quarta-feira, 14 de março de 2018

FOTOGRAFIA DA MINHA ALDEIA


                               Nuno Correia*



No cimo de uma colina, uma qualquer, todas, olha-se descendo, o rio que se vê por uma nesga.

A cidade tendo , não tem vistas amplas para o rio, só rasteiramente, perto de si, estando ao nível, e nessa situação a vista nunca é ampla.

A cidade também é dos miradouros, mas mesmo esses amplos são igualmente acanhados, ente colinas.

É na estreiteza de uma rua entre prédios ainda pombalinos, que se acabam, que se afunila a vista, focando melhor e se consegue ver bem o rio, que é um mar, da palha, porque tem brilhos.

Dourado nos dias quase todos de luz intensa, sendo um chumbo suave nos invernos todos eles praticamente humildes. Ganham largamente os primeiros aos segundos.

O olhar desce portanto a rua ingreme dos eléctricos, apoiando-se aqui e ali, porque a calçada é irregular, e vem molhar as pupilas e a Íris à sua beira, descalça-se, fazendo-o para se refrescar.

Uma vez nesse embalo, distrai-se com coisas,com um cacilheiro, lá ao fundo,  que vem parece lentamente, dos lados de lá.

Igualmente, nas fronteiras meridionais desse falso mar, que é um rio, mas extenso, uma estrutura provavelmente enorme, férrea, já que se vê ampliada, publicita um nome. Talvez seja o da cidade do outro lado.

Um rio que tem duas cidades não é de desprezar.

Afinal esse nome escrito em proporções inabituais não anuncia uma cidade, é um nome que já não existe, o de uma coisa nenhuma. Ainda assim, nesse enquadramento não fica mal.

Nunca atravessei o rio, não tive essa curiosidade nem a coragem de chegado à outra margem poder ver a minha cidade ao contrário. Podia ser uma desilusão, eu não arrisco coisas fracturantes, deixam marcas para sempre.

Também, não o faço porque me contento, pleno-me mesmo, em captar os pormenores que imagino vendo essa fotografia, a duas cores, que as apresenta todas, belamente retratadas, para o deleite dos meus olhos.

Há uma só coisa, fundamental, que não me é dado saber, mas desconfio: de que cor é o papel de parede que forra os olhos do autor, fotografo poeta?

Tudo isto numa fotografia, que decidi guardar, no lugar de mais destaque no lugar das fotografias que transporto na minha carteira, o meu panteão pessoal de vivos e mortos, que resolvi por decisão intima e só minha, amar incondicionalmente.

Não perco uma oportunidade de mostrar esta fotografia aos desconhecidos e outros, a bela fotografia da minha aldeia.

Ou será que é a maior metrópole do mundo? 

Gasto-a, só de a ver viver, tirando-a constantemente da carteira.

Obrigado Nuno.


*
Nuno Correia - amigo e fotografo

https://www.behance.net/nunoalc

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