Sento-me todos os dias em horas em que o sol ainda não
decidiu se vai brilhar ou deixar-se obnubilar por névoas, com a decisão
emocional de escrever a frase mais conseguida, bela e perfeita, que jamais
escrevi. Todos os dias esta intenção, mas nem a última, a de ontem, que chegou
perto de ter sido magnífica, acabou por perder-se ingloriamente, vida perdida,
na espuma da praia, como aquele menino.
Nos momentos que se seguem a essa consideração de
valor íntimo qualificativo, desiludo-me.
Não escrevo mais, sem muita convicção. O Darwin sai à
rua para me passear, vou para a casa do Hobbit, olhar para o manjericão que
ando vai para duas temporadas a tentar que medre e me faça tão feliz como
escrever frases belas, balanceio-me que nem um louco numa cama da rede que
tenho, e devaneio. No dia seguinte volto a acreditar firmemente que escreverei
a mais bela e conseguida frase de todas as épocas e estilos.
Todos os dias tento escrever essa frase, e acabo
invariavelmente a balancear-me na cama de rede, absolutamente frustrado, mas
pelo menos embalado.
Com isso, já se somam anos de tentativas. Tenho vindo
a coleccionar um punhado de frases razoáveis, absolutamente inúteis, ou
choramingas, que não podiam estar mais longe desse meu objectivo de escrever
frases belas.
Dou um exemplo: dizer num texto meu (Morreste-me
Lampedusa) que “dão à costa homens-peixe que não ganharam guelras para
respirar”, é nos dias de hoje, um lugar-comum. Já ninguém está interessado
em saber que todos os dias no nosso mar Mãe Mediterrânio dão à costa mulheres e
homens, falhos de serem peixes, mas que queriam ser livres num mundo de
oportunidades e sobrevivência. Todos os dias, há mortes aos molhos e genocídios
disfarçados de contos de fadas, muito mais estimulantes de assistir ao vivo e a
cores, nos nossos estrondosos ecrãs de gigantescas dimensões, onde se pode ver
a morte, o sofrimento, a miséria, com todo o pormenor e cores vividas. Até os
meninos mortos (porquê?) que cujas faces lívidas, parecem tão reais, nos
milhões de pixel dos nossos televisores. A cor é mesmo boa!
Com tudo isso, como se pode sonhar (Eu),
realizando-se, a escrever frases plenas, cheias, transbordantes de Arte fina,
quando só conseguimos e mancos escrever frases da tristeza humana?
Escrever, é tempo que se perde, que o diga o Senhor
Darwin, que se falasse dizia-me na cara isso mesmo: “em vez de estares
agarrado ao teu vício de procurares uma frase bela, atira-me, mas é, e como
deve ser, a bola, a ver se não a apanho num ápice e transbordas de alegria por
teres ao teu lado o cão mais inteligente do mundo que não necessita de escrever
ou dizer frases belas, porque, tu és suficiente para mim.”
Ele tem razão e se calhar mesmo os manjericões, que se
lhes desse a devia atenção, em vez de andar para aqui com fabulações, cresceriam viçosos e eu muito mais feliz nas
minhas experiências de cozinha experimental italiana dos anos 30.
Fora isso, o mundo anda uma merda, mas já que ninguém
quer saber, também posso gastar o meu tempo a tentar escrever belas frases
universais! Porque não? Se os influenciadores o fazem e ainda vão a férias com
cocktails na faixa de Gaza….e não têm o Darwin para as chamar à razão!
Mas, acho que amanhã, hoje já se esgotou. Vou escrevê-la.
E depois, não necessito escrever mais frases nem escolher palavras, encontrei,
o livro de todos os livros da biblioteca de Babel de Borges.

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