segunda-feira, 20 de agosto de 2018

DESCUIDADOS DE DEUS - O MUNDO NÃO ACABOU: "INTERREGNA"







Todos voltaram às suas coisas, sabe-se de experiência vivida que quando se vivem momentos de grande intensidade, findos, são geradas condições imediatas, vindas sabe-se lá de onde, que repõem a harmonia. São o carro vassoura, o último que segue o pelotão, que recolhe os cacos, os estragos, que varre e limpa, para que tudo seja rapidamente esquecido, apagado, condição imprescindível para se seguir em frente. E foi o que todos fizeram: reintegraram os acontecimentos recentes, deixaram assentar poeiras, e voltaram a dar-se em íntimos quotidianos com a suas vidas privadas.

Todos não. O Juiz não esqueceu, nem o pintor, nem o filho deste. Outros terá havido que não mas não se manifestaram como estes.

O Juiz fez o mais difícil julgamento da sua longa carreira, levado ao limite da responsabilidade, como homem e como garante do Direito. Julgar Deus, deixa marcas que não cicatrizam. Mesmo assim preparou-se o melhor que pode, leu e releu as leis e os grossos calhamaços onde elas estão escritas.

É certo que as leis dos homens não são as leis de Deus. No entanto, foi as que tinha à mão e as que usou no uso da presidência do colectivo, tentou e foi  equânime e justo.

Cumpriu com a sua consciência. Num futuro, quando chegar a sua vez, não será por esse episódio que Deus lhe negará a entrada pela porta principal do paraíso, a menos que tenha ficado ressentido, mas esse é um sentimento humano.

Em nenhum momento deste delicado processo, sentiu a soberba a tomar conta de si, inchando de vaidade pela falsa sensação de ser o Juíz do Criador. Acima de todos os homens, deles e de Deus, pecadilho que acontece – raramente mas acontece – nos que decidem os destinos traçados nas barras dos tribunais.

Estava de bem consigo, tinha cumprido a sua função, tentar junto de Deus a resposta às dúvidas das pessoas, legítimas, adiadas desde o primeiro dia, já que na excepção dos místicos e dos beneficiários de milagres, Ele nunca mais foi avistado, não tendo os homens nenhuma oportunidade de fazer essas perguntas fundamentais para a pacificação dos tormentos de incompletude e mortalidade.

No final ficou tudo na mesma, não se conseguiram respostas definitivas, a conversa de Deus foi ou o peso do silêncio a sentir-se na sua maior amplitude, ou uma conversa desconexa, inconclusiva. Ficaram as questões por solucionar, não será tão cedo uma nova oportunidade para um encontro.
Não foi culpa sua, deu o melhor. Deus não responde perante os homens, a menos que…

Num atelier mais ou menos obscuro num bairro pouco considerado da cidade, de tal maneira que a sua toponímia são números e não nomes (rua 1, rua 2,rua 3…),

bairro de pessoas desabastadas, mas de bem, que vão e vêm para os seus trabalhos todos os dias de uma vida inteira, para conseguirem meia dúzia de pechisbeques e pagarem os estudos dos filhos (que venham a senhores doutores e quebrem o enguiço da mediocridade dos pais, e das suas gerações até à quinta contando para trás – que dizem ser o número de gerações que leva a libertação de um pobre da pobreza).

Nesse bairro, um artista excêntrico e inconformado dedicou-se num comportamento adicto e compulsivo - desde que a história começou e como se não houvesse outro tema -, a pintar os rostos dos descuidados de deus – pintura cortante como um gume de um sabre de samurai.

Deu-lhe para isso e teimou que daria o seu trabalho por terminado, a última pincelada, quando tivesse resolvido esse assunto no íntimo da sua consciência de artista excêntrico, inconformado com os desequilíbrios e as hierarquias injustas nas sociedades dos homens. Ele teria tendências anarquistas, não fosse essa uma utopia praticamente extinta. Agora, todos preferem ser “Nova Era”, que é um género de anarquia ecológica, mas na mesma caótica.

Para além de pintor ele não gostava que uns estivessem por cima, outros por baixo, uns serem mais, outros serem menos.  Haver um operador de marionetas, presumido de lhes dar vida e não emaranhar nenhum fio, nas intermináveis representações que executa no grande palco, era algo que o indispunha, porque ele é um livre-pensador. Ateu mas espiritualista.

O Artista, por uma razão sua do foro filosófico interior – alinhamento pessoal dos eixos do entendimento das coisas do universo -, resolveu-se até pôr um ponto final na sua inconformidade, a pintar as caveiras que dão estrutura a esses rostos, dos descuidados de Deus. Trabalho imenso porque estas criaturas são muitas e revestem muitas formas e feitios.






Houve outra razão. Ser o pai de um dos meninos que naquele dia visitou o jardim zoológico, e juntamente com os outros meninos, os humilhou, enxovalhou, aos símios. O seu filho foi dos que mais bateu na proteção de vidro grosso que os separava, dos que mais macacadas fez. E esse comportamento foi referido pela professora, ao final do dia, quando o pai, o pintor, o foi buscar à porta da escola.

Ficou incomodado com esse acontecimento e a velha desculpa que às crianças tudo se desculpa (são ingénuas, puras, sem maldade intrínseca) não a aceitava. Nesse dia, com o filho pela mão e nos dias seguintes, teve esse mal-estar, e querendo encontrar uma resposta que o tranquilizasse, deu-se a pintar caveiras.

Banais, qualquer um diria serem humanas e podia-se perguntar o que leva um pintor, a pintar caveiras, tema complicado de expor numa parede de sala de estar, de estar onde for que seja, num apartamento privado, num consultório de dentista, mesmo num gabinete de um director de um banco. Coisa macabra.




Ele pinta-as, é uma conversa sua, privada, e se pinta para que seja visto, no seu caso nada disso faz sentido, já que ele nem sequer pensou que alguém o quisesse ver, além de um círculo restricto de pessoas próximas, que lhe reconhecem a genialidade sem insistirem muito no assunto,  não o querem perturbar.

É um pintor que pinta para si, e assim deviam ser todos: os que escrevem e os que compõem música, os que constroem lindos origami. E se as artes fossem assim e não cedessem a democracias, seriam respeitadas, punham o público na ordem certa, e não havia necessidade de deuses para entreter-lhes a cabeça. A arte seria como que a religião universal, sem orações, nem iconografias, nem vales-crédito-pontos acumulados para uma morada no além.

Só deslumbramento e momentos de felicidade.

Perguntar-se-á porque o pintor se deu a pintar as caveiras dos descuidados de Deus. Porque como em tudo, tudo tem duas faces, o dentro e o fora, e só se pode conhecer bem uma coisa quando se conhece a sua ideia geral, ideia esta só apreensível vendo-se o fora e o dentro.

Os rostos, o exterior desses rostos, bem os vimos, transmitiam os seus estados de espírito (palavra arriscada), exaltados porque Deus os descurou. Mas uma boa perspectiva, tem-se na posse de todos os seus ângulos. Daí ser necessário para completar a informação, ele pintar o dentro, vindo a sua galeria a transformar-se numa morgue de caras iradas e cabeças vazadas de revestimento, penduradas nas paredes.

Saltam à vista as crateras onde ontem existiram olhos, e hoje o nada: as órbitas vazias de uma caveira são a marca da identidade mais arrepiante, porque é nos olhos que está a vida, e quando vazadas deixaram de ser identidade.

Pinta caveiras neste entretanto do futuro, um interregno, para se libertar – ou não – da ideia de Deus. O seu modo de negação e luto. Depois disso, depois de limpar completamente o preto, virá um tempo novo, uma renascença, a folia, o início de uma nova era de alegria.




Falta falar da criança. Esta traumatizou, porque apesar de ingénua e pura e sem maldade e sem espírito crítico desenvolvido, a dado momento, no processo de macaquear os macacos, de bater no vidro e fazer carantonhas, captou fugazmente o olhar desiludido e triste de um pequeno macaco, como ele, a esconder-se assustado, na protecção dos braços da sua mãe.

Nesse instante não o sabendo dizer dessa forma, o rapaz percebeu humanidade. Deixou de pontapear o vidro, virou costas e sentou-se, mais afastado da cena.

Ficou ali até terminar a visita da escola e quando a professora à sua frente referiu o episódio ao pai, ele teve pena que ele tivesse ficado desanimado com o seu comportamento, porque percebeu isso, tinha sensibilidade.



DIZERES NUMA RUA DO PORTO - 4





Tradução livre:


" Oh meu mais do que tudo, faz o amor comigo"

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

DIZERES NUMA RUA DO PORTO - 3





Tradução livre:

" Amor,  amanhã tens que sair às 8h00, que a minha querida mãezinha vem fazer-me o pequeno almoço e assusta-se com estranhas."



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

terça-feira, 14 de agosto de 2018

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

TOCA O SINO DA MINHA ALDEIA






Quase inaudíveis, sonho um sonho que me parece mudo, quase inaudíveis os sinos da minha aldeia a tocarem vagamente, abafados, diminuídos, pelas casas que são das alturas ou mais do que as alturas da torre da minha igreja. Barram os voos do som, amesquinham-no a não se deixar ouvir, um som que nunca teve pretensões, mas era necessário.

Deixei há muito de ouvir o toque a rebate, a revelação de uma criança que vem ao mundo, a participação de uma partida para o além. Nem o convite à missa. As anónimas torres de betão com janelas corridas, sempre fechadas, abafaram essa chamada.

A ouvir ainda, qualquer coisa meio imprecisa, é o bater de horas. Mas não me abeiro sequer a contar as certas, perco-me na distração intrusa de um ruído de um carro que se interpõe na tentativa da audição, ou numa algazarra qualquer, a passar-se numa rua sem nome, na minha aldeia.

Honestamente, o que é um ludíbrio é que se ouvisse os sinos da minha aldeia a tocarem esses dizeres, o que estaria a ouvir, seriam martelos a percutirem nas lombadas dos sinos acções mecânicas vindas de um temporizador, ligado a uma memória digital que dá ordens cegas aos sinos para emitirem os sons dessas músicas simples.

Sacristãos sem família ou padres de batinas esvoaçantes já não se deixam ir agarrados às cordas que faziam pender os badalos dos sinos, e precisamente por essa precisão e minúcia, a de serem  manejadas por homens, as músicas eram as mesmas, mas todos os dias diferentes,interpretadas.

Como estou a sonhar até vejo um confessor de almas a deixar-se ir, voltado do avesso, pernas para cima e cabeça - a sua, ruborizadíssima - a imitar ela mesma o badalo, que ao engano da posição que ganhou vá-se saber como, toca uma música nova, deixando-nos aos paroquianos, na dúvida da comemoração que anuncia.
É sonho.

Tacteio no escuro utilizando os meus dedos com o maior dos cuidados para minimizar estragos, o lugar certo da mesa de cabeceira onde tenho o relógio. Necessito ter a certeza da hora certa, para me poder levantar.

Há cada sonho!


domingo, 12 de agosto de 2018

PORQUE É VERÃO





Uma nuvem. Nada mais senão estar. Imóvel, a olhar para a nuvem. Preencher dessa forma absolutamente letárgica, todos os requisitos do repouso.

A provocação que foi até se chegar aqui. Querer e não poder. Ter episódios de febrícula, fugazes, mas muitas vezes repetidos nos imensos dias que completam todo o ano.

 Porque faltava a nuvem, olhá-la (não é verdade, ela estava e sempre o esteve no céu, não se olhou, foi isso).

A falta que fez, estar estendido, sem pose, com intenção nenhuma especial a não ser a de olhar para a nuvem, no verão.

Aceita-se para o mesmo efeito e como sendo uma belíssima e recortada nuvem branca, uma copa de árvore, ondas encaracoladas, um espelho de água condigno. Aceita-se mesmo olhar parvamente para os detalhes do papel de parede dos forros interiores das pessoas.

Sem mais intenção se não, a de não ser nenhuma.


Por ser verão.