quinta-feira, 24 de maio de 2018

LER, OBSERVAR E ALFACE






Num jardim, no meio da cidade, não propriamente o meio, mas dizendo dessa forma se somos levados a pensar com detalhe -  um preciosismo -, no jardim onde uma mulher lê livros e eu observo e denuncio, duas jovens quase obesas comem saladas.

Elas são jovens para isso e não parecem gostar de ser, a menos que estejam a enganar.

Essas saladas acondicionadas em contentores de plástico comprados no chinês, foram confecionadas pessoalmente, sendo fresquíssimas depois das alfaces terem vindo anteontem das Filipinas e o ananás ter estado em trânsito na Islândia depois de ter sido colhido há dez dias na Colômbia.

Elas estão sentadas num parapeito e aparentemente satisfeitas, a contento da ordem pública, conceito que não existe em democracia. Cada um faz o que democraticamente quer sem ser multado.

Quem acredita em teorias de conspiração, vê  esses filmes até em minudências, e diria que há uma conexão obvia entre as pessoas curiosas que estão em jardins ou noutros lugares (para não se dedicarem a nada mais senão descreverem o meio que observam, como se tudo fosse só deles), as pessoas absortas em lerem livros, e as pessoas satisfeitas por comerem saladas. Este bouquet reunido, quer dizer alguma coisa, e esses teóricos, agarram-se como lapas ao estudo das coincidências, até darem em doidos, se é que não o são à partida.

Nenhuma destas conjugações em sincronia, se reúnem com essa disposição de contentamento, noutros ambientes senão nos jardins, levando a querer que os jardins são locais de acontecimentos privilegiados e singulares.

E para dar exemplos que não acontecem noutros lugares, veja-se:

Em nenhum corredor, e muito menos desembocando, de chofre, na sala magna da Assembleia do País, se pode dar nota de indivíduos ou individuas, empenhados a lerem livros, mesmo sendo de teoria política. Não.

 Observadores que captam o meio, não existem. Os que existem nesse lugar captam-se a si mesmos, estão sempre a olhar para um espelho inexistente mas que eles criam na sua mente saudável, a verem-se só eles.

 Comedores de saladas, da forma como estas raparigas fazem num parapeito, nem um, apesar de elas aparentarem estarem muito felizes com as saladas que confecionaram pessoalmente e agora comem, e haver legislação da mais avançada no mundo e feita nesta casa, sobre o acto bom de se comer uma salada.

Numa boa empresa, com nome feito, marca, ou uma de inicio fulgurante (tentativa de tradução rudimentar para “start-up”), não há empregabilidade nem necessidade de bons observadores, tipo olheiros de nada em especial, se não ficarem especados a observar coisas inúteis. Quer-se gente para trabalhar e não para estar a olhar para o vazio.

 Ler livros, é mal visto seja onde for, é um desvio que não se quer nas empresas, que são sérias. Ler livros, amolece as pessoas para depois executarem tarefas importantes.

Sobre as saladas, são as mais consensuais das anteriores nomeadas, comem-se amiúde nos refeitórios, ou em cima das secretárias de cada um.

Em outros locais fechados de grande dimensão, é improvável acontecerem estas três aberrações juntas. Não se está a ver em estações de Metro, em garagens automóveis, em Matadouros municipais, e por aí fora.

Tudo isto para levar onde? Para lembrar da impermanência das coisas do mundo.

A mulher que lê livros não é para aqui chamada, um dia quando tiver cataratas deixará de ler e já de si é anónima, o que não é nada bom; observadores e curiosos, há por todo o lado e são gente geralmente depravada; as saladas, são alimentos muito saudáveis, mas isto muda todos os dias e amanhã existe uma probabilidade de que sejam substituídas por panadinhos, alimentos muito saudáveis, mais ainda do que as saladas., o que está ainda por descobrir, mas em breve os cientistas vão dizê-lo.

Apesar de não ser uma blogger do estilo, uma influenciadora, não ter treze anos, não ser do sexo feminino nem aparentado, não apreciar dar palpites sobre todas as matérias e ter milhões de seguidoras que me endeusam, e não acreditar nas teorias da conspiração, estou em querer que haver quem leia livros, observe os outros e os passarinhos com prazer, e se comam muitas saladas, contribui para a diversidade, e no jardim que frequento gente dessa e outra com outros interesses ,vêm à hora almoço apanhar sol e praticar os seus prazeres pessoais.

Mas estou enganado!

As sonsas da alface, são espias a soldo de um município rival, que vieram disfarçadas de gordas a comerem saladas em jardins públicos, para verem o que na capital se faz para agradar aos turistas que nos visitam e também aos residentes fixos que falam a mesma língua do presidente da Câmara.

Estão a ser pagas para absorverem ideias  para implementarem essas metodologias no seu sítio, elas não estão a comer saladas para deixarem de ser gordas.

A alface , o livro e o mirone, não são randomizações do acaso, são casos de polícia, assim como o futebol que não é para aqui chamado.

Os conspirativos têm razão.


Sem comentários:

Enviar um comentário