terça-feira, 3 de abril de 2018

DESCUIDADOS DE DEUS - PARA AUMENTAR A POLÉMICA, ENTRAM OS MACACOS






Enquanto o juiz se distraia no jardim com o cão da raça Airedale Terrier, apesar deste se chamar Emílio que não vem para o caso, não se sabe para onde foi Deus, o que não foi novidade. Ninguém o viu – a menos que disfarçado de homem – sair pelo seu pé do tribunal, assim e como pensando bem, ninguém o viu chegar. 

Sendo segundo as suas palavras - que não se podem provar de terem sido ditas, por não haver registos sonoros do que se passa na sala -, um conceito, não ocupa espaço nem consome tempo, estando à vontade para ir para qualquer parte ou nenhuma que não só não se dá por isso e mesmo que se queira não se consegue encontrar uma pista sua,  ficando impossível para os homens encontrarem o que fisicamente não existe.

É por Ele ser assim, uma ideia, que destrambelhados por o negarem ou por o confirmarem, ocuparam este tempo todo, que vai em milhares largos de anos, a fazer conjecturas,  teorizar, moldar figuras de barro, ciliciar os corpos até sangrar e sofrendo, matar o próximo por uma convicção obcecada de um abstracto dificílimo de domar numa simplificação que deveria e é, infantil, bastaria perguntar à crianças, sejam elas Indigo ou só crianças.

O juiz estava como já se disse em casa, Deus algures, e a turbe dos homens insatisfeitos, excitados, tomando partidos, desenhando fronteiras e limites à frente uns dos outros,  querendo a continuação do confronto de filhos rebeldes com o pai gerador. Estava assim o mundo em turbulência. Movimentações massivas, manifestações, suicídios colectivos, linchamentos, meditações de mão dada construindo correntes humanas com quilómetros de extensão. De tudo se via, uma babilónia.

Nunca os jornais venderam tanto; os radialistas, exaustos revezavam-se em sessão directa , com fóruns de discussão onde participantes efusivos, outros ofendidos, outros raivosos, outros benevolentes, participavam dando opinião, quase sempre uma verdade absoluta; nas televisões, as belas apresentadoras, agora com olheiras de fadiga, repetiam as mesmas coisas, mil e uma vez, passando imagens da porta do tribunal, do ambiente exterior. Entrecortavam as reportagens em directo com imagens das iconografias de todas as religiões do mundo. Os múltiplos rostos de Deus. Comentadores Professores Doutores, palpitavam opinando opiniões que eram verdades absolutas, inchados até de palpitarem sapientemente sobre Deus.

 Dentro do edifício a comunicação não estava autorizada a colher imagens, nem som. Os jornalistas acreditados, e não houve espaço para todos os que se inscreveram, escreveram freneticamente enquanto decorreu a sessão, querendo apanhar a palavra toda que foi dita, toda a que não foi, toda a subentendida, a que mais escapa pelas bocas e pelos olhos. Até as silenciosas foram escritas  numa lufa de tudo ficar registado. Alguns, mais lentos no escrever, ou mais duros no ouvir, inventaram algumas palavras não pronunciadas para dar sentido as suas falhas de texto.

O mundo nesse fim de dia, na precisa hora do lusco-fusco quando a confusão dos homens ainda é maior pela sensação temporária, mas muito forte, de estarem completamente ao abandono de si, mais pela imaginação que fazem das trevas causadas pelas sombras e meias sombras que assustam tanto, o mundo dava ares de ser a ideia mais completa que se pode ter do caos. Não no sentido da destruição, na significação da desorganização geral das estruturas atómicas e não atómicas que enformam as coisas materiais e imateriais que permitem a existência ordenada e com a dose de desordenação autorizada e suficiente, do mundo como ele se conhece desde que os homens o veem e sentem real.

Foi provavelmente a noite mais longa, na vigília do dia seguinte, a continuação do julgamento que ninguém queria chamar com esse nome, mas que nome se dá ao que estava a acontecer entre aquelas quatro paredes senão o julgamento de um pai ausente que não acompanhou o crescimento do filho?

Fez-se dia. O privilégio que é repetir-se todos os dias um amanhecer, vale a imortalidade.

O Juiz Presidente tomou pausadamente café, talvez demasiadamente. Encontra-se acompanhado pelos restantes membros do colectivo, todos em silêncio, menos as colheres que mexiam os poucos que ainda consomem açucar. Paira no ar da antecâmara do tribunal onde está colocada a máquina de café, o peso da culpa. Esse peso numa sala onde está uma máquina de café. Os não crentes que estão presentes, estão incomodados, uma impressão, mais do que isso, um peso, sim. Era o inefável, uma manifestação concreta e real do conceito abstracto de Deus.

Ele estava no mesmo lugar, na mesma posição.

- Damos inicio à sessão. O Juiz presidente.

- Que ideia foi essa do pecado? Carregar uma culpa desde que se nasce até que se morre. Disse.

- O pecado rege-se pela moral dos homens, o seu sentido ético. Somos nós os criadores da ética e da moral, sem elas não podíamos viver em sociedade, harmoniosamente. E apesar de  todos os dias se praticar o mal, ainda assim vivemos num equilíbrio aceitável.

Deus respondeu:

- Muitas são.  Cada homem tem a sua. Se o comportamento de um é uma benfeitoria, para o vizinho é a pior das acções baixas. Vives em sociedade por oportunismo, interesse próprio. Pudesses dispensar a proximidade do outro, não pensavas duas vezes, preferias ser dono absoluto e sem intromissões do espaço que te circunda.

- É difícil viver em sociedade, no entanto temos aprendido à nossa custa, não nos lembramos que tivesses alguma vez vindo arbitrar um conflito, apaziguar os excessos.- Ensaiou quase com receio um juiz até então em silêncio.

- De resto, contigo tem sido sempre assim: cada vez que o homem se encontra numa situação limite, seja qual for, é quando fica mais sozinho, raramente dispõe de uma mão estendida, aberta, a dar-se-lhe, à sua frente, tirá-lo do abismo. Nunca sentiu a Tua presença nas redondezas, quando estava prestes a cair, pelo menos para lhe dares apoio… moral.- Ganhou coragem e disse o que se acaba de ouvir, o que foi forte.

- De resto, e já falámos nisso, juntamente com o facto de não nos teres dado a imortalidade, a tua ausência quando mais te queríamos ver, são os teus verdadeiros Pecados.- Esta já era outra voz.

- Não apareço porque não existo da forma que vocês julgam que existo. O meu papel no universo e nos outros de que nem desconfiam, não é de arbitro, é de Criador. Tu sim, e os teus parceiros desse púlpito, é que estão investidos dessas responsabilidade, não Eu.- Parecia e pareceu uma voz tonitruante

 - É por elaborarem essas teorias todas da moral que não se entendem. Depois vêm apelar à minha palavra, quando não chegam a acordo e ficam com as consciências pesadas.- Insistiu, animando o ambiente.

 - É na doença e no pecado que mais se lembram de mim.- Boa.

- Quando estão felizes deus não existe. Porque é que quando estão felizes não me convidam para as vossas festas de felicidade? - Rematou.

Esta foi uma boa retórica. A audiência reconheceu.

Essa manhã, enquanto os juízes debatiam questões metafísicas mundanas com Deus, crianças de um jardim escola da vizinhança faziam um visita de estudo ao jardim zoológico. Fascinaram-se entre outros, com os símios. Muitas, colaram os rostos ao vidro   grosso que separa as duas espécies.

Estes, acharam ridículas as figuras apalhaçadas dos miúdos, a fazerem carantonhas para eles. O pouco, pouquíssimo que lhes faltou para serem homens. Sentiam-se os descuidados de Deus.








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