segunda-feira, 20 de novembro de 2017

UMA SECA




Antes pelo contrário, não fazia frio. As pessoas queixam-se com contenção de queixume porque lhes dá jeito, mas todos falam nisso. E termina-se a conversa com um sorriso dúbio a dar entender todas as possibilidades, e assim não se comprometem com responsabilidades. É melhor do que criar conflitos. Este aglomerado de pessoas, que foi raça em tempos passados e agora é só um aglomerado, têm este tipo de natureza: são informes: está tudo bem e mal, ao mesmo tempo.

Dar-se o sol a esta obscenidade e a temperatura ser de calores desta amplitude, no mês de novembro, é um contratempo ao qual as pessoas são alheias. Não têm nada a ver com o assunto, não fizeram nada (desculpam-se elas consigo próprias), concordam que não está bem, mas andam felizes por não chover. E se a água vier a faltar a culpa é dos espanhóis, que são um povo estuporado, que atazana desde tempos imemoriais a vida dos do lado de cá.

José António mesmo com os contratemos climáticos, optou por tomar uma decisão fundamental. Nunca lhe tinha acontecido tomar uma decisão assim, é a primeira vez, pelo que espera ingenuamente que lhe corra bem.

Esta decisão é do foro psicológico mas o senso comum acha que é uma mera extravagância física. Ambos estão enganados, o senso comum e os que pensam diferente: é uma coisa holística.

José vai anunciar finalmente, depois deste tempo todo – já com cabelos a branquearem, e o corpo a não ir para Adónis -, o seu posicionamento sexual.

Alguém que faz isto, deve ter razões inquestionáveis para o fazer. Anunciar um posicionamento é quase como uma fractura: fica-se a saber que depois disso haverá os que ficam numa margem e os que estão na outra. E o anunciador, tem sempre que escolher uma delas, perdendo os outros.

Mas é um posicionamento, vocábulo que não tem discussão, nem argumentos. E já que o mundo pode acabar a qualquer momento, ou pelo menos a eminente falta de água, vir a originar desidratações fatais, e ninguém está livre disso: pode muito bem vir a acontecer ao José António, e ele sem ter tido tempo de soltar a franga, pelo que resolveu anunciar-se.

José António é binário transgénero, não masculino, não feminino. Os pais morreram toda uma vida sem desconfiarem de nada; alguns amigos, poucos, acharam-lhe um piquinho muito ténue, mas nunca valorizaram; e no trabalho, continua a ser um excelente professor com a carreira congelada.

Uma coisa é mais do que sabida, mesmo em tempos de seca, José António pode orgulhosamente passear-se por aí a sibilar aos ventos a sua tendência de género, sem que por lei possa vir a ser assediado ou impedido da sua liberdade.

Pode vir a faltar a água, mas os seus direitos são inalienáveis, e até que  venha a encontrar-se uma relação directa entre os recursos do planeta e a acção maliciosa ou negligente dos seres que a habitam, nomeadamente os transgénero binários, a sexualidade bizarra do José não é tida nem achada para as vicissitudes do tempo.

A culpa é e continuará sempre a ser dos espanhóis.





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