As palavras estão vivas ou ressequidas pelo sol, como bacalhau. Não é bem assim, é um exagero, um reparo de gosto talvez duvidoso, mas se concedermos autorização a essa imagem, pode ser. As palavras vivas são as que são ditas, as que saem dos lábios, as que têm volume, um som, fazem conversa, vão e vêm, de boca em boca, atiradas para o ar, para multidões, em discursos, cantadas, de embalar. Selam juras, de sangue, de lágrimas, ficam marcadas como tatuagens eternas e não se conseguem apagar. As secas são as palavras escritas nas paredes e nos muros; dos jornais que se leem e ganham a sua inutilidade, mal lidas e não servem para mais nada; dos anúncios nas ruas, sempre a serem substituídos por novos, com outras frases; dos cartazes dos comícios e da intervenção, assinatura verbal, de comando, de submissão, são rótulos de garrafas e de lojas. As que estão encerradas nos livros, arrumadas nas prateleiras das bibliotecas e das casas das pessoa...