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Mensagens

A mostrar mensagens de dezembro, 2025

Eram duas, um pelo menos era hippie e lia um livro

  Ontem, sentado na esplanada e mimetizado por outros utilizadores presentes nesse espaço a essa hora, e nenhum, que me tivesse apercebido interessado no que a seguir relato, vi duas mulheres lendo, enquadradas na vegetação. Creio que eram duas, não posso garantir, a minha posição relativamente a elas, não era a melhor. A princípio desconfiei, mas dei o benefício de perceber antes de lançar um anátema, que é pior que um perjúrio. À parte a parte toda nas cadeiras das esplanadas e os bancos residentes dos jardins, as outras mulheres e os outros homens que preenchiam os lugares, sentados os seus corpos neles, não liam e nem sequer falavam. As pessoas falam muito pouco com os outros. Julgam que o fazem, mas falam ininterruptamente para si mesmas para não ter de ouvir os outros. As pessoas presentes nesse momento neste espaço de lazer da cidade, faziam o que normalmente fazem todas as pessoas orientadas: organizam a sua vida, os contactos e o lazer, auxiliados pelos telefones portáteis...

Aldeia das casas brancas

    É uma casa em nada diferente das outras, poucas. Cal nas paredes. A virgindade do branco do povo. A porta e as janelas aninham numa moldura colorida. Amarelo. Umas cortinas, alto a baixo, de tiras de plástico irradiantes e coloridas, afoguentam insectos. Entra-se directamente na sala de paredes deslavadas, com a sujidade  acumulada do tempo e das histórias a que assistiu. Quase se tacteiam os poucos objectos, mesas e cadeiras em fórmica. Um balcão corrido, a todo o comprimento da sala, em madeira, escurecida como a luz que falta. Atrás do balcão no que se pode chamar uma prateleira, copos para servir vinho e outros, pequenos, sinos de bagaço. Uma máquina de café, uma peça histórica, já não funciona com certeza. Ainda atrás do balcão, só visível a quem esteja encostado a este, uma pequena mesa forrada com uma toalha de plástico com flores, um candeeiro envolvido em teias de aranha, um caderno com linhas, um lápis nele pousado. Um vulto vestido de negro da cabeç...

Estava instalada a desorganização do mundo.

  Desmoronavam os castelos de cartas. As metáforas perderam o brilho. As poesias perderam a imunidade. Homens e mais homens caiam, uns depois de outros, contaminados pelo inominável. Lutavam com as forças que tinham - quando se trata da sobrevivência, todos bravos, corajosos, heróis para si mesmos - mas parecia uma guerra perdida, o inimigo cada vez se agigantava mais, e mais, ceifava rente os rebentos que tentavam a sua sorte, florir, realizarem-se na sua essência que é o viver. O maior de todos os problemas, o problema sem solução, é que esse inimigo era invisível, impalpável, indetetável a olho nu. E não se fala de micro-organismos. É da fraternidade. De algo tão simples, mas tão inqualificável. Uma conexão humana fundamental. Em consequência de o mundo ser um sítio poluído e impróprio, uns ficavam em casa, não se sabe se sábios nessa decisão, entediavam-se muito. Não estavam habituados a estar em casa, junto dos seus. Tinham esquecido as artes do convívio, perdido por d...

DA REALIDADE

* …Tantas e tantas vezes fiz a pergunta, se isto, este estado permanente de híper-lucidez, não é uma viagem interior. Se é que não estou parado, imóvel no mesmo local, a minha ilha-castelo, e esta aventura a que considero o real não passa de uma projecção a passar na minha cabeça, um filme, enquanto julgo estar a olhar para o mar. Onde está a verdade? Sempre a sentir-nos enganados. Se calhar nem parti, nem naveguei, nem sequei ainda mais a minha pele curtida pelo sol intenso, nem sequer sequei ainda mais as minhas entranhas habituadas à fome, à sede, ao calor. É tudo imaginado. É tudo baço, é tudo esquivo, é tudo tão pouco credível. É um sonho dentro de um sonho, que eu sonho, e alguém fora de mim me sonha, e nunca mais acaba, acumulações sobre acumulações de sonhos. Há quem nunca saia do quarto, ou da sala, ou da biblioteca, a cela que escolheu e em que se fechou por dentro, e imagine epopeias, viva circum-navegações terrestres e cósmicas, desenvolva teorias geniais, e, nunca saiu do ...