Deixaram de contar,o tempo parou. Há dez anos. Pode ser que o tempo continue a correr dentro das condições suas e externas ao entendimento dos homens, pode mesmo ser que o tempo não exista para ser contado, pode ser que o tempo seja o senhor de todas as coisas. Pode-se dizer tudo sobre ele, nada se sabe ao certo dele. Os homens desinteressaram-se do tempo e se ele existe, foi uma grande desfeita que os homens lhe fizeram. Foi a primeira vez que o menorizaram e quase ninguém gosta de ser anão.
O tempo parou no dia do medo, um medo diferente, novo, que se estendeu a tudo, tomou conta da terra e paralisou os homens. Infectou-os, uns resistiram e foram vencidos, outros ignoraram e foram igualmente derrubados. Sem contemplações, no dia do grande mal, os relógios pararam. Congelaram as contagens. Clepsidras, relógios de água, relógios mecânicos, relógios atómicos, até quânticos, interromperam todo o seu movimento de pêndulo no presente, e deixou de haver passado (que já não havia antes) e futuro (que nunca houve).
As actividades humanas, na falta da contagem do tempo, foram interrompidas indefinidamente, os que puderam, fecharam-se em casa. Os outros, aqueles para os quais a miséria é uma acumulação de misérias que não param de lhes entrar vida adentro, tiveram de trabalhar, para os outros poderem estar em casa, exercendo, obrigados pela nova lei, os trabalhos fundamentais. Não se sabe com significância estatística se foram mais os que se esconderam ou os que se expuseram. Talvez os segundos. Os primeiros tinham condições para isso. Os segundos não tinham para onde ir, nem como aguentar, e por isso transformaram-se em fantasmas andantes, pelas ruas desertas das cidades, pelos campos deixados ao abandono, sabendo que tinham a espada na ponta da cabeça, pronta, a qualquer momento, para desferir o golpe de misericórdia, ou de miséria.
Como o mundo não podia parar apesar da
desconsideração que se fez do tempo, mantiveram-se as actividades essenciais,
aumentou ainda mais a distância entre os homens: os de posses, os sem posses;
nasceu uma nova escravatura, a dos homens obrigados a expor-se para
possibilitar a continuidade de vida aos que se resguardaram.
Fora isso, o silêncio insidioso começou a
assenhorear-se das cidades e das vilas. As pessoas deixaram de falar nas ruas,
evitavam-se umas às outras. As lojas que ainda estavam abertas, não tinham
clientes, mas os seus donos, corajosos, não tinham para onde ir, sentaram-se à
porta das montras para verem passar o nada, tentando escutar rumores de que a
cidade ainda podia estar viva.

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