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Está uma árvore plantada no meu bairro.


 


 Quando era miúdo – de corpo fui sempre -, ganhávamos tempos incontáveis em jogos de apanhada, corríamos ao seu redor dando voltas e voltas à volta dela. Então, não nos dávamos conta dos outros residentes dessa árvore que bem podia ser, que o é, uma oliveira. Os passarinhos que nela pousavam para descansos do seu bater de asas, ou que fizeram dela a sua residência permanente, com os seus chilreios de muitas melodias simples, não conseguiam gritar mais do que nós, em interjeições, em risadas, em impropérios infantis e inconsequentes.

 Quando cresci um pouco mais da minha miudeza, mas continuando ainda assim esguio, fiz juras de amor caladas e outras ditas, a troco de um beijo que me explodisse em emoções ainda não sentidas e sulquei no seu tronco robusto e enrugado, com um canivete que o meu avô me ofereceu, corações com duas iniciais. Não sei quantos, mas foram alguns.

Jamais revelarei esses nomes, são o que resta de uma intimidade que aconteceu um dia.

 Fiz-me homem sem querer ser homem – sempre delgado -, e apesar de saber que a árvore não sairia do sítio, e na segurança disso, lancei-me em aventuras de espanto, voguei nas ondas da vida.

Uns, demos voltas ao mundo sem nunca termos saído desse bairro anónimo, outros, como eu, viajando por aí, onde tudo é incógnito como para esses, afinal, também era. Viajando a mil e um quilómetros, ou não saindo de sítio, com a cabeça a mil e um quilómetros, haverá um instante, um momento de fugida, em que baixa a saudade, e então, devemos voltar à cartografia do princípio.

E, ali está ela, no seu esplendor adulto, a árvore da nossa infância, das primeiras paixões desajeitadas, dos beijos fugidos e timidamente beijados. Ela, serena, fiel ao lugar que escolheu para vingar raízes ocultas, não me esperando a mim, nem a ninguém em particular, com inquilinos que se renovam, com outros pássaros herdeiros desses primeiros pássaros da minha infância, repousando nos seus galhos prazenteiros.

Rodeei-a, e não ouvi os sons estridentes da criançada. Desta vez ouvi claramente os chilreios melódicos das aves. Procurei, primeiro com o olhar, depois com as mãos, procurando os dedos percorrerem com minúcia os seus veios, na expectativa de encontrar os corações que um dia, tantos dias, sulquei acreditando na fidelidade do amor.

Não os senti. Esvaneceram com o passar do tempo. Não tendo mais nada de importante para fazer, sentei-me a seu lado num banco público e vermelho e deixei-me ficar. A remoer nostalgias, chamando essas memórias ao presente.

Distrai-me, não sei se muito se pouco. Terá sido o suficiente e compreendi que tudo o que eu procurei saber na vida e nas andanças, poderia ter perguntado à árvore. Ela ter-me-ia dito que as escolhas que fizemos, foram as melhores, porque foram essas que fizemos e não outras.

Perdi há muito o canivete que o meu avô me ofereceu,era bonito, e cortava bem. Reconciliei-me com essa perda, e outras. 

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