terça-feira, 3 de outubro de 2017

AINDA DA MULHER QUE LÊ UM LIVRO NO JARDIM






Afinal ama um homem, a mulher que lê livros sentada no jardim.

Está como se sabe imersa na leitura e por uma razão qualquer de uma espécie de radar seu, deu conta da aproximação - para outra não poderia ser - não espera ninguém, não o espera e por isso surpreende-se
.
Receptáculos um do outro, recebem-se abraçando-se de uma forma profunda, demorada, os corpos a usufruírem de estarem assim, pegados, unos. No tempo do abraço, ela manteve o livro com a página marcada.

Eram portanto três: dois amantes e um livro.

Por este exemplo se vê o valor imaterial de um livro, que ela não abandonou no momento em que abraçou o homem que afinal ama. Fica na sua atitude, a gerar créditos, não foi um mecanismo involuntário, foi uma ordem lúcida daquele, do seu, cérebro, que tem consideração pelos livros.

Sobre a forma e o estilo como eles se encontraram no jardim pode-se dizer que foi num prolongado abraço, de olhos fechados. O que pode não querer dizer nada, mas geralmente quando é assim, não engana. Um dos rostos, o do homem - o dela estava na posição oposta e não era visível - espargia uma grande quantidade de prazer, um prazer de um nível subtil, dois seres com evolução espiritual.

O dela supõe-se que dissesse o mesmo, com uma reduzida margem de erro porque não se vê. Passada a juventude dos dois, as rugas a dizerem isso, são bonitos na sua idade do meio da idade.

Abraçaram-se e de que maneira.

Ninguém reparou. Em caso de dúvida, pode-se recorrer à videovigilância.  Ninguém o fez porque isso não é relevante. Para se perceber a desatenção, atente-se que:

Alguém conversava distraidamente enquanto comia na pressa a escassa qualidade de uma refeição contra o tempo; uma rapariga interessante porque  na juventude de o ser, também de olhos fechados, a afagar o seu cão preto, não por ser cega mas a absorver o prazer do sol de outono, e as festas ao cão; um indivíduo estacionou impropriamente uma potente moto em cima do passeio de forma estridente, a fazer-se anunciar, nem a poluição desse acto agressivo o anunciará, mas ele está convencido do oposto apesar de toda a gente olhar enfartadamente para ele; os pombos estavam, estão, continuarão, ocupados a bicarem o que eles consideram como potencial comestível. Às vezes enganam-se na apreciação, mas não estão sozinhos.

Não se relata mais ninguém ou movimento que possa interessar ou dar informação adicional sobre o cenário.

Passa pelo pensamento, por passar sem consequências de maior, que este jardim tem a estranheza de ser frequentado por desatentos. O que está errado porque não há jardins só para esses.

A mulher que lê livros e o seu amante, desenlaçam e sentam-se, agora dois, no beiral do jardim. Poderia ser que iniciassem uma conversa, acção tida como  estimulante , afinal o desejo inevitável de duas pessoas quando se encontram, ao fim de uma breve ou longa separação. Mas não. Ela flectiu o braço em tensão há algum tempo e aproximou dos olhos defendidos com lentes progressivas, o livro suspenso, que voltou a ler e fez bem.

Ele, enrolou um cigarro, acendeu-o, inalou a primeira fumaça – a melhor de todas –, uma segunda já não tão boa mas ainda boa, e desleixou-se a olhar para a amada, perfeitamente satisfeito só com isso, tanto, tudo.

O mundo não mudou.

Algumas das pessoas que comem apressadamente nos jardins continuarão escassamente saudáveis, ou viverão ate aos noventa anos sem queixas; a rapariga segue um bom caminho: a continuar assim vai longe, um bronzeado que lhe dura todo o ano; os pombos, não há quem lhes dê indicações mais precisas sobre escolhas alimentares, e não se está a ver que deixem por eles de debicar tudo o que lhes aparece à frente.
.
As pessoas que se abraçam como estes dois e leem livros e fumam, compensando o mal que lhes faz com o olhar amante que estendem sobre os amados, são pessoas a quem não se presta atenção. Mas não faz mal, eles, os amantes, passam todo o seu tempo de amantes completamente desatentos do mundo exterior, só precisam um do outro para se insuflarem de vida, alento, anima.


E não há mais nada a dizer sobre este jardim.

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