sábado, 12 de outubro de 2019

HORA DO ALMOÇO




Anunciou-se, espampanante. Encheu a casa de dar nas vistas, com um vestido caído a acompanhar as linhas do corpo, mas ao mesmo tempo largo, desimpedindo os movimentos, deixando-os à solta, uma linguagem corporal exuberante a sua. Rosa forte, a cor do vestido.
Sentou-se na mesa que lhe indicaram. Estava irremediavelmente alterada com a sua entrada, a tranquilidade da sala. Antes pacata, sem história, clientes habituais a comerem pratos habituais baratos e por isso menos bons.

Deixa-se para lá a qualidade dos pratos, agora, há uma tensão de olhares, de posturas corporais de atenção, os clientes na sua maioria, e os empregados todos, aguardam. O que aguardam eles? Que ela continue a representar, uma artificialidade, ou um essencial de si: encenando o seu verdadeiro.

Pediu dois croquetes que são desenxabidos e colam-se aos dentes. Comeu-os com uma delicadeza no detalhe, de os agarrar educadamente, levar à boca com ponderação, trincar pedaço a pedaço como se fossem beijos carinhosos e fraternais, mastigando-os contidamente, dando por terminada esta acção.

Aparentemente satisfeita, tacteou a mesa, as mãos tiveram um encontro com o guardanapo, de papel, trouxe-o junto aos lábios e depositou nele num jeito suave e peremptório de higienização destes mesmos que não estavam nada sujos do croquete.

Posto isto, sorriu, mais ainda, e os clientes e funcionários considerando cada um que esse cumprimento era pessoal, desfizeram-se.

Se a sala já estava congelada, parou a contagem do tempo. Ela, parece que continua a sorrir, de uma forma bastante mais subtil é certo: é uma espécie de espécie de contentamento que tem posta. Na acalmia temporária que se seguiu, os clientes podem agora voltar às suas coisas, entre elas continuar a comer.

É um belo homem, imponente ainda. Nota-se que já não é novo, mas não se avança uma idade. O rosto transmite uma sereníssima compostura de quem está totalmente saldado com a vida, estando assim perfeitamente à vontade para a tratar por tu, e ela, a parecer que o respeita, ter reverências com ele.

Indicam-lhe lugar, na mesa, ao lado dela. Convenientemente acondicionado em conforto o corpo que acaba de sentar, as mãos de ambos procuram-se, tendo cuidados e percebendo-se que estão habituadas e ágeis, para evitarem os objectos que constituem a cenografia da mesa: copos, talheres, pratos.

Feitos e bem sucedidos os périplos destas, encontram-se, dão-se, entrelaçam-se, reencontram juntas o trajecto que leva aos lábios dela, e depois dele, e beijam-se sem contar minutos numa demonstração pública de superlativo prazer.

Os dois, têm óculos escuros nos rostos, daí as mãos serem os seus olhos tácteis. Começam tranquilamente a sua refeição, nem boa nem má, barata, e aos restantes clientes, pendentes, é dado motivo para se desligarem deles, até porque têm o tempo mais do que contado para saciarem as fomes.


Cai instantaneamente uma enxurrada de conversas e outros sons em decibéis elevados no espaço público, hora de almoço numa rua pulsante da cidade. O café para além de naturalmente amargo, queimou. Já não se pode pôr açucar.



terça-feira, 8 de outubro de 2019

MARVÃO





Marvão está mais perto do céu, para o bem e para o mal. Para o bem, quando num dia despejado, sereno, ensimesmado de si, estende a vista sem esforço maior, até uma enorme longuidão. Agarra os contornos da mais imponente serra continental, maior, que temos: a Estrela; noutra direcção vai-se quase até ao mar, pelo menos a saber-se que ele está ali, prestes a chegar ao alcance da vista; noutra, os campos lhanos, meio monótonos, a tomarem nos meses de verão as cores de uma extensa mantilha doirada, como alguém disse do ilustre Branquinho da Fonseca, o homem das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian: “ a paisagem era amarela e chata; o poeta deitou-se na paisagem e ficou amarelo e chato”; outra direcção ainda, terras de Espanha, o estrangeiro que temos como nosso vizinho, os melhores que poderíamos ter, irmãos.

Para o mal - que nunca fica esquecido-, em dias de tempo carrancudo, recebe a borrasca antes das terras baixas, águas por vezes diluvianas, primordiais, ventos sibilinos, estrepitando agudos sons nas esquinas, fazendo ricochetes, transformando a intenção original de uma humilde música de câmara, pouco mais do que um par de instrumentos, se assobio é um instrumento, numa grandiosa orquestra sinfónica.

Num caso como no outro, mantém-se impassível, guardiã, já passou por muito, purificada pelos ares mais puros, mais perto das potências celestiais.
Por alguma razão da conjugação de vontades exteriores ao entendimento, a vila recebeu na sua vida branca de casas silenciosas, habitantes ilustres (também o Branquinho, da Presença, que já se disse), homens de letras, artistas, sensibilidades afinadas pelas vibrações da arte: a imitação na terra dos homens, da criação das entidades superiores, os deuses.

Procuraram refúgio, fugidos do buliçoso envenenado dos quotidianos da cidade, poluições que só se lavam fugindo para longe.

Marvão é nossa e ainda bem que tem poucos turistas. Habitantes parece que também. Não se veem nas ruelas estreitas, mal se sente vida a pulsar no interior das casas, escondidas do mundo por finas e belas cortinas de renda, feitas à mão, pausadamente, ao sabor desses ritmos, por mulheres sem rosto que se dê a conhecer.

Os habitantes fecharam-se nas suas casas-mundo e só frequentam o exterior -fantasmagóricos do bem - em noites de lua cheia, quando os estranhos não se passeiam por ali, e eles, os da terra, podem conviver saudavelmente soltando palavras que encadeiam conversas sobre o tudo e o nada: redondamente iguais às conversas de qualquer grupo de homens em qualquer sítio sinalizável na geografia dos locais por estes habitados. Nesses momentos confraternizam, mas não os vemos porque não estamos lá em horas tardias.

Marvão é nossa porque a amamos, só isso. As igrejas não sendo majestáticas, impõem a humildade das coisas simples e pequenas, o castelo tem uma torre de menagem e muralhas a recortar as agulhas da serra, sendo por isso idêntico a outros nas mesmas condições. Tem uma pequena escola que se calhar não tem alunos, ou poucos, é pena, a criançada dá muita vida a um local.

Comemos, um belo de um cabrito com as suas batatas, a assistir com privilégio à apoteose e ao crepúsculo, ao espreguiçado pousar do sol no horizonte longínquo que o vai acabar por engolir, deixando rasto das últimas luminosidades do dia, que neste, por ser ainda fim de verão, deixa o céu riscado de laranja e violetas, uma nostalgia empolgante para os olhos e as almas onde eles prestam contas.

Em toda a extensão do que a vista alcançou, gostou-se. Não se conta onde os turistas dormiram por ser o paraíso, e guardar o segredo da localização deste local, é um imperativo, não egoísta, da maior sensatez, não se vá estragar o estado ainda puro de algumas coisas, lugares e pessoas que os fazem assim.





sexta-feira, 4 de outubro de 2019

COMO É O AMOR?






É como pescar. Lançam-se as sortes, aprende-se paciência, entende-se a essência do acto de esperar, pratica-se a atenção sem compromisso, atinge-se o conhecimento: da cana de pesca, do carreto, da linha, do anzol, do ambiente água, do peixe que acabará por não resistir à tentação da gula pela voluptuosidade do isco oferecido, deixando-se pescar.

No entanto, o acontecimento que marca o sucesso apoteótico do pescador, não é só esse desenlace final. Representa a soma de tudo isso, dos dias corridos de insucesso, da espera, da atenção, até que muda a sorte, como o vento, e volta-se para casa anafado de vaidade e orgulho, considerando-se o melhor pescador do universo.

É verdade, agora que se diz, é como o vento. Caçar a vela num barco, apanhar a brisa no ângulo certo, que infle a primeira e se inicie o movimento de propulsão, aproveitando o sopro desta, fazendo cavalgar o barco as ondas, ou melhor ainda, voar rasando a espuma das mesmas. Tanta tentativa, tanta atenção, chegar à compreensão intrínseca de como são os ventos, e depois de interiorizados e com os segredos revelados, navegar que nem um louco, dominando, pensa ele, a natureza toda.

É como a pesca e o vento. O amor. Não é. É uma outra coisa que não se aprende, nunca se explica todo, não se conhecem as mecânicas nem as biologias, apesar de existirem neurotransmissores, mas eles não podem reivindicar essa história só para si. É algo mais, há algo mais, misterioso, secretíssimo, insondável, que cria, alimenta o amor.

É um dom que acontece, uma sorte grande, sim pode dizer-se milagre. Se não se agarra forte com as mãos, o abraço, a boca na boca, escapa-se. Pode não haver outro.O tempo fica desagradável, frio, crepuscular para sempre.



Não é como a pesca nem o vento, não é um momento, não é um sopro fraco ou forte de uma matéria não matéria impalpável.

É uma energia, que chispa, uma concentração fugaz de todos os intangíveis e tangíveis, é isso o amor.
Ficamos, estamos inteiramente sequestrados por ele, mas uma acção pode ser feita e boa: alimentá-lo, mimá-lo, com flores, com doces, com palavras, desenhá-lo como gatafunhadores urbanos, nos sonhos mais pessoais.

 Se o conseguimos reter e frutificar, qual pesca, qual vento, qual coisa nenhuma. Nada se igual a um amor, seja ele por quem seja, o amor.





sábado, 28 de setembro de 2019

CRIANÇAS DÃO-SE BEM COM POLÍTICA






Na irrequieta preocupação sobre amanhã, o mundo de uns anda absorto noutras coisas.
As crianças gritam, mal se ouvem, sobrepõe-se o ruído dos carros e as buzinas.
Na inquietação que perturba, andam muitos ocupados fingindo que nada está a acontecer.
Crianças berram, daqui a nada estão de castigo.
No desassossego, políticos dizem que foram os primeiros a falar nisso,
Fazem chinfrim.
As crianças, desordenadamente mas todas, começam a tocar indiferenciadamente as campainhas das portas. Pedem atenção.
Alguém chama policias para policiarem todas as campainhas das portas. Faltam.
Algumas continuam a tocar sem interrupção.
Politicos ajudados por votantes adormecidos por vales de benefícios materiais míseros, dizem que o mundo amanhã vai ser muito melhor.
Asseguram a sua protecção, fazendo figas debaixo da mesa.
Crianças que não veem nem ouvem as notícias dos jornais, mijam todas ao mesmo tempo e cagam as fraldas e as cuecas.
Os sistemas educativos não têm resposta.
É um problema sanitário, mas dada a descapitalização necessária, este já não resolve problema nenhum a ninguém.
Políticos falam do crescimento económico.
As crianças não param de defecar, agora já na via pública. E gritam.
Os polícias são mandados a bater nas crianças e fazem-no afincadamente.
Precisam mostrar trabalho e serem finalmente reconhecidos. Aumentados.
Políticos, jornalistas e juízes, dizem que se vão rebelar contra o sistema.
Os pais das crianças cagonas, desligam os televisores e as rádios para estas não ouvirem.
Como era esperado, as crianças aumentadas cada vez mais em número, já controlam todas as campainhas e igualmente os semáforos e cruzamentos das cidades e dos locais menores.
Políticos convidam algumas crianças para integrarem as suas listas eleitorais.
Estas recusam. Ainda são ingénuas e puras.
Alguns políticos, seguidos de jornalistas e também juízes, mimetizam-se de crianças.
Entretanto, os policias que não foram aumentados começam a desconfiar dos políticos.
Deixam definitivamente de bater nas crianças.
Alguns juízes ficam preocupados, irrequietos.
Jornalistas com assentimento de culpas, descobrem códigos deontológicos, e preocupam-se.
Nenhum político dá o braço a torcer. Há mesmo alguns que começam a tocar campainhas e mijar nas calças.
As crianças começam a tomar conta disto.
Brincam, pocinham nas poças, lamacentam-se se for que ser, e sorriem abertamente.
Na sua anarquia voluntariosa, reanimam as coisas.
Os polícias passam-se para o lado delas.
Os juízes ganham bem. Os jornalistas vão pela notícia.
Políticos vários, rapam todos os pelos do corpo, chucham chuchas enormes, e imitam as crianças.
São descobertos e nunca mais ninguém votará neles.
Amanhã será um dia risonho e belo e haverá vida exuberante sobre a terra.
As crianças vencem sempre.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

PALAVRAS CRUZADAS






Ela emana de si uma concentração total no que está a fazer. Pode-se mesmo dizer que vive para isso (não em estado permanente de concentração que ninguém aguenta). E quando se vive para uma coisa, dá-se o melhor, já que se canaliza a força da vontade para a realização desse amor. Ela é um bom exemplo.

 O que faz é muito sério, chama ao silêncio, pratica uma actividade cerebral, não abre mão de ruídos nefastos, um burburinho que seja. Só que ela, esta senhora, tratemo-la como se manda, vive uma contradição: se por um lado tem de dar o seu melhor, no que faz e gosta, por outro, para o fazer, necessita da companhia dos outros. Só que o que faz e a companhia parecem ser incompatíveis.

Ela não consegue estar sozinha, mesmo passando como passa dias corridos inteiros, rodeada de pessoas, não falando com ninguém e ninguém com ela, e ainda que falassem, ela mantém-se tecnicamente em estado de solidão.

 Neste momento apresenta-se o problema, que é nosso, porque somos nós que por uma razão ou nenhuma, demos de caras com esta situação, melhor dizendo, mulher, e desabridamente começámos a congeminar sobre a estranheza do seu aspecto, o que é sempre passível de crítica, já que não se deve concluir nada só pelo revestimento exterior de um corpo, e chegamos mesmo à conclusão, sabe-se lá onde a fomos desencantar, que ela vive o estado solitário.

 Como conciliar os opostos? Desconhecemos a resposta, até porque estamos a fazer conjecturas - que podem muito bem ser todas falsas - sobre uma mulher tão esguia que quase desaparece na dimensão do real.

Indo alongado o preâmbulo, era de simpatia saber no que esta mulher aplica a sua energia da concentração absoluta no caminho do amor.
Pois a preencher todos os quadrados vazios de letras que fazem todas as palavras cruzadas que ela consegue descobrir por preencher. É o que esta agora a fazer, sentada num banco de jardim (disso estamos certos já que passamos propositadamente duas vezes por ela, uma para cá, outra para lá, para confirmar o que a absorvia tanto).

Há feira e o jardim não é o local mais tranquilo da cidade, neste dia em particular, já que tem um circo de pequenas tendas brancas montadas, onde pululam vendedores expectantes de fazerem bons negócios, e turistas que por aí circulam, como cirandam por todas as zonas da cidade: não têm mais nada para fazer senão locomoverem-se e tirar o maior número de fotografias que a memória do telemóvel permita, para chegados a casa, esgotados de tanto terem andado, esquecerem-se rapidamente das fotografias que tiraram nessa cidade, mais ou menos bonita, consoante gostos e preferências pessoais.

É este, o jardim, um local impróprio para actividades que peçam a intimidade do silêncio, nem sequer pássaros piam, mudam temporariamente de pouso nos dias de feira. Mas ela está ali, porque precisa de companhia para a sua solidão e é tão boa a preencher os quadrados das palavras cruzadas, que a confusão não lhe vai afectar o resultado final. Dir-se-ia mesmo que ela é uma verdadeira  e bem sucedida executante do preenchimento integral de palavras cruzadas. Foi professora de português, mas isso não o sabemos nem nunca o saberemos, somos desconhecidos uma do outro, o observador nem se sabe que exista ou se inventado e não se espera que haja apresentação.


Inicia-se neste preciso instante uma de milhões de milhões de conversas iniciadas no mesmo instante, em todas as localizações no mundo, onde bastam duas pessoas, para se iniciar a conversa que eles têm que ter, ou que é inútil, mas têm-na na mesma. Esta, mais em estilo monólogo, com um balcão de mármore de um café-pastelaria, a dividir os intervenientes. Pastelaria da Santa, em frente, e do outro lado da rua do jardim, a dar de caras com as barracas em tecido poliéster impermeável branco.

No lado dos clientes, o discursante, homem jovem, desarranjado dos dentes, toma um Favaios. No lado do balconista, homem entrado, completamente careca, com grandes probabilidades de ser o dono do estabelecimento:

«Tenho o meu pai numa gaveta do Alto de São João, que é minha. Eles agora ameaçam expulsá-lo se não pagar uma taxa de ocupação.
A gaveta é minha!
O meu pai não se queixa.»

O empresário, não muge.

«Havia de ser lindo, onde isto já chegou, expulsar-se uma pessoa da sua própria casa? Ainda por cima  morta?

Chegam entretanto umas estrangeiras (são loiras) e o proprietário do café apressa-se a servi-las para não ter de responder ao outro. Esta atitude indicia que se conhecem e este não terá a melhor das paciências para as conversas do outro.

Uma pede uma bifana no pão (não sabe o que é bifana: é uma tradução muito liberal para inglês, que se apresenta, com fotografia, no painel por cima da bancada, que ela aponta) e um galão clarinho (clarinho, é o entendimento que o balconista tem do tipo de meia de leite que uma estrangeira deve gostar. Ela não o pediu dessa maneira). A sua companheira, presume-se que sejam amigas, pede um pastel de nata e uma imperial (neste caso explicou o que pretendia consumir por gestos, pressionando um imaginário manipulo com uma mão no ar a verter uma suposição de líquido amarelo com gases para a outra mão a imitar a forma de um copo). O senhor do estabelecimento é muito bom a adivinhar mimicas.

«Eles que fossem falar com o meu pai.»
«Fui eu que comprei a gaveta, mas para todos os efeitos aquilo é dele. »
«É lá que ele vive, ou seja, deixa-se estar como está. Mal pensei nisto lembrei-me que ele estava morto.»
«Fervi tanto com esta história, que fui lá tomar-me de razões com um dos coveiros, o primeiro que me apareceu»
«Fui na abertura do cemitério, ainda estava praticamente vazio, à excepção dos residentes, e acabei por encontrar, só pela cabeça (a única parte do corpo que percebi à distância), o coveiro que estava a terminar de cavar uma cova, já bastante decente, para o primeiro morto da manhã.»
«Disse-lhe das boas, e o gajo não faz mais nada, apanha-me distraído no vernáculo que lhe estava a atirar aos cornos, e sem me dar conta, num ápice, salta para fora, e atira-me ele, a mim, lá para dentro.»
«Como sou curto de pernas e braços, fiquei soterrado a céu aberto, sem possibilidade de ser visto, só ouvido, já que nem esticado conseguia sequer ultrapassar com a ponta dos dedos a linha de separação da terra do espaço gasoso, o ar, acima dela.»
«O gajo, deixou-me sozinho, a falar com os mortos e como não estava mais ninguém, fartei-me de berrar, até que uma pobre senhora, toda de negro, e com uma jarra de flores de plástico na mão, se abeirou, assustadiça por julgar estar a assistir à gritaria de um defunto, numa campa. Ela benzendo-se, eu lá a consegui convencer que não era um fenecido recente e ela foi por ajuda, que ainda tardou uma meia boa hora.»

Tendo aviado as estrangeiras e não havendo no momento mais ninguém para atender, o proprietário do café viu-se na obrigação de responder. Fê-lo entredentes, a contragosto.

«Se os turistas que estão vivos pagam uma taxa de circulação por cada dia que passam cá, porque não devem pagar os moradores fixos uma taxa de habitação? o país não tem recursos. A nossa única riqueza são os impostos criativos.»

O falho de dentes no maxilar superior, desalentado com esta resposta, carente de solidariedade humana, saiu muitíssimo cabisbaixo, e foi-se desiludir ainda mais da espécie humana, num banco indiferenciado do jardim em frente.


A feira do jardim é semanal e praticamente todos os intervenientes se conhecem: os feirantes, os jardineiros do jardim, as raparigas do quiosque no perímetro do mesmo, os transeuntes habituais, fregueses da cidade, autóctones. Quem não se conhece são os turistas que por ali passam, não para comprar, mas indo em direcção de algum local inespecífico que não sabem qual, nem onde, e porquê. Simplesmente vão. É uma feira difícil de qualificar. Dir-se-ia sem identidade. Mais uma, com produtos praticamente iguais a outras feiras, espalhadas pela cidade.

O filho do que se passou para o outro lado, estava ali a cortar os pulsos de uma forma metafórica, quando reparou na existência de um ser fragilíssimo quase invisível de tão magro e esguio, que se achava encurvado absorto numa folha de papel pousada na perna cruzada. Acabou de descobrir a existência da mulher solitária que faz palavras cruzadas como missão e forma gratificante e espiritual de dar um sentido à sua vida na terra.

Por uma sincronia insondável do determinismo a que se chama fado,ela levanta os olhos da folha para pausar da focagem da visão, e repara igualmente no jovem homem quase tão fino como ela, que lhe parece ter um ar pré-suicidário, isto tendo em conta que ela também preza bastante uma certa visão metafórica das coisas.

Algures a meio caminho percorrido dos dois a olharem-se, estabelece-se a ligação do encontro. Aquele momento único, que só acontece uma vez e a alguns nem uma, onde duas almas quase penadas, reconhecem a sua metade em falta.

Ela levanta-se e deita no caixote do lixo o papel das palavras cruzadas. Ele abandona as suas quase decisões metafóricas irrevogáveis, poe-se de pé ajeitando as calças e dando com a mão direita uma compostura rápida no cabelo.

Abraçam-se ambos, no meio geodésico do jardim da feira, e fundem-se desaparecendo.

Aqueles feirantes não devem vender nada, deve haver por ali uma grande quantidade de gente precisada de companhia. Pelo menos um interesse, que lhes ocupe o tempo.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

A PROCISSÃO





E lá vai ela, rua fora, a procissão da padroeira, todos os anos no mesmo dia.
Ela que zela no escuro e na luz, pelo seu sítio, em sitio dos homens.
Protege-os e aos animais e às bestas, de maus olhados, e outros agouros e infortúnios.
Vai na frente, a abrir caminho à solenidade, a cavalgadura branca, garba, de respeito.
Seguem os escuteiros, mulheres e homens de amanhã, na sua fase de formação caritativa.
Depois, a banda, a filarmónica, marchando,
mais ou menos compassada (um que outro troca o passo),
tocando na  melhor afinação, música solene, carrancuda.
Fazendo calor, que faz e aperta, uns levam o nó da gravata à banda, aberto o botão do colarinho.
Desculpa-se,
É o dia da santa, a penitência não é das menores, e estão ali para abrilhantar a festa, merecendo portanto, louvor e carinho.
Logo curtos de distância, com os músicos,
vem sua santíssima, na trindade seu representante, o pároco da localidade.
Paramentado,
de banho tomado,
escanhoado,
cabelo abrilhantado pelo shampoo,
dias não são dias,
e é nestes que as coisas são para se dar uso.
Tudo a bem da santa.
Como o calor aperta, quatro acólitos seus, não são doze, nem apóstolos, são Acólitos,
pegam no pau,
os estandartes que penduram no ar a tela, que dá a sombra e refrigério, do representante de deus na terra.
Distanciados, logo pegadas a si,
 as autoridades.
O chefe dos bombeiros, já de si farto, arqueado pelo peso das medalhas, mantém um equilíbrio gravitacional instável.
 O chefe da polícia, talvez por ainda jovem, a começar carreira, aguenta-se na vertical,
ainda não curvou.
No meio dos dois – pecador na terra, ganha sempre um lugar no céu – o presidente.
Bastando sê-lo, para pôr todos em sentido, não fosse o superlativo facto de ser presidente e ao mesmo tempo santo.
 Não se sabe que milagre o elevou à categoria celestial,
 mas em tempo devido, quando vier a prestar contas com a providência, logo se chegará a um consenso, de atribuir virtudes, e um acto milagreiro que lhe franqueie as portas do paraíso.
Depois, no final da bicha que agora é fila, vem o povo.
Sempre no final, a arrastar-se,
em promessa,
em devoção,
verdadeira ou fingida.
Há sempre um ente querido a quem prometer qualquer coisa,
mais não seja, longa vida e saúde e muitos sucessos ao senhor presidente.
Homem que fala línguas
E no alto da sua sapientíssima lucidez anda a alterar a toponímia do sítio que governa, para a língua dos saxões,
 “Valley” é muito mais bonito do que “vale”,
palavra baixa,
rasteirinha,
não convence ninguém.
Ainda ontem veio em queda livre lá do lugar de depois dos montes,
e  hoje – magia mágica – fez-se  homem do século vinte e muitos,
vá a pressa que tem de ser moderno.
Viva a nossa Padroeira!
Viva o das mangueiras,
Viva o municipal,
E viva, mas muitas vivas,
O nosso bronzeado presidente!

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

UM VERBO QUE NÃO EXISTE






A passarada passareia
Sem se dar conta que o faz.
Nós, tuteamo-nos,
Tomando conta de intimidades iniciais.

Ambos, podem atingir a estratosfera e mais além.
com os níveis sensoriais no máximo,
Realiza-se o a alquimia da materialização,
Do amor.

Como uma pele nova,
Que se cola às peles nossas.
Se os indícios forem fortes,
Não há quem os desdenhe, bichos e gente.

Explicada fica a passarada de passarear
E a nossa, de nos tratarmos por tu,
Decisão consensual quando elevamos os níveis,
Aos patamares do amor.

A seguir,
Não se diz nada mais de relevante.
Compusemos um bonitinho de poesia,
Em estilo livre,
E voltamos ao silêncio.