terça-feira, 10 de abril de 2018

TODOS OS VERDES QUE EXISTEM - CRÓNICA DE SÃO MIGUEL











Um livro para uma viagem. Escolher. Da boa decisão depende muito o sucesso da viagem. Se o viajante vier a entediar-se, desligar-se por razões desconhecidas do sítio para onde foi, um livro bom é uma infusão de alheamento, uma substituição, resgate do tempo e do esforço despendidos para nada.

Poesia, a companhia dos poetas. Dizem muito gastando poucas palavras. São a melhor das companhias, não passam o tempo a tagarelar, são contidos e suficientes, dão liberdade aos sentidos para serem genuínos na fruição de todos os detalhes. O resto do tempo é do silêncio precioso que nas vidas corrediças de hoje todos precisam. Um bem escasso.

Os bons versos leem-se rapidamente e basta um segundo ou o que resta da vida de cada um para se remoer neles. Alguns versos exigem uma eternidade, que ninguém tem. Esses, devem-se para já guardar e levar depois, na última viagem, a derradeira.

Há casos relatados em que os livros onde estão depositadas as palavras que o viajante transporta consigo, se apaixonam eles mesmos pelos locais visitados. Amores à primeira vista, intensos. Ficam ligados nas memórias dos momentos cruciais, onde aquele verso se colou ao pirilampar de um céu estrelado; a palavra fugiu com o mar a perder de vista; a pontuação, toda, amantizou-se com aquela específica paisagem.

Vai-se para São Miguel, uma das portas de entrada do paraíso, com o eco de uma frase de Gloria Anzalduia que diz “penso na fronteira como o único ponto da terra que contém todos os lugares dentro de si”, e é isso que alguns viajantes pretendem encontrar nos Açores: o resumo concentrado de todas as coisas que compõem o mundo, nos contornos que delimitam as ilhas do mar, este sempre a querer conquistá-las, estas, vindo do fundo das suas profundezas escaldantes, a irromper à superfície, consolidando o seu território.
Uma batalha eterna com respeitos mútuos.

São Miguel acolhe todos os verdes da terra, avista até se esvanecerem os horizontes, todos os azuis do imenso líquido ignoto, gera no seu útero todos os pretos incandescentes, todas as variantes do negro, magma solidificado, âmago das dinâmicas da terra.

Nessa exuberância do verde absoluto, sobressaem em parcelas quadriculadas, geométricas puras, muros de pedra lávica, alinhados ao mar, na sua direcção, a entrar por ele adentro.





E depois, para que nada pareça brutal, a exuberância das hortênsias e outras flores com nomes igualmente poéticos, apazigua as paisagens.

E é aí, nesse momento que pode andar distraído, quando o homem, o local ou o forasteiro olham para elas, que se desanuviam as preocupações, e se pode viver mais um dia, porque valeu a pena ter olhado para uma flor.

Esponjo os ares para absorver todas as fragâncias pacíficas.

Não há picos nem miradouros nem lagoas nem portos nem casas mais ou menos bonitas na ilha de São Miguel. Tudo ainda é ingénuo e é por isso que sem o saberem, mas desconfiando, os açorianos são de uma grande doçura e trato, mesmo quando os que parecem brutos e bestas e feios e muito gordos e muito magríssimos e de olhar não presente, passado, pobre.

Há locais desses em São Miguel, onde também não apetece estar, onde se está triste, onde é mais do que melancolia, é a frustração da impossibilidade de ser feliz, por desistência geneticamente aceite sem nenhuma coragem de haver um primeiro desse grupo de muita gente que consiga estender a mão que pega uma faca afiada e que vai cortar esse cordão umbilical absolutamente podre.

Sentam-se todos a olhar para o mar numa baía cinzentamente atroz, e vendo o nada. Aí estão, os mesmos desde o primeiro dia em que esta terra recebeu homens; ficaram sentados nesse muro para sempre.

Depois vem tudo o resto que é tudo. E esse tudo é o que complementa as poesias que se trouxeram num porão de avião. Poesias envoltas nos braços dos poetas que as escreveram, coisas frágeis, tão belas. Juntas estas e os verdes, os azuis, os pretos, as outras, e toda a infinidade de coisas de tirar o folego a assombrarem a alma de amarelo e luz, fazem um festim que se prolonga pelas noites e pelos dias fora.

É o divino Espírito Santo.

Eu só queria um passaporte de entrada e usufruto permanente e definitivo para mim, alguns, poucos que amo e todos os açorianos mesmo os tristes. Depois, podíamos escondê-las só para nós, as ilhas.

Quero poder nadar numa noite de céu puro, iluminado por uma lua cheia de luz, no pequeno lago circunscrito de águas densas, ocres, quentes, ferruginosas das Furnas.




Quero descer em aventura à lagoa do Fogo e passar o dia passeando-me e banhando-me nela, Adão no Jardim das Delícias.

Quero tirar uma fotografia, num alto tendo ao fundo as Sete cidades e o contraste das cores das suas águas e enviá-la para todos os locais de outras geografias que ouvi falar e que desconheço, onde as pessoas igualmente tristes, sofrem inocentemente os pecados do mundo.

Quero enviar-lhes essas fotografias porque são bonitas, e podem dar-lhes esperança, a única coisa imaterial que eu lhes posso dar, dou-a de mãos completamente abertas, a pedir a oportunidade de uma carícia.

Quero ficar estonteado com a profundidade dos vales onde os raios de sol se espraiam causando estragos enormes de luz parecendo uma luminotecnia estudada e propositada em cenários não construídos pela mão humana, onde esta amanha de amanhar com arados, as terras vulcânicas férteis.

Quero banhar-me em águas escuras nas reentrâncias, nos pequenos portos, em praias com pedras redondas de magmas ancestrais.





Quero viajar nos frágeis barcos de madeira que caçavam baleias antigamente.

Quero muito e porque sou um ateu muito crente, entrar em todas as igrejas e de repente sentir que estou sozinho, banhado de uma luz que não me explico nem quero, e uma tranquilidade que me pega à rigidez do banco de madeira corrido, deixando-me ficar por aí a olhar olhando para os altares que são todos belos.





Quero voltar a comer bem e ser bem tratado, trazendo no bolso da minha memória cartões de visita com novos amigos. No Silva da Ribeira Grande, no Alabote a desafiar a invasão do mar, na Ribeira Grande, na Associação Agrícola, na Caloura, no Hotel Terra Nostra, o cozidinho, de sabores sulfurosos a lembrar o diabo, de bom.

Quero residir sempre que lá irei no Pico do Refúgio.

Ir aos Mosteiros em dia de mar batido e imaginar uma oração que não sei dizer.

Quero beber um copo de vinho e ver o mar a dançar para mim no Santa Bárbara.

Quero deitar-me de novo de abraços abertos amplos, mas vivo e muito feliz num alto, onde está o cemitério da Povoação, onde possa, eu e os mortos que aí residem felizes, estar sempre a olhar para o mar, na esperança de ver uma baleia a fazer-me adeus, lá longe, vendo-me minúsculo, deitado num cemitério.




Quero voltar aos Açores, às outras ilhas, a todas, que são a parte de nós que mais corajosas e aventureiras, um dia muito antigamente, se desprenderam desta terra continental e foram a conhecer os mundos, porque queriam a liberdade.



“Não ames viagens que reduzam a estranheza
Não te desloques a lugares
Dos quais já existam relatos
A tradição não diz muito afinal
E os livros só remotamente indiciam
O espanto
A terra é desde sempre incógnita e
Perplexa.
E se regressares a ela escutarás
O que não ouviste
Da primeira vez”*

José Tolentino Mendonça




1 comentário:

  1. Através da "Fugas" cheguei aqui e revisitei os Açores que trouxe comigo quando lá estive. Que belo texto! Parabéns! Açores também foi muito assim para mim. Território mágico, ilhas de um verde que eu nunca tinha visto e nunca mais vi. E o fim com um poema de um dos "meus" mais queridos, lidos, revisitados poetas e pensadores. Como não gostar?

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