terça-feira, 17 de julho de 2018

PIANISTA









Um piano tem 88 teclas, brancas e pretas, de madeira. As brancas são revestidas de marfim (já não), ou um compósito de plástico, nome técnico; as pretas, de ébano. No tempo em que viveu Mozart era ao contrário: as brancas eram pretas e estas brancas. Há pianos de cauda e verticais, estes mais bonitos, mas pouco práticos de arrumar. São instrumentos caros. Há quem diga que são o instrumento musical mais completo, aparte a voz humana, claro, que não é um instrumento, ou então é, mas biológico.

O senhor A.B. gosta de tocar piano, de ouvido, e na realidade gosta bastante, mas não tem um piano e nunca tocou a sério em nenhum. No entanto, tem dois, virtuais: um no armazém da ourivesaria onde trabalha e o outro em sua casa, mais propriamente na casa da madrinha, onde vive. Diz-se que são virtuais porque na realidade não são pianos verdadeiros, são dois teclados de 88 teclas que ele desenhou e pintou numa cartolina. Fê-lo com rigor: desenhou-as e pintou as teclas com as medidas e a ordem certa. E é assim, de uma forma acessória, que aprende a tocar piano, todos os dias afincadamente, em todos os momentos livres, porque tocar piano, bem, exige treino, prática e abnegação.

Como se pode aprender música tocando não tocando pelo menos a produzir sons, num teclado virtual, é um pouco bizarro. Ele diz que sabe de cor dentro da sua cabeça todos os sons das teclas, e quando ouve uma música, consegue identificar e reproduzir o que corresponde a cada uma. Assim pode praticar, tocando com os dedos a cartolina e ouvindo para dentro o som respectivo. Vamos acreditar que é verdade o que ele diz e que a coisa funciona assim, até porque na natureza se encontra de tudo, e é melhor ter sempre uma mente aberta e aceitar a possibilidade de existência do fenómeno mais excêntrico.

Tem jeito, dizem os amigos, não porque alguma vez o tenham ouvido tocar, mas pelas dissertações constantes sobre a matéria pianos e música para pianos, que A.B. faz. De resto todos eles estão muito longe de chegarem  tenuemente a entender o que é a linguagem da música. Mal chegam à da palavra dita e escrita. A.B. comparando-se a eles é um erudito.

Eles e é para isso também que servem os amigos, acreditam que é um virtuoso, só de o ouvir falar. O mundo não o conhece artisticamente, só e uma pequeníssima parte do mundo o conhece como balconista de ourivesaria, mas é uma questão de tempo e de ele ir praticando, até ao dia em que ficar tudo pasmado pelo seu virtuosismo que emana dos seus cuidados esguios dedos de pianista.

Para já da cartolina não se extrai nenhum som, ele só pratica, preparando-se para o dia em que sentado em frente a um teclado verdadeiro, se confirme a sua glória e tenha valido o esforço de anos e anos a treinar. Neste momento só ele e os amigos sabem desse segredo, preservando a sua intimidade e bom nome.

A.B. é ajudante de balcão numa ourivesaria, na Rua dos Fanqueiros na Baixa. Foi para lá como aprendiz – que é como se começa -, aos doze anos e meio, rapaz quase a ser homem e ficou para toda a vida, num tempo em que quase tudo o que se fazia era para toda a vida. O patrão não tem descendência e gosta dele, é possível que um dia a loja venha a ser sua.

Tudo no mundo funciona com uma ordem e um plano, mesmo que dê ideia do contrário. O negócio do ouro que é complexo e admite muitas ramificações e algumas menos conhecidas, tem as suas hierarquias e muitos segredos. Nesta cidade que ainda não é de turistas distraídos, os nativos revestem camadas de muitas classes e preconceitos. Tudo se arruma no sítio certo. As grandes casas deste ramo, frequentadas pelos grandes burgueses e aristocratas ficam na zona do Rossio e na Rua do Ouro. Aos Fanqueiros e em muitos vãos de escada dos prédios das ruas, vão os outros clientes, o da meia-libra para os anos do afilhado, dos anéis de noivado em conta, alianças de casamento, das salvas de prata, mais no tamanho a tenderem para pratinhos de alianças.

A rua dos Fanqueiros é uma espécie de terra de ninguém, a fronteira do bairro da mourama que se chama Alfama - os que lá vivem ainda são meio arraçados de qualquer coisa - e o resto do cosmos, Lisboa.

Vive-se na época dos bons costumes, do medianamente, do portuguesmente suave. As pessoas, quase todas estão atrasadas em relação ao outro mundo, mas não o sabem, porque não viajam nem sabem línguas, mal a sua.

O Grandela e o Chiado são os maiores e mais famosos centros comerciais do país. As ruas da Baixa e do Chiado, enchem-se de gente nos fins de semana, vêm ver as montras e as modas, apreciarem-se mutuamente, os passeantes, que flaneiam, cuscam, incendiam olhares de apetites, ou simplesmente nada de especial digno de ser dito porque não vai ter nenhuma continuação. Esfuma-se à nascença. As mesmas pessoas não se cruzam duas vezes no mesmo lugar em momentos diferentes, é um acontecimento que não se repete.

A.B. está habituado nos seus contactos profissionais a lidar com gente educada – não são doutores mas são amanuenses dos doutores e por imitação, imitam-se de doutores - é um balconista de trato fino. Para os amigos do bairro é um bacharel. É um homem de formalismos, um ritualista. A roupa irrepreensível (só tem dois fatos completos, mas a madrinha oferece-lhe nos anos e no natal camisas brancas e um lencinho na lapela faz toda a diferença), a brilhantina a domar um cabelo rebelde penteado com uma risca ao lado, perfeitamente traçada, as unhas limadas e envernizadas, mãos de dedos esguios, a prenderem o cigarro em pose de actor romântico de Hollywood, que o podia muito bem ser, se estivesse lá. Tem estilo para isso.

Não há lembrança de o A.B. se ter alguma vez apresentado em público, sem gravata, o tal lenço, o sapato a espelhar de brilho. Pelos sapatos se vê um homem, tem essa ideia na cabeça mas não sabe como foi lá parar.

Este estilo, distinto e seguro de si, dá-lhe ascendente e posição no grupo e como é o mais velho, é uma espécie de tutor, protector, líder do grupo. chama a si a resolução dos pequenos assuntos do quotidiano, como comprar os bilhetes para a sessão de cinema e dar a cara e o peito ao porteiro, entretendo-os, conhece-os todos, enquanto eles fecham os olhos aos mais novos que o acompanham, os deixam entrar, ainda não têm a idade legal, para ver aquele filme, numa época em que os filmes não mostravam nada que pedisse uma idade legal.

Quando esporadicamente, porque o dinheiro é escasso, frequentam um local de diversão nocturna, vulgo cabaré, ele vai sempre à frente, pede as bebidas para todos, negoceia as propinas com as meninas, que todas na cidade o conhecem e gostam muito dele. Bom rapaz o A.B. , puro.

O ponto de encontro diário, quando termina o trabalho é na leitaria do Alves, ao Alto de São João. É um bairro particular, tem habitantes vivos e habitantes mortos: o maior condomínio privado (tem muros) para os fenecidos da cidade, dentro da cidade, com ruas, avenidas, praças, largos, edifícios de porte e grandes descampados cheios de etiquetas metálicas com códigos alfanuméricos. É a toponímia deste local. A vantagem para os moradores vivos é que a vizinhança é boa, pacífica, e não faz barulho.

Todos trabalham desde miúdos, os amigos do A.B.

Nas traseiras da pastelaria há um armazém das bebidas e outros produtos e o Alves colocou uma mesa de matraquilhos e uma mesa de bilhar. Entre estes dois jogos, talvez o mais popular seja o dos matrecos. Estes rapazes gozam ali os últimos momentos de liberdade antes de serem convidados a conhecer África, não por opção pessoal, mas porque há uma guerra para alimentar.

O Verão está ainda no início e promete ser eterno. Não se explicam aqueles dias abafados, quentes, sem sussurros de ventos, que espairam o calor noites adentro, em que as pessoas e os seres, distendidos, lentos, languidescem num prazer doce, quase misterioso, e que se espera que nunca acabe. Todos os verões acontece essa expectativa, e eles acabm por ter um final, o que é muito aborrecido para as pessoas em geral.

Num desses epílogos do dia, depois de umas cervejas bem bebidas e de ter ganho umas partidas nessas duas modadlidades desportivas, A.B. convenceu os amigos a carregarem um piano em segunda mão que tinha acabado de comprar numa loja de objectos usados, na Praça do Chile.

Realizava um dos sonhos da sua vida, com a ajuda da Madrinha, queridíssima quase mãe com quem vive, e das poupanças guardadas numa caixa de sapatos debaixo da cama, depósito seguro que não rende juros, mas tem a vantagem de estar sempre à mão.

Marcou-se um domingo, o melhor dia da semana. Toda a gente acha isso e também Deus, foi Ele que fez o domingo, grande invenção a sua, uma das melhores.

Aí vão eles: uma mão cheia de animação e vida, rua abaixo, aproveitando a brisa fresca da manhã, o muro da cidade dos mortos à sua direita, as janelas da cidade dos vivos, à esquerda.

Salpicam-se ao despique com uma desgarrada de piadas, piscam piropos às raparigas nas janelas, a verem a vida cá fora passar-lhes. Ou às poucas, que a esta hora se passeiam, agarradas por algemas invisíveis a mães carrancudas, pitbulls, a protegerem as suas virginais flores, de desabrocharem, se não foram também elas, um dia como as filhas!?

O passeio foi num ápice até la abaixo. Na rua Morais Soares as lojas estavam fechadas, mas as montras exibiam os produtos, apesar de semi-ofuscados pelo papel celofane amarelado que fazia uma espécie de cortina protectora do sol, deixando os produtors com um tom adoentado, meio- enjoado, se assim se pode dizer de uma camisa, ou um par de calças, que não são seres para se enjoarem.

O vendedor do piano, gasto como os objectos usados que vende, espera-os encostado à porta da loja, cansado de não fazer nada. Talvez esteja fastiado com a vida, problemas seus, todos têm. O piano já está estacionado na rua pronto para o transporte. A.B. faz uma inspeção circunspecta, acaricia-o sem que se perceba e paga com dinheiro vivo. O vendedor reconta meticulosamente com cuspo suficiente nos dedos para uma boa aderência, os notas uma por uma, até se dar por satisfeito.

Agora é a subir.

Os pianos são máquinas de fazer música de muita sensibilidade. Os seus mecanismos internos são complicados e pedem atenção constante, afinações, manutenção. Trasladar um piano à mão – ao ombro - pode não ser uma boa ideia, mas A.B. gastou o dinheiro todo que tinha e ficou sem disponibilidade financeira para pagar um transporte conveniente, nem ao afinador, e prevendo que isso não iria acontecer, andou também a treinar afinação de pianos pelo método virtual, matéria essa tão esotérica, que nem vale mesmo a pena tentar descrever.

O ânimo é grande, a moral está no máximo da capacidade, eles são jovens e estão cheios de força. Tudo indica que o transporte se resolverá com rapidez e eficácia. Todos os cuidados são poucos e A.B.  avisa os companheiros. Com voz de comando e alguma organização, vai encaminhando o seu rebanho, mas isto é uma maralha de ovelhas rebeldes, não é fácil encarreirá-los.

A harmonia e o equilíbrio são fenómenos de curta duração, a lei da entropia puxa o universo para o caos. O problema do transporte, visto sob a perspectiva dos transportadores está no peso do instrumento, no calor que começa a apertar e na inclinação pronunciada da rua, factores estes que conjugados neste dia, aumentam em muito a probabilidade de acontecer um fenómeno extremo. 

Começam por fazer pausas breves, saciando os cansaços nas torneiras públicas espalhadas pelo caminho. Á água é um bem universal e ainda se pode matar a sede gratuitamente nas fontes e fontanários deste belo país, não seja por aí que isto não avança mais e melhor.

Com o andar do tempo e o aperto das temperaturas, o clima hoje não está para brincadeiras, a reposição de líquidos obriga a paragens cada vez mais prementes.  Mas a água já não sacia, falta algo, mais encorpado, para repor os níveis de alento.

Entre fontanários – há quatro no trajecto da Praça do Chile ao Largo do Alto de São João, o piano é agora estacionado entremeadamente, à porta de estabelecimentos de restauração popular. Nessas tabernas, de galegos, cheira a vinho ácido à distância da esquina anterior. Lá dentro emborcam-se copos de três, encostados nos balcões sujos, ou joga-se à bisca, ao dominó, a encaralharem-se asneiras umas atrás das outras.

Os carregadores para compensarem de tanta água, optam por outros líquidos hidratantes mais estimulantes, animam-se.
Quando chegam ao destino, o número 36, primeiro direito, a bater a hora do meiodia, contam testemunhas oculares, que não foi fácil fazer penetrar o instrumento pela porta do edifício. O grupo teve dificuldade apesar de cálculos matemáticos feitos de cabeça, para definir a rota ideal.  As tentativas foram várias, e por voltas da décima – quase a desitirem não fosse o A.B. ter entrado na fase do vernábulo, a pontos de perder a compostura habitual - a missão teve sucesso e o piano sem mossas assinaláveis tomou posse por muitos e longos anos da sala de estar da estimada – uma santa – madrinha do A.B., que padecia de surdez congénita, com a graça de Nosso Senhor, que sabe e bem gerir as boas conjugações e fazer a previdência no mundo dos homens.

Foi a alegria do prédio e não só. O silêncio do descanso dos mortos, encheu-se de uma nova cor, a música dos vivos. Os traseuntes ficam mais felizes por passarem por ali e deliciarem-se com o som da música celestial que escapa pelas janelas do primeiro direito do número 36 do Alto de São João. Música que fluí pela praça ajardinada. A passarada, primeiro aturdida, desconfiada com a concorrência inesperada, amigou-se de seguida dos músicos e fazem agora o coro, empoleirados nas árvores, enquanto cagam e quando podem, em cima de algum desgraçado, parece que é de propósito. O São Carlos mudou-se para o Alto de São João.

Sopeiras derretidas e senhoras enviuvadas, todas cheias de repentinos calores, não param de suspirar. Arfam de lhes querer saltar os peitos dos decotes mais ou menos púdicos. Faltam-lhes os ares a algumas, outras deixam-se ir.

O Carlinhos, louro, belo, franzino, que se escapa quando pode para as emissões ao vivo da Emissora Nacional, e o pai a pensar que ele está de massagista na equipa de futebol do bairro, encostado ao aparador da sala, pratica nostalgias na voz. Olhos azuis colados ao tecto lavrado como que a louvar a Deus. A.B. curvado sobre o piano, martela carinhosamente as teclas brancas e pretas, afinal sabe tocar, e bem.

Todos enfeitiçados: a assistência feminina e os amigos do A.B. que se juntam nesses saraus de romantismo que se prolongam até ao lusco-fusco dos domingos. Vivem-se extases pessoais, iniciam-se namoros, tecem-se ilusões de futuro. E em calhando oportuno, que não se pode perder a oportunidade, um ou outro roçagar de chitas e fazendas, apertos ocasionais, todos a quererem, tudo pureza e sentimento.

As teclas de madeira de qualquer piano que seja, soam muito melhor que as teclas de cartão prensado.


















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