sexta-feira, 23 de março de 2018

FIM DE SEMANA







Alegrou a cara porque é sexta-feira. Serenou as sobrancelhas, grandes pantomineiras. Distendeu-se. Vai ao cinema, à sessão das sete horas. Gosta de filmes de época.

Apesar dos comentários constantes dos chegados, preocupados com a sua ingenuidade, é uma romântica ingénua e quer continuar a ser.

Escolhe o assento mais ao meio numa das filas da frente. Gosta de se sentir absorvida pelo ecrã, ela diminuta na imensidão da cena projectada.

É uma inversão do real, sendo este o filme e ela um acessório sem história. Este hábito, o da transferência, é muito importante para readquirir a sua liberdade, ao fim de  uma semana de trabalhos forçados.

Nunca acreditou que se pode trabalhar por gosto e nunca foi adepta das teorias que dizem que se pode perfeitamente comprar o shampô, fazendo o que se gosta. São poucos e alguns mentem descaradamente.

Limpa-se numa sessão de cinema, para o fim de semana. É a sua catarse. Depois disso tem pela frente uma noção de eternidade, pelo menos até domingo, depois de amanhã. 

Amanhã ao fim do dia a noção já é ligeiramente diferente.
Até lá, segunda-feira, vai fazer tudo o que a falta de liberdade a impediu na semana passada de fazer: desamarrar-se do tempo.

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