sábado, 24 de junho de 2017

ONTEM- FOLHETIM 4







Troveja a esplendidez da tarde, segundo acto do dia.

A Dona Elvira é boa pessoa, tem uma filha obesa e um gato. Dada a sua condição avantajada, Elvirinha a filha que repete o nome da mãe, pouco sai de casa, debruça-se da janela da marquise e a cabeça de fora conta como ter saído de casa. É pouco mais velha mas parece da idade das criadas, velha portanto, mas muito menos interessante sexualmente do que as primeiras, viçosas, roliças, rijas. Tudo indica que a sua vida se encaminha para vir a exercer a profissão de leitora compulsiva, um sacerdócio Infrequente. Este género doentio de leitores, de lerem muito, ou são obesos, ou magríssimos, ou fleumáticos. Também há de todos os outros, pelo que há de tudo.

As relações entre moradores e estudantes não são as melhores. Existe distanciamento, quase omissão. Anda no ar, como se diz. Os dois  grupos delimitam  territórios com pouca mistura. Há  uma solidariedade tácita no grupo dos residentes apesar de fora das horas destas convenções , algumas meninas da Dona Elvira, amigas das meninas residentes, virem brincar sem convenções nenhumas.

Os mais velhos, pouco mais do que púberes, estão a ficar muito interessados nas pupilas da Dona Elvira. As datas dos ritos de passagem a anunciar calendário.

Ontem omitiam-se todos em risinhos nervosos, hoje repararam que existem e ficam curiosos pelas angulações ainda mal delineadas dos corpos das meninas, que começam a marcar levemente os contornos dos seus vestidos.

 Após a motivada observação do terreno, os rapazes chegam à conclusão que as meninas necessitam de mais distração durante os recreios. Um imperativo, a cumprir com profissionalismo.

Salvador é loiro, com olhos azuis-água e pele alva sarapintada por  sardas aos molhos. Num país de quase negros, do morenos que tanto são, ser assim é ganhar de imediato um respeito quase divino. É um orgulho de todos e por isso, por conhecer de pequeno o doce veneno embriagante da fama e da veneração,  pode ter todas as manias que todas se  desculpam. É o  embaixador, aquele de quem se quer estar ao lado, dentro ou fora, nos ambientes menos conhecidos da rua. Um passaporte para o sucesso: os adultos confiam-lhe o cabelo, apertam-lhe a bochecha, os da sua idade admiram a sua beleza diferente.

O Salvador tem uma magnífica mala gira-discos portátil que funciona com pilhas e é um objecto revolucionário, absolutamente novo que poucos têm. É das máquinas mais práticas e úteis que foram inventadas. Este mundo é de espantar, a velocidade com que tudo está a acontecer, avanços em tudo, todos os dias aparece uma coisa nova. Não se imagina que se possa inventar nos anos próximos nenhum objecto mais bem inventado do que este gira-discos portátil.

Deve-se fazer uma interrupção e prestar uma homenagem definitiva ao papel das pilhas (ou baterias) na história da humanidade. Estão sempre presentes nos momentos importantes e fundamentais: lanternas, rádios, gira-discos, uma máquina de fazer a barba, uma invenção quase tão boa como o gira-discos portátil.

Esta máquina, ambivalente - usa pilhas e corrente eléctrica - abre-se a tampa, coloca-se um disco de vinil a 33 ou 45 rotações por minuto, tem um braço com uma agulha finíssima, pousado num descanso. o disco começa a girar, pousa-se com cuidado a agulha na superfície do disco e acontece o fenómeno do som da música nesse instante preciso. Um som abafado, crepitante, que se evapora da tampa que tem incorporado um alto-falante.

Último grito da modernidade.

O pai do António trabalha numa  editora discográfica, o do Salvador é intelectual – mas também trabalha. À noite disfruta da companhia dos discos, enquanto lê um livro da sua biblioteca-sala, degustando baforadas lentas um cachimbo desenho Porsche ultra-moderno, com uma fornalha de aço escovado. o filho e o amigo deste já o puseram na boca e viram-se ao espelho. Em grandes fumarãocachimbo.

É muito livro junto . É muito tempo, com a cabeça ao lado a ler os títulos que repousam nas imensas prateleiras dessa sala saudosa. Sempre que o António entra nela, todos os dias, e enquanto espera pelo Salvador, acomete-se de um impulso incontrolável de lhes tocar, escolher um de tantos, folhear, em sobressalto  que alguém apareça inoportunamente  e reprima esse seu namorico não autorizado pelos livros que o atraiem tanto.

Nesta clandestinidade, ficou refém deles para o resto da vida. Aquela biblioteca foi o seu primeiro cárcere, forrado a livros.
a partir daí, foi uma vida passada em prisões.

O Salvador e o Joaquim  juntando os dois possuíam uma coleção invejável de discos com todas as novidades (e outros entediantes,  música clássica e jazz,  aborrecidos por enquanto).

Se as raparigas precisavam de se animar, no último período do dia, ninguém naquele prédio tinha maiores credenciais para as satisfazer do que eles.

Numa assembleia magna a dois, com assistência sem direito a voto dos irmãos mais novos, decidiram instalar uma rádio local com sede na casinhota nº 10, a do António.

Pioneiros das rádio locais!

O estudo da implementação foi aprofundado e sopesado com opiniões e palpites dos outros meninos, a quem não se deu crédito, porque só eles estavam à altura de entender e dominar as novas tecnologias e sabiam do que se estava a falar.

Havia no entanto, pequenos problemas técnicos por resolver tendo-se decidido pedir conselho ao Joaozinho, rapaz que vá-se lá saber porquê tinha criado à sua volta uma aura de sobredotado, isto porque não saia de casa para brincar, e os meninos que não saiam de casa eram vistos como prodígios em potência de qualquer coisa, ou então eram tísicos, doença estranha que também tinha a sua aura.

Ele não saia por ser o filho da porteira, e os pais usando a prerrogativa da discriminação de classe, neste caso por baixo, não deixava que o miúdo se misturasse na brincadeira de pátio com os outros: fidalgos e plebeus.

O rapaz chegou a doutor médico – como o do fotógrafo -  e alguns “aristocratas”, continuaram no eterno desemprego de não terem nada de produtivo para fazerem, desde o dia em que se olharam pela primeira vez ao espelho.

Foi bem pensado pedir-se um parecer técnico, pois aproveitou-se para encher os bolsos de peças de Lego em falta no stock e mais dois carrinhos da Matchbox, que estavam em defícite no espólio.

Estas incursões eram frequentes pelo que já havia uma táctica afinada com bons resultados: o Joaozinho ansioso por ter companhia para brincar expunha na mesa da cozinha todo o material de construção, que dava para erguer uma cidade inteira em miniatura. Já que vivia naquela reclusão forçada, os pais ou um benfeitor desconhecido compensavam a sua solidão, estando sempre a oferecer conjuntos de Lego. Tinha um espólio imenso.

Enquanto o António o distraia ajudando a erigir um estádio de futebol - obra difícil - o cúmplice hediondo, na retaguarda, depois de assinaladas as faltas de material e ter  a porteira controlada ( quando eles lá iam a casa brincar com o filho, não arredava da cozinha), no momento oportuno, quando os dois estavam emaranhados a pôr de pé uma bancada que apresentava problemas de sustentação e a progenitora a mexer o arroz de tomate para não queimar, ele carregava os contentores laterais das calças  com os Legos e calcava para não dar nas vistas, o que era impossível porque sobressaiam duas protuberâncias.

Nesse dia sairam com a mercadoria sem passarem pela portagem, e levavam também ideias de gabarito para resolver o fenómeno da propagação do som, coisa da física acústica que os preocupava. O espoliado, que iria para médico, percebia igualmente de física

 O Joaozinho nunca na vida se queixou abertamente dessas perdas de material de construção, o que sossegou a consciência dos infractores, pensavam que lhe  faziam um bem, o da companhia, ele estava tristemente desterrado numa recôndita cave escura.

A montagem do estúdio fez-se portanto em bom ritmo.
O pai do António cedeu um altifalante mais potente que encaixava no buraco negro da casinhota, com uma ligação sofisticada dos fios à mala do cantante. Conseguiu-se ainda um microfone para emissão intervalada dos noticiários que os iria haver, com apresentação de outros temas de interesse local.

Ensaiou-se o sistema num fim de semana em que os irmãos e outros subalternos em idade, foram coagidos a fingirem de meninas em hora de recreio no pátio.  Alinhou-se nesses ensaios - não é para gabarolice - a primeira playlist de qualidade da história da rádio regional.

Georges Moustaki, Chico Buarque, um cheirinho de Fanhais, Mário Branco (não podia ser muito), Cat Stevens, e um ou outro hit dos festivais da canção, coisa importantíssima naquele tempo. Música para todos os gostos.

O organograma da Estação é como se explica:
A Direcção Geral e a Presidência do Conselho de Administração nas mãos do Salvador, por ser o dono da aparelhagem . O António era Administrador Delegado com assento no Conselho.

Como empregados:
O Salvador que punha a música e não deixava ninguém mexer na aparelhagem, e o Delegado como locutor de serviço.
A inauguração oficial aconteceu numa segunda feira. Numa Primavera das boas, das que o cheiro do ar deixa memórias, o calor vai para quente a anunciar um verão glorioso.

Atenção, no intervalo da tarde, agora mesmo, dá-se início à primeira emissão oficial, não censurada, da radio das casotas amarelas. Radio de temas generalistas e música de grande qualidade, música do mundo.

Não estarão presentes altas individualidades nem dignitários, porque esta história acontece num pátio de um prédio onde existem crianças sem pretensões.





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