O vagar é
um ritmo. Uma pulsão interior, um movimento ínfimo, quase imperceptível, um
estado de alma resguardado, não incomoda ninguém, um viver de mansinho. Sendo uma
percussão interna, nasce-se assim, vivendo-o desde o primeiro sopro, o vagar.
Sendo a
saudade por apropriação própria exclusiva dos portugueses, fingindo-nos e
enganando-nos que só tem um significado a que mais ninguém chega se não nós, o
vagar é alentejano e só seu. E de qualquer parte deste pequeno país que é
enorme na diversidade da cultura, a sua riqueza, ninguém a não ser um
alentejano, sabe falar com propriedade sobre o vagar. Muitos dão palpites, mas
ele no seu vagar sábio, deixa-se ficar quedo e mudo, gozando os perdigotos de
quem não consegue ficar calado. E, nem lhes responde, deixa-se estar no seu remanso,
que se está bem.
Dizem os
dicionários muita coisa. Que é lentidão, morosidade, demora, lerdeza, vagareza,
desaceleração, delonga, lenteza, calma, calmaria, indolência, brandura,
pachorra, ronceirice, remancho, descanso, lazer, ócio, sossego, inação,
inércia, preguiça, fleuma, léu. Mas, nada disso é vagar, ou tudo junto será.
Vagar, são
o pontilhado de branco dos montes e das aldeias, caiadas da cor sem mácula, com
as molduras das janelas e portas em cores quentes; vagar é um dia de canícula
apertada, em que nada mexe, nem uma brisa ligeira, o tempo está suspenso; é o
largo da igreja vazio de vidas humanas, espíritos, fantasmas e outros; é um cão
rafeiro que não reage a nada (que não o chateiem),
esparramado à sombra de um arbusto frágil; é o toque metálico abafado dos sinos
da igreja, horas que nunca batem certas, mas ninguém necessita delas; são as
horas lentíssimas que marcam os ponteiros enormes das torres sineiras; são as
conversas entre um copo de vinho e um naco de pão com queijo e azeitonas; e
quando a emoção aflora acalentada pelo vinho fresco, é o cante, é o movimento
estático dos corpos balançando, cá está, com vagar.
Nesta
geografia áspera simultaneamente amena, os extremos são influentes na vida dos
habitantes, características comuns que se prolongam-se de norte a sul do
Portugal raiano. Esse clima rude acaba por ser um ingrediente das
características das suas gentes, inscrito no mais íntimo da sua ancestralidade.
Esse vagar, é o vagar de se sentarem à porta das
suas humildes casas brancas, cada um com as suas coisas, costurando por
momentos conversas sobre nada, que podem, as mais profundas, falando do tempo,
das nuvens como elas se estão a mover, das cores que o sol pintou o dia,
daquelas frequentes névoas amareladas, que dizem vindas do sul, do outro lado do
mar, conversas que tomam caminhos inesperados, na solidariedade e cumplicidade
de todos.
Não há neste mundo calcorreado a léguas de
andanças, um final de dia como nessas planícies – o montado - que mimetizam um
mar tranquilo, da cor do ouro, pintado pelas espigas maduras dos cereais. Nem
os cenários exóticos, nem os monumentais se comparam a esse teatrinho que as
gentes das aldeias praticam costurando palavras lentas encostadas às paredes
caiadas, com o sol tremeluzentes aistir à conversa, e as estrelas
tremeluzentes a despertarem, todos muito
atentos, antes de a noite cobrir a vontade de se continuar desperto e os
moradores regressarem a preparar a janta, a ritualização da alquimia do pão e
das ervas de cheiro, transmutação em oiro, o das fotografias desse suave mar de
lhanuras e colinas suaves.
E não há
igual neste mundo por ser majestoso, imperial, retumbante. É por ser simples,
familiar, no vagar de tudo aqui, que o torna sublime.
O largo da igreja é o centro do mundo, porque
a igreja é o mundo. Poucos já se sentam nos seus bancos, feitos para serem solitários.
Raramente um transeunte visitante, tira fotografias, os largos são demasiado
singelos para merecerem fotografia. Só o cão, enorme, abentesma, de raça
rafeira é o senhor do pequeno largo, algumas lagartixas também. Todas as árvores
e arbustos são seus, e na lentidão do seu vagar de cão destes lugares, consome
o dia a transitar de árvore para árvore, escolhendo as direcções das sombras de
cada uma, para continuar os seus sonhos interrompidos.
O toque dos sinos das aldeias afasta, no
replicar sonoro, dando horas certas, o torpor das suas gentes. Não trinassem os
sinos e o vagar tomaria conta de tudo: dos vivos e dos mortos, congelaria o andamento
do mundo numa fotografia a sépia a parecer muito antiga.
Os
relógios das torres sineiras, alguns, tantos, não funcionam há anos de conta
perdida, têm uns ponteiros enormes e finos, pretos, para as cataratas os
poderem ver, nos limites, curtos, da fronteira da aldeia com o campo, onde
esses olhos, ainda trabalham no cuidar das manadas, dos rebanhos, nas carícias
aos sobreiros, porque as árvores precisam tanto de carícias como os homens que
as dão; o sobreiro, a azinheira, a oliveira, a deusa do paganismo mediterrânico,
e os seus frutos, ouro verde, que são o alimento da vida.
Ao final
do dia, quando as mulheres ainda cavaqueiam sentadas à porta de casa, falam
agora dos filhos que emigraram e dos netinhos tão amados que mal os veem, os
homens nas adegas, bebem do vinho da talha, petiscam petiscos que lhes faz mal,
mas não se importam, também os custos da vida fazem mal e não podem fugir a eles.
Conversas doces as suas, conversas que parecem cantadas, e são. Quando os
ânimos se animam, à desgarrada ou em coro, quase sempre à capela, balançando os
seus corpos estáticos, desnovelam longas lamúrias que afinal não o são, são os
ditos da sua alma, alma alentejana.
O ritual
diário que se mantenha, que o vagar descerre os dias, para que amanhã tudo se
possa repetir da mesma maneira.
É isso a
sua felicidade, no seu vagar.

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