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Mensagens

Aldeia das casas brancas

    É uma casa em nada diferente das outras, poucas. Cal nas paredes. A virgindade do branco do povo. A porta e as janelas aninham numa moldura colorida. Amarelo. Umas cortinas, alto a baixo, de tiras de plástico irradiantes e coloridas, afoguentam insectos. Entra-se directamente na sala de paredes deslavadas, com a sujidade  acumulada do tempo e das histórias a que assistiu. Quase se tacteiam os poucos objectos, mesas e cadeiras em fórmica. Um balcão corrido, a todo o comprimento da sala, em madeira, escurecida como a luz que falta. Atrás do balcão no que se pode chamar uma prateleira, copos para servir vinho e outros, pequenos, sinos de bagaço. Uma máquina de café, uma peça histórica, já não funciona com certeza. Ainda atrás do balcão, só visível a quem esteja encostado a este, uma pequena mesa forrada com uma toalha de plástico com flores, um candeeiro envolvido em teias de aranha, um caderno com linhas, um lápis nele pousado. Um vulto vestido de negro da cabeç...

Estava instalada a desorganização do mundo.

  Desmoronavam os castelos de cartas. As metáforas perderam o brilho. As poesias perderam a imunidade. Homens e mais homens caiam, uns depois de outros, contaminados pelo inominável. Lutavam com as forças que tinham - quando se trata da sobrevivência, todos bravos, corajosos, heróis para si mesmos - mas parecia uma guerra perdida, o inimigo cada vez se agigantava mais, e mais, ceifava rente os rebentos que tentavam a sua sorte, florir, realizarem-se na sua essência que é o viver. O maior de todos os problemas, o problema sem solução, é que esse inimigo era invisível, impalpável, indetetável a olho nu. E não se fala de micro-organismos. É da fraternidade. De algo tão simples, mas tão inqualificável. Uma conexão humana fundamental. Em consequência de o mundo ser um sítio poluído e impróprio, uns ficavam em casa, não se sabe se sábios nessa decisão, entediavam-se muito. Não estavam habituados a estar em casa, junto dos seus. Tinham esquecido as artes do convívio, perdido por d...

DA REALIDADE

* …Tantas e tantas vezes fiz a pergunta, se isto, este estado permanente de híper-lucidez, não é uma viagem interior. Se é que não estou parado, imóvel no mesmo local, a minha ilha-castelo, e esta aventura a que considero o real não passa de uma projecção a passar na minha cabeça, um filme, enquanto julgo estar a olhar para o mar. Onde está a verdade? Sempre a sentir-nos enganados. Se calhar nem parti, nem naveguei, nem sequei ainda mais a minha pele curtida pelo sol intenso, nem sequer sequei ainda mais as minhas entranhas habituadas à fome, à sede, ao calor. É tudo imaginado. É tudo baço, é tudo esquivo, é tudo tão pouco credível. É um sonho dentro de um sonho, que eu sonho, e alguém fora de mim me sonha, e nunca mais acaba, acumulações sobre acumulações de sonhos. Há quem nunca saia do quarto, ou da sala, ou da biblioteca, a cela que escolheu e em que se fechou por dentro, e imagine epopeias, viva circum-navegações terrestres e cósmicas, desenvolva teorias geniais, e, nunca saiu do ...

O JARDIM DE TODAS AS DELÍCIAS*

Não se adivinha em nenhuma geografia a localização exacta do Jardim. Pode ser nesta terra, pode ser noutra. Pode ser ao estender o braço, pode ser numa galáxia longínqua, até mesmo buraco negro. Pode ser da ordem do real, pode ser da ordem do imaginário simbólico. Seja o que seja onde seja, o Jardim do Éden existe, que não seja em delírios. É um lugar aprazível, onde tudo é puro. É o mundo das Ideias. As cores são o original de todas as cores; o Jardim, a perder de vista, e todas as árvores, arbustos, plantas e insectos que o compõem são primordiais, o conceito primeiro e completo desses seres todos, não há estações do ano, porque não há “ano”, tudo é permanente, e o clima é o protótipo acabado pelo Criador, de todas as tonalidades de climas. Os odores são perfumados e permanentes, inebriam de prazeres subtis. A concórdia está instalada, não há conflitos, não há excessos, não há asneiras, não há pecado. Não é necessário trabalhar para ganhar o pão, o que é bom, porque não é necessári...

A utopia do delírio *

  Que tal se arriscamos delirar um pouco? Que tal se cravamos os nossos olhos para além da infâmia, tentando adivinhar outro mundo que seja possível e fascinante? O ar, limpo, puro de todo o veneno que não provenha dos medos humanos e das tóxicas paixões humanas. Nas ruas, os automóveis serão abalroados pelos cães e outros seres livres que nelas se passeiem; As pessoas não serão sequestradas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem tão pouco vistas pelo televisor, impávidas, hipnotizadas de tédio; O televisor deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como a tábua de passar a ferro ou a máquina de lavar a roupa;  Acrescentar-se-á aos códigos penais o delito da estupidez, que cometem aqueles que vivem para ter ou para ganhar, em vez de simplesmente viverem, sem mais, como canta o pássaro sem saber que o faz e como a brinca a criança sem saber que brinca, vivendo a eternidade nesse momento ...

A mulher estátua

  O adeus é um olhar, um gesto fugaz, um aceno com a mão, um lenço branco animado pelo vento.  Deixa-se um amor, numa curva apertada da topografia da vida, Um amor ou a possibilidade de o ter sido. À porta de um bar, numa paragem de carro eléctrico, num esconso da cabeça, num equívoco pessoal, num desencontro de minutos, numa ilusão que se desilude. Ancorado num cais imaginário.  Encontramos, perdemos, voltamos a encontrar, e a perder. O mundo, impassível, continua a rodar sem misericórdia, indiferente ao amor. Nunca encontramos quem queremos, perdemos quem não sabemos que queremos, nada sabemos. Tertuliano emigrou para um barco, fez-se marinheiro, para viver o amor do  mar, e o seu outro amor ficou amarrado a um cais, uma estátua, é essa a verdade factual desta história. Duas mulheres, uma de carne e osso e sentimento, e outra de abstração líquida, competindo para serem as escolhidas. Uma, Maria, a outra Mar.  Antes de se transf...
T odos os dias, no minuto certo da hora certa, ele regista no relógio do ponto a sua entrada na repartição. A repartição de que se fala chama-se  Instituto das Boas Ideias, organismo que o governo criou, não que tivesse para eles sido uma boa ideia, mas porque, num recente discurso à nação, o primeiro  ministro, pressionado pelos jornalistas que não largam as presas - mesmo as  inocentes - para se ver livre das críticas que sobre si recaiam, anunciou que  convidaria todo o povo a enviar ideias boas (para uma entidade que o governo ia dar posse, para agilizar imediatamente), ajudando assim o governo a governar melhor e com maior cumplicidade dos seus eleitores. O senhor Aparício, que trabalhou desde catraio na função pública (entrou  como moço de fretes, tinha ele os seus quinze anos), funcionário exemplar, transitou para este novo instituto, e estava orgulhoso disso. A sua função, fundamental, receber o correio das ideias e separá-las e colocá-las nu...