sábado, 13 de maio de 2017

VAMOS BRINCAR AS PALAVRAS






Não é boa a primeira impressão de uma parede ampla preenchida com livros, desde o chão de madeira corrida encerada até ao tecto de estuque com perfis brancos trabalhados. Da aparente inutilidade de um objecto ao conforto da sua companhia, por vezes corre uma vida, por vezes uma é pouco.

Já conhecia os livros e iniciara uma modesta mas voluntariosa biblioteca com dois ou três fascículos de banda desenhada a preto no branco, do personagem Major Alvega, aviador português ao serviço de sua majestade na velha aliada Albion. É possível ter sido o meu primeiro herói, ele e Toto o cão caçador do meu avô, animal fidelíssimo com uma paciência búdica que encarnava a contragosto o papel de touro em lides improvisadas que eu fazia no quintal da nossa casa anterior a esta, onde nasci mas não cresci.

A sala do Pedro tinha um oceano de livros e era de pôr a escassear o fôlego a um pechincho. Alguns livros cortam-nos a respiração, deixam-nos ofegantes, mas é prazer.

Com sete ou oito anos mal sabidos de ler, parentes chegados nem mesmo com sessenta o tinham ainda conseguido, e aqueles livros, tantos, a prometerem mistérios inumeráveis. Alguns títulos anunciavam-se em luzes piscantes, sedutores, a pedirem para serem resgatados das prateleiras.

Sabemos quanto a curiosidade é corrosiva e inferniza a consciência, constantemente a sussurar,fazendo correntes de ar nas esquinas da nossa cabeça, propondo imprudências, a pedir para entrar na intimidade de uma qualquer coisa, um objecto, um espaço por explorar. É uma aragem que não desiste.

A curiosidade e uma criança, quando dão as mãos, fazem uma parceria perfeita, e normalmente estragos visíveis.

Quando ia lá a casa (que é uma maneira de dizer, para quem passava fatias generosas do tempo dos dias lá em casa), e por algum motivo estacionava momentaneamente sozinho na sala, esperando o meu amigo para entrarmos ao serviço nos horários da brincadeira – uma das profissões mais difíceis e sérias do mundo – o chamamento daqueles livros, uma espécie de coisa magnética, era um fenómeno real, mas também podia ser um desarranjo temporário da minha cabeça.

Silêncio, livros e belos quadros pendurados nas paredes livres. Eu gostava daquela união de facto, a ligação perfeita. Sem explicação credível nem científica (e divina põem-se dúvidas), o tempo entrava em modo de pausa.

Num fogacho, a eternidade deixava de se passear – flausina - à frente dos meus olhos. Era isso a ausência de tempo.
Como tive muitos episódios de solidão temporária enquanto esperava o meu amigo, a curiosidade acabou por assumir o comando da mente e ordenou às mãos – que são as suas cúmplices tontas – o caminho da biblioteca. Resisti o que pude, como pude, mas às crianças tudo se perdoa, e eu não resisti mais.

E houve o primeiro livro.

Tirei, penso agora que aleatoriamente, uma grande e pesada enciclopédia a cores, com muitas fotografias e desenhos. O assunto eram os jogos olímpicos da antiguidade grega e as modalidades desportivas que os compunham. Sei hoje que estava escrito em francês, porque me ficaram gravadas na memória palavras que mais tarde decifrei, quando o aprendi de raspão no liceu.

Esse foi só o primeiro livro, mas voltei a ele muitas vezes. Fascinou-me, fabricou-me sonhos, cumpriu o papel de livro.
A partir daí, explorei os que pude. Seria contornar a veracidade deste testemunho, dizer que os folheei todos. Eram demasiados e alguns tinham acontecimentos impossíveis para uma criança (nem em adolescente cheguei perto de entender muitos deles).

Mas oficialmente dizendo, a aventura da exploração dos livros só começou, quando distraídamente entrei para dentro de um, e o Pedro me apanhou dentro dele quando entrou na sua sala de estar, e eu, um pirata de olho de vidro fingido e uma perna verdadeira a fazer de pau, navegava num barco alheio, acabado de capturar, completamente absorvido numa história que já nem me lembro, mas era das boas.
Pedro fez-me uma entrevista, acerca dos livros, colocou perguntas complicadas, respondi pouco porque entendia pouco de livros, só sabia que gostava deles.

Mas dei-lhe confiança.

A partir desse dia e a termo incerto, ganhei autorização para ajudante de bibliotecário e o Pedro sem que eu o soubesse, nem me dissesse, decidiu-se a ensinar-me as palavras e as suas conjugações, já que sem elas e a sua compreensão, não me servia de nada gostar simplesmente de livros, que são jeitosos para se andar com eles debaixo do braço, mas ficam ridículos se não forem devidamente lidos.

Ganhei um livre-trânsito para tirar a obra que me interessasse, colocar no seu lugar na prateleira um marcador a sinalizar a falta e o usuário, e devolver sem prazo estabelecido, nas mesmas condições com que tinha sido retirada. Só não podia sublinhar nem escrever, a lápis que fosse, nas páginas do livro. Se o quisesse não seria fácil, porque muitas margens das páginas dos livros do Pedro, estavam já ocupadas, com comentários e notas suas. Havia mesmo alguns que já eram dois livros num: a versão original e a revista e melhorada, por ele.

Foi assim que iniciei o que julgo ter sido uma brilhante a admirável carreira de explorador dos livros, uma actividade arejada, sem postos fronteiriços, que ainda hoje pratico sem nenhuma moderação nem decoro.

Li tudo o que pude dessa biblioteca, a minha primeira biblioteca. Pedagogia, psicologia, antropologia, sociologia, filosofia, política, outros temas menos respeitáveis como poesia, teatro, literatura.

E fui crescendo com um professor que nunca o tendo sido em representação do óbvio, foi encaminhando subtilmente o seu aluno para o portal da compreensão das coisas, para a ginástica do pensar, para a alegria que dá saber fazer uma boa pergunta, a exigir que se desvende o mistério de uma boa resposta.

Ele adorava brincar com as palavras, e ensinou-me esse jogo, um mastermind, que praticámos vezes sem conta, anos sem conta, no pingue-pongue duma dialéctica em privado, ele o mestre, eu o discípulo, sempre a perder aos pontos, mas que importância isso tinha, compensava o prazer que dava!

Nos serões de família, em que eu animado contava e recontava a história do jacto súbito e inesperado de petróleo no quintal do meu avô, para os lados de Xabregas, quando eles almoçavam pezinhos de coentrada, e o Pedro, a meter pelo meio da história uma esparrela, sobre o Theilhard de Chardin - que me tinha emprestado - a aferir da minha atenção ao assunto, dificílimo: à esparrela e ao tema da reconciliação da ciência com Deus, o panteísmo cósmico, a liberdade do homem, a ver se já entendia, se já estava maduro a entender, e se assim fosse, estaria convenientemente preparado para questionar o mundo.

Foi uma relação filial, a minha, com ele, e devo dizer que fiquei muito bem servido com o oferecimento da sua paternidade.


Sobre os livros não posso dizer mais nada: não consigo encontrar um, abandonado, que não o adopte. Tenho assim centenas de filhos - ou talvez - centenas de pais, e algures, num recanto onde se aviste uma bela paisagem de mar e praia, lá estará o Pedro, a dar ordens de marcha aos livros, para que eu – eternamente incauto - tropece neles e os leve para casa.


Ao meu pai-amigo PedroOnofre, 
Foi bonita a festa pá, fiquei contente!

Sem comentários:

Enviar um comentário