quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O Leitor Atento


Depois da reforma, na antecâmara do tempo que prepara a saída de palco, muitos sonhos esperam com as senhas na mão, a sua vez para serem atendidos a tempo. Uma noite de sono, nove horas bem medidas, não são suficientes no balcão de atendimento para satisfazer todas as expectativas dos que aguardam a oportunidade de serem projectados em technicolor no animatógrafo pessoal.

Este acervo de trabalho inesperado, pede empenho suplementar, horas extraordinárias na cama, é difícil contrariar um horário exigente e ordenar à mente que desperte o corpo.

Até as micções frequentes, se sentem prejudicadas: levantar-se para ir à casa de banho, é desperdiçar tempo útil. Desafiando a virilidade,  de pouco uso para quem está casado há cinquenta anos, optou pelas fraldas, seja o caso de uma incontinência mais premente. Ninguém sabe, não é pois uma fragilidade maior.

Com papos nas pálpebras descaídas,  poisa os pés no chão num tapete gasto, não se lembra de outro, à beira da cama que lhe deu filhos, prazeres, dores e muitas horas a olhar para o vazio que preenche a trevas das noites.

Inicia as rotinas do despertar: passar as mãos gastas do uso nos cabelos ralos que descompõem uma cabeça cheia de crateras capilares, alopecia, diz-se; bocejar porque tem de ser; esfregar com pouca convicção os olhos pequenos descaradamente míopes, reposicionar os óculos de massa, voltar a ver decentemente; pôr-se de pé, no seu metro e meio, rumo à casa de banho, primeiro objectivo do dia.

Aí, mais dormente do que adormecido, executa o exercício diário de vinte minutos sentado numa bicicleta enferrujada pelas humidades normais destes locais e porque também já se encontra aí estacionada desde sempre. Enquanto pedala desmotivado, porque não vai chegar a lado nenhum, pendura os olhos nos azulejos de cor indefinida e mau gosto. A estética ou a sua falta não lhe altera os humores.

Alivia-se prolongadamente.

Faz a lide do corpo pelos processos tradicionais: para a cara, pincel, espuma, lâmina num cabo de osso ; para a restante área corporal um duche  rápido para poupar nas contas; ajeita a camisola interior de alças por dentro das trusses igualmente brancas, que só se mudam dia sim dia não. Olha para o espelho, não se acha nada de especial: continua idêntico a ontem e espera ter a mesma opinião no dia seguinte.

Com esta constatação, esfrega as mãos com colónia Ach Brito e esbofeteia-se, o que é um exagero para dizer que perfuma o rosto recém escanhoado.

Regressa ao quarto.

Vai ser uma camisa extravagante comprada em viagens pelo mundo, nas excursões geriátricas que pagam para andarem duas semanas a mudar de avião, autocarros,  comerem comidas disfarçadas de exóticas,  dormirem em quartos minúsculos em hotéis periféricos, com vistas para nada,  assistirem até à náusea a sessões apressadas do folclore local, nos “lobby”.

Viajou por tantos destinos sem se dar conta.

É certo que as cores não conjugam mas esse é o critério da escolha, a sua imagem de marca. Toilete concluída, do conjunto fica a impressão de uma desarmonia intencional.

Na cozinha pousa os braços na mesa de fórmica, forçando-se a comer um iogurte natural e uma carcaça, sem conteúdos. Raramente toma café, apesar de apreciar os seus aromas subtis.

Sai de casa, faça chuva, faça sol, e pouca variação mais porque o clima é temperado. Como é para o friorento, agasalha-se em demasia.

Dirige-se, nem depressa nem devagar, ao quiosque que dista uns trezentos metros bem medidos, na esquina da rua principal. Detêm-se eventualmente para cumprimentos e interlúdios de circunstância: coisas habituais, sobre o tempo, as politiquices do momento, os trabalhos que os filhos já pais de filhos continuam a dar...

Em notas de descrição geográfica, a localidade onde habita é uma pequena cidade dormitório, paredes meias com os limites da capital, mas sem fronteiras ou espaços de fracturas reconhecíveis, tudo igual. Tem um nome desinteressante de origem árabe, é um dormitório de velhos e emigrantes de segunda geração.

Todos os dias compra o mesmo jornal, um matutino respeitado  que se mantém mais ou menos sério – assim o deixem os interesses – apesar do jornalismo já não ser como era antes,  desabafo recorrente que os velhos usam para se referirem ao presente: “no meu tempo é que…”

As opções não são muitas: caminhar sem rumo, passear o cão, jogar às cartas, sentar-se num banco de jardim e ler o jornal, ou remoer as agruras da vida, uma modalidade que ele pratica  assiduamente.

Opta pela leitura do jornal. Indo-se para velho, as pequenas rotinas dão mais segurança e conforto e o jornal continua a ser a sua ligação directa com a realidade. Não gosta de ouvir ou ver as notícias. Notícia é palavra, e esta lê-se.

Em jovem transportava-as debaixo do braço, acabadas de chegar, aos senhores cavernosos e taciturnos do lápis azul. O seu amor pelos jornais é um caso sério. Nesse tempo desconhecia as maldades que esses senhores infligiam às palavras que construíam as ideias, só mais tarde compreendeu.

Soubesse isso e nunca as teria servido de bandeja à voracidade dos vermes.

Sempre com ele debaixo do braço- com as palavras agora mais leves e soltas porque não foram encarreiradas como alguém quis - postura tão banal que nem devia ser referida, continua  caminho, peregrinação diária, absorto em pensamentos ou na falta deles.

Quem entra no jardim pelo lado oriental, ou seja quem está virado de frente para o rio, do lado esquerdo, é o décimo quarto banco. Identifica-se pelos dois corações esculpidos, obra de canivete, que penetram um no outro com dois nomes escritos, que não se revelam mantendo a privacidade dos amantes.

O banco está pintado de verde como os outros. Goza de uma boa orientação, virado a Sul, permitindo aos utilizadores, acompanhar o trajecto do Sol no seu apogeu diário. Um plátano majestático, facilita sombra em dias de calor, mas há quem diga que não é uma árvore saudável para os alérgicos.

O jardim, não se pode dizer que seja dos mais frequentados, teve melhores dias. Não havendo dinheiro para lavar a cara das casas e remendar  ruas, como há de haver para regar plantas?

Ele toma posse do seu banco, encostando-se à esquerda para quem olha de frente, cruza as pernas, a direita por cima da outra, respira fundo e observa atentamente o espaço circundante, certificando-se que tudo está igual à véspera.

Endireita o jornal, como se este tivesse aquele pau imaginário que se usava nos cafés do antigamente, e deita o olhar na primeira e na última página. A partir daí, segue do fim para o princípio: anúncios, temas triviais, social, programas de televisão, desporto, cultura – pouca-  aproximando-se das coisas que pedem mais fôlego: as economias, as políticas caseiras e as de fora.

Nos dias em que o recheio pede uma degustação mais apurada, leva aproximadamente uma hora na tarefa de ler.

Ao terminar, segue em passo acelerado para o urinol publico. Durante o dia não usa fralda, que incomoda os movimentos. Detêm-se o tempo necessário e suficiente ao esvaziamento, com cuidados para não escapar nenhuma gotícula. Abana  convenientemente.

Segundo capítulo: de volta ao banco, senta-se no mesmo canto, mas desta vez não cruza as pernas. Saca do bolso da camisa uma esferográfica Parker com banho de ouro, oferecida pelos colegas no jantar de jubilação. A caneta tem o seu nome impresso, e uma data que identifica o dia em que ele deixou de ser  útil e passou à categoria descartável.

Sublinha detalhadamente alguns títulos, excertos de frases, frases inteiras e vai salpicando o jornal com pontos de exclamação e de interrogação, que na pontuação em geral, são os sinais pelos quais nutre mais afeição.

Aproveitando os espaços livres de letras: as laterais, as fotografias, qualquer superfície onde se possa escrever, rescreve os artigos, deita opinião, critíca, desencanta na memória, já baralhada, exemplos do passado e sustentabilidade intelectual para os seus argumentos.

Haja dignidade, conceito vago que muito preza e de que não desiste.

Mais uma hora nestes trabalhos. A manhã está quase.

Dando-se por satisfeito, tira do bolso  das calças um sobrescrito dobrado e um pouco amarrotado , alisando-o cuidadosamente. Mais cinco a dez minutos nisto. O sobrescrito vem com um selo, apenso na véspera e o destinatário está escrito numa caligrafia que já não se aprende nas escolas.  Endereçado ao Conselho de Redação do jornal.

Com uma pequena tesoura de um canivete multifunções recorta e retalha os conteúdos da sua análise, e depois de os colocar no envelope, certifica-se que este está devidamente selado.


Levanta-se devagar, depois de estar muito tempo sentado pode ter tonturas. Limpa o banco com o lenço de assoar, e afasta-se olhando  uma ou duas vezes para trás, em jeito de despedida, que pode ser definitiva a qualquer momento.

A caminho do restaurante, na Baixa - num eléctrico amarelo que demora aproximadamente quarenta minutos até ao destino- deposita a carta num poste vermelho com uma ranhura, resquícios de mobiliário urbano em praticamente extinto. Podia fazê-lo num posto dos correios, mas como todos os velhos, há coisas de que já não se abdica, e o poste é uma delas. Fiel a princípios.

A mesa do restaurante, que é sempre a mesma há anos, tem cada vez menos comensais, está a ficar desconfortavelmente vazia. Vão-se subtraindo cadeiras para disfarçar, mas o espaço não preenchido dos corpos que faltam à chamada, não se desocupa tão facilmente dos olhares presentes.

...

Nos primeiros anos ninguém lhe deu atenção. Os jornais não ligam a anónimos, muito menos excêntricos. Ninguém liga a anónimos e é por isso mesmo que eles o são. Não é vontade própria.

Quem abre a correspondência do chefe, não gosta do trabalho que faz. Gostaria que a sua cara e o seu nome aparecessem, um dia, num editorial em primeira página. Abrir cartas é um longo caminho para a fama.

Com um estagiário destes há uma razoável probabilidade estatística de que as suas cartas tenham sido enviadas directamente para  arquivo morto todos estes anos.

“Velho (não sabe se é velho ou não) louco que não tem mais nada que fazer senão incomodar quem trabalha. Tanta noticia importante para dar ao mundo! Porque é que não se entretêm com a bisca em vez de me vir chatear a molécula!”

Lixo.

Mas esta história não é recente, tem muitos anos de banco de jardim, de caneta, de tesoura e de selos dos correios e os estagiários não são eternos, vão e veem.

Por alguma razão misteriosa que se desconhece, visto não se saber o que se passa nas redacções dos jornais, alguém começou a resgatar as cartas do lixo e as começou a ler. As missivas iniciaram desta forma a sua passagem de mão em mão, alimentaram curiosidades, atearam o fogo da imaginação: quem será este personagem que assina como “Leitor atento” no remetente das cartas ?

Que homem é este que não espera respostas, sinais de simpatia ou antipatia, que nunca virá a saber que foi lido, porque nunca escreveu o nome da sua rua, o número e o andar do prédio onde descansa os sapatos? Porque se dedica tão fielmente a emendar textos, assinalar erros, imprecisões, a desafiar com conselhos de emenda a noticia mal escrita, coxa de fundamento, insonsa de ingredientes?

Vinte anos de desassossego. Descontando fins de semana, para descanso e convívios, um ou outro dia de baixa por doença, enviou pelo menos cinco mil cento e quarenta cartas de que não guardou uma única cópia. Ninguém sabe o que ele escreveu, nem ele.

Quando chega a casa ao fim de um dia que nunca mais se esgota, ainda não morreu e o tempo já lhe parece uma eternidade, come uma sopa de feijão e vai para a cama.

Pega no trabalho dos sonhos, lavra de grandes responsabilidades, toda a atenção , não  escape uma cena fundamental ao entendimento no desenrolar das histórias bizarras projectadas no seu écran virtual.

Num filme em reprise, apreciado pelo único espectador que é ao mesmo tempo o projectista , um menino corre ofegantemente com uma pasta de cabedal debaixo do braço. Procura a sala certa num corredor soturno. Deposita a medo o conteúdo da pasta numa mesa de repartição pública onde um homem com cheiro a naftalina, com um lápis enorme, amesquinha as notícias do dia.

Foi assim, na violação das palavras, que o Américo se tomou de amores por elas.

As vezes quando a meio da noite faz um intervalo, pensa que ainda vai a tempo de as juntar sem equívocos. Se calhar tudo isto não passa de uma alucinação nos intervalos da insónia.

Em todo o caso, o banco do jardim existe, e ele cruza as pernas, a direita por cima da outra com o jornal nas mãos.

Faz grandes maratonas na cabeça. Quilómetros e quilómetros.




 

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