terça-feira, 20 de março de 2018

DESCUIDADOS DE DEUS - REVELAÇÃO PRIMEIRA







- Não vos fiz à minha imagem, porque eu não me vejo bem no espelho. Não quis repetir uma imperfeição, voltei atrás na decisão.

Esta era uma revelação e tanto. Ele não se sente agradado com a sua imagem, tem problemas de autoestima e não quis que os homens padecessem da mesma doença. A fragilidade da aceitação de si próprios, nus, crus, despojados de esplendor perante a crueldade de  um simples espelho.

Então, se Ele não é perfeito, como podemos nós ambicionar a uma imitação da perfeição? Será que a perfeição não existe, em ninguém? Em nada? É uma miragem no deserto?

- O que acaba de dizer, é de uma grande gravidade. Diz o Presidente.

- Têmo-lo na conta de ser o Criador, o Omnipotente, o melhor exemplo que nos vem constantemente à cabeça da melhor ideia que podemos fazer de um ser absolutamente completo em tudo. Um “vinte” em todas as disciplinas. Um motivo de admiração, pertencer à  nossa turma, temos o melhor aluno.

- Afirmar perante este tribunal, que tem dúvidas? Para a Humanidade, uma afirmação destas, é a maior das catástrofes.

- Perder a segurança de uma imagem transparente, límpida, onde projectamos o exemplo, onde nos espelhamos. E como tudo, volta a ser pó, cai por terra o sonho.  A desistência, mais nos vale.

- Quando se anda uma quase eternidade – desculpa é um abuso! – para falar Contigo, para depois deste caminho todo ficar inglório o esforço da sublimação, da elevação em bicos de pés para uma maior espiritualização, uma consciencialização mais fina das coisas, das dinâmicas das coisas, das leis abstractas criadas por Tí que regem os universos e os seres que dizias, tinhas feito à tua imagem.

- Nas vezes – que nos são tantas - em que estamos indecisos, desanimamos, perdemo-nos numa encruzilhada, falta-nos a coragem da decisão, um ânimo, um colo, quem vamos poder chamar? e Tu que já não vale a pena vires, se não podes vir dar a mão, porque Te entrou a dúvida, e ruíste como um edifício mal construído, mal pensado?

Estas frases queimavam ainda mais o ar sobrecarregado, ecoavam mil e uma vezes fazendo ricochete em todas as angulações da sala do tribunal. Fustigavam todos os ouvidos, doíam muito.

 O silêncio que se fez era esmagador. Todos olhavam fixadamente, magneticamente vítreos  para Ele. Ele não, tinha-os fechados, os olhos. Sentia com certeza a culpa de uma fraqueza revelada, teria sentimentos, ainda se acreditava que sim, mas depois do que disse, ninguém o poderia garantir. Encerrou-os para ficar introspectivo, pesando as possíveis consequências das suas palavras. Que perguntas mais viram a seguir? Agora, não podia virar costas e sair de cena. Era uma cobardia.

 Estava cada vez mais desconfortável por ter aceite o desafio de se apresentar perante  a assembleia dos homens,  aceitar ser interrogado, quando afinal jamais as suas respostas preencheriam todas as fissuras das perguntas que lhe seriam feitas, porque as questões das relações e dos entendimentos dos pais e dos filhos, são as questões mais intrincadas,  também as fundamentais.

Nunca se resolvem, passam de geração em geração e transportam consigo mágoas, amarguras, a sensação de não se ter conversado tudo, esclarecido tudo. As distâncias das gerações, que impossibilitam o salto, todos dizem, quando nunca nenhum ou quase tenta saltar, para encontrar o outro, seja o mais velho ou o mais novo. Assim era com Ele, o nosso Pai original.

A custo, parecia, houve um desfasamento no tempo de proferir as palavras e a audição das mesmas, que chegaram desta maneira aos ouvidos dos homens presentes:

- Eu sou uma entidade abstracta, um conceito. Por isso não tenho um corpo físico. O que estais a ver agora, é um holograma mental de mim. Feito à vossa imagem, mas desta vez foram vocês que me fizeram. Afinal foram vocês que me desenharam.

- Eu não tenho dimensão, planos de corte, não ocupo nenhum contorno que defina uma linha do que está dentro e do que está fora. E é por essa razão que Eu vivo o tempo de uma forma que não vos é dado pensar. Eu nem sequer vivo, isso supnuha uma continuidade vinda de um principio em direcção a um fim, mas sendo eterno, não tenho continuidade, fico, sou eu isso a que chamam o tempo.

Tempo que para vocês é como se fosse uma corda, que existe, que se vê, que se pode puxar. Mas uma corda que está em movimento, sempre para a frente, nunca para trás, onde vocês se agarram e seguem agarrados, para não perderem o tempo, que a acontecer – assim o julgam – é a própria da vida que perdem. É uma guia, uma transportadora de homens para a sua inexorabilidade.

- Comigo é diferente. Não padeço desse tipo de nostalgias.

- O problema está em que, depois de vos ter criado, apaixonei-me pela minha criação. Quis ser como vocês, e então, talvez erradamente, talvez obedecendo a um impulso ainda mais misterioso que Eu, dei-vos a entender que podíamos ser iguais. O que nunca será possível.

Muitos se apiedaram destas palavras. Os seus seguidores, que eram numerosos, cheios sempre de boas intenções, apesar de alguns não tolerarem os outros nomes Dele (dizem que são infinitos, como as conjugações de todas as letras em palavras), e os seguidores desses nomes, religiões com outros nomes, cantavam em coro afinado - olhando para o céu - alvíssaras à palavra agora revelada: a assunção da culpa. Ele, como o seu filho, assumia agora, definitivamente, perante todos os homens, a culpa do pecado, e toma sobre os seus ombros, a responsabilidade, a expiação do transtorno que lhes causou.

Os seus retractores, principalmente os ateus anarquistas, assobiaram, e fizeram muitas vezes o dedo do meio. Uma pena. Apesar de alguns deles serem de boas famílias, os anarquistas ateus hão de ser sempre uma ralé arrogante. Se fossem os agnósticos anarquistas, assobiavam igualmente, mas não faziam gestos, mesmo sendo anarquistas, passam a vida a perguntar-se da viabilidade de Deus, e como não têm certezas, pelo sim pelo não, contêm-se.

O colectivo de juízes, organizadores deste encontro, começaram eles mesmos a terem dúvidas. Já não sabiam se seria uma boa ideia julgá-lo, em praça pública, como se fosse um de nós, quando afinal é o criador de tudo, mesmo que incompleto, assim o é.

Prudentemente, o Juiz principal deu a sessão do dia por encerrada.

Abriram-se as portas naquele ambiente abafado e com uma luminosidade difusa pela concentração viciada do respirar dos presentes, os raios de luz de final de dia, entraram em plenitude, espaço adentro, invadindo, projectando o Seu rosto carregado, talvez triste, e mostrando em toda a sua grandiosidade e beleza, os novelos da sua longa barba branca, dos seus longos cabelos brancos, que se abatiam como um manto de neve sobre a grandiosidade do seu corpo, afinal não-corpo, uma miragem que na realidade não existia, só existindo nos sonhos alucinados dos homens.

Foram todos para suas casas.  Ele para onde foi? Onde é a casa de Deus? 



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