O meu cão chama-se Darwin. Se nos nossos passeios o
reconhecem pelo nome de um jogador de futebol, ele amua, vira-lhes o rabo, e
nunca mais, por muito que reveja essa pessoa, voltará a abanar a cauda para
ele. Se o tratam com respeito pelo exemplo de ter o nome de um grande
cientista, desalma-se em saltos e pinotes, lambe o mais que o deixarem e ganha
um amigo para a vida. Não o vai esquecer mais.
Com isto pode-se pensar que o meu cão é um elitista,
um snob. Um nome como por exemplo Ronaldo, vale tanto como um José Maria. São
gostos, e estes, como sabemos são da intimidade de cada um.
Não. O meu cão não faz distinção de classes, tanto
alça a perna ao pneu de um Fiat Uno, como ao pneu de um Mercedes último modelo.
Estou mesmo a crer que tanto um como outro lhe dão alívio e prazer.
Essa sua distinção de comportamentos deve ter a ver
com o convívio. Explico: ou vem das conversas com outros cães, ou, o mais
previsível, vem de casa. Da nossa. Confesso que em dias azarados em que o
universo parece pôr-se todo de acordo em estragar-me o dia, sou impulsionado (e
isto só acontece dentro de portas, porque sou dado ao decoro e recato pessoal),
a uns valentes e sonoros impropérios e vernáculos fim de linha. E descarrego
essa minha raiva em personagens aleatórias que nesses momentos estão a passar
na televisão. Pode ser um jogador de caricas, ou um ajudante administrativo de
ministro, ou mesmo um analista e comentarista que não sabe absolutamente nada
de concreto do que se está a passar no mundo, mas que ganhou o lugar por ser
familiar de uma figura pública de influência.
Talvez por isso, o senhor Darwin, que é um cão sempre
atento ao que digo e faço, absorve essa informação dos meus desarranjos mentais
temporários e mimetiza na rua com alguém que o desagrade ou com quem
simpatize.
Dou graças a Deus, e não estou a nomeá-lo em vão, por
não lhe ter dado o nome de Ronaldo (é um exemplo de nome nada mais). É que cada
vez que ele saísse à rua, para além de após qualquer micção não conseguisse por
impossibilidade anatómica imitar um bandarilheiro a espetar um par de
bandarilhas no lombo de um touro, uma manifestação sua de vitória, “consegui”,
mas igualmente a receber constantemente palavras de apreço ou de rebaixamento, a
darem-lhe bandeirinhas e cachecóis, e ainda para mais ele não sabe dar
autógrafos a não ser que uma boa lambidela seja o seu equivalente.
Não lhe ter dado esse nome não foi, pois um acto meu de
soberba intelectual, foi um alívio para a vida que dei ao meu cão de não vir a
ser importunado nos seus passeios higiénicos e de poder assim, em sua total
liberdade, escolher os pneus para mijar. Mas convenhamos, Darwin é um nome com
muita classe.

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