É um quadro bucólico, não fosse esta palavra fora da moda, uma palavra do romantismo, no tempo em que uma paisagem campestre era bucólica e sentimental. Agora, não há paisagens bucólicas no campo, que deixou de ser espaço de fruição e é cada vez menos espaço de trabalho.
Agora, vai-se ao campo para fazer
caminhadas esgotantes preocupados em contar os passos e medir constantemente a
frequência cardíaca e percentagens de oxigénio. Terminadas e ofegantes, orgulhosos
dos níveis e desníveis acumulados nas leituras GPS e guardados nos mapas que
logo à noite se vão publicar nas redes sociais para envaidecimento próprio e pingar
pirralha aos amigos, descalçam-se as sapatilhas, entra-se no carro e volta-se
ao ponto de origem, a cidade.
Os que foram, foram ver, não olharam.
Os campos já pouco se trabalham,
deixaram-se ao abandono das giestas e dos matagais. As florestas já não são
locais de saúde física e mental, viveiros de vida, poupanças de futuro para os
filhos e os netos, são locais caóticos de preocupação.
Num panorama assim, que história de
futuro se pode antecipar numa pequena região despida de gente e desistente, a
não ser nas pequenas subsistências de horta à beira da casa? E quem trabalha
essas courelas está tão curvado que deixou há muito tempo de se aperceber da
existência do sol e da lua, não os pode ver, porque não se pode endireitar.
Entristou há muito.
De que podemos falar então? Que
palavras podemos colar em tons de motivação e esperança? A diáspora da vida
abandonou um espaço que se tornou infértil e madrasto. Todos no estrangeiro,
seja ou de outras línguas, seja o de litorais onde as praias estão a
desaparecer e um dia destes insuportáveis e insalubres na quantidade de
imigrantes que acolhem.
Nestes lugares de interior não há
iniciativa, não há movimento, não há empenho, não há novidade. Porém, tantas
opções novas no jogo da vida, estão por germinar em frente dos nossos olhos, e
não as vemos, porque não as olhamos.
Não podia terminar um roteiro
sentimental sobre uma terra que me acolheu - eu órfão de um lugar de paz-,
deprimido nas palavras escritas, de fraco consolo e nenhum vislumbre de céus
azuis e límpidos.
Levou-me o seu tempo e encontrar uma
pista, um caminho, algo que viesse de ontem e que hoje pode ser uma
fertilização para amanhã.
E descansei. Encontrei esse assunto.
Um bom assunto, algo animador, desafiante, que poderá ser, quem sabe?
Visito deliciado os socalcos
aprumados de encostas suaves que espraiam as margens na radiância luminosa de
um dos rios mais portugueses de Portugal. Um rio telúrico, serrano, sério, que
se desfaz em simpatia, correndo de encontro do enleio com as Tágides do Camões.
É como se nessa visita de deslumbramento,
estivesse a passar revista a tropas arbóreas, pacificas, percorrendo calmamente
as filas bem cuidadas onde perfilam esses soldados. O meu anfitrião, Nelson da
Silva, explica-me detalhadamente a história do fruto, o seu uso, e fá-lo de
forma entendida, mas apaixonada, e isso percebe-se na forma enamorada como toca
nos frutos ainda malnascidos, ou na forma como olha namoradeiro para eles.
No desarranjo das árvores invasoras
que sujam as vistas que deviam ser desafogadas sobre o rio e que se
assenhorearam de quase todo o espaço, os novos campos de medronheiros começam a
pontilhar como oásis de vida e exuberância futura.
Numa visão inteligente, estes campos
são também habitados pelas abelhas. São elas as guardiãs de vida e estão a
desaparecer. Nelson, dá-lhes guarida. Mais, mima-as porque sabe que sem elas
deixaremos mais tarde ou mais cedo de ser viáveis (talvez um favor que se
fizesse à natureza).
Este jovem empreendedor não fugiu,
deixou-se ficar e como é um espírito inquieto, deixou-se ficar a pensar no que
poderia ser diferente, um caminho, uma nesga de luz ao fim de um túnel
longuíssimo e escuro. Esperou por uma ideia e teve-a. Simples, como são todas
as ideias que levam ao sucesso. Resolveu plantar medronhos em pomar e
instalar apiários com caixas de abelhas perfiladas estas e estes, na frontaria
ampla para as paisagens fartas de pastagem apícola.
Foi paciência, condição fundamental
dos que cismam: não desistir. E esperou e o seu jardim ainda modesto, mas a
querer ganhar mais vistas desafogadas sobre o Zêzere, ou nas vizinhanças,
começou a florir. E deu frutos, e ele aprendeu a fazer, a apurar os sentidos e
o conhecimento, a errar para acertar melhor.
Fá-lo de forma séria e profissional,
só assim se anda sem tropeçar, ou cansar.
O medronheiro é um ser resistente e
resiliente, é um tesouro a explorar. Dissemos mal: é um tesouro a cuidar e
frutificar. O líquido transparente, mas denso da sua destilação, é uma bebida
delicada, causa estranhamento, depois, um prazer que se vai muito lentamente
desvanecendo na boca, como um perfume francês que fica colado à pele,
integrando-se nela, fazendo-se o seu odor íntimo, uma secreção hormonal de quem
o usa.
A aguardente de medronho poderá ser
um caminho frondoso e cheio de luz. Esse pequeno fruto antigo, que todos em
cegueiras deixaram de ver, mesmo na frente dos seus olhos, pode ser uma
solução, e como ele, outras pérolas e oiros com outros nomes e formas, que
pontapeamos sem dar importância, poderão ser alimento futuro. Tornarem viável
uma nova vida no e do campo.
No entanto, só os exploradores do
sonho, só os aventureiros da curiosidade, poderão achar essas gemas na beira
dos caminhos, levá-las consigo e florirem. Os outros, os acomodados, os
rezinguentos, os desistidos, os melancólicos, os invejosos, os que só colhem os
primeiros frutos, vão continuar a não olhar para o sol, a teimarem que a terra
é mais do que plana, a omitirem a existência do rio serpentante e belo que
apazigua quem descansa o olhar, a acreditarem teimosamente que os sonhos são
fraquezas do espírito, efeminados, para os sensíveis, não sabendo eles que são
o mapa dos tesouros, para onde podemos olhar e extasiados, cavalgar nos
desconhecidos, traçando rotas até as estrelas se for preciso.
Acabei por encontrar um assunto de
esperança que me tranquilizasse. E foi nessa tarde plena e cheia em que o meu
amigo Nelson da Silva, me deu a conhecer o futuro deste interior
desamparado.
Feita a revista “às tropas”, chegamos
a um cume, dos Caboucos, o ponto onde Alex, na solidão que escolheu em
liberdade para viver, oriundo de geografias estrangeiras, guardião agora dessas
alturas, um homem fazendo-se de Deus, adulto com cara de menino curioso, em
seus domínios celestiais que afinal são terrenos. E nesse ponto mais alto onde
a vista observa as curvas do rio e as encostas se lhe desenham os bordos,
sentamo-nos cavaqueando amenamente, a admirar a pacatez dos campos e a
plenitude das coisas simples, num banco de automóvel em napa vermelha, um puff
branco desconjuntado e uma cadeira coxa com três pés, falando banalidades
em línguas misturadas com que nos entendemos. Que pujante final de dia.
Uma nota final para dizer que conheci
finalmente a Cidalina (colega de escola do Nelson) mestre de cerimónias e
cozinheira do famoso e quase esotérico restaurante “O Baião”, na foz do Alge, e
deliciei-me com o peixe do rio frito, e o vinho, o branco, que do tinto é um
filho enjeitado que ela já o vê como impróprio (palavras suas que eu gostei
dele). E foi no seu restaurante que começou esta visita guiada pela gentileza e
sabedoria do “Nelson dos medronhos.”

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