domingo, 2 de abril de 2017

A CONTA DA ÁGUA




Aproxima-se o momento das plantas enclodirem em deslumbramentos de cor.

Na quantidade incontável dos parentes da natureza, as plantas são dos mais belos, mas não são vaidosas e por isso são ainda mais belas, pela tocante simplicidade com que se nos oferecem.

Humano e agarrado a pormenores que não me explico nem desculpo, estou preocupado com a conta da água, caríssima e injusta.

Sei que as plantas andam por aí a abrir-se de pétalas de ficarmos com a boca aberta, mas para mim o banho é um momento de eternidade, e como são poucos esses momentos e eu gosto, se os perco porque não paguei a conta, fico ainda mais efémero, que é uma deficiência que ninguém quer.

Enquanto puder pago a conta, para continuar a ter o prazer de ser eterno e assim ter espaço na minha cabeça para me lembrar de uma coisa muito mais importante do que a eternidade que são as flores florirem e serem escandalosamente belas. Eternas são elas.

As flores desabrocham na cidade, como e onde querem, salpicam-na de cores e estou de acordo com esse princípio seu.

Há dias que nos sentimos quase no campo, com odores perfumados inusuais e tudo.

Há também pessoas que nem reparam nas flores. Não são bem pessoas: andam por aí, têm os seus sucessos e mais nada.

Se pudesse enlouquecia o sistema informático da companhia das águas, para não ter contas tão altas e poder aproveitar como já disse os momentos de imortalidade que usufruo no duche.

São tantos os nomes das flores, que nunca os decoraremos. São nomes tão bonitos como elas. Nisso têm mais gosto que os homens.

Fazem bem em florir em Abril, mês de acontecimentos e esperanças.

Mesmo que a cidade não seja o campo e sejam menos a florescer em quantidade e exuberância em ruas que não nutrem simpatias por elas, alegram o ambiente e o perfume nem se menciona.

Que se dane a conta da água, mas a seguir cortam.

Porque é que a água não é livre como as plantas?

Não quero saber, vou para a rua ver as plantas.

Lá mais para o fim do mês ponho uma específica flor na lapela, que logo saberão e vamos cirandar os dois por aí de peito feito e esperanças no futuro.

Mas primeiro tomo um banho: a minha massagem de infinito.

Espero poder pagar este mês a conta incómoda da água.





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