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UNIVERSOS

 


Gregório acordou tardiamente com uma ligeira indisposição. Não era uma dor, era uma sensação de pressão, forte, que se concentrava nos sobrolhos, dificultando abrir os olhos e ver. O quarto, humilde, onde dormia no entanto com o conforto de ser o seu quarto, estava ainda submerso no tempo da noite, da escuridão, do quase silêncio, mas os indícios evidentes de um novo dia, despontavam na sequência natural do despertar dos dias. Deixou-se ficar na cama, um pouco mais, uma hora. Nunca faltou a um dia de trabalho e cumpriu sempre com o rigor que era o espelho da sua pessoa, quase pobre mas rigorosa, os horários. O chefe acharia estranho, incomum, franziria com certeza os músculos do rosto, poderia mesmo vir a fazer um comentário, mas compreenderia. Era uma boa pessoa e não estava ali para julgar ninguém. Ele próprio não gostava do emprego que tinha, mas os homens comuns não podem escolher os empregos que querem ter.

Essa estranha pressão, alastrou a todo o corpo. Dava a sensação que a estrutura do corpo, ossos e pele, estavam experimentavam um processo de crescimento galopante. Passou a hora e Gregório com muito custo conseguiu levantar-se e sair da cama. Dirigiu-se imediatamente ao espelho que estava pendurado na parede, em cima da velha cómoda, herança de um familiar cujo tempo perdeu o nome.

Não se reconheceu, pensou se não estaria ainda a dormir, no meio de um sonho. Gritou. Via diante si um monstro que não era ele, tinha-se deitado homem e agora era um insecto gigante.

Francisco deu-se por contente com o trabalho. As coisas nem sempre correm de feição. Há dias e dias penosos em que se senta à secretária e não consegue completar uma frase. Olha para o papel em branco e sente-se enjoado, vazio, desistido. Hoje não, foi bom. Fechou o caderno, pousou a caneta de tinta permanente companheira inseparável, levantou-se com vagar, distendendo os músculos rígidos da posição que mantinha há horas, abriu a janela do escritório. Era noite. Acendeu um cigarro e fumou-o longamente. Enquanto fumava perscrutou o céu, como um entendido, esperando ter a sorte de ver uma estrela cadente – todos os dias as procurava - , a vê-la ganharia definitivamente o dia. Não aconteceu.

João imaginava na sua cabeça fragmentos da vida de um escritor, do fantástico, que vivia com as dificuldades que se conhecem aos artistas. Este escritor, como todos os que nasceram com a certeza de que só podiam dedicar-se à arte, não abdicaria por um prato de lentilhas de fazer o que sabia fazer. Escrever, era o que fazia. João imaginava estas coisas depois de ter lavado os dentes e se ter deitado, não sem antes tomar o comprimido e contar – mania sua – os que ainda restavam do blister em uso. Imaginava-as no intervalo que antecipa o sono, na sua antecâmara, desligando-se, gota a gota, das sensações do seu corpo físico, mergulhando dando-se por inteiro e completo, na dimensão das coisas imateriais.

Zelava-o, tinha-lhe sido atribuído não por escolha mas segundo a vontade imperscrutável Dele. Era o seu guardião, dia e noite, invisível aos olhos dos homens, mas presente. Um ser superior com uma missão terrena. Na subtileza da sua imaterialidade. Pode-se dizer mas é difícil imaginar sem uma imagem, que o que mais se aproxima apesar de ficar muito longe de uma aproximação, que seria um anjo protector, uma entidade espiritual. Na realidade não tem nenhum nome, mas os homens que eles protegem, inventam-lhes nomes, apesar de nunca terem visto nenhum. Cumpre a sua missão com prazer, não tem descanso. Quando este ser se apagar e os outros pelos quais é digamos assim, responsável, ser-lhe-ão atribuídos outros e assim vai eternamente num contínuo sem fim.

Há uma vontade que rege o universo onde estão a acontecer em camadas todos estes fenómenos e outros ainda mais complexos. Não se materializa, não se pode antropomorfizar, não tem contornos físicos, porque é todo o universo e a sua matéria constituinte. Criação, Arquitecto, Senhor, o que se quiser. Não há mão suficiente para desenhar-lhe uma cara. O Regente é uma abstracção.  

Alguém noutro universo que envolve o primeiro, assiste a tudo isto, este encadeamento, e desenha-o, é capaz. Pacientemente, senhor do seu tempo, com um traço firme e decidido, mas ainda assim poético, desenha um insecto enorme, mal contido nas quatro paredes de um quarto singelo de um pequeno burguês, que parece estar a olhar para um espelho. Faz o desenho a preto para dar mais realismo â cena que acaba de inventar na sua cabeça. Este insecto imaginado por um escritor do fantástico está agora a decorrer em pensamento na cabeça de João que era muito imaginativo, mas inofensivo. O seu anjo da guarda, complacente, deixava-se embalar nestas histórias humanas e morrinhava.  A potência criadora era o habitáculo destes seres, que só existem em sonhos, sonhados não se sabe por quem.

No infinito do universo os universos são infinitos.



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