O senhor
Darwin, cão que me leva à rua todos os dias, é um cão nervoso e eu também. Se
as condições estão de feição, passeamo-nos às voltas no Vale da Pipa. Ele
mijando árvore sim, árvore não, eu, tentando nesses intervalos curtos, executar
a minha caminhada japonesa, que li algures, ser a mais aconselhada a
reformados, e não sei porquê. Como nem sempre a consigo levar a bom termo, ou
porque as árvores estão demasiado próximas umas das outras, e ele está sempre a
alçar a pata, ou porque se distraí e num virote me leva a tropeçar agarrado à
trela por uma vontade súbita sua de correr que nem um demónio, há dias que o
raio do cão me enerva ainda mais.
Nada disto
tem a ver com o facto de o senhor Darwin ter ou não tido uma relação de amizade
com o Óscar, facto que será impossível de comprovar. Lindíssimo cão cujo garbo e assertividade no
domínio do território (o seu território, o Vale da Pipa), e nestes casos o
tamanho não quer dizer nada, punha em sentido o maricas do cão que me leva à
rua, a chorar que nem uma Madalena arrependida, sempre que o Óscar o punha em
sentido.
Cruzávamo-nos,
à distância, dávamos os cumprimentos da manhã e cada um de nós continuava a sua
vida em sentido contrário, que o Óscar, se pudesse trucidava o Darwin, ou
talvez não, aquilo podia ser só estilo.
Estamos
certos e já falámos sobre isso, o Darwin e eu, que a Manuela e o João se
fizeram mais humanos na humanidade do amor de um cão, um amor que é único e
diferente. E esse privilégio é afinal o que levamos das coisas e dos episódios
da vida, o encontro que tantas vezes parece casual, com seres que nos iluminam
e melhoram.

Comentários
Enviar um comentário