domingo, 4 de maio de 2014

MARIA

A Maria  é encantadora.

Sessenta e sete anos bem medidos, não em tamanho , mas na energia inesgotável.

Não via a minha Maria há muito tempo.

Ai o meu menino, fez-se homem.

E abriu a porta da boca, agora só com dois dentes como porteiros.

Sendo feia, tão feia, como consegue o sorriso mais espontâneo deste universo?

Tão bonita a minha Maria!

A explicação encontra-se na metafísica!

Como vai a vida D. Maria?

Vamos menino, vamos costurando as voltas a ver se nos deixa de rabear.

E vai-se vivendo não é? tem que ser D. Maria.

 E quanto tem de reforma?

É um dois mais um cinco , um sete e seis e oito também.

Chega-lhe?

É poucachinha menino.

E quando paga de renda de casa?

Aí menino, esses números são todos repetidos, até me engano. Deixe ver: é um nove e outro e mais um e acaba num três.

Esgotou-se-me o à vontade com as perguntas.

A pior das vergonhas é quando a temos pelos outros, dobra.

Facilitei-me demasiado, na ânsia de crescer e ser bem sucedido   esquecendo essas mãos que nos ensaios dos meus primeiros passos, rumo à individualidade, estiveram sempre à mão , na distância dos seus (a)braços para apararem os pequenos insucessos das minhas quedas eminentes.

Peço tanta desculpa D. Maria, fosse eu a tempo (estou mais que a tempo)e despedia os administradores da Gebalis, os responsáveis da gestão dos bairros, as assistentes sociais, as psicólogas e até a gaja que passa os recibos da sua renda, uma sucessão interminável de noves por pagar.

Toda a culpa é minha, sabe?  A de não ter cuidado dos seus dentes, para que fossem mais, e  de não ter já despedido há muito tempo esses meliantes.

Também me deslumbrei com as facilidades.

Mas deixe que lhe diga, perdi a cabeça por um bom par de sapatos, mas nunca os usei para pisar! Foram só pela comodidade de andar melhor.

Não se preocupe D. Maria, agora que a revi e caí de novo em mim, vou dar o meu melhor, estar a seu lado quando claudica e raios se não iremos os dois para um apartamento à Lapa, com uma vista esplendorosa sobre o rio.

Andando toda a sua vida nessa correria pelas batatas, alguma vez se sentou à borda do nosso rio, de preferência num fim de dia em que as águas estão expectantes do teatro de luzes preparado para o pôr do Sol?

É um espectáculo supimpa!

Havemos de ir um dia destes, quando a cidade estiver mais arejada de todas essas poeiras que nos fazem alergia.






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