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Mensagens

A mostrar mensagens de agosto, 2026

Para a História do Tempo I

  Cansava-o o tempo e, ofegante, encostava-se aos muros, aguardando que eu avançasse, mas, como nunca lhe consenti intimidades, ignorava-o e passeava o olhar de miúdo deslumbrado pelos pequenos jardins das casas brancas do Restelo. Deliciava-me com as flores, os seus perfumes, e uma que outra peça de fruta, figos e nêsperas, que apanhava clandestinamente nesses jardins quando o tempo estava em suspenso, desanimado por não me prever futuros risonhos, ele que tinha de me acompanhar. Sobre as minhas incursões aos frutos proibidos, nas bem-sucedidas, não tinha de fugir para não ser apanhado em propriedade alheia. Nas que corriam mal, o prazer desse figo, dessa nêspera, doía-me nas orelhas. Era o meu bairro, era um miúdo, e as ruas familiares do Restelo, das casas brancas, eram o meu universo sem tempo, no tempo em que o tempo não contava. Dei conta dele pela primeira vez, quando o meu pai me ofereceu um relógio Cauny, prenda do bem sucedido exame da quarta-classe e entrada oficial no m...

DO VAGAR

  O vagar é um ritmo. Uma pulsão interior, um movimento ínfimo, quase imperceptível, um estado de alma resguardado, não incomoda ninguém, um viver de mansinho. Sendo uma percussão interna, nasce-se assim, vivendo-o desde o primeiro sopro, o vagar. Sendo a saudade por apropriação própria exclusiva dos portugueses, fingindo-nos e enganando-nos que só tem um significado a que mais ninguém chega se não nós, o vagar é alentejano e só seu. E de qualquer parte deste pequeno país que é enorme na diversidade da cultura, a sua riqueza, ninguém a não ser um alentejano, sabe falar com propriedade sobre o vagar. Muitos dão palpites, mas ele no seu vagar sábio, deixa-se ficar quedo e mudo, gozando os perdigotos de quem não consegue ficar calado. E, nem lhes responde, deixa-se estar no seu remanso, que se está bem. Dizem os dicionários muita coisa. Que é lentidão, morosidade, demora, lerdeza, vagareza, desaceleração, delonga, lenteza, calma, calmaria, indolência, brandura, pachorra, ronceiric...

chuva das palavras

  Horas perturbadoras, dias inquietantes, lapsos temporais, estonteantes vazios de frustração e pena. Terra de ninguém, travessia infértil de ideias. Fraqueza redundante. No esgotamento e desistência brota uma palavra do nada,  outra que vinda se junta ao festim. No fogacho, fogo fátuo, irrompe uma ideia, depois a frase que a exprime. Apareceram quando se ansiava tanto,bem-vindas sejam! Na abstração do pensamento gera-se um novo ser, abrindo caminho numa folha de papel. Orgia de arromba!  Irrompem sem tocar a campainha, trazem as figuras de estilo e mais amigos, enchem de iguarias o salão Vai ser até as tantas, grande e magnífica ressaca esta! Das palavras que se desembrulham em papelotes coloridos.

O meu mundo visto por mim próprio.

  Sento-me todos os dias em horas em que o sol ainda não decidiu se vai brilhar ou deixar-se obnubilar por névoas, com a decisão emocional de escrever a frase mais conseguida, bela e perfeita, que jamais escrevi. Todos os dias esta intenção, mas nem a última, a de ontem, que chegou perto de ter sido magnífica, acabou por perder-se ingloriamente, vida perdida, na espuma da praia, como aquele menino. Nos momentos que se seguem a essa consideração de valor íntimo qualificativo, desiludo-me. Não escrevo mais, sem muita convicção. O Darwin sai à rua para me passear, vou para a casa do Hobbit, olhar para o manjericão que ando vai para duas temporadas a tentar que medre e me faça tão feliz como escrever frases belas, balanceio-me que nem um louco numa cama da rede que tenho, e devaneio. No dia seguinte volto a acreditar firmemente que escreverei a mais bela e conseguida frase de todas as épocas  e estilos. Todos os dias tento escrever essa frase, e acabo invariavelmente a bal...