Há dois tipos de heróis: os de banda desenhada e os verdadeiros. Dos últimos, podemos dizer que há poucos: são muitos os inventados pelas pessoas que não conseguem viver sem um guia ou um deus que os encaminhe nos rebanhos; e os que são discretos, cumprem o papel que a existência lhes deu, e assim ser realizam e fazem-nos, ainda crer na humanidade.Somos um país pequeno e por consequência desse facto, temos muito poucos heróis que encaixem nesta última categoria. Mas temos, e a quantidade não é critério.
Um dos maiores heróis que temos é Gustavo Carona
Seriam poucos os adjectivos elogiosos para descrever a profundidade e complexidade deste homem simples. E o Gustavo não gostaria de ser “engraxado” publicamente por um anónimo que habita uma minúscula povoação interior no centro do país.
Pelo que vamos dizer somente que Gustavo Carona devia (é) o exemplo de um herói genuíno.
Pelo seu carácter, pelo seu objectivo existencial, pelo imenso Bem que faz, pelo seu humanismo, pela superação da dor como exemplo de que nada, mesmo nada por mais forte que seja, nos pode e deve afastar da realização da vida, como a vemos e entendemos.
Gustavo Carona, médico, anjo (anjos houvesse) em missões humanitárias onde a fome, a miséria, as guerras, as doenças, esfrangalham a possibilidade de presente e futuro das crianças e dos homens nessas geografias, sublimou as suas dores que não as conseguimos imaginar, e mal deixou de ter dor excruciante para ter muita dor, decidiu voltar à sua missão: ser médico e contribuir para dar um pouco de bem-estar aos que não têm nada, nem uma voz para gritar.
Se isso não é ser um herói, onde estão os heróis?
Vivem-se tempos de acefalia, onde os que não têm nada de que se reclamar como heróis (são talvez pessoas que conseguem por algum talento, esforço, trabalho e persistência, serem bons no que fazem), são esculpidos em estátuas e estatuetas e ocupam as notícias do dia, com futilidades, fazendo quase parar um povo (os cretinos que são cada vez em maior número), na ansiedade de que se cumpram milagres, em relvados de relva sintética.
Líderes, muito pouco líderes, que não são líderes e é o que nos falta, oferecem pulseirinhas para os jogadores da seleção, receberem no “campo”, os eflúvios espirituais de um jogador que morreu (infelizmente, as vidas que se perdem sem sentido são sempre vidas com um fim curto na cronologia de uma vida), porque conduzia loucamente um carro desportivo de luxo que custa mais do que o salário de toda uma vida de uma porção muito grande da nossa população. Ainda assim parece que era um bom rapaz, e não devia ter acabado dessa maneira cruel.
Gustavo Carona, não devia ser endeusado, porque os homens são homens e os deuses são deuses, e muito provavelmente nem existem.
Gustavo Carona devia ser apresentado às nossas crianças, a aos jovens, aos adultos estupidificados, como o exemplo de um homem inteiro (“Se isto não é um Homem” Primo Levi). E um homem inteiro não precisa da adoração dos deuses nem ser considerado semideus, para ser homem. Aquele que realiza o potencial de ser homem é mais do que um deus, porque é HOMEM.
Esses são os heróis que deviam ser falados nas aberturas dos jornais, nos “like” e “partilhas” das redes sociais, sussurrados com orgulho pelos pais aos seus filhos São os que ganham sempre, e nem a dor os acobarda de quererem ser HOMENS.
Os outros, os das espumas acastanhadas dos dias, pelo seu egocentrismo, pela sua visão limitada, berram e põem-se em bicos de pés e recebem todas as atenções dos media, são alucinógenos sociais, heróis de papel e, egoístas compulsivos..

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