quarta-feira, 2 de maio de 2018

DESCUIDADOS DE DEUS - DIA FINAL





Ficou o mundo num alvoroço, todos reclamavam. Uns porque queriam mais, outros porque queriam tudo, outros porque queriam ser deuses acima de tudo. Também havia os que apontavam o dedo, incriminando de todas as culpas os homens, por serem os criadores de deus. Neste grupo  estavam representadas as outras espécies e famílias do reino animal - que já foram faladas e outras - e havia mesmo uma ou outra flor, que apesar de que se saiba serem falhas de inteligência, algumas são de uma beleza tal e de perfumes tão indizíveis por palavras, que sendo como são só podem ter sido criadas para serem admiradas como verdadeiras deusas, pelo que encaixam no teor que se está aqui a tratar.

A manhã estava orvalhada e ainda fresca, mas prometia um dia despejado. Era um inicio de dia em que os raios de sol entravam pelas frechas dos estores dos quartos e se intrometiam debaixo dos lençóis, puxando a roupa de cama e obrigando os renitentes a levantarem-se. Há alguns dias assim, principalmente na Primavera, a estação do despertar de tudo, em que são os dias que tomam a iniciativa - não os utentes dos dias -, e desafiam os seres a viverem e fazerem tentativas de serem felizes. Alguns conseguem, são momentaneamente, outros não é nesse dia mas será noutros. Há também muita tristeza, mas há sempre.

Passou uma semana, e ao sétimo dia, Ele não compareceu.

Fora e dentro aguardavam abstidos de som, naquele estado que não se consegue medir, mas de que não resta a mais pequena dúvida de que o silêncio tem peso. Fazia um silencioso ruido incomodativo. Na rua as pessoas olham para o céu, por nada, por olhar. Dentro do auditório, olhavam para o colectivo de juízes, imóveis, estátuas, rostos quase lívidos em contraste com as capas negras.

O seu lugar vazio, parecia estar ocupado, um vazio com formas. Era bom que comparecesse mas o certo é que a discussão se encontrava num impasse: as perguntas tinham sido feitas, havia ainda mais, e as respostas tinham sido arredondadas.



Na realidade, naqueles dias, não tinha havido respostas, somente um monólogo de um só ser, apesar de algumas vezes ter sido entendido pela audiência que era um diálogo. Não, nunca o foi, foi uma conversa cansada entre alguém que está a conversar consigo mesmo, vendo-se a si sentado à sua frente. Só isso, o que foi.

Os conceitos não falam e esse foi o mal: terem posto palavras na boca dos pensamentos. Se os homens falassem com os seus deuses, se rezassem para dentro de si, ecoando os ecos nos seus abismos interiores, não teriam vindo males ao mundo. Mas eles por solidariedade, ou necessidade de identificação e reconhecimento, puseram-se a rezar em conjunto, boca para fora, fazendo barulho, muito barulho, encandeando os ouvidos de outros, e foi o que azedou o que poderia ter sido uma boa intenção. Convenceram-se de que seriam ouvidos e deveriam ter ficado calados.

Daí à desilusão, à descrença, à zanga, à frustração, foi um pavio curto.

O mundo com a invenção dos deuses, tornou-se uma heresia.
No sétimo dia marcado, estavam todos esperando pelo nada, convencidos de que não tardando, nada acabaria por chegar. E não, não chegou.

O Juiz presidente concedeu o tempo à realização impossível - sabendo-o bem - do fenómeno da ressurreição de Deus, e quando considerou conveniente, deu por encerrada a sessão. Mandou o povo para suas casas, pedindo recato e tranquilidade.

Talvez pela tensão vivida nos últimos dias, ou pelo cansaço acumulado de tanta emoção concentrada, aceitaram pacatamente o seu pedido. A revolta, é uma actividade esgotante. Derreia ao fim de pouco tempo.

O Juíz despiu a toga, desapossou-se do seu poder mais do que humano, e voltou a ser um homem simples.

Lembrou-se do seu cão, das crianças, da relva do seu jardim, recém cortada, do cheiro das flores ansiosas agora por darem-se incondicionalmente à vida, efémeras que são, elas e todos nós.

Lembrou-se que amava a sua mulher e não o dizia há muito tempo, tinha que lhe dizer, era um dizer urgente.
Bateu com a porta, meteu-se no carro ainda não totalmente pago, e dirigiu-se lenta mas convencidamente para junto dos seus. Aquele dia de inicio de Primavera, era um dia muito melhor sem a necessidade de ter que se justificar a mais ninguém senão a si mesmo.

O Juíz é um homem sensato e chama-se Pedro e a história não termina aqui, porque pode ser que mesmo em abstracto, Ele volte um dia.



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