terça-feira, 30 de maio de 2017

GÉMEOS





Dois seres iguais, diferentes em pequenos acabamentos. Observadas com método científico, as diferenças, milhares, conseguem-se estabelecer. Faz-se um levantamento topográfico do que os desiguala. São tantas que se poderia dizer de tantas quantas as de outros dois seres que em nada se possa dizer que são iguais.

No entanto, num primeiro olhar ou num olhar assíduo  num convívio amiudado, são sempre difíceis de distinguir, apesar de se poder dizer que alguma coisa de diferente têm, de tão parecidos que são. Qual o nome correcto a aplicar a cada um, sem engano, sem vacilar? 
Neste ponto afloram equívocos, embaraçando quem pronuncia e quem recebe o nome trocado.

Seria legitimo dizer que eles, de tão habituados ao engano, a afectação da troca do nome não afectaria nada. Mas não, é doloroso ser constantemente chamado pelo que não se é.  Um nome é uma identidade, errar na invocação é não reconhecer a impressão única de todos os que encheram de nomes próprios os assentos de nascimento.

Com tudo isto, não há ninguém tão singularmente igual a um semelhante que podia – de semelhante que é – ser o próprio, multiplicado em dois. Pensa um, pensa o outro; um sente, ou outro sente; têm premonições, intuições à distância, telepatias se existem, em círculo fechado de dois.

São assim os gémeos. É poético, alimenta sonhos e histórias. Para os mais positivos é um encher de peito, verem-se assim repetidos. Para os de género fleumático, quando em dias chuventos, lhes dá para olharem para baixo, é o contrário: olha-se para si que é o outro com a vontade de não o querer ver. Mas não pode, porque um dos dois ou os dois, está sempre presente em si.





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