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Mensagens

Eram duas, um pelo menos era hippie e lia um livro

  Ontem, sentado na esplanada e mimetizado por outros utilizadores presentes nesse espaço a essa hora, e nenhum, que me tivesse apercebido interessado no que a seguir relato, vi duas mulheres lendo, enquadradas na vegetação. Creio que eram duas, não posso garantir, a minha posição relativamente a elas, não era a melhor. A princípio desconfiei, mas dei o benefício de perceber antes de lançar um anátema, que é pior que um perjúrio. À parte a parte toda nas cadeiras das esplanadas e os bancos residentes dos jardins, as outras mulheres e os outros homens que preenchiam os lugares, sentados os seus corpos neles, não liam e nem sequer falavam. As pessoas falam muito pouco com os outros. Julgam que o fazem, mas falam ininterruptamente para si mesmas para não ter de ouvir os outros. As pessoas presentes nesse momento neste espaço de lazer da cidade, faziam o que normalmente fazem todas as pessoas orientadas: organizam a sua vida, os contactos e o lazer, auxiliados pelos telefones portáteis...

Aldeia das casas brancas

    É uma casa em nada diferente das outras, poucas. Cal nas paredes. A virgindade do branco do povo. A porta e as janelas aninham numa moldura colorida. Amarelo. Umas cortinas, alto a baixo, de tiras de plástico irradiantes e coloridas, afoguentam insectos. Entra-se directamente na sala de paredes deslavadas, com a sujidade  acumulada do tempo e das histórias a que assistiu. Quase se tacteiam os poucos objectos, mesas e cadeiras em fórmica. Um balcão corrido, a todo o comprimento da sala, em madeira, escurecida como a luz que falta. Atrás do balcão no que se pode chamar uma prateleira, copos para servir vinho e outros, pequenos, sinos de bagaço. Uma máquina de café, uma peça histórica, já não funciona com certeza. Ainda atrás do balcão, só visível a quem esteja encostado a este, uma pequena mesa forrada com uma toalha de plástico com flores, um candeeiro envolvido em teias de aranha, um caderno com linhas, um lápis nele pousado. Um vulto vestido de negro da cabeç...

Estava instalada a desorganização do mundo.

  Desmoronavam os castelos de cartas. As metáforas perderam o brilho. As poesias perderam a imunidade. Homens e mais homens caiam, uns depois de outros, contaminados pelo inominável. Lutavam com as forças que tinham - quando se trata da sobrevivência, todos bravos, corajosos, heróis para si mesmos - mas parecia uma guerra perdida, o inimigo cada vez se agigantava mais, e mais, ceifava rente os rebentos que tentavam a sua sorte, florir, realizarem-se na sua essência que é o viver. O maior de todos os problemas, o problema sem solução, é que esse inimigo era invisível, impalpável, indetetável a olho nu. E não se fala de micro-organismos. É da fraternidade. De algo tão simples, mas tão inqualificável. Uma conexão humana fundamental. Em consequência de o mundo ser um sítio poluído e impróprio, uns ficavam em casa, não se sabe se sábios nessa decisão, entediavam-se muito. Não estavam habituados a estar em casa, junto dos seus. Tinham esquecido as artes do convívio, perdido por d...

DA REALIDADE

* …Tantas e tantas vezes fiz a pergunta, se isto, este estado permanente de híper-lucidez, não é uma viagem interior. Se é que não estou parado, imóvel no mesmo local, a minha ilha-castelo, e esta aventura a que considero o real não passa de uma projecção a passar na minha cabeça, um filme, enquanto julgo estar a olhar para o mar. Onde está a verdade? Sempre a sentir-nos enganados. Se calhar nem parti, nem naveguei, nem sequei ainda mais a minha pele curtida pelo sol intenso, nem sequer sequei ainda mais as minhas entranhas habituadas à fome, à sede, ao calor. É tudo imaginado. É tudo baço, é tudo esquivo, é tudo tão pouco credível. É um sonho dentro de um sonho, que eu sonho, e alguém fora de mim me sonha, e nunca mais acaba, acumulações sobre acumulações de sonhos. Há quem nunca saia do quarto, ou da sala, ou da biblioteca, a cela que escolheu e em que se fechou por dentro, e imagine epopeias, viva circum-navegações terrestres e cósmicas, desenvolva teorias geniais, e, nunca saiu do ...

O JARDIM DE TODAS AS DELÍCIAS*

Não se adivinha em nenhuma geografia a localização exacta do Jardim. Pode ser nesta terra, pode ser noutra. Pode ser ao estender o braço, pode ser numa galáxia longínqua, até mesmo buraco negro. Pode ser da ordem do real, pode ser da ordem do imaginário simbólico. Seja o que seja onde seja, o Jardim do Éden existe, que não seja em delírios. É um lugar aprazível, onde tudo é puro. É o mundo das Ideias. As cores são o original de todas as cores; o Jardim, a perder de vista, e todas as árvores, arbustos, plantas e insectos que o compõem são primordiais, o conceito primeiro e completo desses seres todos, não há estações do ano, porque não há “ano”, tudo é permanente, e o clima é o protótipo acabado pelo Criador, de todas as tonalidades de climas. Os odores são perfumados e permanentes, inebriam de prazeres subtis. A concórdia está instalada, não há conflitos, não há excessos, não há asneiras, não há pecado. Não é necessário trabalhar para ganhar o pão, o que é bom, porque não é necessári...

A utopia do delírio *

  Que tal se arriscamos delirar um pouco? Que tal se cravamos os nossos olhos para além da infâmia, tentando adivinhar outro mundo que seja possível e fascinante? O ar, limpo, puro de todo o veneno que não provenha dos medos humanos e das tóxicas paixões humanas. Nas ruas, os automóveis serão abalroados pelos cães e outros seres livres que nelas se passeiem; As pessoas não serão sequestradas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem tão pouco vistas pelo televisor, impávidas, hipnotizadas de tédio; O televisor deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como a tábua de passar a ferro ou a máquina de lavar a roupa;  Acrescentar-se-á aos códigos penais o delito da estupidez, que cometem aqueles que vivem para ter ou para ganhar, em vez de simplesmente viverem, sem mais, como canta o pássaro sem saber que o faz e como a brinca a criança sem saber que brinca, vivendo a eternidade nesse momento ...

A mulher estátua

  O adeus é um olhar, um gesto fugaz, um aceno com a mão, um lenço branco animado pelo vento.  Deixa-se um amor, numa curva apertada da topografia da vida, Um amor ou a possibilidade de o ter sido. À porta de um bar, numa paragem de carro eléctrico, num esconso da cabeça, num equívoco pessoal, num desencontro de minutos, numa ilusão que se desilude. Ancorado num cais imaginário.  Encontramos, perdemos, voltamos a encontrar, e a perder. O mundo, impassível, continua a rodar sem misericórdia, indiferente ao amor. Nunca encontramos quem queremos, perdemos quem não sabemos que queremos, nada sabemos. Tertuliano emigrou para um barco, fez-se marinheiro, para viver o amor do  mar, e o seu outro amor ficou amarrado a um cais, uma estátua, é essa a verdade factual desta história. Duas mulheres, uma de carne e osso e sentimento, e outra de abstração líquida, competindo para serem as escolhidas. Uma, Maria, a outra Mar.  Antes de se transf...
T odos os dias, no minuto certo da hora certa, ele regista no relógio do ponto a sua entrada na repartição. A repartição de que se fala chama-se  Instituto das Boas Ideias, organismo que o governo criou, não que tivesse para eles sido uma boa ideia, mas porque, num recente discurso à nação, o primeiro  ministro, pressionado pelos jornalistas que não largam as presas - mesmo as  inocentes - para se ver livre das críticas que sobre si recaiam, anunciou que  convidaria todo o povo a enviar ideias boas (para uma entidade que o governo ia dar posse, para agilizar imediatamente), ajudando assim o governo a governar melhor e com maior cumplicidade dos seus eleitores. O senhor Aparício, que trabalhou desde catraio na função pública (entrou  como moço de fretes, tinha ele os seus quinze anos), funcionário exemplar, transitou para este novo instituto, e estava orgulhoso disso. A sua função, fundamental, receber o correio das ideias e separá-las e colocá-las nu...

Eternidade

  Eternidade -  Qualidade daquilo que é eterno. Imortalidade. A vida eterna. Duração longa   «Quando crescer vou ser como tu?  Não, vais ser tu.  Não quero. Quero ser como tu.  Não podes.  Vais ser melhor.  Melhor como?  Diferente. Tu próprio.  Ser melhor para mim, é ser como tu.  Mas eu não sou melhor, sou eu. Como sou.  O melhor.  Se quiseres, quando cresceres serás eu mais tu.  Os dois num só?  Sim. A soma dos dois.  E como vou saber qual é a tua parte e a minha?  Não te preocupes, misturamo-nos um com o outro. Assim não nos podemos dividir.  Está bem.  Falta muito para isso acontecer?  Já aconteceu.  Quando?  No dia em que nasceste.  Não me dei conta.  Pois não. Os filhos são a continuação dos pais. Sempre assim, espelhos.  Assim não te vou perder.  Pois não, tens-me sempre contigo.  Queres dizer que nunca ficarei sem ti?  Sim.  Vou-te co...

Morreu o palhaço

    Morreu o palhaço e o mundo não quis saber. O mundo nunca liga à morte. Morreu o palhaço porque queria ser gente. E o mundo omitiu o palhaço. Um palhaço não pode ser gente. É uma cabeça de fósforo, tristonha e patética com essas pinturas berrantes. O mundo não quer saber dos palhaços. Nem de gente. Morreu desiludido dessa ambição, O mundo, indiferente, nem reparou nesse acontecimento mínimo. Todos os dias morrem palhaços, todos os dias morre gente, E o mundo não tem comiseração nem sentimento. Sejam palhaços sejam gente, são um insignificante nada. Amanhã a morte de todos os seres será ainda mais esquecida, até porque nunca foi lembrada. Haverá um jogo de futebol, e o mundo gosta de futebol

APOCALIPSE DAS PALAVRAS

    Caos (latim chaos, -i) Confusão de todos os elementos antes de se formar o mundo. Fig. Grande desordem, confusão . O dia do Apocalipse das Palavras No momento certo que não deixou para este relato a confirmação exacta da hora marcada a que isto aconteceu, deu-se o ataque às cidades. Falácias escritas, fake news, conspirações e propaganda, manipulações, e mensagens subliminares, políticas de alienação pela palavra, foram bombardeadas indiscriminadamente sobre as cidades e os seus habitantes. Não escolheram alvos. Choveram frases corrosivas e ácidas, em cirílico, em mandarim, em hindu, em alemão, em inglês, nas línguas vivas e mortas, todas. Até as línguas inventadas, os esperantos, outras com outros nomes, Todas as línguas e idiomas que os homens falam foram empregues no dia do Juízo. Nesse dia a palavra não foi o Verbo. Um poder nunca visto. Num só dia, aquele, foram ditas em todas as conjugações de palavras, as maiores asneiras e vernáculos. Anátemas, impropérios, difam...

BADAMECO

Badameco (latim vade mecum, vai comigo) Pasta com papéis ou livros que os miúdos levam para a escola. Rapazola. Homem sem importância   É uma rica palavra, tem vários significados, pode usar-se com propriedade e  riqueza em textos densos, com várias camadas de compreensão e que exigem leitores profissionais devidamente munidos das ferramentas exigidas para fazer essas descodificações. No entanto, quem a ouve dá pouco por ela.  Não vamos falar da sua utilidade como pasta para transportar papéis ou livros, nem de uma pessoa presunçosa.  Badameco é mais do que um artolas: é um artolas malandraço, com manhas, de fracas rés, bílis ácida. Um fedelho.  O badameco não é boa companhia, e apesar de haver badamecos finos, encontram-se mais em subúrbios, onde vivem de pequenos expedientes, chico-espertos. Ser badameco é uma situação crónica, sem evolução positiva nem cura.  Nasce-se e morre-se badameco. É uma palavra literária comum e há inúmeros e bons exemplos d...

Intuições extrassensoriais

O Darwin é um cão muito mais inteligente do que eu. Pudera, com os pergaminhos que tem! Ele sabe o nome de todos os meus amigos, mesmo nomes estrangeiros, difíceis de pronunciar. Eu, já não é a primeira vez que me esqueço do meu, a minha mãe então, que estará vogando no éter da energia de todo o universo, em sua vida, todos os homens, novos ou velhos, familiares incluídos, chamavam-se Paulo, o seu filho predilecto. Acho assim que o Darwin não só é mais inteligente que eu, também é mais inteligente  que a minha mãe, que não se conheceram. Não vale a pena avançar com mais familiares porque o Darwin já me começa a irritar com a sua soberba de ser o mais inteligente de todos. Tivesse ele, nas lotarias da sorte, calhado viver numa família de doutorandos e doutorados, disto e daquilo, e havia de sentir as vergonhas de não ser tão inteligente como eles. Como está comigo, tenho que me reduzir ao silêncio, para não passar por vergonhas.  Quando em final dos dias, começando a no...

Dou-me a ti

Estendes os braços nus, finos, oferecem-se assim, pedem resposta. São provocantes, não são provocantes, são absolutamente meus, esses braços, com a intenção honesta de me abraçar, só a mim, e porque estão nus e são finos, levo a intenção ainda mais a sério. Não. A tua intenção nesse jogo subtil de se pensar que é uma oferta, é afinal que seja eu a abraçar, estendendo os meus braços menos finos e menos femininos, mas teus, quando chego à distância de  conseguir. Com a melhor das simples resoluções, faço-o sem considerações filosóficas, muito menos mesquinhas. Chego-me, um aproximar dos tímidos. Abraçamo-nos, e não temos palavras encadeadas e suficientes para explicar aos outros com clareza o que aconteceu. Nem estamos interessados em  divulgar. Se um dia voltares a estender os teus braços finos e aveludados e se eu estiver a assistir à provocação, Deus nosso Senhor me agarre, atropelo-me, tonto, ponho-me a caminho de ti. Tenho de ser o primeiro a chegar, e com...

Comprei um alimentador de passarinhos.

Eu, que o único contacto visual que tinha tido era aquela pobre coitada águia, escravizada para dar voltas a um campo de futebol, achicada por uma multidão bárbara exultante, e os corvos, nas fotografias e heráldicas da Câmara, que emblemam a minha cidade e das poucas vezes que visitei o castelo de São Jorge. Já mais tardiamente apareceu um melro na minha vida (e a revolução que ele fez!). Um majestoso melro, que nesses fins de dia cinzentos, pousava no telhado do prédio solitário na minha paisagem urbana, e eu, sentado na secretária, o recebia da minha janela do quarto, no meu prédio solitário e assustado. Eu tinha uma máscara incómoda, ele não, era livre. Ciumento eu de ele o ser. Agora, que sou quase livre, continuando sem asas (e estou mesmo em querer que nunca as irei ter), mas esvoaçando imitando-as, na minha cama de rede brasileira, numa tarde amena de outubro, pensando com leviandade, nas coisas minhas da existência, e não é que um passarito lindíssimo de peito acobreado, p...