segunda-feira, 15 de maio de 2017

GABINETE DAS CURIOSIDADES - CRÓNICA ÚLTIMA





Pintar é estar doente dos olhos.

Fica bem que as histórias tenham um fim e sigam canonicamente as regras ditadas de as bem contar. Não há ninguém que não goste de um bom ou mau desfecho, tem é que haver um, para se seguir em frente e não ficar preso ao passado. Estar colado a ontem é desencorajador e se não se despega, aumentam-se atrasos irrecuperáveis, o tempo a passar, que voa, e não se regressar ao presente, que só assim se pode desejar o futuro.

o Gabinete das curiosidades foi um tentativa volátil mas intencional de museu privado de objectos de vida. Não foi uma tentativa, foi um acontecimento e não termina porque os objectos se tenham desentendido - vivem há muito juntos -, têm naturalmente os seus enguiços, picos de irrazoabilidade, mas são uma família, por vezes italiana: muita gritaria mas amam-se todos.

O Gabinete termina porque tudo tem um fim e este espaço vai ser um novo templo de finos manjares, sabores dos céus, na terra, borbulhantes, que mais tarde se anunciará.

Eles, os objectos, gostaram concerteza desta estadia a que chamaram férias. O dono deu-lhe outro nome: residência artística. Para todos os pertences constituintes desta colecção privada, habituados a viverem em local mais recatado, foi agradável arejarem, ainda mais neste bairro de boémias e divertimentos fartos. O pintor, areja o suficiente, é um homem do mundo, um contemporâneo mas com um coração de antigamente.

Pendurados nas paredes ou espalhados por todo o sítio, desfrutaram das amplas janelas de vidro a deixarem ver o movimento das ruas, buliçosas, ferventes, dia e noite, neste bairro alto em Lisboa.

Eles a olharem pasmados para fora, os transeunte curiosos, a verem o que se apresenta dentro.

Nestas semanas conheceram-se vizinhos, e gostaram-se. Linguajou-se em muitos idiomas e invenções de novos, quando a comunicação se punha engasgada e era necessário seguir em frente para fazer-se entendido. Houve saudações calorosas, umas mais físicas do que outras, com abraços pelo meio, e beijos, ou tão simplesmente olhares mais abertos (esbugalhados seria feio), a dizerem desconcerto agradável.

O Gabinete seguiu todas as regras dos armazéns-sala das colecções com identidade: apresentou-se sem pretensões como o acervo do artista, um polígamo que ama a expressão plástica, o desenho, a pintura, mas também é visto pelas caladas das altas horas de noites sombrosas, de braço dado com as cenografias. Afinal são todas primas umas das outras, o que aumenta o seu pecadilho.

Falar com palavras deste acervo torna-se enfadonho , só vendo, indo, a apreciar ou não. Não se deve tirar conclusões precipitadas, ou juízos, é aparecer e depois dizer.

Uma coisa está certa, é um local muito bem frequentado, e para estimular uma visita, apresentam-se agora convenientemente os "ocupas" do local:

Temos os quadros, finalizados ou em esboço; as molduras vazias desalinhadas, espalhadas onde calhou estacionarem; postais com dizeres ocultos à vista, se calhar recados de amores esquecidos; catálogos de anteriores exposições, todas foram esperançosas; pernas de manequins de montras de loja, com candeeiros pendurados nelas, a fazer estilo; as formas de sapatos em madeira, molduras dos pés; igualmente, as dos chapéus, gaiolas da cabeça; os objectos em cera, ou parafina, que podem ser velas mas são partes de corpos humanos, objectos pagadores de promessas; as fotografias de parentes distantes e desconhecidos, de macacos até, fotografados em tons de sépia, sem se saber porque estão ali; cadernos, tantos, cheios de desenhos e ideias e perspectivas várias, e ânsias de projectos a realizar que nunca aconteceram; as gavetas dos caracteres de tipografia, já acabou,que serão preenchidos com cera de abelha pigmentada com as cores da paleta das cores; uma Vespa prenha que se diz "embaraçada" e por isso mesmo anda pouco e devagar, mas anda; mapas de regiões que já têm outros nomes e mapas de herbolários, que se penduravam nas escolas primárias, de antanho, ao lado da cruz e da fotografia de um senhor com ares sérios, que nos deixou medos a arrepiar a memória; alguns livros muitos especiais, e por fim, minudências em geral ( vamos ver se estas agora não vão amuar, ficar ofendidas por se sentirem diminuídas pelo desprezo da sua apresentação!).

Até tem uma última Ceia, em relevos metálicos, com moldura dourada a sobressair a importância desse repasto muito especial na história de alguns homens. O Gabinete é portanto e também um museu do simbólico, tolerante a todas ideias.

De todas estas coisas se faz este quase a chegar a ser um pequeno museu privado. Agora, em apoteose final, uma festança das rijas, a pôr epílogo, recebendo num formalismo inicial que logo se descomporá, quando as horas forem passando, todos mais soltos, os amigos e os que ainda não mas que serão de seguida, numa última visita a este espaço, já a pingar saudades, que os da casa são assim: de pendor nostálgico permanente.

Este Gabinete foi uma experiência e tanto! Se eram assim alguns salões intelectuais e artísticos do passado, entranhou o gosto que deu, quem sabe não se fará nova recriação, talvez até perene, para que não se carimbe data final a receber os amigos, e sempre que se passar se pare e se exercitem - na maior das normalidades democráticas - as artes da dialéctica, e alguma retórica, tudo isto no meio de valentes risadas, que é o que se leva da espuma dos dias




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