Não se adivinha, em nenhuma geografia, a localização exacta do Jardim. Pode ser nesta terra, pode ser noutra. Pode ser ao estender o braço, pode ser numa galáxia longínqua, até mesmo um buraco negro. Pode ser da ordem do real, pode ser da ordem do imaginário simbólico. Pode-se procurar mapas do paraíso em todas as cartografias conhecidas, medievais e anteriores; pode-se procurar nas máquinas que substituíram o pensamento dos homens; pode-se analisar no que se chama espírito, alma, vestígios da existência desses mapas, e nada, não há sinais convincentes da existência do Paraíso. E, no entanto, ele existe, nem que em delírios.
A ideia oficial e comumente aceite é de que é um lugar aprazível, onde tudo é puro e ingénuo. O mundo das Ideias originais. As cores são o original de todas as cores; o Jardim, a perder de vista, e todas as árvores, arbustos, plantas e insectos que o compõem são primordiais, o conceito primeiro e completo desses seres todos. Não há estações do ano, porque não há “ano”, tudo é permanente, e o clima é o protótipo acabado pelo Criador, de todas as tonalidades de climas. Os odores são perfumados e permanentes, inebriam de prazeres subtis. A concórdia está instalada, não há conflitos, não há excessos, não há asneiras, não há pecado. Não é necessário trabalhar para ganhar o pão, o que é bom, porque não é necessário trabalhar e enriquecer para comerciar o pão mais caro e conseguir uma vantagem de poder. Ao mesmo tempo, os que não têm essa esperteza ambiciosa podem comer o pão de todos os dias sem sofrimento e privação. Não há doença, não há dor. Não há governantes, só Deus, porque não há outros seres com alma a não ser Adão e de uma costela sua emprestada por obrigação do Criador, Eva, que os homens e as mulheres não são feitos para a solidão, apesar de Eva partir com desvantagem.
Não há diálogos nesta crónica do paraíso porque os seres que nele habitam não falam e desses dois são humanos. O começo de tudo. A grande Mãe, o grande Pai. Comunicam por vias agora desconhecidas, falam por fluxos e intercâmbios de pensamentos, enviados e recebidos, vogando no éter. As suas bocas usam-nas para comer, respirar quando andam ofegantes e para dar beijos dulcíssimos e apaixonados. Imagine-se a intensidade da primeira paixão humana, dos progenitores de toda a raça.
Levam uma vida que qualquer um queria para si. Sem preocupações, sem horas marcadas, sem obrigações nenhumas, a não ser desfrutar das vistas e das belezas todas em estado puro e primeiro. Passeiam de mãos dadas, deitam-se por longos períodos na relva fresca dos campos, e devaneiam.
Diz-se que o Criador queria para eles essa vida simples para toda a eternidade e se tivesse sido assim, não estaríamos agora a contar esta história.
Adão e Eva eram tão belos que ofuscavam os outros animais e vagavam por esse jardim como se fossem senhores dele. A ambição pela posse, gera por vezes energias menos boas, e alguns animais começaram a germinar em si, sentimentos de inveja. De um dia para o outro, um paraíso pode travestir-se de inferno.
Os pais da humanidade, não se deram conta, porque a bem da verdade, estavam tão cheios de si, que tudo o resto era paisagem, para seu prazer e gáudio. E, com esta história a princípio tão animadora, viemos dar aqui, a esta encruzilhada, onde todas as opções desembocam em impasse, ou quelhas tão estreitas que um corpo, nem de lado, consegue ultrapassar.
Fizemo-nos vaidosos e inchámos, usamos em vão a palavra de Deus para dominar, fizemo-nos pequenos deuses birrentos, sempre a amuar, a bater com os pés, a dizer asneiras para fora ou para dentro, e não paramos enquanto não destruirmos um sonho que foi um dia belo. Somos o nosso próprio pesadelo.
*Excerto de “A ÁRVORE” de Luis Robalo

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