terça-feira, 15 de dezembro de 2015

UM BONITO CONTO DE NATAL




“Mãe, fomos à terra do Pai Natal, voltamos para a Consoada”.

Estamos na época do ano em que as pessoas pedem suplemento de mimos, as crianças muitos brinquedos inúteis, alguns velhos carinhos, os sem-abrigo não pedem nada.

E está instituído assim, que todos devemos estar mais sensíveis e disponíveis neste período. Se um idoso nos mendigar atenções em Maio, que é um mês sem ocorrências histriónicas assinaladas no calendário, fazemos de conta que não é connosco, voltaremos a ele em Dezembro, se ainda for vivo e puder falar.

Nesta altura em que se comemora o reencontro, a partilha, a reunião da grande família humana cristã, em que até o a-sentimental mais empedernido olha de relance para o pobre, se apieda tenuemente e lhe atira uma moeda de cêntimos, os homens de boa vontade – escassos - não têm mãos para despachar tanta solidariedade concentrada em meia dúzia de dias. Só com ajuda, e divina.

Que se saiba, só Deus Nosso Senhor e o Pai Natal conseguem prover a todos em todo o momento, possuídos pelos superpoderes da ubiquidade e da omnisciência. Este último dispõe ainda do trenó voador mais rápido que se conhece.

Por isso fomos pedir-lhe auxílio, que este país cheio de velhos, abrigados em tectos frágeis, é um local que precisa de muita ajuda natalícia.

A residência oficial do santo Nicolau é na lapónia, mas tem outras moradas registadas, nomeadamente Carrazedo de Montenegro, de quem é Padroeiro.

Começámos por aí, que apesar de distar mais de quatrocentos quilómetros, fica mais próximo de Queluz (a nossa residência oficial) que o círculo polar Ártico.

Quando chegámos não estava, a senhora que tem a chave da igreja, despachou-nos com a desculpa de não o ter visto ultimamente. Ou desconfiou de nós, ou estava preocupada com a sopa de couves que estava no braseiro a queimar.

Decidimos tentar a Lapónia.

Comemos uma alheira e uma bucha com presunto - para o caminho - enchemos o depósito de gasóleo e passámos a fronteira de Quintanilha deserta aquela hora e quase sempre.

Não é fácil chegar à Lapónia! Apesar de praticamente haver uma autoestrada que a liga a Bragança.

Não é fácil porque de um dia para o outro, o caminho encheu-se de obstáculos, obrigando a fazer paragens forçadas, muitos atrasos e contratempos.

Indiferentes à nobreza dos nossos sentimentos, os espanhóis, os franceses, os alemães, os bálticos, todos, receosos de terroristas que fossemos, a fazerem-se difíceis à nossa passagem.

Sempre a sermos incomodados com perguntas inconvenientes e revistas à viatura e a nós mesmos, procuram coletes suicida e armas automáticas, quando o único objecto cortante que transportávamos era a naifa do Quim, instrumento essencial para cortar os enchidos que dão a cor ao pão.

E as desculpas para não nos querem deixar passar? Era por sermos portugueses à procura do Pai Natal – que é motivo para desconfiar - era por sermos morenos e só os loiros é que gostam genuinamente do Pai Natal, era porque tínhamos um gato chinês dourado sempre a dar ao braço com o punho fechado na chapeleira do carro (o que é que fazia ali um gato daqueles?) era porque o pipo da roda sobressalente não cumpria com a norma europeia.

Um rol de imparidades, ou simples má vontade dos agentes da autoridade, para estes cidadãos do espaço Schengen, dos mais fiéis e pacatos, unionistas genuínos, de boa cepa que nos orgulhamos de soer.

Guia-nos uma nobre missão e eles a desvalorizarem o desiderato!

Saímos da nossa multiétnica e multicultural aldeia de Queluz convencidos que eramos europeus – nós que somos de nos sentir em casa em Portugal como na Estónia -, mas as autoridades locais a não quererem perceber. Para eles, a europa começa na sua fronteira. Foi assim em todos os países que atravessámos.

Tão demoradas foram as explicações e os convencimentos de que eramos pessoas de bem e íamos por uma causa justa, que só chegámos à Lapónia passado o Natal.

Fazia um frio incompreensível e parvo (mesmo com as samarras alentejanas com gola de raposa, as partes mais distais dos nosso corpo, encarquilharam – pode-se lá viver num sítio destes!), não vimos vivalma em Rovaniemi, tudo fechado. Em desespero, descobriu-se um gnomo jeitoso, de barrete verde, a gaguejar assobios, cambaleante, presumimos que do efeito deletério do grogue consumido nas festividades.

Disse-nos num finlandês perfeito que o Santa Claus, cansado das correrias pelo mundo – tudo concentrado: a atenção, o amor, a solidariedade, toda essa azáfama num só dia de trabalhos – e com a consciência dos deveres distributivos cumpridos, arrumado o trenó e desemparelhadas as renas, tinha partido de férias para a residência de Carrazedo de Montenegro, paradeiro longínquo de climas amenos e gente macia.

Só podia estar a mofar! Das duas a que seja a melhor: ou o gnomo estava inibido temporariamente da razão, ou o raio da porteira da igreja de um raio, também caturra (e que se dane a concordância e o estilo da frase), folgou com a nossa cara, de suburbanos pacóvios.
Tanto quilómetro em vão, só para termos a certeza de que afinal e apesar do que nos diziam constantemente na televisão, não eramos benquistos em lado nenhum, nem já em África (que não vem ao caso para esta história tão bonita).Ainda por cima sem rasto do Papai Noel.

Regressámos. Desta vez foi tudo muito mais fácil, era só apontar para o Sul, dizer Portugal, que os guardas com cães levantavam as cancelas das fronteiras, muito mais relaxados os primeiros, babando-se os segundos, que se não estivéssemos já suspeitados, acharíamos que nos queriam era ver pelas costas.

Mesmo com estas mesuras e o caminho desimpedido, a distância era longíssima pelo que só chegámos em inícios de Janeiro.

Falhámos na missão de trazer o Pai Natal para ajudar no consolo dos precisados, falhados e derreados, eles e nós.

Por amor próprio – justificação esfarrapada – insistimos uma vez mais numa paragem em Carrazedo. São Nicolau mandou um serviçal enxotar-nos. Cá fora transpareciam ruídos de farra, vislumbravam-se recortes de sombras nas janelas iluminadas, ouviam-se sons cheios de swing, estava lá de certeza! mas nem quisemos saber mais dele, voltámos a Queluz esmorecidos.

Esperava-nos uma ceia tardia com restos da “roupa velha”, entretanto congelada, e filhoses que foram frescas na semana anterior.

Na manhã seguinte, demos conta por observação no terreno, testemunhos vários e supervisionamento televisivo, que afinal as crianças já estavam muito mais brandas, agora na fase de negação dos brinquedos entretanto destruídos que tinham recebido no sapatinho. Os velhos, passado o prazo em que lhes devíamos mais atenção, continuam velhos, insistentemente velhos, iguais de gastos todos os meses do ano.

Enquanto se desenrola esta conversa, sabemos que houve festas para os desabrigados, que a seguir voltaram a frequentar os mesmos cantos esconsos onde alucinam de não conseguir dormir nas noites arejadas e frescas nas suas “casas” a céu aberto.

Tudo está igual e na mesma. O mundo assim segue: funâmbulo, nos equilíbrios instáveis, a fazer despreocupadamente ginásticas sobre os abismos.

A nossa fé ficou abalada, andamos ansiosos desde miúdos e até hoje nunca conseguimos ver o Pai Natal. Todos os anos se escapa com a cumplicidade do escuro da noite.

Não fossemos nós, os homens, e as crianças ficariam desconsoladas, os velhos não teriam nem um abraço e um bolo rei, e os indigentes uma manta nova e um gorro de pai natal com luzinhas a piscar no frontispício da testa.


Começamos a achar que ele não existe. Quem faz os milagres somos nós, e tão humildes somos, que lhe damos a assinatura desses méritos.

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