condições de desempenhar as funções de carteiro. Reforma é que era, mas se se fecha em casa é um pavio. Vai desta para melhor num estantinho, e o grande problema é que ele tem dúvidas que se vá desta para melhor. E se for para pior? Certo é que se se fechar em casa, entra-lhe a humidade da tristeza, de tudo e de nada, e mirra-se de um dia para o outro.

O Manel sente-lhe a falta, são grandes amigos, como irmãos. São os melhores comparsas da bebida. E não se pense que isso não é assunto sério e importante, saber escolher os companheiros da bebida.

-só se pedir ao Zé da Mula, mas o gajo é surdo como o camandro. Só para perceber uma palavra minha leva meia-hora a apanhar-lhe jeito. Fora o tempo que depois perde a repetir, em eco, para se assegurar que ouviu bem.

-a ler ainda é pior. Faz perder a paciência a um santo. Parece que junta as letras com cola. Até dizer uma palavra completa e uma frase que faça sentido, um gajo adormece.

- Farrusco, temos de ir à vila, pedir ajuda ao senhor Presidente.

O cão deprimiu logo ali. Ir à vila era um mal que lhe faziam. Não se entendia com esses cães, todos janotas, a passearem-se à trela ao lado das donas, a sentarem-se no café a babarem por um doce, uma migalha. Olham para ele de soslaio, arrogantes. Havia de os ver no campo, uma camélias, a saltarem, em bicos de patas, incomodados com as asperezas do terreno. Nunca viram à frente uma ovelha na vida. Havia de ser lindo, cruzarem-se com um boi.

Hoje vou fingir-me de morto, a ver se ele não me leva.

Manel bem insistiu mas o cão fez-se de peso morto e ele não o conseguiu arrancar de casa.

Foi sozinho. Trouxe decorados os preceitos que lhe deu o senhor Presidente do Concelho, homem das políticas, com assento na Assembleia da Nação. Amigo tu-cá, tu-lá , dos poderosos deste país e como tal grande tribuno, paleio não lhe escasseia. À mais pequena oportunidade, desata numa catarata de palavreado, até dá a sensação de algum possuimento momentâneo por um espirito atormentado que ande por aí (eles andam no ar, nós é que não os vemos), desfiguram-se-lhe as faces, o olhar vidrado, retorcidos de boca. Até chega a assustar, não o conhecesse Manel de pequenos, da pouca escola que fizeram juntos, ainda o senhor Presidente tinha um nome próprio e era tratado por tu e era pobre como todos os outros, e por isso, humilde.

 

 

VIII

Entidades oficiais nem uma. Tinha rebentado uma crise em Lisboa –  os bancos, nada de novo - e os refugiados já não davam audiências. Na viagem foram acompanhados por uma assistente social de Lisboa que fez o curso como terceira opção e felizmente, menos mal, conseguiu um emprego na função pública, um emprego para a vida. Veio também um jovem jornalista do jornal da região. Sapatilhas brancas e calças brancas. Se para o campo se vem nesses preparos!

Das entidades locais marcaram presença o Manel, Presidente da junta, com a gravata do casamento num laço mal amanhado, um bacalhau que lhe ocupava o espaço do peito, a cair como um lençol na proeminência da barriga; o António com as mãos nos bolsos para não se denunciar, enquanto representante das forças vivas produtivas da edilidade, assistente operacional dos correios, assim se chamam agora; e o Zé da Mula, desempregado de longa duração, de nascença, mas de bem com a vida porque o que lhe dá a paz é o ar fresco do campo e os cheiros das faunas viçosas, que não perde uma oportunidade de convívio, homem muito sofredor dos males da solidão forçada. O pároco, dizem que está rico,veio benzer e aspergir a cerimónia, mais interessado na recepção gastronómica do que na recepção de refugiados, ainda por cima hereges, adoradores de outro deus: febras e couratos e tinto com fartura, não sabendo ainda nenhum deles que os sírios, adoradores de Maomé, não tocam nessas iguarias.

Os sírios vieram numa camioneta e foram despejados no largo da aldeia. Gente seca, assustadiça, marcados pelos acontecimentos, envelhecidos, comidos. A assistente social veio apresentar-se ao Manel. Trazia um dossier com formulários debaixo do braço. As assistentes sociais para todo o lado onde vão levam um dossier com formulários. Disse ao Manel que enquanto representante da autoridade autártica devia assinar este e este, assinalando os respectivos. O Manel, tremido, lá conseguiu.

Manel tinha discurso. Na semana que antecedeu o acontecimento, leu e releu vezes incontáveis a pedir anuência do Farrusco, que lhe ouviu palavras que nem conhecida e como tal, só pode estar de acordo. Desde que os sírios gostassem de cães.

Como já tinha visto, improvisou um estrado com umas paletes sem uso. Um discurso projecta-se mais longe se proferido nas alturas e Manel que não é um homem alto, considera que a ocasião – o acontecimento mais importante na aldeia, desde os festejos de verão – exige um sentido de Estado. Elevado portanto.

 Apura a voz, limpa os cantos da boca com um lenço amarfanhado que tirou do bolso traseiro das calças para onde regressa e discursa:

 

Senhoras e senhores,

somos um povo de braços abertos, fraterno (que raio significará isso? O Presidente põe-me a ler cada coisa!).Damo-nos bem com todos desde que venham por bem (via-se que o discurso tinha a mão do tribuno). Também nos receberam da mesma maneira quando partimos à descoberta do mundo novo. Não queremos deixar dívidas por pagar e hoje vamos acolher-vos nas nossas casas. Aqui vão ter paz e um clima agradável. As pessoas não são violentas e tudo se resolve com boas falas, desde que conversem tudo se leva a entendimento. Desejamos as boas-vindas e que sejam felizes. Comam e bebam, que é o que se leva da vida.

 

Veio-lhe uma lágrima ao olho. Agora andava assim. Qualquer coisinha, lágrima. O discurso foi pequeno mas significativo. Cuspiu para o chão e acamou pivoteando o pé direito. Calçava os botins que levaria no caixão, a maior caminhada da sua vida. Neste caso, da sua morte. Apertavam-lhe os joanetes, mas depois de morto não o incomodariam com certeza. As cerimónias oficiais obrigam a sacrifícios. Para ele, são o calçado, todo o aperta.

O Zé aplaudiu como se não houvesse amanhã, a arfar para o cigarro no canto da boca a ver se ele se acendia sozinho, andava sempre nisto, a tentar coisas impossíveis. O António gritou “vivas” para não dar parte de fraco, mantendo as mãos no resguardo dos bolsos, parece que tinha a doença dos nervos, todos descontrolados, disse-lhe a senhora doutora, a que vai ao centro de saúde da Lapa. O padre Joaquim, irrequieto para fazer o brinde do sangue de Cristo transformado em vinho e tinto de preferência, na expectativa de finda a cerimónia para se agarrar ao copo, benzeu enviesado a audiência e salpicou-os, um por um, de água benta, dando-os por certificação própria por purificados, prontos a recomeçarem a vida, do zero, limpos e sem pecados.

Os refugiados, não perceberam nada do que foi dito, nem falaram. As mulheres estiveram todo o tempo com a cara tapada e o Manel desconfiou que aquilo era do frio. Se vieram do deserto e o deserto segundo lhe disseram é um local sem sinais de vida nem flores onde o sol bate de chapa dias intermináveis a fio, o clima da serra para eles deve ser agreste. Logo se habituam.

Terminada a cerimónia, locais e forasteiros dão início ao repasto. Os sírios não se mexeram de onde estavam, encostados a nada, porque além das suas figuras de fantasma, nada traziam consigo. Apesar da insistência dos anfitriões e mesmo com uma tentativa em bom latim antigo do padre Joaquim argumentando que eles vinham de um país muito antigo, dos berços de toda a humanidade, não os tirou de onde estavam. Ou também não entendiam o latim antigo, ou então eram tímidos.

A coisa não estava de feição, eles não deram sinais de entender o latim e o padre tinha esgotado as línguas que conhecia. Nestas circunstâncias, a assistente social foi reler um pequeno regulamento, que fazia o preâmbulo do dossier, a ver se dizia alguma coisa acerca das línguas. Se eles tinham que assinar nalgum sitio. Não havia nada que indicasse que eles deviam assinar. O sistema por vezes é omisso, ou esquecido. Tinha-se esquecido neste caso de considerar no regulamento uma alínea sobre as línguas e o correspondente formulário em que o signatário assumisse a sua responsabilidade cível sobre a omissão do entendimento pelo confronto de línguas estranhas.

A assistente resolveu-se por abordar a febra, ou seja, tinham saído muito cedo de Lisboa e estava cheia de apetites em atraso.

Animados pela dita e o jorrar freso e revigorante da fonte de vida que pingava da pipa, a tarde amaciou, e os convidados estranhos acabaram por comer alguma coisa. Batatas, azeitonas com fartura, pão e água. O Manel ficou de olho neles.

E terminou o dia. Os novos habitantes da aldeia foram alojados em casas há muito vazias de gente e outros seres. O padre Joaquim deu boleia ao António e o Zé da Mula, animadíssimo disparou serra acima a cantar cantigas brejeiras. Disparou não foi bem assim: ziguezagueou. Traçando a bissetriz de um ponto ao outro e ficando-se nessa intenção, já que para chegar ao destino levou o dobro do tempo da vinda, mas agora era a subir.

Quando chegou a casa, Manel estranhou não ser recebido pelo Farrusco. Estava velho. Caiu em si: ele também estava velho. Invadiu-se de uma profunda melancolia, tirou as botas e deitou-se no chão abraçado ao cão. Este, nos indícios de sentimentos que os cães têm talvez idênticos aos nossos, sentiu felicidade. Adormeceram.

 

 

IX

O tempo passa sem se dar por ele, mesmo nestes sítios ermos, esquecidos de deus e do diabo, onde os poucos habitantes ainda assim vivem os mesmos ciclos de nascimento e morte de toda a humanidade, exigindo para si menos e governando-se com pouco.

Manel, Zé e António estão sentados no largo da igreja, o eixo daquele mundo em miniatura. Passam ali os dias, falam muito pouco. Nos anos que levam juntos já se disseram o suficiente, não precisam de mais. Basta olharem uns para os outros para se entenderem Estão ali, calados, observadores, a tomar nota da vida, dos outros e da natureza que os rodeia. Crianças pequenas algazarram nas suas brincadeiras e jogos. Jogam a bola, jogam os berlindes, saltam a corda, jogam a apanhada. Nestes momentos de eternidade que são a infância das crianças, os velhos participam com gosto. Apesar de mudos a aparentados a estátuas eles fazem parte da harmonia destes momentos, sem eles, só as crianças, o largo não estaria completo.

A aldeia renasceu com a vinda dos refugiados. Aquelas crianças, algumas nascidas na aldeia, não poderiam pertencer a outro lugar. Os pais delas que um dia foram apátridas, almas errantes, aprenderam a acariciar aquela terra negra e muito fértil. Aprenderam a falar com as ovelhas e as cabras e o restante gado, entendem-se entre si. Também os pais não poderiam ser de outro lugar, apesar dos nomes que têm estranhos e uma religião que afinal é quase a dos cristãos, com poucas diferenças, rituais, pouco mais do que isso, elementos acessórios. Os velhos da aldeia aprenderam a pronunciar os seus nomes difíceis, inventaram-lhes alcunhas, sinais de intimidade e partilha.

A aldeia renasceu e não há absolutamente mais nada a contar dela, senão deixá-los em paz, no seu mundo, imitação pequena do cosmos inteiro. Deixemo-los nessa quietude e beleza, não incomodemos, nós somos os estranhos.

Farrusco foi para o Céu, a abrir caminho. Manel para lá caminha, está só a aproveitar os últimos raios de sol e que prazer esse. Tem saudades do seu companheiro, não pode estar sem ele, e no paraíso, Farrusco que apesar de não ter sido cão perdigueiro, é esperto até mais não, já se pôs de acordo com os anjos do lugar: quando o pastor Manel chegar, vão morar numa casa com telheiro virado para a mansão do Espirito Santo.

A sua fé é pagã, com a pomba entendem-se bem.