sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O VOO






Escrever é como percorrer pacientemente - ou não - um espectro como as ondas da radio, procurando uma sintonia.

É uma tarefa quase sempre absurda, cansativa, mal sucedida, quando parece ser tão fácil juntar umas quantas palavras bem intencionadas, a fazer sentido.

Mas não é isso que se procura, fazer sentido.

Vai-se atrás de mais, que não se sabe. Algo que seja suficiente mesmo que só suficiente, à justa, para preencher temporariamente todos os poros e espaços em branco.

Depois, quando esporadicamente sai e flui, é-se oferecido de um espasmo inqualificável de prazer, que vai muito para além de um simples excelente momento de prazer.

É outro algo, etéreo, mas físico; volátil, mas que envolve. Sente-se a pressão desse enlaço.

Enfim, escrever não é nada fácil, mas é uma coisa não coisa que alguns poucos fazem tão bem; que alguns desejam suspirando tanto; que é fútil mas que tem uma utilidade: eleva a condição humana.


A partir do momento em que esse homem com condição, consegue desligar a ponta dos dedos dos pés do chão que o sustém, nunca mais ninguém o apanha, ganhou  num instante histórico, as artes do voo livre.

Fez-se artista.


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