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Mensagens

O Darwin não gosta de sair à noite

  Há dois epifenômenos diários que o Senhor Darwin odeia: sair à noite (nisso sou como ele – depois até gosto) e chuva. Ele tem hábitos regrados e é apreciador de uma rotina previsível e com horas certas. Não sei se estarei totalmente de acordo com ele, mas compreendo-o e admiro o seu estoicismo. Deita-se bastante cedo, por volta das 8 da noite e quando vê que já está na cama há muito tempo sem a minha companhia, vem à sala, planta-se à minha frente, esfíngico como uma estátua de mármore, deposita um olhar sem piscares persistente na atenção do meu olhar, e não arreda disto, até que eu, vencido pelo seu carácter obstinado, me levante, desligue as luzes da sala e o acompanhe para a cama. É tão insistente que acabo por fazer-lhe a vontade, ou então, ainda termos de ir à rua, já que nunca o ensinei a usar a sanita, que compreendo ser um objecto ergonómico não pensado para os cães, pelo que temos mesmo de ir à rua. Lá vai, a custo, focinho baixo, até era capaz de assegurar que vai ...

Os Óleos

  Quando fui miúdo, fui violentado pelo Óleo de Fígado de Bacalhau. O meu Pai, que se lhe punha convencimentos transitórios na cabeça, e com uma grande rotatividade (chegava a mudar de ideia para o seu oposto no espaço das 24 horas de um dia), considerou um dia, que estavam nessas colheradas generosas em quantidade e intragáveis, a grande fórmula para o crescimento apolíneo das crianças, o que estava no seu convencimento inabalável, de que, com uma colher todos os dias íamos pelo menos crescer mais 10 cm do que ele, e mais, a produção da elaboração das nossas cabeças (minhas e do meu irmão) produziria em quantidade e qualidade, ideias fundamentais para o mundo (mesmo quando agora sabemos, que milhões de crianças que tomavam a diário esse óleo, se era verdade que o tomavam   e não mentiam aos pais, regurgitando-o quando eles não estivessem a ver, essas ou pelo menos algumas muitas, produziriam com toda a certeza tantas ideias tão boas e fundamentais quanto as nossas. Um tor...
                                                    “Quem és tu?                                                     “Para o Universo nada.”                                                   “ Para mim tudo.”   Étienne Pivert de Senancour ( 1770, Paris -1846, Saint-Cloud ) foi um autor francês, autor do romance Obermann (1804), que descreve o sofrimento de um herói sensível e atormentado..  Algumas décadas após a sua apresentação literária, foi redescoberto pelo público e tornou-se uma referência do Romantismo fran...

O DIA

  A noite que entra anuncia um dia radioso Nesta noite estamos alerta. Nas esquinas, nas quelhas, nos becos sem saída, ciciam vozes. Algo está para acontecer. Sons metálicos de carros que não são como os nossos, soam, chiam e passam por baixo das janelas. A rua, as paredes, os muros dos jardins, vibram. Habituados que estamos por medo, a nunca abrir as portadas, só imaginamos maus augúrios. Podemos estar a imaginar mal. Quando a madrugada acender ainda timidamente as luzes do novo dia as vozes deixarão de ciciar. Do nada, sem aviso, sem que se esperasse, organiza-se espontaneamente uma festa nas ruas, empunham-se flores como se fossem armas, o povo ainda estremunhado porque acabado de despertar, não sabe bem o que é, mas aceita a alegria, porque estava muito necessitado dela. Estás prestes a nascer o dia do futuro, e pelo que se apresenta, parece promissor. Acreditamos num futuro melhor, não temos outra saída.

2 dias para Abril

  Quando a opacidade turva a transparência, cegamos todos, vendo não vendo. Aí, oportunos os “messias” entram em palco, estapafurdiando promessas e mezinhas, que todos gostamos de ouvir. Enganados por nós próprios, sempre na febre do conforto pessoal, achando muito trabalhoso o acto de pensar. A palavra deve soar mais alto que o sibilo agudo do chicote, o rasgar da trajectória de uma bala. Se assim não acontecer, a existência transforma-se num caminho de dor e desalento. Mas, para que a palavra soe é preciso ser movida pela coragem, dizê-la de peito aberto. Nem sempre as maiorias têm razão, ou tino. Na lei do chicote e da bala, os néscios infantilizam com o trovejar dos medos e das subserviências. O jardim continua cheio de flores, não as deixemos murchar.

5 dias para Abril

 

6 dias para Abril

 

7 dias para Abril

 

8 dias para Abril

 

9 dias para Abril

 

10 dias para Abril

 
                     Estão todos convidados. Vamos falar de coisas.

Porquê?

  Entendemo-nos tão pouco,  Na necessdade de nos devermos entender tanto tanto. Numa guerra de amor os dois. Porquê? Só tinhamos uma oportunidade e sabiamos  isso. Hoje. Na nostalgia da recordação de uma Londres longinqua, de nevoeiros cerrados, Onde te acompanhei numa doença.  Doi-me o corpo de saudades tuas, Porque ouço os Genesis, que ambos gostávamos.  Já vamos tarde. Julgava que estava já  esquecido de ti. Hoje. Dois-me, miúdo que nunca te fizeste homem, nem eu.
  O senhor Darwin, cão que me leva à rua todos os dias, é um cão nervoso e eu também. Se as condições estão de feição, passeamo-nos às voltas no Vale da Pipa. Ele mijando árvore sim, árvore não, eu, tentando nesses intervalos curtos, executar a minha caminhada japonesa, que li algures, ser a mais aconselhada a reformados, e não sei porquê. Como nem sempre a consigo levar a bom termo, ou porque as árvores estão demasiado próximas umas das outras, e ele está sempre a alçar a pata, ou porque se distraí e num virote me leva a tropeçar agarrado à trela por uma vontade súbita sua de correr que nem um demónio, há dias que o raio do cão me enerva ainda mais. Nada disto tem a ver com o facto de o senhor Darwin ter ou não tido uma relação de amizade com o Óscar, facto que será impossível de comprovar.   Lindíssimo cão cujo garbo e assertividade no domínio do território (o seu território, o Vale da Pipa), e nestes casos o tamanho não quer dizer nada, punha em sentido o maricas do cão q...
Revelar-vos-ei as feridas da separação do coração fechado num vício, mas contente por vos ver seguir o vosso caminho, fazerem escolhas mas de vez em quando olhem para trás! Não tragam dor a quem vos ama e continuem a construir perfeitas, ainda que invisíveis, cidades em miniatura... AlessioBrandolini

Eram duas, um pelo menos era hippie e lia um livro

  Ontem, sentado na esplanada e mimetizado por outros utilizadores presentes nesse espaço a essa hora, e nenhum, que me tivesse apercebido interessado no que a seguir relato, vi duas mulheres lendo, enquadradas na vegetação. Creio que eram duas, não posso garantir, a minha posição relativamente a elas, não era a melhor. A princípio desconfiei, mas dei o benefício de perceber antes de lançar um anátema, que é pior que um perjúrio. À parte a parte toda nas cadeiras das esplanadas e os bancos residentes dos jardins, as outras mulheres e os outros homens que preenchiam os lugares, sentados os seus corpos neles, não liam e nem sequer falavam. As pessoas falam muito pouco com os outros. Julgam que o fazem, mas falam ininterruptamente para si mesmas para não ter de ouvir os outros. As pessoas presentes nesse momento neste espaço de lazer da cidade, faziam o que normalmente fazem todas as pessoas orientadas: organizam a sua vida, os contactos e o lazer, auxiliados pelos telefones portáteis...

Aldeia das casas brancas

    É uma casa em nada diferente das outras, poucas. Cal nas paredes. A virgindade do branco do povo. A porta e as janelas aninham numa moldura colorida. Amarelo. Umas cortinas, alto a baixo, de tiras de plástico irradiantes e coloridas, afoguentam insectos. Entra-se directamente na sala de paredes deslavadas, com a sujidade  acumulada do tempo e das histórias a que assistiu. Quase se tacteiam os poucos objectos, mesas e cadeiras em fórmica. Um balcão corrido, a todo o comprimento da sala, em madeira, escurecida como a luz que falta. Atrás do balcão no que se pode chamar uma prateleira, copos para servir vinho e outros, pequenos, sinos de bagaço. Uma máquina de café, uma peça histórica, já não funciona com certeza. Ainda atrás do balcão, só visível a quem esteja encostado a este, uma pequena mesa forrada com uma toalha de plástico com flores, um candeeiro envolvido em teias de aranha, um caderno com linhas, um lápis nele pousado. Um vulto vestido de negro da cabeç...

Estava instalada a desorganização do mundo.

  Desmoronavam os castelos de cartas. As metáforas perderam o brilho. As poesias perderam a imunidade. Homens e mais homens caiam, uns depois de outros, contaminados pelo inominável. Lutavam com as forças que tinham - quando se trata da sobrevivência, todos bravos, corajosos, heróis para si mesmos - mas parecia uma guerra perdida, o inimigo cada vez se agigantava mais, e mais, ceifava rente os rebentos que tentavam a sua sorte, florir, realizarem-se na sua essência que é o viver. O maior de todos os problemas, o problema sem solução, é que esse inimigo era invisível, impalpável, indetetável a olho nu. E não se fala de micro-organismos. É da fraternidade. De algo tão simples, mas tão inqualificável. Uma conexão humana fundamental. Em consequência de o mundo ser um sítio poluído e impróprio, uns ficavam em casa, não se sabe se sábios nessa decisão, entediavam-se muito. Não estavam habituados a estar em casa, junto dos seus. Tinham esquecido as artes do convívio, perdido por d...

DA REALIDADE

* …Tantas e tantas vezes fiz a pergunta, se isto, este estado permanente de híper-lucidez, não é uma viagem interior. Se é que não estou parado, imóvel no mesmo local, a minha ilha-castelo, e esta aventura a que considero o real não passa de uma projecção a passar na minha cabeça, um filme, enquanto julgo estar a olhar para o mar. Onde está a verdade? Sempre a sentir-nos enganados. Se calhar nem parti, nem naveguei, nem sequei ainda mais a minha pele curtida pelo sol intenso, nem sequer sequei ainda mais as minhas entranhas habituadas à fome, à sede, ao calor. É tudo imaginado. É tudo baço, é tudo esquivo, é tudo tão pouco credível. É um sonho dentro de um sonho, que eu sonho, e alguém fora de mim me sonha, e nunca mais acaba, acumulações sobre acumulações de sonhos. Há quem nunca saia do quarto, ou da sala, ou da biblioteca, a cela que escolheu e em que se fechou por dentro, e imagine epopeias, viva circum-navegações terrestres e cósmicas, desenvolva teorias geniais, e, nunca saiu do ...

O JARDIM DE TODAS AS DELÍCIAS*

Não se adivinha em nenhuma geografia a localização exacta do Jardim. Pode ser nesta terra, pode ser noutra. Pode ser ao estender o braço, pode ser numa galáxia longínqua, até mesmo buraco negro. Pode ser da ordem do real, pode ser da ordem do imaginário simbólico. Seja o que seja onde seja, o Jardim do Éden existe, que não seja em delírios. É um lugar aprazível, onde tudo é puro. É o mundo das Ideias. As cores são o original de todas as cores; o Jardim, a perder de vista, e todas as árvores, arbustos, plantas e insectos que o compõem são primordiais, o conceito primeiro e completo desses seres todos, não há estações do ano, porque não há “ano”, tudo é permanente, e o clima é o protótipo acabado pelo Criador, de todas as tonalidades de climas. Os odores são perfumados e permanentes, inebriam de prazeres subtis. A concórdia está instalada, não há conflitos, não há excessos, não há asneiras, não há pecado. Não é necessário trabalhar para ganhar o pão, o que é bom, porque não é necessári...