terça-feira, 19 de novembro de 2013

New Age





Com as juntas desgastadas e uma lubrificação fisiológica já insuficiente, artroses dolorosas e circulação sanguínea deficitária, a posição de lótus não é nada confortável.

O estado meditativo não se compadece com  maleitas do corpo. É um bálsamo da Alma, mas os seus efeitos físicos não estão ainda devidamente documentados pela medicina baseada na evidência.

Noblesse oblige”, ofereça-se a carne ao esforço para ganhar a vida eterna.

O   dia desafia-se num corropio de actividades que tiram o peso do tempo e do espaço. Cumpre-se o roteiro do despojamento.

Desquitada  de um cristianismo com cheiro a naftalina, deu por concluido o capitulo da profissão de fé,com o enterro do amantíssimo esposo, vai para seis anos na campa 357-AB no cemitério dos Prazeres, num local recatado.Nem sempre se tem essa sorte, dá gosto visitar e quem lá mora não se queixa de humidades, o torreão dá de caras com o sol todo o santo dia.

O contacto fugaz com a presença absorvente do Senhor, dá-se ao  puxar o brilho do crucifixo de estanho quando vai de visita à campa, visitas estas  cada vez mais espaçadas. Mas mesmo quando dá lustro ao relicário ,a fé não atinge níveis terapêuticos. Apenas ténue impressão magnética, talvez da fricção repetida, e pouco mais.

Sendo  mulher sensata e precavida e como as potestades andam por aí, ela deixa a porta entreaberta, não vá algum querer entrar.

O tempo passa, faz-se acompanhar de mais incertezas, e indo-se para velho não se pode andar desprotegido de seres ubíquos, de objectos de culto, de rituais, da parafernália  que acompanha a espiritualidade, que dá  jeito em momentos de necessidade.

Após leituras compartilhadas com as amigas mais chegadas, abriu os braços e o peito generoso à Nova Era, a religião “light” dos tempos modernos. 

Pequenas porções do divino, sem sal nem condimentos, mas coloridas a gosto. Uma dieta da Alma que baixa os níveis de colesterol do abuso dos confessionários , das promessas cumpridas com sofrimento , das idas santuários mal frequentados dos cilícios que apertam as coxas - e maltratam- das banhas das religiões oficiais.

Não sendo mulher de meias tintas, quando se mete num assunto, leva a experiência ao limite, explora todas as fronteira da aventura.

Inchada de tempo, preencheu com actividades de enriquecimento espirirtual  os poros do dia.

Workshop esotéricos,  biodanza, regressões e progressões, círculos de luz, cristais que custam os olhos da cara, sempre na mala para que as boas energias a acompanhem. Tanta movimentação levou-a a um patamar superior, mas finge que não em falsas modéstias, apesar do umbigo a trair quando menos espera.

Desperta todos os dias pelas 7h00 , executa séries de três respirações abdominais profundas, para centrar a mente e o corpo, e veste-se com um mau gosto dificil de ir para pior.

 Túnicas floridas, mix de cores e venham mais, calças incomodamente largas  e sapatos rasos, com sola de pneu de viatura motorizada, passados de tempo e contexto. Tivesse mais unhas, contadas as das mãos e pés, com mais cores as pintaria:  catálogo Robialac do Merlin.

Às  8h00, nos jardins da Gulbenkian: Tai-chi chuan. 

Um chinês possivelmente mudo, nunca se lhe ouviu um som, executa uma dança em câmara lenta, de costas para a audiência. Os alunos imitam com a melhor das intenções, não se sabendo se o resultado é satisfatório, posto que o  mestrenão corrige as posturas e os movimentos.
 
A sessão faz-se acompanhar pelo chilrear dos passarinhos e pelo ruído dos carros, não completamente abafado pelo arvoredo circundante.

Às 10h00 infusão de ervas medicinais, numa conhecida casa de Campo de Ourique.
 Houvesse mais tempo para o ritual japonês do chá, mas a correria da cidade e a agenda apertada , contentam-se com esse estabelecimento aprimorado. 

 Às 12h00 aula de Reiki, segundo nível. criada em 1922 pelo monge budista japonês Mikao Usui. Energia vital universal "Ki"  manipulável através da imposição de mãos. Com esta técnica, os praticantes canalizam o fluído universal  restabelecendo o equilíbrio natural da mente, da emoção e do corpo físico.
Quando o simpático mestre morreu acabaram-se as boas intenções, e os  discípulos mais chegados, fundaram  três escolas diferentes. 

A avidez do nosso olhar ser a verdade universal!

Das 13h00 às15h00 refrigério e sesta retemperadora. 

Acorda e entretêm-se uma boa meia hora com renda de bilros, herança da falecida mãe, gente do Norte. A renda é  boa para as articulações da mão,  ginástica para manter a funcionalidade e saúde dos dedos. Também dá folga à  mente.

16h00 aula de pintura de Mandalas na Associação Budista. 

Um caucasiano europeu com um rosário na mão , de nome  Mala – o rosário -   balbucia uma ladainha indecifrável, meio cantada meio falada  e projecta numa parede branca figuras geométricas que representam a dinâmica da relação entre o homem e o cosmo . 

Os mandalas são utilizados para concentrarem a  atenção, afastar as distrações dos aspirantes e adeptos, são uma ferramenta que ajuda a abrir o espaço do sagrado,  Ajudam na meditação e induzem ao transe  que é um estado difícil de explicar.

Os participantes da sessão escolhem do cardápio uma figura e projectam-na numa folha de papel de cenário onde  traçam os contornos a lápis. Preenchem minuciosamente os espaços com cores, embalados na doce recitação de um mantra tibetano, que sendo em sânscrito não se  entende, mas que produz na mente o efeito libertador do abandono do "eu", seja o que isso for mas que soa bem.

O workshop vai ocupá-los durante um mês. Até ao fim do ano já se inscreveu  na “meditação dos corações gémeos”,  no“ sistema de cura do corpo espelho” e no “trabalho transpessoal das mulheres que correm com os lobos”. Este, particularmente, estimula-a bastante. Depois de ter visto a saga do “Crepúsculo”, fascinou-se pelos lobisomens, que afinal em condições normais, parecem bons rapazes. Quando se tranfiguram  ficam menos simpáticos.

Haverá ainda para encerrar a temporada, uma sessão especial para praticantes avançados de técnicas de visualização do lamaísmo Bon, onde espera ela com alguma inquietude,  aprender a domar os demónios que invadem a mente, transformando-a num reflexo do Nada. Com esta aprendizagem final, conta poder aquietar-se definitivamente.

Quase se esgotou o dia e a Maria do Carmo sente-se  cada vez mais ausente de peso, o que para uma mulher seja de que idade for é a maior das bençãos.

18h00 Num conhecido restaurante vegetariano da cidade onde no andar de cima,  há um pequeno templo budista tibetano, 

Meditação para ocidentais. Vinte euros por mês, duas vezes por semana. Cada seis meses sobe-se de nível. Podemos ser lamas tibetanos em três anos.

A sala está em penumbra  a boa insonorização do prédio impede que os sons dos talheres dos clientes que trincham os bifes de seitan criem interferências sonoras no processo de tranquilização da mente. 

Nas paredes pintadas de cor de vinho, máscaras medonhas , pinturas com caretos e figuras de arrepiar cabelo,  emparelham com personagens anafados e rechonchudos sentados em mantos de flores de lótus . 

Um fumo branco de cheiro intenso adocicado e agro, desprende-se em espiral de um incensório de madeira finamente trabalhada.

Existe um altar. Todas as religiões têm um altar.

Num dos cantos, quase esquecido,um homem envolto numa manta cor de tijolo,  olhos semi-cerrados, pousa  a mão ao de leve nas cabeças dos alunos, que as trazem juntas  em  sinal de prece  reverência.

Os que podem, sentam-se na posição de lótus, os outros trazem almofadas e conforme as autorizados do esqueleto acomodam-se.

Tranquilizados os ruídos, executam-se algumas respirações profundas  para acalmar a mente. Instala-se o silêncio, o monge recita os mangras e esse estado de quase anestesia a juntar à inalação dos fumos do incenso , transporta-os para um local diferente  Há até quem afirme já ter visto  alguns adeptos a flutuar no ar. Não importa que seja muito , qualquer milímetro conta.

O dia chegou ao fim.

De volta a casa com tempo  para acender uma vela de cinquenta cêntimos a Nossa Senhora, na Igreja da Misericórdia. Não vá o Diabo tecê-las!

Pela frente mais uma infindável noite de insónia. Queiram os seus novos deuses e energias que passe rápida que ela ainda não se habituou a dormir sózinha naquela cama enorme com lençóis de flanela estampados. Já se esqueceu de ter os pés quentes.

Os tibetanos quando morrem são esquartejados e deixam os seus restos expostos às aves necrófagas.

“Isso é que já não sei se gosto. Prefiro o aconchego de uma urna almofada e forrada de cetim. Uma pessoa fica mais recatada”.

A Maria do Carmo deixou-se ficar na escuridão do quarto a marinar nesta decisão futura.



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