terça-feira, 7 de outubro de 2014

FIM DE DIA NA ESPLANADA





Está um fim de dia exultante – para simplificar, satisfeito.

A esplanada cumpre a função como local de encontro de pessoas que querem afrouxar.

É uma mulher bonita, ainda jovem, com pequenos sinais de desleixo. Talvez não seja desleixo, pode ser um desprimor temporário.

O mais pequeno dos pormenores é fundamental, e quase sempre determinante, há pessoas que se esquecem disso.

Pelo desconforto forçado que imprime à sua linguagem corporal, sabemos que ela, nesse momento preciso, não se sente bonita nem interessante, e ela também o sabe, só que não autoriza essa sensação trancada no inconsciente a vir à tona.

Pôr-se bonito é estimular a atenção do outro a descobrir o interessante, a acontecerem as duas coisas, ganha-se a lotaria.

Mesmo com essas incertezas, esforça-se. Tenta subtilmente o contacto do corpo acompanhado das palavras, que não se revelam ao observador – só se percebe o do corpo – dada a distância entre as mesas que os separa.

Quando fala com ele, na intenção de dizer, curva-se, quer envolver a ilha delimitada pela mesa e as duas cadeiras preenchidas pelos seus corpos. Reposiciona a colher de mexer o café do parceiro no bordo do pires – é uma pessoa arrumada - brinca com a ponta dos dedos finos, cuidados, belos, passando-os tenuemente sobre a superfície metálica do encosto de braços da cadeira do companheiro.

Dá o melhor de si, na maior das dúvidas de ser bonita.

Ele – as costas não dão para perceber se é bonito e interessante – defende o corpo, encostadíssimo à cadeira, as pernas esticadas para o lado oposto onde ela pousa os pés de unhas arranjadas, calçadas numas sandálias apetecíveis.

Com os braços cruzados no peito, para proteger o coração ouve-a, ou finge. Não ouve, engana-se a si próprio.

O observador sofre imensamente – um abuso de estilo porque não é imensamente, nem sofrimento - imaginando expectativas e desfechos: elaborou uma opinião distanciada – mas ficou refém da história porque entrou nela sem convite – e agora, já não são dois, mas três.

E um deles não se fez convidado: ele!

Foi decorrendo o tempo que conta para o final de dia, com o trafego normal dos que chegam e saem de uma esplanada num dia de verão. O sol a pôr-se sem mais alternativa, que a de se ver obrigado a recolher.

Está a ficar fresco, veste a camisola.

A mulher que é bonita e insegura, afinal é uma lutadora: não desiste de o amaciar em seduções. Algum sussurro interior lhe dirá que neste deve apostar tudo e aceita esse cicio da intuição.

O seu caderno das oportunidades está nas últimas páginas, é bela e ainda jovem mas já vê a linha do bojador da vida a aproximar-se. Ou escreve qualquer coisa, ou guarda a sebenta no esquecimento de uma gaveta num móvel sem uso, arrumado no sótão.

Mas não será com este homem (mera suposição, analisados os sinais exteriores), e o observador amisera-se por estar sentado na periferia da mesa errada, porque descruzaria facilmente os seus braços ao menor descuido desta sedutora, esboçasse ela o gesto de se curvar para o envolver.

Pelo menos assim imagina – talvez porque esteja sozinho. Assim se tece uma ilusão.

A história verdadeira é que o outro está de braços cruzados e afastadíssimo, não porque não a ache bonita e com umas sandálias desejáveis, mas porque cada vez que ela se curva para o envolver, exala uma assopradura que anula qualquer possibilidade de amor.

E o observador a roer-se de inveja!


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