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O Darwin não gosta de sair à noite

 


Há dois epifenômenos diários que o Senhor Darwin odeia: sair à noite (nisso sou como ele – depois até gosto) e chuva. Ele tem hábitos regrados e é apreciador de uma rotina previsível e com horas certas. Não sei se estarei totalmente de acordo com ele, mas compreendo-o e admiro o seu estoicismo. Deita-se bastante cedo, por volta das 8 da noite e quando vê que já está na cama há muito tempo sem a minha companhia, vem à sala, planta-se à minha frente, esfíngico como uma estátua de mármore, deposita um olhar sem piscares persistente na atenção do meu olhar, e não arreda disto, até que eu, vencido pelo seu carácter obstinado, me levante, desligue as luzes da sala e o acompanhe para a cama. É tão insistente que acabo por fazer-lhe a vontade, ou então, ainda termos de ir à rua, já que nunca o ensinei a usar a sanita, que compreendo ser um objecto ergonómico não pensado para os cães, pelo que temos mesmo de ir à rua.

Lá vai, a custo, focinho baixo, até era capaz de assegurar que vai a remoer pragas. Quando se alivia, vira-se na direcção de casa, onde sabe que depois desta obrigação higiénica, vai usufruir de uma noite bem dormida, junto do seu companheiro. Ele todo estendido a roubar-me as almofadas, eu, para não o incomodar, aninhado no bordo da cama, onde mal me mexo para não incomodar Sua Excelência. Quando ressona ainda é pior, mas aceito, porque eu também ressono, apesar de ele não se queixar, nem dar sinais de se incomodar.

Quanto ao problema da chuva, há cães que gostam de água, há cães que não. Assim como as pessoas. Se chove, para ele é um martírio, mal lhe consigo arrancar um alçar de pata, nem mesmo para os seus “alvos” preferidos: esquinas de prédios, tubagens nas paredes, pneus de automóvel. Umas pinguinhas a custo de já estarmos totalmente embebidos em água, e “ala”, vamos para casa, não sem que antes passemos, no protocolo da nossa vida a dois, pelo processo obrigatório em caso de dias chuvosos, por uma dinâmica esfregadela pela toalha amarela, a que lhe está destinada na hierarquia das toalhas que temos em casa. Isso sim, é um momento de grande prazer e fruição. É a sua massagem. Enquanto lhe passo a toalha pelo lombo, ronrona, abana a anca, olha-me com um amor imenso, e, todo feliz, esquecido já da chuva que odeia, está preparado para pespegar descaradamente o traseiro no meu rosto, nas voltas e reviravoltas na cama, até encontrar a sua posição.

Eu, aceito-lhe tudo, o que se há de fazer! É o meu parceiro!

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