quarta-feira, 1 de novembro de 2017

FARTEI-ME









Insultei-me apropriadamente com vernáculo feio, cheguei a gritar e a partir alguns tarecos da minha colecção pessoal dos objectos da família, alguns absolutamente inúteis que se guardam sem nenhuma lógica, só porque são uma recordação com valor sentimental, uma herança, um legado, uma passagem de testemunho, o que seja. um remendo para as nossas nostalgias, como o preenchimento com massa dos buracos da parede quando se tiram os quadros e se quer restituir uma virgindade de branco para tranquilizar os inquilinos que nos vêm substituir, convencendo-os da excelente aquisição que acabam de fazer, ou seja, mentiras piedosas para nos sossegarem a consciência.

Fartei-me como que a fazer uma declaração de princípio, afinal mais uma declaração de final. Uma justificação vital da minha vida, passada grande parte dela em cenários em que todos me enganam oferecendo falaciosas liberdades, “agora é que isto vai ser bom”, todos a decidirem o caminho de todos, em igualdade, em fraternidade. Mentiras escandalosas e nós a vermos isso, mesmo espetado na nossa cara, palermas, sem reacção (com dois “c” e tudo para chocar ainda mais).

Afinal o que sempre quiseram foi hipnotizar a minha vontade, pôr-me frouxo: submisso com a chave de um mercedes na mão a pagar em dez anos.  E aos outros também, tudo normalizado pelo consumo, para eles seguirem em frente com os seus negócios prósperos, de malabaristas exímios.

Fartei-me deles e reenvio-os à fava, à precisa origem da mesma, o que eles não sabem é que vão à horta -coisa quase inexistente e longínqua - e que se apressem que a fava vem antes da ervilha, e se não estão a perceber nada, vão ver a história desta “expressão”. São tão espertos para umas coisas, e parcos para as coisas do intelecto. Fogem da cultura com medo de se engasgarem num livro, numa pintura, e ficarem a debitar gaguejos.

Fartei-me deles e nunca mais vou votar, porque a democracia não pode ser o voto num catita que se desconhece, que dá meia dúzia de palpites, que aprendeu meia dúzia de truques de magia verbal, e depois não faz mais nada senão debitar isso – repetição contínua - e constrói uma narrativa sobre o nada de isso, e convence todos, e ganha a vida com trocadilhos.

O desgraçado do democrata atento e votante fica a chuchar no dedo, cheio de ansiedade para que acabem depressa os quatro ou os cinco anos, arrependido do voto, mas volta de novo a cair na mesma asneira.

Não senhor, a democracia é a discussão de ideias na praça pública, a intervenção cívica organizada, a participação com ideias na coisa pública, e se isso não for possível a um cidadão comum, bom pai, e sem interesses futebolísticos, mas apreciador de ameijoas genuínas à Bolhão Pato, então opto por declarar que me fartei.  E enquanto eles vão à fava, que não a distinguem de um pepino, fico com as folgas todas e declaro, até que eles se apercebam do meu embuste, a autonomia. E não quero saber das Constituições, que são eles que as escrevem com letras de advogado.

Fartei-me, vou deixar de pagar a electricidade, vou fazer uma “puxada”, do poste da rua, e o bandido sou eu! A água é um escândalo, quase ao preço de uma “box” de bom vinho, vou tomar banho no Espelho de àgua! O gás, os canais eróticos da internet, a padaria portuguesa  (com  “p” pequeno como eles são), tudo às urtigas!

FARTEI-ME, bye-bye.



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