O Senhor Darwin, sendo ele um canídeo, e eu, Luis, um humano (às vezes, incontáveis, que já me perguntei o que é ser humano!), acordámos num tracto formal quando estamos fora de portas. Ele, Darwin, eu, Luis Guilherme. Gostamos de nos dar ao respeito.
Na nossa vida quotidiana doméstica, eu mimo-o com “meu menino, nino”, ele, com o olhar que só os dois sabemos que ele se está a dirigir a mim. Uma coisa magnética, digamos, quando faltam palavras para o dizer. E neste chamar de um ao outro, quase que vai metade da conversa, de entendimento, digo.
Mal saímos à rua e um vesgo, ou um possuído pelos demónios do álcool, “embica” para o senhor Darwin, na necessidade etílica de estabelecer uma comunicação algaraviada com ele, olho-o e ele olha-me e digo “Darwin”, ele percebe imediatamente que deve omitir a sua necessidade constante de festas humanas. Posiciona-se nas minhas costas e espera que eu resolva a situação.
Quando vê uma criança, perco toda a capacidade de argumentação e controlo, é mais forte do que ele, e do que eu também, que perco o meu controlo afectivo sempre que vejo uma criança na rua e vejo a possibilidade de já ter sido avô, mas ainda não. Perco momentaneamente o meu racionalismo e não consigo resolver a situação, que não tem nada para resolver senão a inevitabilidade do senhor Darwin, assim o permita, resolver esse amor louco, lambendo a criança, saltar para cima dela até que se acalme, e choramingar, que não o é, mas a sua forma de partilhar as emoções que palpitam no seu coração.
É que, à sua maneira de ser um cão, o senhor Darwin é uma criança. E eu também, embora o tente disfarçar.
Quando voltamos para casa, ele passa a ser o meu menino “nino” e eu sou o olhar descodificado que ele me deita. De todas as opções da nossa vida intima caseira, ele não abdica de estar sempre presente, sem pedir nada, só estar presente, seja na cama, virando-se, revirando-se, dando voltinhas, atirando-se todo para cima de mim, ou na sala a ouvir os concertos para piano de Beethoven concentradíssimo de emoções, ou a vermos séries de crimes estou seguro de tão curioso dos desfechos quanto eu, ou no escritório onde escrevo estas banalidades e ele, debaixo da mesa a fingir que dorme, mas a absorver o que escrevo e eu, no egoísmo de humano convencido, a passar-me ao lado a sensibilidade do meu companheiro.
Nos dias tranquilos e límpidos, como nos outros também, somos cúmplices um do outro, o que apazigua os nervos para aguentar as inesperadas alterações climáticas…

Comentários
Enviar um comentário