segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O HOMEM






Um tédio, escrever. Se era só para si, por que fazê-lo, se punha e dispunha em privado desse eco na cabeça? Por que passar ao papel quando se perde tanto na tradução do pensamento?

Deu-se conta disso, não do tédio, quando se viu - uma vidência instantânea e sorte em tê-la -, atafulhado de coisas escritas.

Uma acumulação como outra qualquer.  Não de colecionador.  Um juntar sem um objectivo, nas gavetas, em prateleiras, caixas. Para amanhã, que amanhã?  Guarda-se com medo de perder, ou então, por pudicícia, a modéstia dos ingénuos.

No seu caso, não guarda por nenhuma razão especial a não ser o facto incontornável – para si – de que não consegue fazer outra coisa senão escrever, independentemente do descrédito de sentir que exerce com carácter de regularidade diária, uma pulsão, de absoluta inutilidade.

Não a abandonar, destruindo o produto dessa promiscuídade, era a forma airosa -coisa neutra - de se desculpar por não ter desenvolvido habilidade para actividades manuais que o fascinavam. A carpintaria, o cheiro da madeira e aquela coisa sensual, senão erótica, de afagar uma superfície em madeira. Desvios.

 Como não sabe fazer mais nada, e porque o tempo que escapa das mãos tem também o despudor travestido de dar a sensação que se desenrola numa alentejana lentidão, manuscrita em sofrimento, o que não quer dizer que o faça descuidadamente. Escreve honestamente com atenções de crítica pessoal, e arruma sempre a secretária no final do dia de trabalho.

Como todos os existentes - sinal definitivo de que que continuam vivos -  tem bons e maus momentos, alegrias e desencantos, ou seja, exerce uma actividade absolutamente comum e normal. Na excepção de ser um homem com dúvidas, situação que mesmo num operador de gruas em altura, complica o currículo, escrever é tão banal como operar em ambientes causadores de vertigens.

Ele, que tem um nome que não acrescenta nada a este relato, escreve, e nos intervalos visita museus. Visita museus de uma forma cientifica: escolhe as horas e os dias em que considera que por probabilidade estatistica-intuitiva, estarão desimpedidos de visitantes.

Só se pode visitar um museu com conhecimento de causa, sem interferências de transeuntes que estão naquele momento a olhar - ou passam constantemente à frente - para o Ecce Homo com ar de que já estão atrasados para o próximo quadro que os vai atrasar ainda mais para o seguinte, mas tem que ser assim, a vida  é feita destas coisas que são obrigação, mesmo em turismo de massas. Para dizer que se esteve lá e se viu. O quê? No final, ficam com uma má impressão do Ecce Homo, ou nenhuma.

Esgotados estes dois passatempos, ele não faz mais nada de especial (os dois também não o são), senão comer escassamente e ouvir música de olhos fechados, prática que ele não concebe ser praticada de outra maneira.

E depois disto, vai-se deitar e dorme pouco e sonha muito e faz balanços atrás de balanços, de tal forma que acaba quase todos os dias, que são ainda noites, acordado  de madrugada e aí tem mesmo que ler qualquer coisa, enfadonha e maçuda preferencialmente. Pode-se dar o exemplo de uma qualquer e intricada filosofia, um ensaio de linguística, ambos servem não para lhe darem mais luz, pelo contrário, para o porem ainda mais na sombra reanimando o impulso de voltar a adormecer.


Assim vive um homem que escreve. Um tédio.



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