quarta-feira, 9 de maio de 2018

A ARTE DE ENCADERNAR






Uma história repetida vezes sem conta que parece o desfiar de um rosário. Veio para cidade, de uma aldeia perdida no nome e no conhecimento das pessoas, menos as poucas que lá viviam pobremente. Currelos, Viseu. Veio servir, mas não quis. Foi trabalhar aos doze anos para uma oficina em Campo de Ourique, a desmanchar livros, é assim que começa o ofício. Como era curiosa aprendeu a arte de encadernar. Aos dezassete anos comprou o negócio. Quinhentos escudos. 

Viveu tempos difíceis, menos difíceis, são sempre difíceis.

Agora que poucos apreciam os livros de os ler e de os afagar, porque vive de uma pensão de viuvez, trabalha a dias, e alguns desses dias, poucos e que deviam ser todos, ainda consegue exercer a sua arte, mas gostaria de o fazer a tempo inteiro, já não dá.

Anos atrás, num dia em que provavelmente boleava um livro, entretida com os sons da radio, entrou-lhe porta adentro um senhor estrangeiro. Italiano e engenheiro de Cabora Bassa. Veio encomendar um livro das relíquias do Papa Pio XII, que está algures nos tesouros do Vaticano, onde ninguém a conhece, mas alguém admira a sua obra.

Embaixadores do mundo, algures nos países do mundo onde são oriundos, desfrutam agora nas suas bibliotecas privadas, de belos livros encadernados em finas peles, na sua acanhada oficina da rua Marcos de Portugal, numa Lisboa que está a varrer as pessoas que são suas, na ganância de alojar turistas distraídos.

Está na iminência de ter de fechar a porta que já raramente se abre, e que dá acesso a uma quase minúscula gruta onde ela, fez livros para escritores que já morreram.

A sua mais recente e muito esporádica encomenda foi de encadernar as obras de Fernando Pessoa, que o Presidente Marcelo levou de presente aos Reis de Espanha.

É a última encadernadora de Lisboa
Chama-se Rosa da Costa, a Mestra Rosa


Sem comentários:

Enviar um comentário