segunda-feira, 22 de maio de 2017

ASCENSORES





São três a disputarem a pulcritude das ascensões às alturas, que para baixo todos e mais os santos ajudam. A subida é pouca, somo merenscórios (melancólicos, para dar oportunidade a palavras que ventaneiam pouco) e pequenos, obedientes à escala humana, inclusive nos altos e nos baixos. Seja como for, uns cem ou duzentos metros no altímetro, acerca ainda assim as pessoas do céu ridente e de um azul que os locais dizem ser só seu – se é isso o patriotismo, seja esse azul o mais belo de todos - a pintar esse espaço infindo, nesta cidade de Lisboa nos meridianos dos fins das Europas.

Andam os três em disputa desde os finais do século dezanove, quase clubes de futebol, que depois de ter sido escrito duvida-se da escolha do exemplo que não é dos mais apropriados!  

A sua missão nos tempos arcaicos – quando o  interior das carruagens se iluminava tenuamente com luz de velas, e o sistema de subida-descida se fazia por contrapesos em depósitos de água nas próprias carruagens - era aproximar as pessoas locais dos seus lares antes e depois da lide dos dias.

Ligações rápidas da rua de São Paulo abraçada ao rio e ao Mercado da Ribeira; da Baixa, dos grandes escritórios, dos serviços, do comércio. A Baixa e o Chiado eram o centro da cidade, o espaço cosmopolita. Os bairros eram aldeias onde as pessoas dormiam e repousavam dos seus aporrinhamentos. Lisboa era uma colagem de “Portugal dos Pequeninos”, implantado nos vales e nas colinas suaves, mas vaidosas das vistas que oferecem.

Bica, Lavra, Glória. O último pelo nome eleva igualmente a outras alturas. Que se cuidem as palavras, os encómios. A haver crítica, seja polida e dissimulada, não estão tempos de anátemas religiosos. Com os nomes dos outros pode-se bem, são populares, aguentam tudo, não estão preocupados com excomungos, e não são fundamentalistas a não ser, considerarem-se cada um mais bonito que o outro.

Hoje em dia, transportam residentes de curtíssima residência – nem sabem eles que os nossos bairros são aldeias – que procuram vistas finas nos miradouros da cidade. Tantos são, às vezes mais do que um para cada colina, a oferecerem ângulos diferentes. Lisboa é um caleidoscópico inesgotável.

Nesta disputa que é coisa pessoal de quererem transportar mais turistas hipnotizados pelo pitoresco dos trajectos, é o da Glória o mais entediante, oferecendo na maior parte do percurso uma visão trivial de muros decadentes. No entanto é o que mais gente transporta. Três milhões de almas por ano.

O da Bica é sempre a subir e tudo a direito. Começa dentro de um prédio, é o seu rés-do-chão, só que se move. Na sua subida é cruzado por pequenotas ruas e ruelas e povo do verdadeiro que durante o dia se atravessa nos buliços do quotidiano. À noite não descansa, com bares de alto a baixo e vice-versa nos dois lados, gente jovem de um lado para o outro, entrando e saindo dos locais de beber e seduzir. No Bairro da Bica já se percebe que se descansa pouco.

O do Lavra é o que oferece mais curvas e contracurvas rococós, querendo isto significar, que é o mais janota de vistas. É íngreme, bonito, misterioso, citadino, bucólico. Dos três é o único que dispõe de uma porta de saída- entrada, que limita o vazio. Ou seja, quem entra, continua do outro lado, no mesmo céu aberto de antes.

Adiantou-se tanto a conversa, a mais de meio caminho do discurso e não se apresentaram os protagonistas. É como as cerejas, já se sabe!

O tema são os Ascensores de Lisboa (o de Santa Justa não entra neste despique, está noutra classificação). Na opinião do escrevente, “funicular” é um nome que soa melhor, mas enfim, não se usa.

Já foram completamente amarelos, da mesma cor dos eléctricos – agora poucos os eléctricos, conquistados pelos transeuntes de estadia apressada, que querem ter essa experiência, única, irrepetível, de ver o que eles pensam ser uma Lisboa condensada no trajecto de eléctrico, o “28”. Alguns saem mais leves de “carteira” no final dessa aventura marcante nas suas vidas.

 Agora são escassamente amarelos e muito muito graffiti. Não importa se estão mais bonitos ou com um ar desleixado e pobre. É arte urbana, está de moda, é intocável, a alguns autarcas calha-lhes bem armarem-se de modernices e facilitismos que eles nem sabem justificar, mas pronto.   
               
Avilanados ou não, os turistas tiram-lhes fotografias na mesma. Os turistas tiram fotografias a tudo, principalmente a si mesmos, enquadrados com uma lata de conserva de choco, um poster gigante de um pastel de nata colossal, um nepalês merceeiro com a camisola da selecção da nação, todos os três nas suas costas, a fazerem um enquadramento, para mais tarde ou jamais recordarem.

Os nossos funiculares foram projectados e construídos pelo senhor Raoul Mesnier du Ponsard, que apesar do nome era português.

Uma curiosidade: as portas dos ascensores são em cancela pantográfica, que sendo o que sendo, de um nome assim não se livram, mesmo a pedir reparo.

E pronto, fica tudo ou quase nada dito. Se tiverem oportunidade, num dia de chuva intensa, que caia granizo, ou pelo contrário a temperatura passe dos quarenta o que já nada é raro de acontecer nos climas, aproveitem para dar uma voltinha num deles ou mesmo em todos. Só em dias adversos é que é ainda possível arranjar lugar, todos os outros estão preenchidos com as hordas de gente que tão bem contribui para o PIB, que nunca foi tão jeitoso e abastado.


Obrigado a eles, aos ascensores, os nossos foguetes para o paraíso.


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