segunda-feira, 10 de abril de 2017

SOBRE ESFERAS




Os carrinhos de esferas, isso sim é uma memória épica.

Tínhamos um entrave logístico que deu muito concílio e não foi fácil de resolver: o plano inclinado. Sem um não havia corrida.

Analisámos, da forma que as crianças analisam as coisas, que é a de não haver complicação nenhuma e avançámos, porque o importante é a brincadeira e para isso todo o tempo era pouco.

Os que tinham dúvidas sobre o pano inclinado e ficaram ainda a pensar, eram os panhonhas, e ainda hoje são, se bem alguns tenham conseguido sucessos, diga-se financeiros, não se percebe bem porquê. Os desenrascados queriam brincar, sem mais planos nem reflexões esdrúxulas. Alguns destes, eram tão desenrascados que depois de feitos, vida feita e tudo, tiveram que emigrar para pagar as contas dos anti-histamínicos – pela hora da morte – dos filhos. Voltaram para África, desta vez com Vistos de permanência reduzida.  

Só podia ser na rua dos Altos Estudos Militares, que tem uma inclinação apropriada - nem muita nem pouca - o alcatrão era de primeira qualidade e o tráfego automóvel é escasso e a maioria dos carros que circulam são de conhecidos. Também não havia mais alternativas já que as outras ruas eram de paralelipípedos de granito e naquela fase do nosso desenvolvimento cognitivo desconhecíamos a existência das suspensões.

Para se ter uma ideia melhor, esta rua, que não se chama assim, é murada à esquerda de quem desce por uma parede a todo o comprimento, uns trezentos metros.

Como antigamente o terrorismo estava todo concentrado em África, vá-se a saber porquê, toda a agente andava perfeitamente à vontade nas ruas dos outros sítios. Por cá só não se podia falar em voz ciciada nas esquinas das ruas. Sendo crianças desconhecíamos esses impedimentos. O simples facto da presença de um polícia, mesmo que barrigudo e com nódoas no dolmem cinzento-rato, era suficiente para dar por finda qualquer tentativa nem sequer começada de rebelião. De cacete em riste e a cara, de bigode farto, na cor de pimentão doce de soprar no apito da ordem, um só polícia fazia a harmonia do mundo, o mundo tão ingénuo das crianças.

O muro era suficientemente baixo para poder ser galgado e observarem-se panoramicamente os belos aviões-caça e os tanques militares que juntamente com árvores e outras verduras, constituíam o jardim com estátuas da escola dos brigadeiros e dos generais, sempre em grande número, estes e não as estátuas. De vez em quando, muito de vez em quando aparecia um soldado sentinela, que tinha vindo de uma aldeia de se demorar um dia a chegar. E tal tinha sido a sua fortuna – uma lotaria - de vir cumprir ali, com jardins, e boa cama e comida de primeira, que o melhor era fingir que não nos via. Eramos gaiatos, inofensivos, e podia ser que algum dos salteadores do muro fosse filho de general, para quê arranjar complicações?

Se de um lado da rua era assim, do direito era uma fila de pequenas e belas vivendas brancas, sem pecado, muito compenetradas de serem assim tão singelas, num bairro típico dos tempos em que na nossa cidade havia bairros por profissões.

Só nos lembrávamos dos carrinhos de esferas de vez em quando, era um cardápio inesgotável de jogos e invenções de novos jogos, que ocupavam todo o tempo livre até ao anúncio da adolescência. Depois, entrou-se noutro ciclo das nossas histórias, não menos glorioso.

O maior prazer estava na antecipação, na fase da preparação. As rodas, feitas de rolamentos eram a peça mais importante e a partir daí imaginava-se a estrutura do carrinho de madeira. Um problema técnico complicado de resolver era o da ligação do semi-eixo dianteiro com a estrutura central do carro: uma prancha simples de madeira tipo tábua de engomar. Um prego, dos de jogar na areia era a solução mais prática. A direcção resolvia-se com uma corda presa no semi-eixo dianteiro. Para quê complicar se era um desafio efémero que acabava quando os carros se desmoronavam ao fim de meia dúzia de descidas.

Alguns, mais avançados na experiência de construir carrinhos de rodas, colocavam um assento na prancha, que era geralmente um bocado de espuma, mas isso era um luxo.

Não se pode dizer que não havia acidentes, mas naqueles tempos um miúdo decente tinha os joelhos e os cotovelos com mazelas. Eram os sinais orgulhosos de que só se é criança uma vez.


Tenho a sensação vaga ou estarei a sonhar, mas acho que uma vez despistei-me quando estava bem posicionado para ganhar uma corrida. Foi a Filipa do primeiro direito, que ou me piscou o olho ou o estava a coçar. Convenci-me que era para mim e andei pintado de mercurocromo durante uma semana.




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