quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O Circo está na rua

São oito horas da manhã, são sete horas da tarde. A energia, o sorriso genuíno extravasam a jarra do universo, num pequeno planeta perdido algures na via láctea.


Há um Google Maps da via láctea?

Estamos em lugar de privilégio na sala de sonhos com maior rotatividade de espectadores por minuto, e a actuação só dura ténues segundos.

Massas, fitas, lançadores de fogo, monociclos, representações na borrasca e na bonança, num teatro-circo em céu aberto.

Um cão rafeiro, cão estátua tensamente atento aos donos, o mais acérrimo dos críticos, assiste no bordo do passeio na primeiríssima fila.

A sincronicidade da actuação, das saudações e da recolha de propina, são absolutas. Relógio suíço.

Fim de mais uma actuação.


Tempo para pôr a moeda no saco velho, mimo ao animal, treino que antecede a próxima entrada em cena. A revisão mental da sessão seguinte, repetida mil vezes num dia. A glória, depois de uma execução irrepreensível.

Um rapaz e uma rapariga, que aparentam felicidade, construíram o  palco imaginário numa passadeira de peões numa avenida frenética. Fizeram da sua arte o seu ganha pão.

Não mendigam, nómadas errantes no espaço de uma cidade desatenta como todas as cidades em hora de ponta.

Os cinquenta cêntimos que  poucos dão através da comissura de uma janela escassamente entreaberta, são o valor justo do bilhete.

 Levam ainda para casa, uma reverência com cartola, quando a luz verde põe de novo os carros em marcha.

Os artistas, nas suas habilidades, convidam a audiência a reservar um cantinho para a possibilidade de irreverência nas monotonias das vidas. Shangri-la da liberdade.

Uns recordam-se da juventude e sorriem para dentro, outros em maior número, não sorriem porque já perderam essa memória, outros ainda têm pena, não se sabe se dos palhaços ou do beco escuro em que foram parar.

Atenção! O grande, o único, fantasbulástico cão foca encaixa agora argolas na cabeça e bate palmas cada vez que uma delas acerta, enviadas de alturas estonteantes pelo homem-rapaz da cartola .

Senhoras e Senhores, o circo saiu à rua!

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