*…Tantas e tantas vezes fiz a pergunta, se isto, este estado permanente
de híper-lucidez, não é uma viagem interior. Se é que não estou parado, imóvel
no mesmo local, a minha ilha-castelo, e esta aventura a que considero o real
não passa de uma projecção a passar na minha cabeça, um filme, enquanto julgo
estar a olhar para o mar. Onde está a verdade? Sempre a sentir-nos enganados.
Se calhar nem parti, nem naveguei, nem sequei ainda mais a minha pele curtida
pelo sol intenso, nem sequer sequei ainda mais as minhas entranhas habituadas à
fome, à sede, ao calor. É tudo imaginado. É tudo baço, é tudo esquivo, é tudo
tão pouco credível. É um sonho dentro de um sonho, que eu sonho, e alguém fora
de mim me sonha, e nunca mais acaba, acumulações sobre acumulações de sonhos.
Há quem nunca saia do quarto, ou da sala, ou da biblioteca, a cela que escolheu
e em que se fechou por dentro, e imagine epopeias, viva circum-navegações
terrestres e cósmicas, desenvolva teorias geniais, e, nunca saiu do quarto, nem
viu visto com os seus olhos, as coisas todas que devem ser vistas antes de se escrever,
ou imaginar, ou sonhar, com obras difíceis e complexas e únicas, que afinal,
podem ser realizações magistrais de um simples humano, que passou a sua vida de
pantufas.
Seja o que for,
seja qual for a importância relativa da minha experiência, para mim, já que não
diz respeito a mais ninguém, vivo-a intensamente pelo que devo considerar,
mesmo havendo a possibilidade de ser um sonho, que é a minha realidade,
sonhando-a.
É noite e
abrigo-me na minha barcaça que agora é a minha casa, e observo a incalculável
contagem das estrelas que iluminam piscante o céu límpido, penso nestas coisas,
e melancolizo-me com frio….
* - Excerto de "A ÁRVORE", Luis Robalo
- Painting a dream de Caghall

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