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Mensagens

A mostrar mensagens de 2026

Os Instantes de Borges à luz dos meus olhos

  Se eu pudesse viver outra vez, não sei se queria viver outra vez. Antes, veria com agrado a substância que o meu corpo e a minha consciência dispuseram nesta vida, integrar a atmosfera ou a superfície de Ceres ou de Tritão. Sempre tive uma simpatia especial pela matéria rude, primitiva e, fascina-me a imensidão dos universos. Repetiria quase tudo, ou talvez nada. Não sei, logo se veria. Mas, se vivesse uma outra vez, repetiria com ligeiras alterações de pormenor, a vida que continuo entretido em viver. Com mais seriedade nalguns detalhes que descurei, com muito mais loucura na generalidade dos dias, porque vejo, convencido na experiência anterior, que só assim se deve viver a vida, dando-lhe muito pouca importância. O Amor. Ter-lhe-ia dado mais atenção precocemente. E seria melhor aluno. Chegados a esta fase, devemos estar bem, tenhamos ou não sabido alimentar o amor. Do ódio, teria aprendido, pacientemente, a criar uma barreira que me envolvesse. Protegendo os outros de mim, . ...

Porque o meu cão é Darwin e não Ronaldo

  O meu cão chama-se Darwin. Se nos nossos passeios o reconhecem pelo nome de um jogador de futebol, ele amua, vira-lhes o rabo, e nunca mais, por muito que reveja essa pessoa, voltará a abanar a cauda para ele. Se o tratam com respeito pelo exemplo de ter o nome de um grande cientista, desalma-se em saltos e pinotes, lambe o mais que o deixarem e ganha um amigo para a vida. Não o vai esquecer mais. Com isto pode-se pensar que o meu cão é um elitista, um snob. Um nome como por exemplo Ronaldo, vale tanto como um José Maria. São gostos, e estes, como sabemos são da intimidade de cada um. Não. O meu cão não faz distinção de classes, tanto alça a perna ao pneu de um Fiat Uno, como ao pneu de um Mercedes último modelo. Estou mesmo a crer que tanto um como outro lhe dão alívio e prazer. Essa sua distinção de comportamentos deve ter a ver com o convívio. Explico: ou vem das conversas com outros cães, ou, o mais previsível, vem de casa. Da nossa. Confesso que em dias azarados em q...

DA NOSSA INTIMIDADE

  O Senhor Darwin, sendo ele um canídeo, e eu, Luis, um humano (às vezes, incontáveis, que já me perguntei o que é ser humano!), acordámos num tracto formal quando estamos fora de portas. Ele, Darwin, eu, Luis Guilherme. Gostamos de nos dar ao respeito. Na nossa vida quotidiana doméstica, eu mimo-o com “meu menino, nino”, ele, com o olhar que só os dois sabemos que ele se está a dirigir a mim. Uma coisa magnética, digamos, quando faltam palavras para o dizer. E neste chamar de um ao outro, quase que vai metade da conversa, de entendimento, digo. Mal saímos à rua e um vesgo, ou um possuído pelos demónios do álcool, “embica” para o senhor Darwin, na necessidade etílica de estabelecer uma comunicação algaraviada com ele, olho-o e ele olha-me e digo “Darwin”, ele percebe imediatamente que deve omitir a sua necessidade constante de festas humanas. Posiciona-se nas minhas costas e espera que eu resolva a situação. Quando vê uma criança, perco toda a capacidade de argumentação e controlo...

O Jardim do Éden*

  Não se adivinha, em nenhuma geografia, a localização exacta do Jardim. Pode ser nesta terra, pode ser noutra. Pode ser ao estender o braço, pode ser numa galáxia longínqua, até mesmo um buraco negro. Pode ser da ordem do real, pode ser da ordem do imaginário simbólico. Pode-se procurar mapas do paraíso em todas as cartografias conhecidas, medievais e anteriores; pode-se procurar nas máquinas que substituíram o pensamento dos homens; pode-se analisar no que se chama espírito, alma, vestígios da existência desses mapas, e nada, não há sinais convincentes da existência do Paraíso. E, no entanto, ele existe, nem que em delírios. A ideia oficial e comumente aceite é de que é um lugar aprazível, onde tudo é puro e ingénuo. O mundo das Ideias originais. As cores são o original de todas as cores; o Jardim, a perder de vista, e todas as árvores, arbustos, plantas e insectos que o compõem são primordiais, o conceito primeiro e completo desses seres todos. Não há estações do ano, porque não...

SOBRE A IMPORTÂNCIA DO TEMPO

Deixaram de contar,o tempo parou. Há dez anos. Pode ser que o tempo continue a correr dentro das condições suas e externas ao entendimento dos homens, pode mesmo ser que o tempo não exista para ser contado, pode ser que o tempo seja o senhor  de todas as coisas. Pode-se dizer tudo sobre ele, nada se sabe ao certo dele. Os homens desinteressaram-se do tempo e se ele existe, foi uma grande desfeita que os homens lhe fizeram. Foi a primeira vez que o menorizaram e quase ninguém gosta de ser anão. O tempo parou no dia do medo,  um medo diferente, novo, que se estendeu a tudo, tomou conta da terra e paralisou os homens. Infectou-os, uns resistiram e foram vencidos, outros ignoraram e foram igualmente derrubados. Sem contemplações, no dia do grande mal, os relógios pararam. Congelaram as contagens. Clepsidras, relógios de água, relógios mecânicos, relógios atómicos, até quânticos, interromperam todo o seu movimento de pêndulo no presente, e deixou de haver passado (que já não havia ...

Para a História do Tempo I

  Cansava-o o tempo e, ofegante, encostava-se aos muros, aguardando que eu avançasse, mas, como nunca lhe consenti intimidades, ignorava-o e passeava o olhar de miúdo deslumbrado pelos pequenos jardins das casas brancas do Restelo. Deliciava-me com as flores, os seus perfumes, e uma que outra peça de fruta, figos e nêsperas, que apanhava clandestinamente nesses jardins quando o tempo estava em suspenso, desanimado por não me prever futuros risonhos, ele que tinha de me acompanhar. Sobre as minhas incursões aos frutos proibidos, nas bem-sucedidas, não tinha de fugir para não ser apanhado em propriedade alheia. Nas que corriam mal, o prazer desse figo, dessa nêspera, doía-me nas orelhas. Era o meu bairro, era um miúdo, e as ruas familiares do Restelo, das casas brancas, eram o meu universo sem tempo, no tempo em que o tempo não contava. Dei conta dele pela primeira vez, quando o meu pai me ofereceu um relógio Cauny, prenda do bem sucedido exame da quarta-classe e entrada oficial no m...

DO VAGAR

  O vagar é um ritmo. Uma pulsão interior, um movimento ínfimo, quase imperceptível, um estado de alma resguardado, não incomoda ninguém, um viver de mansinho. Sendo uma percussão interna, nasce-se assim, vivendo-o desde o primeiro sopro, o vagar. Sendo a saudade por apropriação própria exclusiva dos portugueses, fingindo-nos e enganando-nos que só tem um significado a que mais ninguém chega se não nós, o vagar é alentejano e só seu. E de qualquer parte deste pequeno país que é enorme na diversidade da cultura, a sua riqueza, ninguém a não ser um alentejano, sabe falar com propriedade sobre o vagar. Muitos dão palpites, mas ele no seu vagar sábio, deixa-se ficar quedo e mudo, gozando os perdigotos de quem não consegue ficar calado. E, nem lhes responde, deixa-se estar no seu remanso, que se está bem. Dizem os dicionários muita coisa. Que é lentidão, morosidade, demora, lerdeza, vagareza, desaceleração, delonga, lenteza, calma, calmaria, indolência, brandura, pachorra, ronceiric...

chuva das palavras

  Horas perturbadoras, dias inquietantes, lapsos temporais, estonteantes vazios de frustração e pena. Terra de ninguém, travessia infértil de ideias. Fraqueza redundante. No esgotamento e desistência brota uma palavra do nada,  outra que vinda se junta ao festim. No fogacho, fogo fátuo, irrompe uma ideia, depois a frase que a exprime. Apareceram quando se ansiava tanto,bem-vindas sejam! Na abstração do pensamento gera-se um novo ser, abrindo caminho numa folha de papel. Orgia de arromba!  Irrompem sem tocar a campainha, trazem as figuras de estilo e mais amigos, enchem de iguarias o salão Vai ser até as tantas, grande e magnífica ressaca esta! Das palavras que se desembrulham em papelotes coloridos.

O meu mundo visto por mim próprio.

  Sento-me todos os dias em horas em que o sol ainda não decidiu se vai brilhar ou deixar-se obnubilar por névoas, com a decisão emocional de escrever a frase mais conseguida, bela e perfeita, que jamais escrevi. Todos os dias esta intenção, mas nem a última, a de ontem, que chegou perto de ter sido magnífica, acabou por perder-se ingloriamente, vida perdida, na espuma da praia, como aquele menino. Nos momentos que se seguem a essa consideração de valor íntimo qualificativo, desiludo-me. Não escrevo mais, sem muita convicção. O Darwin sai à rua para me passear, vou para a casa do Hobbit, olhar para o manjericão que ando vai para duas temporadas a tentar que medre e me faça tão feliz como escrever frases belas, balanceio-me que nem um louco numa cama da rede que tenho, e devaneio. No dia seguinte volto a acreditar firmemente que escreverei a mais bela e conseguida frase de todas as épocas  e estilos. Todos os dias tento escrever essa frase, e acabo invariavelmente a bal...

O SOFÁ E EU

  Sofá (árabe suffa) No Oriente, estrado alto e coberto com um tapete.  Assento para duas ou mais pessoas com costas e assento estofados, e geralmente com apoio de braços.   Divagações sobre um sofá Nos cenários do impossível, tudo é possível. Existe, não existe. Foca, desfoca. Inventa-se. Cria-se. Estou sentado no velho sofá companheiro de inúmeras aventuras e descobrimentos. Juntos participamos felicidades e tristezas. Meu confidente, onde sonhei futuros, tricotei ilusões, ancorei catadupas de pensamentos, uns estéreis, outros não, tomei decisões, umas boas, outras poderiam ser melhores, foram as melhores que tomei. Estou envolto nele a deambular nestas coisas e dá-me vontade de atravessar o estreito de Magalhães. Cá vamos nós, o sofá nunca se recusa! Saio do meu conforto sem sair, vou eu e ele directamente para tempestades que metem medo, vendavais de levantar as fundações das casas e dos seres, e outras intempéries, imerso na leitura de um livro de um chilen...

Está uma árvore plantada no meu bairro.

   Quando era miúdo – de corpo fui sempre -, ganhávamos tempos incontáveis em jogos de apanhada, corríamos ao seu redor dando voltas e voltas à volta dela. Então, não nos dávamos conta dos outros residentes dessa árvore que bem podia ser, que o é, uma oliveira. Os passarinhos que nela pousavam para descansos do seu bater de asas, ou que fizeram dela a sua residência permanente, com os seus chilreios de muitas melodias simples, não conseguiam gritar mais do que nós, em interjeições, em risadas, em impropérios infantis e inconsequentes.  Quando cresci um pouco mais da minha miudeza, mas continuando ainda assim esguio, fiz juras de amor caladas e outras ditas, a troco de um beijo que me explodisse em emoções ainda não sentidas e sulquei no seu tronco robusto e enrugado, com um canivete que o meu avô me ofereceu, corações com duas iniciais. Não sei quantos, mas foram alguns. Jamais revelarei esses nomes, são o que resta de uma intimidade que aconteceu um dia.  ...

Crónica provável.A tertúlia das letras

    Quando se vai para velho, dorme-se menos. Mais tarde ou mais cedo vai ser uma eternidade e seria sensato aproveitar a vigília, mas isso é um contrassenso já que quando se vai para velho, a densidade do tempo, custa uma eternidade a rarefazer-se. É o tempo de já não haver tempo para nada, e do tempo que parece estar parado. Uma contradição. Não é.    Na companhia da solidão – o único parceiro disponível- cada um arregimenta-se como pode e inventa, junto dessa companheira que não fenece antes de nós. Acompanha-nos de braço dado até à última porta, compenetrada e presumida do seu papel de meretriz barata. Maria da Dores acordou em grande excitação. Tem 73 anos, pelo que a excitação advém de uma ânsia especial por algo que está por acontecer e ela sabe-o, presumindo, com essa idade, não ser desarranjo hormonal seu; esses órgãos também já se reformaram há muito.   Todas as primeiras quintas-feiras do mês, em fins de tarde, tem encontro agendado na ...

O menino que vivia no seu mundo

Desarmava as pessoas porque não sabiam como reagir. Aproximava-se demasiado deles, dos limites de conforto, em que cada um se protege das intempéries dos outros. Era esta sua atitude curiosa, por princípio distraída, mas provocadora, que ponha os escolhidos em desconforto numa atitude defensiva. Mas ele não era, não podia ser, de outra forma. Era a sua forma bizarra de ser. Furtivamente e sem que houvesse tempo de reação, passava os limites estabelecidos do manual da educação instituída, o que se tornava desagradável e por isso inconveniente, causando reações bruscas de afastamento e repulsa. Só apanhava os incautos ou os muito distraídos, quem o conhecia melhor – que melhor ninguém o conhecia – não lhe permitia essas aproximações, ou sim, e sabendo que era assim a sua encenação de intimidade com o mundo, aceitava o seu olhar persistente e de espanto. Vivia num mundo só seu por isso mesmo, por ser um ingénuo intrometido. A sua táctica, se se pode chamar a um princípio espontâ...

O QUE É UM HERÓI?

Há dois tipos de heróis: os de banda desenhada e os verdadeiros. Dos últimos, podemos dizer que há poucos: são muitos os inventados pelas pessoas que não conseguem viver sem um guia ou um deus que os encaminhe nos rebanhos; e os que são discretos, cumprem o papel que a existência lhes deu, e assim ser realizam e fazem-nos, ainda crer na humanidade. Somos um país pequeno e por consequência desse facto, temos muito poucos heróis que encaixem nesta última categoria. Mas temos, e a quantidade não é critério. Um dos maiores heróis que temos é Gustavo Carona Seriam poucos os adjectivos elogiosos para descrever a profundidade e complexidade deste homem simples. E o Gustavo não gostaria de ser “engraxado” publicamente por um anónimo que habita uma minúscula povoação interior no centro do país. Pelo que vamos dizer somente que Gustavo Carona devia (é) o exemplo de um herói genuíno. Pelo seu carácter, pelo seu objectivo existencial, pelo imenso Bem que faz, pelo seu humanismo, pela superação da ...

O Darwin não gosta de sair à noite

  Há dois epifenômenos diários que o Senhor Darwin odeia: sair à noite (nisso sou como ele – depois até gosto) e chuva. Ele tem hábitos regrados e é apreciador de uma rotina previsível e com horas certas. Não sei se estarei totalmente de acordo com ele, mas compreendo-o e admiro o seu estoicismo. Deita-se bastante cedo, por volta das 8 da noite e quando vê que já está na cama há muito tempo sem a minha companhia, vem à sala, planta-se à minha frente, esfíngico como uma estátua de mármore, deposita um olhar sem piscares persistente na atenção do meu olhar, e não arreda disto, até que eu, vencido pelo seu carácter obstinado, me levante, desligue as luzes da sala e o acompanhe para a cama. É tão insistente que acabo por fazer-lhe a vontade, ou então, ainda termos de ir à rua, já que nunca o ensinei a usar a sanita, que compreendo ser um objecto ergonómico não pensado para os cães, pelo que temos mesmo de ir à rua. Lá vai, a custo, focinho baixo, até era capaz de assegurar que vai ...