sábado, 15 de abril de 2017

FUMAR MATA






Eram em número de três, mas a simbologia dos números é um assunto tão distante neste episódio como chamar Pitágoras para a conversa. Acabados de sentar na mesa que quiseram escolher, o restaurante estava vazio por ser Páscoa e as pessoas na primeira oportunidade não vão trabalhar. Se for para comemorar uma efeméride religiosa melhor, todos muito religiosos, mais às sextas e segundas, se der ponte aprofunda a fé.

Sentaram-se e ainda nem pediram nada. O prato do dia é carne de porco à alentejana. O detalhe do prato está na frescura da ameijoa e nos pickles. Se forem honestos com estes dois ingredientes, só com muito azar é que as batatas devidamente fritas e secas não se apresentam aos quadrados crocantes. O porco é simples: temperado com pimentão, uma pitada de cominhos, pimenta preta e frito com um bom azeite, não deixa ficar mal o executante. Há quem ponha louro.

Nem água estava na mesa, somente pratos brancos menos mal, guardanapos de papel menos bem, um garfo, uma faca com serrilha barata, uma colher de sobremesa e um copo multi-funções.

Mesmo concentrado em desvendar um defeito ao prato, não podia deixar de ouvir a conversa.

- Matou a mulher só porque lhe recusou um cigarro.
- Para que é que estas pessoas fumam?
- Se não fumassem nada disto tinha acontecido.
- Se ela não fumasse, ele não a tinha morto.
- Mete-se um gajo em cada carga de trabalhos!
- Fds. Para elas….

Comeram a carne de porco. Com o café, um cheirinho de bagaço na chávena para disfarçarem sabe-se lá que desculpa.

Na mesa ao lado destes três, um livreiro almoça almoçando como todos os dias. Não se lhe ouve a conversa, se calhar literária, mas há muita mistificação. É educado no volume do que diz à sua companheira que pela forma como o olha e atenta ao que ele lhe diz, está compulsivamente apaixonada pelo livreiro.

Não se sabe a sua opinião sobre os malefícios do tabaco mas se é um livreiro que lê livros, será condescendente – há e houve grandes fumadores que apesar desse vício escrevem bem.

Afinal parece que não foi bem assim. As notícias da noite noticiam que ela recusou-lhe um cigarro e emitiu uma opinião que ofendeu a sua virilidade. Em defesa da sua honra ele empurrou-a inadvertidamente para uma ribanceira, onde ela bateu, também inadvertidamente, com a cabeça numa pedra que estava posta no caminho.

os comensais tinham razão, fumar mata.


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